Zerstören

3 Capítulo 3 - Amargo


Notas iniciais
Oi, gente, tudo bem com vocês? Percebi que não tinha deixado clara uma coisinha e vou esclarecer agora: Essa fanfic é uma realidade alternativa do PÓS HOGWARTS, ou seja, tudo o que a nossa amada JK nos contou sobre a Marauder's Era em Hogwarts aconteceu: a amizade da Lily com o Severus, Mapa do Maroto, o episódio da cueca do Snape perto do lago em 76, James e Lily monitores-chefes e tudo o mais. O que eu "alterei" foram os acontecimentos pós-Hogwarts. Ok? :) Bem, agora, o capítulo:

Capítulo 3 — Amargo

[Terça-feira, 30 de setembro de 1980, 14h48]

A última coisa que ele se lembrava de ter visto fora um lampejo vermelho proveniente da varinha de Avery na direção de Lily. Lembrava-se de ter gritado “Protego!” ao mesmo tempo em que se jogava em cima da namorada. Também podia se lembrar de ter ouvido a voz dela gritar seu nome.

E então, tudo ficou escuro. Somente sete dias depois, seus olhos se abriram novamente.

Seu primeiro pensamento foi Lily. Será que ela ficara bem? O que havia acontecido depois que ele perdera os sentidos?

Estava sem os óculos e tudo ao seu redor estava consideravelmente turvo, mas pôde identificar que estava sozinho em um quarto branco de hospital. Sentiu dores por todo o corpo, especialmente em seu peito, onde provavelmente havia sido atingido pelo feitiço.

James sentou-se na cama e imediatamente arrancou a agulha que estava fincada em seu antebraço esquerdo, unida a um tubo fino de plástico que transportava um líquido incolor proveniente de uma bolsa do mesmo material, suspensa ao lado de sua cama. Presumiu que estivesse recebendo uma solução glicosada para que pudesse manter-se nutrido enquanto estivesse naquele estado letárgico. Encontrou seus óculos na mesa de cabeceira da cama e os colocou no mesmo instante em que a porta do quarto se abriu e uma medibruxa baixinha entrou.

— O senhor acordou, senhor Potter! – ela exclamou, surpresa. – Não se mexa, por favor, vou chamar sua família!

A mulher saiu do quarto apressadamente. James tentou sair da cama, mas sentiu suas pernas fraquejarem assim que se apoiou nelas. Quanto tempo estivera desacordado?

— James! – chamou a Sra. Potter, entrando no quarto de forma urgente.

— Prongs! – Sirius surgiu logo atrás de sua mãe, com uma expressão que oscilava entre preocupação e alívio.

Inconscientemente, James esperou que Lily entrasse logo depois de Sirius, chamando-o da mesma maneira. Mas ela não veio. E nem viria.

— James, você está bem? – Dorea Potter perguntou, contendo-se para não chorar.

— Mas o que está fazendo? – Sirius correu segurá-lo ao perceber que o amigo estava tentando descer do leito hospitalar.

Sirius o empurrou de volta para a cama, forçando-o a se deitar. James não queria voltar àquela posição, mas estava confuso demais para conseguir formular qualquer frase em protesto. A medibruxa retornou ao quarto e, com a ajuda da varinha, recolocou a agulha de volta à veia em seu antebraço. James respirou fundo, impaciente.

— Quanto tempo eu estou aqui? – foi sua primeira pergunta e sua voz estava falha.

— Hoje completa uma semana. – respondeu Sirius.

— E o que aconteceu depois que eu apaguei? – James continuou. – Alguém se machucou? Perdemos alguém? Onde está Lily?

— Senhor, se acalme.

James finalmente se deu conta de que a medibruxa estava segurando-o pelos ombros, obrigando-o a permanecer na cama. A contragosto, ele se aquietou e virou a cabeça para Sirius, aguardando uma resposta.

— Não, mais ninguém se machucou. – Sirius começou. No entanto, James percebeu que ele não estava à vontade, havia algo que certamente o incomodava. – Bom, depois que você foi estuporado por Avery, Lily ficou furiosa. Eu não vi muito bem porque estava ocupado com dois idiotas, acho que eram Goyle e Mulciber, mas não tenho certeza. De repente eles desaparataram e, quando eu olhei para trás para entender o por quê, eu vi você no chão e Lily lançando um feitiço em Avery, um feitiço que eu nunca vi igual... – Sirius pareceu perturbado com a lembrança. James não conseguia piscar enquanto esperava pela continuação. – Talvez fosse uma maldição, não faço ideia, eu nunca tinha visto algo do tipo. Parecia coisa das Artes das Trevas. Vários cortes se abriram por todo o corpo de Avery e ele começou a sangrar muito. Todos os outros Comensais sumiram quando perceberam o que tinha acontecido e o deixaram para trás.

— Ele morreu?

— Não. – Sirius respondeu rapidamente. – Mas Lily queria que ele morresse, eu acho. Ela não deixou nenhum de nós chegar perto. Ele estava agonizando no chão, pelo jeito que se contorcia. Foi só quando Moody chegou que ela voltou a si. Moody estancou os cortes com um feitiço e levou Avery. Agora ele está preso, esperando para ser julgado.

Mas James não queria saber sobre Avery.

— Sirius, onde está a Lily?

— James, por favor, se acalme. – Dorea voltou a falar, aflita. Virou-se para a medibruxa e acrescentou: – Amy, poderia nos deixar a sós por um instante?

A medibruxa Amy engoliu em seco e obedeceu à sra. Potter. Mesmo estando em uma idade um tanto avançada, Dorea ainda esbanjava a imponência de sempre. Mas aquele pedido deixou James ainda mais apreensivo. Imaginou inúmeras possibilidades sobre o que poderia ter acontecido à Lily, mas nenhuma se aproximou da verdade.

Onde está Lily? – James repetiu a pergunta, assumindo uma expressão sôfrega.

Dorea cruzou os braços e, suspirando, virou-se para a janela, demonstrando que não iria responder. Foi Sirius quem lhe deu a notícia, num tom de desculpas:

— Ela foi embora há quatro dias, James. E ninguém sabe para onde.

—--

[Terça-feira, 26 de outubro de 1982, 07h58]

A última vez em que James estivera no Hospital St. Mungus fora naquela terça-feira de 1980, quando acordara após o fatídico duelo contra aqueles cinco Comensais. Ele nunca mais visitara o local, mesmo quando alguns colegas do Quartel ou da Ordem precisaram ficar internados ali.

Era simplesmente muito mais forte do que ele. A partir do momento em que adquirira consciência de que ela realmente havia fugido, James passou a evitar tudo o que o fazia lembrar-se tanto dela, quanto do dia em que recebera aquela notícia de Sirius. Para tal, ele removeu todas as coisas dela de seu apartamento e não voltou a frequentar certos lugares. Como o Hospital St. Mungus.

No entanto, o destino parecia estar determinado a fazê-lo reviver todas aquelas lembranças. Naquela manhã, James foi surpreendido por uma coruja ansiosa trazendo uma carta do mencionado hospital, informando-o de que sua mãe fora levada para lá por um elfo doméstico durante a madrugada.

E então, ele compreendeu que era hora de superar mais uma barreira.

Pediu a Sirius para que assumisse suas funções no Quartel e aparatou no banheiro da estação de metrô mais próxima da velha loja sob a placa “Purge and Dowse, Ltd.”. Sem hesitar, entrou no hospital, falou brevemente com a bruxa atrás da mesa da recepção e foi encaminhado para o segundo andar.

— James! – Dorea exclamou quando o filho entrou no quarto.

James se aproximou do leito e olhou para a mãe. As rugas ao lado de seus olhos negros se intensificaram quando ela lhe sorriu. Ela tomou a mão do filho entre as suas.

— Como a senhora está se sentindo? – James perguntou.

— Estou bem. O susto já passou, foi só uma queda súbita de pressão. – ela apertou sua mão. – Obrigada por ter vindo, James, mas não precisava ter se incomodado. Eu sei o quanto você evita este lugar.

James não disse nada, apenas acariciou a mão de Dorea e evitou olhá-la nos olhos. Não queria dar continuidade àquele assunto.

— E como você está? – ela indagou, séria.

— Bem.

Nenhum dos dois falou durante algum tempo. James continuou com o olhar baixo e seus pensamentos passaram a alternar entre a saúde da mãe e seus próprios problemas pessoais. A Sra. Potter aproveitou o silêncio para analisá-lo e decifrar algumas pistas que os olhos do filho transpareciam.

— Bom, já vi que você não vai me contar. – Dorea começou, num tom firme. – Pois então fique sabendo que as novidades do Ministério já chegaram até mim. – ela se ajeitou na cama para poder olhá-lo melhor. James tentou soltar sua mão para se afastar, mas ela a segurou. – James. Fale comigo.

Evidentemente, James não a obedeceu. Não somente porque não gostava de falar do assunto, mas também porque acreditava que não existissem palavras para expressar o que sentia. Principalmente quando se via compelido a fazê-lo exatamente no mesmo local onde recebera aquela notícia.

— Vocês conversaram? – Dorea perguntou.

— Pouco.

A Sra. Potter fez questão de demonstrar sua insatisfação diante da resposta simplista, balançando a cabeça negativamente.

— E ela contou onde esteve esse tempo todo?

James teve vontade de simplesmente dar meia volta e sair do quarto. Sua mãe sabia muito bem o quanto estar ali já era algo extremamente difícil para ele, bem como sabia que ele nunca falava sobre ela, portanto James não conseguia compreender o por quê daquela insistência.

— Eu não perguntei. – respondeu, por fim.

Dorea aparentemente já esperava ouvir aquilo. Soltou a mão do filho e deixou que ele se afastasse, enquanto ponderava em silêncio.

— James, querido, eu estive pensando... – a voz de Dorea voltou a soar, baixa. – Isso não é justo com você. Moody nunca foi exemplo de sanidade e todos sabem disso. – ela fez uma pausa breve. – Filho, olhe para mim. – ela pediu no mesmo tom que usava para proferir ordens. James levantou os olhos lentamente para encarar a mãe. – Ultimamente, estive me lembrando de quando você era mais novo... Como você era apaixonado por quadribol, você se lembra?

James confirmou com um aceno. Dorea parecia perdida em lembranças, seu olhar era sonhador e ela sorria sozinha para as memórias que surgiam dentro de sua cabeça. Fazia muito tempo que James não a achava tão bonita.

— Mas o mundo estava em guerra quando você se formou em Hogwarts e então você preferiu deixar de lado o seu sonho de se tornar um jogador profissional, mesmo com o convite dos Wigtown Wanderers. – ela respirou pesarosamente. – Eu demorei a aceitar, você deve se lembrar. Afinal, escolher ser auror naquela época era quase o mesmo que cometer suicídio, nenhuma mãe gostaria de ver um filho se arriscando daquela forma.

— Mãe...

— Mas foi uma decisão muito nobre, James, e eu sempre terei orgulho de você por tê-la tomado, principalmente porque você, como auror, foi um dos maiores responsáveis pelo restabelecimento da paz no mundo bruxo. Tenho certeza de que seu pai também sentiria o mesmo. E se você tivesse optado por ter sido artilheiro dos Wigtown Wanderers, talvez Você-Sabe-Quem tivesse conseguido o que pretendia. Então eu sei que você escolheu a profissão certa, mas...

Dorea se interrompeu por um momento, como se estivesse escolhendo minuciosamente as palavras para continuar.

— Mas eu não vejo felicidade em você, James. Pelo contrário. – ela completou franzindo as sobrancelhas, enquanto lançava outro olhar penetrante para o filho. – E agora a guerra acabou, você não precisa mais ser auror, você já fez sua parte-

— Mãe, não é assim que as coisas funcionam.

— Então como é que elas funcionam? – Dorea cruzou os braços, contrariada. – James, você ainda é jovem, com certeza ainda dá tempo para tentar uma carreira no quadribol! Seu pai era amigo daquele empresário, Arnold Spinnet, se você quiser eu posso conversar com ele-

— Eu estou bem onde estou, mãe, obrigado. – James resolveu finalizar o assunto.

— Não, você não está! – a Sra. Potter decididamente perdera a paciência. – Por Merlin, James! Você é amargo e infeliz, isso é tão óbvio! E nunca vai melhorar tendo que encontrar a Lily todos os dias!

Para James, a pronúncia daquele nome possuía o mesmo ruído de uma taça de cristal se estilhaçando em mil pedaços. O mesmo som que uma unha produzia ao arranhar uma lousa. Ele lhe causava arrepios.

— Eu tenho que ir trabalhar. – James decidiu subitamente. – Volto mais tarde para jantar com a senhora.

Dorea bufou.

— Mais tarde eu não estarei mais aqui. Eu já estou bem e provavelmente serei liberada em breve, mas você pode vir me visitar em casa, de vez em quando. Juro que não mataria.

James sempre era cobrado por sua mãe quanto à frequência de suas visitas e tinha consciência de que merecia tal cobrança. Mas ele não pretendia mudar a regularidade com a qual a visitava, uma vez que a Sra. Potter fazia questão de sempre tocar em assuntos muito pessoais. Portanto, James só se sentia preparado para enfrentar as imponentes insistências da mãe uma ou duas vezes por mês.

E naquele mês, ele ainda não o havia feito nenhuma vez.

— Estarei lá. – ele disse, antes de sair do quarto.

—--

Durante os próximos dias daquela semana, Lily Evans foi tratada como alguém completamente invisível. Era como se ela nunca tivesse voltado, nenhum de seus colegas lhe dirigia a palavra ou cogitava pedir-lhe ajuda em alguma tarefa. James se fechou em sua sala e comandou o Quartel por meio de aviõezinhos de papel que continham ordens e instruções.

Nos últimos dias, Alice e Frank estavam ocupados com uma missão fora da cidade e só precisaram comparecer ao Ministério na quarta-feira. Frank foi direto para a sala de James, mas Alice resolveu esperá-lo na sala do Quartel, a fim de adiantar o relatório diário exigido por Moody.

Alice já havia sido alertada por Marlene de que Lily Evans passava o dia inteiro sentada no canto do Quartel, esperando ser nomeada para uma tarefa que nunca viria. Quando Alice chegou, encontrou-a lendo tranquilamente um exemplar do Profeta Diário. Assim como já havia decidido previamente, Alice ignorou-a, sentou-se à mesa circular localizada no centro da sala e começou a escrever seu relatório, sem levantar os olhos do pergaminho. Às seis horas em ponto, Lily Evans fechou o jornal, guardou-o no bolso interno de seu sobretudo à moda trouxa e deixou a sala.

A voz de Lily Evans só voltou a ser ouvida na quinta-feira. Era cedo pela manhã e alguns aurores estavam a postos no Quartel, esperando ordens. Mas em vez dos – agora habituais – aviõezinhos de papel entrarem voando por conta própria pela porta, foi James quem veio, acompanhado por Moody.

—--

[Quinta-feira, 28 de outubro de 1982, 08h57]

James entrou na sala do Quartel e encontrou Sirius, Marlene, Benjamin Fenwick e o jovem Kingsley Shacklebolt conversando baixinho. Sentada solitariamente na extremidade da sala, lendo seu inseparável jornal, também estava ela, que sequer tirou os olhos da leitura quando ele e Moody entraram.

— Marlene, preciso saber de quanto tempo você precisa para concluir a investigação na Borgin & Burkes. – James foi direto ao ponto, afinal, queria voltar para sua sala o mais rápido possível.

— Bom dia para você também, James. – Marlene o cumprimentou, abrindo um sorriso falso. – Sinto muito, mas eu não posso te dar uma previsão. Borgin não tem ido lá todos os dias e seus funcionários são mais desinformados do que uma porta.

Naturalmente, aquela resposta não foi satisfatória. James deixou sua opinião clara ao cruzar os braços e lançar a ela um olhar muito sério. Moody apenas observou, como se estivesse avaliando a postura do Auror Capitão diante dos demais aurores.

— Mais do que duas semanas?

— Provavelmente.

Depois, virou-se para Sirius.

— Quando Dedalus Diggle volta das férias?

Sirius suspirou. James sabia que o amigo simplesmente detestava quando era obrigado a lhe servir de secretário.

— Ele saiu de férias na semana passada, James. – contou, num tom de falsa paciência. – Ou seja, ele só voltará daqui três semanas, pelo menos.

— Qual o problema? – Fenwick quis saber, seus olhos azuis alternando entre James e Moody.

— Peter estava organizando o estoque de poções. – James explicou. – E veio me comunicar de que não temos tantas Poções Polissuco prontas, o que temos armazenado provavelmente vai acabar em dez dias, se Marlene continuar bebendo um litro dela por dia.

— Por que você está falando como se fosse minha culpa? – Marlene se irritou. – É você quem quer que eu fique oito horas por dia desfilando pela Travessa do Tranco sob a identidade de Noah Nott!

— E você continuará fazendo isso. – James afirmou e, em seguida, virou-se para Moody. – Precisamos convocar Diggle imediatamente. Precisamos dele aqui amanhã. Shacklebolt, envie uma coruja para ele.

— James, você não pode fazer isso. – Marlene deu um passo à frente. – Dedalus estava sem tirar férias há dois anos!

— Sim, Marlene, eu posso.

Todos olharam para Moody, a fim de se certificarem da veracidade daquela afirmação. Ele confirmou com um aceno.

— Se quiserem, eu posso tentar preparar. – Fenwick se ofereceu, solícito.

James o olhou de modo desconfiado e nem se deu o trabalho de responder.

— E não tem mais ninguém que saiba a receita da Poção Polissuco? – Shacklebolt perguntou. – Só Diggle?

— A receita qualquer livro pode dar. – James rebateu, mal-humorado. – Mas dentre os aurores, Diggle é o único que consegue preparar poções num nível aceitável.

Uma risadinha pôde ser ouvida do outro lado da sala. Era ela. A mulher se levantou de sua cadeira, dobrou seu jornal e se virou para eles, sob o olhar surpreso de todos os presentes.

— Eu não sei se vocês se lembram, mas a Poção Polissuco demora aproximadamente um mês para ficar pronta. – ela começou, com um voz muito leve. – Se vocês só têm o suficiente para dez dias e começarem a preparar um novo caldeirão amanhã, de qualquer forma, vai faltar poção por vinte dias, assim que os primeiros dez acabarem. Isso indica duas coisas: a primeira é que existe uma grande falha na supervisão dos estoques. A segunda é que vocês precisam de uma nova alternativa.

Assim que ela terminou de falar, James perguntou-se se havia ouvido direito. Como ela se atrevia a ser inconveniente daquela forma? O que ela pretendia, impressionar Moody? Diminuir sua autoridade? E o pior de tudo foi que, enquanto ela proferia aquelas palavras carregadas de desprezo, sua expressão não se alterou: manteve-se insossa, como a de habitual.

Naquele momento, todos encaravam James e aguardavam sua réplica, apreensivos. Até mesmo ela o assistia.

— Evans tem toda a razão. – foi Moody quem falou, por fim. – Potter, quero saber por que Pettigrew só conferiu o estoque da Poção Polissuco hoje. O trabalho dele não é exatamente esse? O que ele esteve fazendo todos os outros dias?

— Moody. – Sirius o chamou, cauteloso. – Peter trabalha melhor quando tem alguém sempre cobrando e-

— Então por que você não ficou cobrando ele, Potter? – Moody vociferou e seu olho-tonto girou, transtornado. – Se Pettigrew precisa de uma babá para se lembrar de cumprir com suas obrigações, então mande-o embora!

James não demonstrou alteração alguma.

— Vou conversar com Peter mais tarde. – ele disse, fazendo o possível para transparecer serenidade. – Mas agora precisamos convocar Diggle.

Não. – Moody abriu caminho entre os aurores e caminhou na direção da mulher do outro lado do aposento, parada na mesma posição de antes. – Evans, o que você sugeriria?

James sentiu-se intimamente insultado ao ter sua sugestão descartada daquela forma. Sobretudo porque tal descarte fora feito para que ela tomasse o controle. E, pelos semblantes dos demais aurores, todos pareciam concordar com ele.

Os olhos verdes da mulher ficaram inquietos e James sabia que aquilo indicava que ela estava raciocinando. Involuntariamente, lembrou-se de outras ocasiões em que ela assumira aquela mesma expressão e ele sabia que, sempre que ela se aprofundava em pensamentos daquela forma, uma grande ideia surgiria.

E, daquela vez, não foi diferente.

— Eu sugeriria a Poção do Rendimento. Demora apenas uma semana para ficar pronta e os ingredientes são fáceis de encontrar.

— É uma poção muito complexa. – Moody lembrou.

— Mas é a única maneira para que a Poção Polissuco dure até que o próximo caldeirão fique pronto. – ela concluiu e seu tom era extremamente profissional.

— Você já a preparou? – Fenwick perguntou, um tanto admirado.

— Algumas vezes. – ela respondeu, sem emoção.

Moody voltou-se para James. Até aquele momento, James sequer tinha conhecimento da existência daquela poção. Ele nunca dera atenção às aulas de Poções nos tempos de Hogwarts, enquanto ela era conhecida por ser a melhor de seu ano. Antes de abandonar o Quartel em 1980, era ela quem cuidava das poções do departamento e Diggle apenas a auxiliava. E ter se lembrado de todos aqueles fatos de uma só vez fez com que James ficasse ainda mais contrariado.

— Evans, quero que você vá para a Sala de Preparos imediatamente. – Moody declarou e seu tom não permitia contestações.

Após proferir tal ordem, Moody saiu do Quartel sem dizer mais nada. Marlene cochichou algo para Sirius e James não conseguiu ouvir, embora imaginasse sobre o quê seria. Benjamin Fenwick olhava para ela, analisando-a com interesse, enquanto Kingsley Shacklebolt parecia curioso para saber o que James tinha para dizer.

Obedecendo às ordens de Moody, ela atravessou a sala e também saiu após cerrar a porta.

No entanto, James não confiava nela o suficiente para deixá-la preparar poções para outros aurores, sem que ninguém de confiança estivesse ali para monitorá-la. Marlene já estava trabalhando na investigação da Borgin & Burkes, Sirius e Remus eram os responsáveis pelas rondas nos arredores do Beco Diagonal e Shacklebolt era jovem e impressionável demais para ser encarregado de tal tarefa.

— Fenwick, você vai para a Sala de Preparos com ela. Quero um relatório do preparo até às cinco na minha mesa. – James ordenou, antes de dar meia volta e seguir os mesmos passos de Moody.

—--

[Sexta-feira, 29 de outubro de 1982, 22h27]

Era simplesmente constrangedor estar em cima de um palco diante de centenas de pessoas. James só conseguia pensar naquele adjetivo para definir a situação na qual se encontrava, enquanto tentava prestar atenção no discurso de Millicent Bagnold, a ministra da magia.

Avistou Emmeline em uma das mesas próximas ao palco e reparou que ela tinha lágrimas nos olhos. Muitas pessoas sorriam para ele. James sentiu uma vontade imensa de fumar e detestou ter de aguardar a velha Bagnold terminar de ler seu discurso monótono.

— Então, tenho a alegria de anunciar que o auror James Potter será condecorado com a Ordem de Merlin, Primeira Classe, por sua bravura na Batalha Final de Godric’s Hollow contra o Lorde das Trevas e seus seguidores. – a ministra fez uma pausa para umedecer os lábios enrugados. – Obrigada por tudo, sr. Potter.

Uma onda de aplausos ecoou pelo salão. Todos se levantaram para aplaudi-lo e o fizeram por muito tempo. Tempo demais, na opinião de James. Ele cumprimentou a ministra com um aperto de mão e recebeu dela um pergaminho enrolado. Pelo canto do olho, reparou que os fotógrafos disparavam flashes sem parar.

Aliviado pelo momento constrangedor ter chegado ao fim, James virou-se e andou calmamente até as escadas do palco ao mesmo tempo em que a ministra voltava a falar, fazendo com que a aclamação diminuísse gradativamente. Ainda sentindo muitos olhares sobre ele, James caminhou até a mesa na qual todos os aurores homenageados estavam acomodados e se sentou entre Sirius e Remus, que também já haviam recebido o mesmo título, alguns minutos antes.

— Por último, gostaria de chamar o auror Alastor Moody ao palco para receber os merecidos cumprimentos por sua dedicação ao Ministério. – a voz de Bagnold rompeu o salão novamente. Moody, o último auror que faltava para que a cerimônia se encerrasse, colocou-se de pé e, mancando como sempre, dirigiu-se ao palco.

A ministra praticamente repetiu o que havia dito anteriormente para os demais aurores, porém, antes de finalmente conceder a Moody todas as condecorações, ela leu uma lista enorme com os nomes de todos os trouxas e bruxos nascidos-trouxas que haviam sido assassinados, bem como uma lista de todos os aurores que haviam morrido durante a guerra. Os aplausos ininterruptos abafaram as fungadas das pessoas que haviam se emocionado com o discurso; Marlene desmanchou-se em lágrimas quando o nome de Dorcas Meadowes foi mencionado.

— ...Portanto tenho a alegria de anunciar que o auror Alastor Moody será condecorado com a Ordem de Merlin, Primeira Classe, por sua bravura na Batalha Final de Godric’s Hollow. – Bagnold entregou a ele o mesmo pergaminho que entregara aos outros e, antes que todos pudessem irromper em mais aplausos, ela continuou: — Antes de finalizar a cerimônia, eu também gostaria de agradecer mais uma vez, em nome da Suprema Corte dos Bruxos e de toda a comunidade bruxa da Grã-Bretanha, aos aurores Alastor Moody, James Potter, Sirius Black, Remus Lupin, Alice e Frank Longbottom, Sturgis Podmore, Benjamin Fenwick, Marlene McKinnon e Hestia Jones por tudo o que fizeram por nós ao lutarem na batalha do dia trinta e um de outubro do ano passado. Muito obrigada!

Uma nova salva de palmas explodiu das mãos dos espectadores. Enquanto aplaudiam, Moody se inclinou para Bagnold e sussurrou algo em seu ouvido. James estranhou a atitude, afinal, antes de subirem no palco, foram orientados pela organizadora do evento a ficarem imóveis ao lado da ministra da magia durante todo o tempo em que estivessem recebendo suas homenagens.

Enquanto compreendia o cochicho de Moody, Bagnold repetia movimentos afirmativos com a cabeça. Quando Moody finalmente terminou, virou-se para o público, fez uma mesura em agradecimento e desceu do palco.

Bagnold pigarreou de modo a exigir a atenção de todos.

— Antes de realmente encerrarmos esta cerimônia, gostaria de chamar a auror Lily Evans ao palco para receber os cumprimentos por todo o serviço prestado até setembro de 1980 e por ter sido a principal responsável pela prisão de Marius Avery, na mesma época.

No lugar dos esperados aplausos, um burburinho se levantou. A maioria dos bruxos presentes passou a esgueirar o pescoço, procurando por ela com os olhos. Mas James manteve-se imóvel. Ficara inconformado demais para conseguir se mexer, embora sua vontade fosse a de se levantar e ir embora. Afinal, tal homenagem não fazia sentido! Por mais que ela tivesse sido totalmente imprescindível quando fizera parte da Ordem da Fênix, sua atitude de abandono fora grave o suficiente para anular todas as suas contribuições como auror. Não era possível que o Ministério da Magia ousasse prestar uma homenagem a ela, depois de tudo!

— Essa daí não tinha se unido a Você-Sabe-Quem? – James pôde ouvir alguém murmurar, numa mesa atrás dele.

— Não se sabe, mas já ouvi dizer que ela tinha ido se esconder na casa de algum parente trouxa. Sabe, ela não é sangue-puro. – respondeu outro alguém.

Moody havia parado ao lado das escadas do palco, como se estivesse esperando por ela. Por um tempo, nada aconteceu e James começou a cogitar a possibilidade de que, tomada pelo mínimo de bom senso, ela não fosse descarada o suficiente para se dirigir ao palco.

Todavia, poucos minutos depois, lá estava ela. James não pôde evitar olhá-la, afinal, estava sentado numa mesa muito próxima ao palco. Quando seus olhos a encontraram, ela estava de costas para ele e, aparentemente, discutia com Moody ao pé da escada. Tal discussão chamou até mesmo a atenção da ministra, que pacientemente a aguardava, tamborilando os dedos na superfície do púlpito.

— Eu não sei quem é pior, ela ou Moody. – Alice comentou para os amigos, completamente perplexa, assistindo ao chefe empurrar a mulher escada acima.

E então, ela surgiu no campo de visão de todos os convidados do salão. Sob as luzes do palco, James pôde reparar que ela trajava um vestido preto e longo, muito conhecido. Havia sido ele quem lhe dera de presente certa vez, quatro anos antes. Curioso que ela ainda o tivesse. James precisava urgentemente de um cigarro.

A ministra saudou-a com um aperto de mão. Tendo percebido que a situação estava extremamente embaraçosa, Bagnold não voltou a falar com a varinha apontada para sua garganta. Apenas entregou-lhe um pergaminho, sorrindo. E, exceto por Moody, ninguém mais a aplaudiu.

Finalmente a cerimônia chegava ao seu fim.

—--

[Sexta-feira, 29 de outubro de 1982, 23h34]

Após as honrarias, uma banda tomou conta do palco e o centro do salão tornou-se uma pista de dança. O clima na mesa dos aurores homenageados havia mudado drasticamente com o desfecho da cerimônia, mas à medida em que o firewhisky foi sendo servido, o humor de cada um foi melhorando.

Com exceção de James.

Pouco tempo depois das outorgas das condecorações, Emmeline abandonou sua mesa – a qual estava ocupada por funcionários de seu departamento, o de Execução das Leis da Magia – e veio se sentar à mesa na qual o namorado e os amigos estavam.

Alice e Frank foram os primeiros a deixarem a mesa para dançar. Poucos minutos depois, Benjamin Fenwick também foi puxado por sua namorada, uma mulher loira que trabalhava no Departamento de Transportes Mágicos. Após a terceira dose de firewhisky, Sirius começou a insistir para que Marlene dançasse com ele e, somente para que ele calasse a boca e muito contrariada, ela aceitou.

Moody fora embora da festa logo que a cerimônia foi encerrada, assim como Peter, que ainda estava consideravelmente chateado com a bronca que levara de James no dia anterior por conta de sua desatenção para com o estoque de poções. Remus tentou puxar conversa com James e Emmeline, mas James tampouco correspondeu.

Quando Remus finalmente desistiu de manter uma conversa com James e resolveu convidar Hestia Jones para uma dança, Emmeline viu-se sozinha com o namorado à mesa.

— Não vai me tirar para dançar, James? – ela perguntou, abraçando seu braço e apoiando o queixo em seu ombro.

— Não.

Ela o soltou lentamente e o olhou enojada. Por que ele não fazia o mínimo possível para ser agradável? James bebeu mais um gole de seu firewhisky, olhando para algum ponto perdido na toalha da mesa.

Não? – Emmeline repetiu, indignada.

— Eu não danço, Emmeline. Você sabe.

Emmeline cruzou os braços e lançou um olhar frustrado para os casais dançando felizes, no centro do salão. Pôde ver Frank puxar Alice para um beijo apaixonado e se sentiu ainda pior. Ela sempre soube que James não era o homem mais romântico do mundo, mas aquela negligência estava longe de ser justificada por sua falta de romantismo. Era descaso.

— Você dança sim, James. – ela replicou, chateada. – Você vivia dançando nas festas na Sala Comunal!

James preferiu não responder, afinal, Emmeline sabia muito bem que as coisas haviam mudado muito desde aqueles momentos que ela mencionara. Não valia a pena prolongar a discussão. Como sempre, ela rapidamente se esqueceria e no dia seguinte ficaria tudo bem.

O fato era que, além de não estar disposto a dançar, James também não queria ter de atravessar o salão, pois sabia que, se o fizesse, seria abordado por muitas pessoas. Iriam querer lhe parabenizar pela Ordem de Merlin. Iriam perguntar sobre sua mãe. Iriam perguntar sobre como estavam as coisas no Quartel. Iriam perguntar por que haviam recontratado aquela mulher. Iriam querer bater-papo e aquilo seguramente era o que James menos queria naquela noite.

— James, que tal só uma música? – Emmeline insistiu mais uma vez. – E se for tão ruim assim, voltamos para cá-

— Não quero.

Emmeline se levantou bruscamente e virou-se para ele. James finalmente reparou que ela estava furiosa. E muito bem vestida também.

— Por que você é tão ruim? – foi o que ela perguntou, cerrando os punhos e direcionando-lhe um olhar fulminante.

James imaginou se aquela era uma pergunta retórica.

— Se você faz tanta questão de dançar, então por que não vai sozinha? – James devolveu-lhe outra pergunta retórica em resposta.

Atrás dela, James viu Sirius e Marlene caminharem na direção da mesa, discutindo. Mas Emmeline recuperou a atenção de James no instante seguinte.

— Eu não consigo entender por que você é assim comigo! – Emmeline desabafou, com a voz trêmula. – Eu não faço nada para merecer esse seu descaso, pelo contrário! Fico igual uma idiota tentando te agradar ou conseguir um minuto da sua atenção! – ela respirou fundo, a fim de diminuir o volume de sua voz. Uma senhora que passava havia parado para olhar. – Não aguento mais, de verdade! Eu realmente acho que não mereço essa sua amargura! Você é horrível!

Talvez Emmeline esperasse que James negasse tudo. Mas ele não tinha o quê negar. James tinha plena consciência de que ela estava certa e, com toda certeza, ela não merecia aquele tratamento.

Mas ele não conseguiu dizer-lhe qualquer coisa, algo em sua garganta se fechou e o impediu. Sentiu vontade fumar e de lhe pedir desculpas. Sirius e Marlene haviam parado de brigar e se entreolhavam, incertos se faria alguma diferença deixá-los a sós, uma vez que era tarde demais para fingir que não haviam ouvido o desabafo de Emmeline.

— Você não vai nem falar nada? – Emmeline quebrou o silêncio num tom bastante decepcionado.

James apenas terminou de beber o que restava de seu firewhisky. Tal atitude fez com que ela ficasse boquiaberta.

Tchau, James. – Emmeline puxou sua bolsa com veemência e se preparou para sair, como se estivesse dando a James uma última chance de reagir.

Mas ele permaneceu indiferente, incapaz de manifestar qualquer alteração. E então, ela passou por ele e tudo o que restou foi o aroma de seu perfume e o olhar acusador de Marlene.

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[Sábado, 30 de outubro de 1982, 00h00]

James finalmente conseguiu tomar coragem para se levantar da mesa e ir para o lado de fora do salão. No caminho, ele naturalmente foi abordado por algumas pessoas, mas não lhes ofereceu espaço para dar seguimento às suas respectivas conversas. E até que não havia sido difícil, no fim das contas.

Quando alcançou o pátio externo, James acendeu seu cigarro e fechou os olhos ao sentir aquela conhecida sensação de alívio. E a algazarra dentro de sua cabeça pareceu dissipar quando tragou o cigarro mais uma vez.

Foi então que aquele conhecido vestido negro passou ao seu lado. James piscou algumas vezes para ter certeza. Era ela, provavelmente indo embora da festa.

— Hey!

James mal acreditou ao ouvir sua própria voz. Ela se virou lentamente e o encarou sem entender. Ele deu alguns passos em sua direção e ela deu a mesma quantidade de passos para trás.

Olhar para ela o deixou com mais raiva ainda. Seu rosto sério o fez se lembrar do que havia acontecido no Quartel no dia anterior. Lembrou-se, também, da arrogância que ela exalou enquanto criticava sua liderança e de como fora cínica bancando a sabe-tudo, falando com imensa tranquilidade, como se não tivesse sido simplesmente a maior desertora que o Departamento de Aurores havia tido o desprazer de contratar.

— Você me deve explicações. – James não conseguiu mais se conter. Estava exausto e era tudo culpa dela.

— Não, eu não devo.

James jogou o cigarro longe e se aproximou dela. Daquela vez, ela não se esquivara, apenas endireitou a postura e o encarou do mesmo modo perigoso.

— Sim, você me deve! – ele afirmou, consideravelmente exaltado e, talvez, um pouco agressivo. – O que aconteceu com você? Por que você foi embora? Por que você simplesmente sumiu, sem nem me dizer nada? – James sentiu sua voz falhar ao reparar que a tonalidade hostil de suas palavras sequer parecia afetá-la. Como ela havia se tornado aquela pessoa tão inexpressiva? – Por que voltou?

Ela tremia de frio, mas James não sentiu pena. Não quis oferecer seu casaco.

— Você não pode me exigir nenhuma dessas respostas. Tenha uma boa noite. – ao terminar de dizer aquela frase, ela virou-lhe as costas e começou a andar para a zona de aparatação.

Mas James não ia ceder tão fácil. Já havia guardado muitas coisas nos últimos dois anos e finalmente conseguira tomar coragem para despejar-lhe tudo o que resguardara durante todo aquele tempo.

Sem pensar duas vezes, James a puxou pelo braço esquerdo e obrigou-a a encará-lo. Pôde ler em seus olhos o quanto ela abominara sua atitude; tentou empurrá-lo a fim de se libertar, mas foi inútil. James não a soltou.

— O que Moody está sabendo que ninguém mais sabe? Diga! Por que voltou? – James continuou com suas perguntas, inclinando-se para frente e fazendo-a inclinar-se para trás. – Você não tem ninguém no mundo bruxo, não tem família ou amigos, então por que resolveu voltar?

— James, me solte.

— Vou soltar quando você responder!

Ela mais uma vez tentou se libertar, sem sucesso.

— Ok, você quer saber? – ela finalmente se rendeu, murchou os ombros e franziu as sobrancelhas. – Eu fui embora porque eu quis! E eu não queria ter voltado! Eu não queria estar aqui agora e, se Moody não tivesse me encontrado, eu nunca teria voltado. Nunca! – ela praticamente cuspiu a última palavra e definitivamente havia ódio em seus olhos. – Eu não voltei por você ou por qualquer um de vocês, James. Eu tive que voltar!

James simplesmente perdeu as forças para continuar segurando-a. Ela recolheu seu braço e se endireitou, parecendo sentir-se aliviada, embora fosse impossível saber se ela era realmente capaz de sentir qualquer coisa.

— E por que você foi embora? – ele repetiu a pergunta, baixando o olhar. Ouviu-a ofegar e, pelo canto do olho, percebeu que ela esfregava o braço no local onde ele a havia segurado.

— Porque eu não queria morrer. – respondeu com frieza. – Depois do que fiz a Avery, Voldemort queria vingança. Bom, eu não espero que você consiga entender o que era ser uma nascida-trouxa numa guerra como aquela, mas deixa eu te contar: era horrível. Agora imagina ser a nascida-trouxa que desarmou e prendeu o Comensal preferido de Voldemort? – ela fez uma pausa. – Eles estavam atrás de mim, James, eu tive que ir!

Houve um silêncio durante o qual James absorveu tudo o que ela havia dito. Ele precisou daquele tempo. E ela esperou, sem ameaçar ir embora.

— Eu não acredito em você. – James concluiu, levantando os olhos novamente.

Não havia sentido naquela explicação. Por que ela não poderia tê-lo avisado de que partiria, se o motivo fosse realmente aquele? Por que não contara com a Ordem da Fênix para combater aquela suposta vingança de Voldemort? Por que se fora no meio da madrugada e sequer deixara uma carta para explicar seus motivos?

— Não posso fazer nada se não acredita em mim. Sinto muito. – ela interrompeu seus pensamentos.

— Seu argumento é ilógico. O que é que você está escondendo?

— Não estou escondendo nada, James! Você precisa começar a entender que nem tudo tem que ser do jeito que você quer. Aceite a verdade de uma vez! Vá viver a sua vida e me deixe em paz!

Mais uma vez, ela deu-lhe as costas e marchou na direção do fim do pátio, onde se encontrava a fronteira do encantamento anti-desaparatação. Mais uma vez, James avançou em sua direção para contê-la.

Mas antes que ele pudesse tocá-la novamente, ela sacou sua varinha e imediatamente voltou-se para ele, com o braço estendido e um olhar assolador. James pôde sentir a ponta de sua varinha ser pressionada contra o seu pescoço.

— Não se aproxime. – ela ordenou, andando para trás.

James estava pronto para confrontá-la e insistir que ela falasse a verdade, mas algo lhe chamou a atenção.

— Sua varinha era diferente. O que aconteceu com a outra?

Ela pareceu desacreditada com sua observação, como se amaldiçoasse a si mesma por ter permitido que ele reparasse. Abaixou o braço e balançou a cabeça, mas não disse nada. Após alguns instantes de silêncio, ela respirou fundo sonoramente e disse:

— Boa noite, James.

Pela última vez naquela noite, ela virou-se para ir embora.

— Lily.

James finalmente conseguira dizer seu nome. Sua pronúncia ainda soava como o mesmo ruído de uma taça de cristal se estilhaçando em mil pedaços e ainda lhe produzia a mesma sensação de ouvir uma unha arranhando uma lousa. Mas dizê-lo removera um enorme peso de suas costas.

Dizê-lo significava aceitar que aquela mulher era a mesma Lily que ele amara outrora.

— LILY!

Lily o olhou por cima do ombro, mas continuou seguindo em frente. Segundos depois, desaparatou.

—--

Naquele momento, deitada de costas em sua cama, Dorea Potter tomava uma decisão muito importante.

Notas finais
E aí, o que acharam? Imagino que tenham muitas perguntas... Prometo que nada está aí por acaso e tudo será devidamente explicado. Obrigada pelo retorno de vocês! ♥ Beijos, Carol Lair (@carollairr)