Zero
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Olhei para o teste que o professor me acabava de entregar, aquele número escrito a vermelho logo no cabeçalho até me deu vontade de rir, gastou tinta para escrever isto!? Por amor de deus… Se não fiz nada, bastava entrega-lo tal e qual como tinha recebido ou melhor, fazer uma bolinha e joga-lo no lixo.
- Menina Beckers! — Levantei a cabeça de cima da mala e olhei o professor de história que chamava por mim.
- Sim, Fofura? – A turma toda começou a gargalhada, com a resposta que lhe tinha dado. Mais uma vez ele olhou furioso para mim, levantei-me, agarrei na mochila, fiz uma bolinha de papel com a folha de teste e arremessei-a para o lixo. Levantei as mãos no ar e apontei para o rapaz a minha frente com cara de quem não gostou nada. Revirei os olhos e sai, indo para a salinha onde já passei mais tempo no que nas aulas, a sala do director.
Passei pelos corredores vazios e cheios de cacifos, pretos e verdes, de arrepiar. Sentei-me em frente a secretária onde normalmente costuma de estar a Martha, uma senhora já de idade que orienta recebe e organiza tudo o que provem do director. Gosto dela, dá me sempre dos seus fantásticos queques cobertos de chocolate.
- Holly… outra vez? – Perguntou triste, vindo do arquivo.
- É… Pelos vistos o professor de história não vai mesmo com a minha cara! – Sorri
- Oh querida… — suspirou – Tu tens que aprender a respeita-lo! O director já te espera… — Levantei-me e ela sorridente estendeu-me um dos seus maravilhosos bolos, pisquei-lhe o olho e entre na salinha do Christopher Franklin, o director.
- Como é Chris? – Perguntei sentando-me e dando uma trinca no bolo.
- De novo Beckers!? Mas isto é todo o santo dia? – Perguntou e estendi-lhe o queque para ele provar. – Holly… — Resmungou.
- Já sei que deves ter ai uma data deles escondidos! – Falei e ele sorriu, revirando os olhos.
- Eu não sei o que se passa, tu tens notas médias mas chegas a história é sempre a mesma coisa!
- Já lhe disse que o professor não gosta de mim…
- Não é so na aula dele que vens aqui parar! – Resmungou, tirando um queque de uma caixa. – Isto tem que acabar… Vais voltar para a aula, fazeres os possíveis e os impossíveis para não te meteres em mais confusão. – Suspirou saboreando o bolo – E se voltar a ver aqui, chamo a tua tia! – Ri-me.
- Ok… Boa sorte com isso! Bon apetit… — Levantei-me e fiz o caminho todo de volta até a sala de aulas. Sabia que amanhã lá estaria de novo para receber a mesma descasca e assim consecutivamente.
Bati a porta e entrei, os meus colegas encararam-me e voltaram a passar o que estava no quadro.
- Menina Beckers, estamos a corrigir o teste, era bom se começasse a copiar, já que não respondeu a uma única questão! – Falou o meu querido professor de história.
- Não é preciso… — Respondi sentando-me e senti os olhos todos postos em cima de mim. – Eu sei tudo!
- Ah, sabe!? – Perguntou com sorriso de ironia, aquele sorriso que dava vontade de enche-lo de porrada. – Então diga-me o que responderia a questão cinco?
- Não se importa? Precisei das folhas do seu teste para marcar cesto, se me pudesse por a questão, teria todo o prazer em satisfaze-lo! – Sorri ainda mais irónica que ele. Ficou furioso.
- Indique-me o que sabe sobre a Revolução Americana! – Perguntou desdenhoso.
- Pois bem… — Suspirei — Revolução Americana de 1776, teve suas raízes na assinatura do Tratado de Paris, que, em 1763, finalizou a Guerra dos Sete Anos. Ao final do conflito, o território do Canadá foi incorporado pela Inglaterra. Neste contexto, as treze colónias representadas por Massachusetts, Rhode Island, Connecticut, New Hampshire, Nova Jersey, Nova York, Pensilvânia, Delaware, Virgínia, Maryland, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia – Suspirei.
– Acho que são estes… Começaram a ter seguidos e crescentes conflitos com a metrópole inglesa, pois, devido aos enormes gastos com a guerra, a metrópole aumentou a exploração sobre essas áreas. Constituiu-se em batalhas desfechadas contra o domínio inglês. Movimento de ampla base popular, teve como principal motor a burguesia colonial e levou à proclamação, no dia 4 de julho de 1776, da independência das Treze Colónias — os Estados Unidos da América, primeiro país dotado de uma constituição política escrita. – Tambolirei com os dedos na mesa e cocei levemente o queixo.
- As ações militares entre ingleses e os colonos americanos começam em março de 1775. – Suspirei – Se não estou em erro… — Acrescentei
— No decorrer do conflito (Lexington, Concord e batalha de Bunker Hill), os representantes das colónias reuniram-se no segundo Congresso de Filadélfia e Thomas Jefferson, democrata de idéias avançadas, redigiu a Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, promulgada em 4 de julho de 1776, dando um passo irreversível. – Sorri olhando a cara de espanto de todos eles. – Acho que é tudo…alguma dúvida?
O toque deu o sinal. Segurei na minha mala e gesticulei um adeusinho para o fofo do meu professor que nem se mexia, fitando-me de boca aberta. Adoro deixar as pessoas com esta impressão.
Fui para o intervalo, procurar a minha única amiga no meio daquela espelunca, a Mickie. Tivemos que ser separadas, mudaram-nos de turma porque as duas juntas eram impossível de se aturar. Olhei em volta e vi-a a correr na minha direcção feito louca, parou ao pé de mim ofegante.
- Já me contaram… — Suspirou – Deste um baile ao bonzão! – A Mickie tratava o meu professor de história como o bonzão, o príncipe encantado ou até mesmo “Anjo pecaminoso”. O Rapaz pouco mais velho que nós, fazia furor.
- Como soubeste? – Perguntei sorrindo.
- A Kelly ia a conversar com o Mark, o namorado que é da minha turma… Diz-me, conta-me tudo! – Pulou satisfeita.
- Ele mandou-me ir ao Chris, de novo!
- Que lhe fizeste? – Bateu o pé no chão, ela sabia que eu aprontava sempre alguma.
- Tirei zero no teste e chamei-lhe de fofura! – Ri-me
- Deus…Estás louca! – Respondeu para logo a voz do Chris se entoar pelas colunas que tinha mandado instalar em toda a escola.
“Holly Beckers… Holly Beckers à sala do director… Holly Beckers…”
Revirei os olhos e lá fui eu, passando de novo pelos enormes corredores agora cheio de gente, quando cheguei ao pé da Martha ela fez sinal para entrar, sorri. Entrei sem bater.
- O que foi agora Chris? – Fiquei a olhar o professor de história e o director a encararem-me.
- Holly… — Suspirou – O professor Vazquez veio falar comigo sobre o que se passou na aula e sobre as tuas notas…
- Sim, imaginava que fosse isso… Também só sabe fazer queixinhas! – Revirei os olhos.
- Holly… Respeito!
- Ok…Ok… — Respondi sem interesse. – Que quer saber?
- Tu tiraste zero no teste…Não respondeste a uma única questão! – Olhou o teste todo amarrotado. Eu não acredito que este idiota se deu ao luxo de ir busca-lo ao lixo. – O que se passou?
- Bem… Não sabia responder!
- Mas respondeste a uma simples questão que para tua informação, valia mais de metade do valor, muito mais completo que muita gente! – O “Anjo pecaminoso” levantou-se — Christopher é sempre isto nas minhas aulas, ela sabe mas não faz!
- Isso é mentira! – Respondi defendendo-me –Tu é que só sabes foder-me o juízo!
- Holly, olha a linguagem! – Gritou o Chris.
- Com este tipo!? – Perguntei sarcástica – Nem vale a pena gastar o meu latim! Se for a ver bem as vezes que vi cá desde que o ano é tudo na aula dele e uma apenas na aula de educação física, por aquilo que nós sabemos – Pois, andei á pancada com o tipo por ele me apalpar o rabo, acabei aqui a pedir desculpas ao pobre coitado por quase lhe ter arrancado a mão fora.
- Tu não te empenhas, não te portas bem, levas qualquer um ao limite da paciência!
- Ignorante! – Quase que lhe cuspi na cara.
- Beckers! – O chris quando me chama assim é que já está mesmo chateado.
- Eu so quero saber, porque não fazes as coisas se as sabes fazer! – Falou o Vasquez. – Eu exijo falar com os pais dela! – Água fria correu por cima do meu corpo.
- Boa sorte ao tentares fazer uma ligação para o céu… — Respondi seca – Diz-lhes que a filha está bem! – Sai batendo com a porta do director. Acenei para a Martha e fui ter com a Mickie que me esperava cá fora. – Eu juro que um dia esmurro aquela carinha bonita!
- Que aconteceu? – Perguntou acompanhando-me.
- É um queixinhas de primeira e agora queria falar com os meus pais! Como se aquele atrasado não soubesse… — Bufei – Vou para a aula agora? Espera por mim a seguir, almoçamos e combinamos para logo à noite!
- Ok… Holly, não ligues mais a esse imbecil… — Abraçou-me
- Eu sei amiga! Mas ele não perde pela demora… — Fiz um sorriso malicioso.
- Ai deus! – Sorriu andando para a sala dela.
Senhor Vazquez… Prepare-se! Vai aprender a calar a boca…
Se conseguisse dava uma risada mesmo maliciosa, mas como estava a entrar para a aula de ciências não podia dar-me ao luxo de ir parar de novo ao Chris.
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