Yuuri Katsuki
1 Capítulo 01
Notas iniciais

Era mais um dia comum.
O céu estava limpo, o Sol se erguia lentamente, deixando um rastro avermelhado enquanto emergia, era possível ouvir o canto das gaivotas se misturando com os rangidas de madeiras que sempre faziam questão de deixar clara a velhice da nossa casa e sem contar com os múrmuros dos clientes. A medida que o tempo passava, esses barulhos só tendiam a aumentar mais, porém hoje, exclusivamente hoje, eles estavam mais altos que o normal. Pelo menos do que eu me lembrava ser “o normal”.
Um dos pontos positivos que notei depois que voltei a morar aqui era, obviamente, a falta de um despertador. É um tanto ridículo, mas acordar com todos esses sons familiares ao invés de um toque repetitivo era reconfortante e uma das coisas que mais senti falta enquanto estive em Detroit. Talvez esse “trauma” também se deva ao fato de que Phichit não tinha um gosto particularmente bom para toques de qualquer aparelho que ele, ou sua família, tivessem. Mas prefiro não pensar muito sobre o assunto.
Quando o som das gaivotas se torna insuportável me levanto. Visto-me e pego minha mochila, ainda não consegui voltar para a velha rotina do “Banhe-se antes da escola Yuri!”, mesmo que não seja algo que deva me gabar, a falta de treinos nesses últimos anos acabou me tornando um grande preguiçoso. Acho que como uma forma de consolo gosto de pensar que qualquer dia desses tomarei forças e irei encarar aquele chuveiro, como nos meus anos de fundamental, porém eu e meu corpo sabemos muito bem que isso não passa de mais um dos “sonhos sem futuro”.
Desci as escadas e antes que eu entrasse no restaurante Mari me chamou dá varanda.
—Ah, Yuri.
—Mari. Bom dia. – ela estava de costas para mim e reclinada sobre a cerca de madeira recém reformada, que nos separava de algumas árvores de cerejeiras, elas ficavam espalhadas por todos os cantos da cidade e mesmo que ainda não estivessem florescendo, eram um espetáculo para qualquer um que venha para as redondezas – Bom dia. – falei mais alto.
—Bom dia. – ela deu mais uma tragada no cigarro – Acordou cedo, não? Que horas já são? Sete? Oito?
—Seis e pouco. – apenas balança a cabeça levemente, a noção de cedo para minha irmã sempre foi meio distorcida. Observo ela por alguns segundos, Mari era uma dessas pessoas que parecia ter parado na adolescência. Sua aparência não havia mudado nada desde a época em que íamos para a escola juntos, cabelo ondulado e curto puxado para trás por uma faixa, inúmeros piercings nas orelhas e um olhar despreocupado, talvez as únicas alterações perceptíveis sejam as mechas loiras nas pontas do seu cabelo e o fato de usar o uniforme vermelho do restaurante quase que vinte e quatro horas por dia – O restaurante abriu há poucos minutos e já está assim... não me lembro de termos tantos clientes até mesmo na época em nós éramos pequenos.
—Um saco, não? No período em que esteve fora alguns velhos da cidade decidiram que aqui seria o ponto de encontro diário deles todas as manhãs. Parece que simpatizaram com o pai ou algo assim e voilà, todos os dias, assim que abrimos, eles estão aí, azucrinando a porta, prontos para pedir seja lá o que for. – para fazerem tanto barulho fico imaginando quantas pessoas fariam parte desse grupo.
—Mamãe e papai devem estar felizes por terem conquistado clientes tão fiéis. – Mari fez uma careta com minhas palavras, já era de se esperar – Mas mesmo assim, meus pêsames por isso, ter que começar a trabalhar tão cedo.
—Obrigada. – ela dá uma breve olhada para mim – Meus pêsames por ainda ter que ir para aquele lugar tão cedo.
—Obrigado.
@@@@@@@@
—Mãe?
A porta da nossa casa dava para os fundos da cozinha, nem sempre era agradável passar por ali, principalmente quando estavam recebendo entregas do açougue, mas depois de um tempo você se acostumava. Lembro que quando eu era pequeno adorava exaltar o fato da minha casa ser embutida em um restaurante para meus colegas, a cidade era pequena e é claro que todos sabiam, mas isso não impedia que eu me gabasse para tudo que cruzasse meu caminho.
Quando saio da cozinha observo o estabelecimento, apenas duas mesas estavam ocupadas. Uma de seis lugares, que abrigava seis senhores que provavelmente já teriam passado dos setenta, conversando animadamente, cada um com seu respectivo copo de cerveja.
A outra estava sendo ocupada por um homem, não muito velho, e por pilhas e pilhas de papéis. Ele tinha cabelo raspado, uma expressão severa e usava um terno cinza, apesar da sua aparência ameaçadora, ele parecia estar levando uma surra da suas dúzias de papéis. Por pouco não percebi, mas do outro lado da mesa tinha um prato com um sanduíche intocado em cima.
Os clientes dos meus pais eram bem...diferenciados se me permite dizer.
—Mãe. – fui até o caixa e a abracei rapidamente – Já estou indo.
—Oh, Yu, não quer mesmo que seu pai te deixe? O carro saiu do conserto essa semana e está novo em folha.
—Não, obrigado mãe, mas prefiro ir andando.
—Só não esqueça de levar um casaco, nunca se sabe quando o tempo va-AH! – meu coração dá um salto e eu e minha mãe ficamos nos encarando sem dizer nada, ela buscando palavras para justificar o grito e eu ainda em choque para dizer algo. – Eu sabia que estava esquecendo algo! Yu! Não saia daí.
Não acho que eu tenha como opinar em relação a esse “pedido”.
Ela mal havia saído e já estava de volta, dessa vez com um saco de papelão em mãos.
—Aqui meu amor. – o saco estava morno.
—O que é isso?
—Não! Sem espiar. É uma surpresa.
—Desculpa. – fecho o saco novamente.
—Eu preparei especialmente para hoje, vai te dar forças Yu.
—Acho que obrigado mãe.
—Boa sorte na escola querido. Não esqueça o seu lanche em nenhum lugar.
—Obrigado. Claro.
Fechei a porta e quando estava a poucos metros de distância virei a tempo de ver minha mãe jogar uma bola preta de tecido em minha direção.
—Não se esqueça do casaco!
@@@@@@@@
A cidade era pequena e todos que moravam aqui se conheciam, enquanto caminhava escutei meu nome sendo chamado várias vezes sendo logo seguido por um “bom dia”. Eu tinha me esquecido do quão agradável era andar pelas ruas daqui.
O vento batia no meu rosto trazendo consigo a maresia, o cheiro do mar era bem forte nessa época do ano como uma mistura de sal e algas, o Sol ainda não havia se erguido completamente e algumas nuvens começaram a surgir, mas nada que ameaçasse alterar o clima, as folhas das árvores lutavam arduamente para continuarem presas e olhando para baixo eu era capaz de ver uma ou duas pessoas correndo pela praia.
Apesar do tamanho limitado, aqui sempre ficava lotado por turistas. Era uma cidade castelo litorânea e o turismo que movia a economia da região, porém, ironicamente não era por causa do castelo (ele ficava no ponto mais alto, a poucos quilômetros da nossa casa, da janela do meu quarto era possível vê-lo claramente, o que me causou muitos pesadelos na infância) e sim pelas praias. Elas eram realmente espetaculares.
Ainda não estávamos em alta temporada, mas eu pude identificar alguns rostos diferentes pelo caminho, reconhecer turistas por aqui não era uma tarefa tão difícil, eles possuíam um ar diferente dos nativos. Eu não saberia como explicar. Provavelmente eu devo parecer um turista também, mesmo tendo voltado há meses era difícil recuperar esse ar.
—Yu! – tirando minha família, só tinha mais uma pessoa que me chamava por “Yu”. Era impossível que eu esquecesse dela.
—Yuuko. – ela me abraçou fortemente. Havia crescido um pouco, o cabelo estava mais curto e amarrado em um rabo, mas sua voz continuava infantil. – Bom dia.
—”Bom dia”? É assim cumprimenta a sua melhor amiga?! Parece que faz anos que não nos vemos!
—Pois é... – continuei andando com ela abraçada ao meu braço, provavelmente iria me acompanhar até a escola. Yuko havia se formado há dois anos e mesmo que eu não estivesse aqui para acompanhá-la nos seus últimos anos escolares ainda era estranho imaginar o colégio sem ela ao meu lado – Como estão as coisas com Nishigori?
—Ótimas. Takeshi arrumou um emprego recentemente, estou começando a sentir falta dele me seguindo pela casa.
—Como no colegial, não? – soltei alguns risos, quando éramos crianças Nishigori não gostava de mim pelo ciúmes que sentia por Yuko, porém com o tempo e com as broncas que Yuko lhe dava hoje temos uma boa relação – Ele vivia seguindo você para todos os cantos.
—Não é? – ela falou rindo – Perdi a conta de quantas brigas já tivemos por causa da sua codependência, quem diria que sentiria tanta falta daquele grandalhão depois de tudo. Pelo menos no seu tempo livre ele me ajuda com o rinque.
—O rinque anh... – sabia que uma hora ou outra Yuko tocaria nesse assunto, mas gostaria de aproveitar mais alguns segundos com minha melhor amiga antes de me estressar.
Paramos em frente à escola e ficamos observando alguns alunos entrando, ela parecia estar mais vazia que o habitual, o que era estranho levando em conta a época do ano.
—Então Yu...você não pretende... – ela olhou para mim como se pedisse que eu dissesse alguma coisa, ela era minha amiga e por isso mesmo permaneci calado – Você sabe que todos aqui vão te apoiar caso você queira voltar. Você sempre terá o nosso maior apoio.
—Yuko...
—Se por causa da bolsa não tem problema, sabemos que você pode conseguir outra! Você pode treinar lá no rinque, posso reservar horários para que você possa patinar sozinho, sabe que eu e Takeshi não vamos cobrar nada.
—...
—Yuri! Você não pode desperdiçar seu talento assim, quando você patina é, é...é incrível, Yu... Se for por causa do...dele...Speed ele, ele não iria querer que fosse assim, a hora dele passou, mas...
—Yuko.
—...a sua não Yuri!
—Yuko!
Nos encaramos por longos segundos e por fim acabo cedendo, dei as costas para Yuko e vou em direção à escola.
—Yuri...
—Até mais.
@@@@@@@@
—Yuri? Yuri Katsuki?
—Hã, ah, sim... – levantei a cabeça e enxugo minha boca, um garoto estava parada ao lado do bebedouro me observando com uma expressão confusa... ou animada, não consigo dizer o que ele está sentindo.
—Ah caralho, sabia que era você, cara! – ele me deu dois tapinhas e colocou o braço envolta dos meus ombros – Kojima disse que tinha te visto com uma mulher mais cedo, faz tanto tempo que não vemos você que achei que ele estivesse inventando coisas, você sabe como é, é sempre bom ter um pé atrás quando se trata dele, incrível que algo tão pequeno minta tanto...
—Ah, sim, claro... – começamos a andar pelo corredor enquanto ele tagarelava, essa era definitivamente a situação mais desconfortável de todas – Desculpa, mas qual é mesmo seu nome?
—...Harata sempre me diz que sou o único que conseguiu convencer ela, mas eu tentei falar para ele que espera, o que?— ele se desvinculou de mim e parou de andar, puxou o cabelo preto para trás e me encara pasmo – O que você acabou de dizer? Não lembra o meu nome?!
—É... – acho que devo estar sendo um babaca, mas o seu rosto não me remetia a nada
—Wow, que porra Katsuki. A fama fodeu mesmo a sua cabeça, em.
Abaixei a cabeça e encolhi meu ombros envergonhado, não havia o que dizer para ele.
—Ha, fantástico. Mais uma “estrela” para lidar, desculpe por estar tomando seu tempo alteza, deve ser difícil ter que se mistura com a plebe assim. – colocou as mãos no bolso e com sua bota de couro chutou um dos armários. O som reproduzido foi alto o suficiente para chamar a atenção de alguns olhares curiosos e para que eu estremecesse ainda mais – Pare de olhar para o chão, porra! Por acaso não sou digno o bastante para estar no campo de visão do grande Yuri Katsuki?!
Levantei a cabeça relutante, ele me fuzilava e não conseguia pensar em palavras que pudessem melhorar a situação.
—É Uera, Nori Uera, caralho. – levantei as sobrancelhas surpreso, eu sei quem ele era, Nori, meu colega de classe no sexto ano. Nós não éramos próximos, ele sempre estava cercado de vários garotos e seu cabelo era mais longo do que é hoje, chegava a cobrir seus olhos por completo, a única vez que nos falamos foi quando ele exigiu que eu desse o meu lanche para um colega dele, pois havia ele esquecido. Mesmo que nunca tivesse feito nenhum mal para mim, tenho certeza que se eu tivesse sido contra alguma das suas exigências as coisas seriam diferentes.
Porém eu podia afirmar uma coisa com toda certeza, nós nunca fomos tão próximos a ponto de merecer a reação tão calorosa que ele teve em relação a minha volta.
—Sim, Nori, eu me lembro de você...fizemos o sexto ano juntos... – ele me encarava como se esperasse que eu dissesse mais alguma coisa, no entanto nada vinha a mente.
—Quer saber? Foda-se. Vou deixar a alteza em paz.
Queria dizer para ele voltar, pedir desculpas por ter esquecido seu nome talvez, porém ele andava em passos largos e eu não teria coragem para ir atrás dele nem gritar seu nome, principalmente agora que sentia vários olhares sobre mim.
A última coisa que consegui ouvi-lo dizer, foi:
—Como se o Plisetsky já não fosse suficiente, agora temos o Katsuki para nos esnobar.
Torci para que meus ouvidos estivessem me enganado.
@@@@@@@@
Não, não, não.
Será que havia alguma chance disso ser mais um pesadelo? Olhei para minhas mãos, elas continuavam lá. Merda.
Por todo corredor era possível ouvir meninas murmurando a mesma sentença, “fada russa”. Alunas corriam até a cantina em êxtase. E diversos garotos lançavam olhares desconcertados uns aos outros.
Eu conseguia avistar o fios dourados do seu cabelo refletindo contra as luzes do refeitório e a estampa extravagante inconfundível. Aquilo era um sonho. Algumas garotas se aproximavam timidamente com papéis e canetas em mãos. Só podia ser um sonho. Ele as mandava embora rudemente. Tinha que ser um sonho.
Oscilo e vou dando pequenos passos para longe, como se acabasse de encontrar um animal faminto e temesse que qualquer movimento brusco pudesse chamar sua atenção. Não entendia como nem por que, no momento o mais importante era ficar o mais distante possível daquela “fada”.
—Ah!
Minhas costas bateram em alguém. Sorte.
—D-Desculpe. – agachei para recolher os papéis derrubados pelo chão sem tirar os olhos do refeitório.
—Tudo bem, tudo bem, isso sempre acontece comigo.
Levantei e devolvi os papéis para seu dono, acho que minhas mãos estavam tremendo.
—Ei, você está bem? – tomei um susto quando vi pelo canto dos olhos duas mãos pequenas avançando em minha direção, por muito pouco resisto ao relexo de afastá-las – Pronto, seu óculos estava torto.
—A-Ah, obrigado... – pela primeira vez desviei os olhos do refeitório e os direcionei para a pessoa a minha frente. Era uma menina baixinha, pele morena, traços delicados e seu cabelo era um redemoinho cor chocolate, ela sim era uma fada, não aquela bomba relógio russa.
Ela deu um sorrisinho para mim e pegou as folhas.
—Pelo seu rosto diria que está fugindo de algo ou está tendo um dia pessimamente horrível. – ela olhou para algo atrás de mim – Oh, o refeitório está uma zona. Bem, já era de se esperar que Yuri Plisetsky causasse essa reação nas pessoas, não é mesmo?
—Uhum...
—...ei... – levanto a cabeça – Olha, se quiser, poderia me acompanhar até a secretaria? Como pode ver tenho muita papelada para entregar e, bem, uma ajudinha nunca cai mal, certo? – ela piscou para mim.
—É, quero dizer, claro, posso.
Ela reparte os papéis comigo e começa a caminhar para o lado oposto da multidão que estava se formando, sigo-a rapidamente. Era uma verdadeira fada.
@@@@@@@@
—Err...
—Hum? Disse alguma coisa?
—Então...você sabe por que Yuri Plisetsky está aqui na escola? Tinha ouvido boatos que ele tinha saído do país há um tempo. – a última vez que vi Yuri foi há um anos atrás, em Detroit, ele ia sair para um campeonato importante naquele ano, mas não tinha nos seus planos vir para cá até onde eu me lembre.
—Sei. – talvez pelo fato de nunca encontrar respostas tão facilmente tenha feito com que eu me surpreendesse tanto com sua resposta – Mesmo que seja careta para os padrões sociais, ser a presidenta do conselho estudantil tem lá suas vantagens. – ela deu dois tapinhas nos papéis – Esses camaradas são uma delas.
Caminhamos mais alguns metros e ela não disse mais uma palavra.
—Ahn, então...
—Não sou autorizada a falar da ficha dos outros alunos.
—Alunos? Ele está estudando aqui agora?!
Ele deu de ombros. Ótimo, maravilha, esplendido, esse sonho melhora a cada segundo. Apertei minhas mãos até que os nós ficassem brancos.
—Céus, não faça essa expressão. Faz com que eu me sinta mal...Olha, gosto muito do meu trabalho como presidenta, mas o que posso dizer é que ele é algo parecido de um aluno.
—Hã? – o que isso quer dizer?
—Digamos que ele vai ser um aluno até, hum, meio do ano?
—Você só está me confundindo mais ainda.
—Bemmm, se estiver disposto a uma...”troca de conhecimentos”, talvez eu esteja disposta a deixar “escapar” mais algumas informações...
Paro de andar.
—O que está fazendo? Estamos quase chegando à secretaria.
—N-Nada, só pensei que fosse leal às regras do conselho estudantil. – retomo o passo.
—”A essência do conhecimento consiste em aplicá-lo, uma vez possuído”, já ouviu essa frase? É Confúcio. Ah, viramos nesse corredor.
—Filosofo chinês? – acho que já vi esse nome antes em algum dos livros de Hirashi.
—Bingo! Eu não diria que estou quebrando as regras de conduta, pelo menos não explicitamente, apenas estou recolhendo informações valiosas sobre um aluno e deixando, inconscientemente, algumas coisas vazarem.
Não posso evitar de rir dela, brilhante.
—Está bem, claro. E o que posso lhe dar nessa troca? Não tenho nenhum posto importante na administração dos alunos.
—Yuri, eu decorei a ficha de todos os alunos dessa escola e a sua é uma das que classifico como interessantes. Poderia perguntar o porquê da sua volta misteriosa, mas até eu tenho noção do quão indiscreto seria... – obrigado – ...então, no momento, o que mais me deixa curiosa é sua aversão em relação a Yuri Plisetsky.
—Não diria que eu tenha aversão ao Yuri, não é como se eu o odiasse nem nada do tipo.
—Okay, okay, admito que usei o adjetivo errado. Porém ficou mais do que evidente que a relação entre vocês está longe de ser de amizade ou simpatia. – acho que é algo parecido com isso – Você não parava de tremer enquanto observava ele.
—Não temos um histórico muito bom.
—Porrr?
—Histórias passadas.
—Yuri você não está cooperando nem um pouco. Vire à esquerda.
—E aquilo sobre “ser indiscreta”? – ela fechou o rosto para mim, acho que aquele era o seu limite – É, bem, nós nos conhecemos enquanto estive fora, em Detroit, nossa relação lá...não era das melhores. A última vez que o vi foi há dois anos atrás, por isso vê-lo aqui me surpreendeu tanto...
Paramos em frente a uma porta de madeira com uma janelinha redonda, um em frente do outro.
—Vou aceitar essa por hora, porque estou com pena de você, entendeu? E também porque sou uma pessoa muito, muito, muito legal, mas principalmente por dó. – ela olhou para os lados e aproximou nossas cabeças, seja lá qual informação sigilosa ela estivesse prestes a me contar, não era meio arriscado fazer isso na frente da secretaria? – Ele deve ficar aqui até, no máximo, metade do ano letivo, parece que depois irá para uma espécie de programa especial fora do país.
—Mas por que ele veio para cá? – não era uma escola famosa e não tinha nenhum atrativo na cidade que pudesse interessá-lo. Geralmente antes de saírem para alguma competição ou programa de treinamento aproveitavam o tempo livre para treinar mais ainda.
—Também não sei ao certo. Um homem velho, Yakov se não me engano, estava tendo a maior discussão com ele quando vieram fazer a matrícula, ele dizia coisas como “não faz sentido estarmos aqui”, “desperdício de dinheiro”, “você poderia estar treinando”. Yuri no entanto não deu ouvidos para o velho e no final falou apenas que “ia acertar as contas aqui”. Bem, foi só isso que presenciei, mas pela cara desses dois acredito que haveriam várias outras discussões pela frente.
@@@@@@@@
Evitar Yuri Plisetsky acabou sendo uma tarefa mais simples do que eu espera.
Ele vivia cercado por pessoas e pelo menos dez segundos antes dele entrar em algum lugar já era possível ouvir murmúrios a seu respeito, “fada russa” ou “punk russo” (variava muito dependendo de qual boca saia) acabou sendo uma dádiva e minha deixa para sair de algum lugar. Nessas últimas semanas fiz questão de ficar o mais longe possível de lojas de roupa e de qualquer monumento que fosse interessante para o Instagram.
Ah e é claro, as Yuri Angels, o fã clube dele formado por perseguidoras inatas também facilitavam minhas fugas, fazendo questão de causarem alvoroço por onde quer que passem.
E foi assim que evitei Yuri Plisetsky por exatamente três semanas.
—O-O-O q-que ele está fazendo aqui?! – puxei Mari para baixo do balcão na cozinha, não era lá tão agradável e ela me olhava com desprezo, mas situações extremas requerem medidas extremas.
—Meu Deus Yuri! – ela afastou minha mão – O que foi?!
—Shhhh! – cobri sua boca – Fale mais baixo. Você não viu o tumulto que está lá fora?
—Tumulto? – ela levantou e olhou por cima do balcão, pude ver suas sobrancelhas erguendo – Wow, aqueles velhos viraram algum tipo de estrelas agora?
—Não, não, não. Não são eles. – encolhi a cabeça ente as pernas – Mesa 6, direita.
—Direita...oh, sim é AH! – ela se ajoelha em minha frente tremendo, é bom não ser o único – E-Ele é i-i-igual Yuri...
—O que?
—Ele é igualzinho ao Takao! Ah caralho – ela dá mais uma olhada, acho que é a primeira vez que vejo minha irmã corada – Minha nossa!
—Err...M-Mari?
—Yuri! Você conhece essa pessoa?!
—H-Hã, a-acho que s-sim... – seus olhos estavam começando a me assustar.
—Você...
Ela puxou meu braço
—...vai...
Colocou-me de pé e segurou meus ombros com força.
—Mari?
—...apresentar ele para mim...
—O que? Não, não, não, não. Não. Mari olha, e-ele, nós dois- – mesmo que eu me debatesse não conseguia desprender-me dela.
—...agora!
Ela me empurrou contra a porta. Perco o equilíbrio e me seguro em uma pessoa que estava de costas para mim, ela permanece estática, mas consigo ouvir um grunhido.
—D-Desculpe! – isso saiu mais agudo do que o planejado.
—Humf, está bem. – era o homem de terno cinza. Ao contrário dos senhores, ele alternava os dias, geralmente aparecia aqui nas segundas, quartas e sextas, sempre com uma nova pilha de papéis e um sanduíche intacto no canto da mesa.
Estranho. Normalmente é sempre assim, porém, hoje era uma quinta nublada e no lugar dos papéis ele segurava uma câmera. Bem, normalmente Yuri Plisetsky também não viria comer aqui.
—Oh, Yu! Chegue aqui perto, olha quem está aqui.
Todas as chances de passar despercebido foram quebradas, esmigalhadas, estilhaçadas naquele momento. As semanas de fuga foram pelo ralo. E os cronogramas Anti-Yuri não iriam passar de lixo.
Todo progresso jogado fora.
A multidão de Angels com orelhas de gato e jornalistas engravatados olha para mim, no meio deles posso ver uma cabeça loira se virando.
—Ele também é patinador Yu, por que não vem conversar com ele? – algumas das pessoas envolta olharam chocadas para minha mãe, Yuri Plisetsky não era apenas “um patinador”, ele era um dos grandes, um prodígio em ascensão melhor dizendo e no entanto ela o tratava como se fosse meu colega de classe.
Antes que eu tomasse qualquer iniciativa Mari faz isso por mim, segurando meus ombros me empurrava para perto deles. Acho que ela não compreendia que estava me empurrando para morte.
—Eles se conhecem mãe! – nesse momento posso sentir o olhar do homem de terno na minha nuca – Eles se conhecem de...de...ei Yuri, de onde vocês se conhecem mesmo?
—Detroit. – eu ainda estava sem reação, era como se estivesse dopado. Apenas aceitei o empurram de Mari, os olhares de todas aquelas pessoas, não dava mais para evitar o encontro.
—Isso mesmo, Detroit. Detroit? – ela se deu conta do que estava dizendo e me olhou confusa – Vocês treinavam juntos?
E isso deu inicio a uma série de indagações e sussurros de todos que estavam ali, alguns tiravam fotos, outros filmavam com o celular, Angels cochichavam e meus pais se olhavam confusos.
—Hey. Katsudon.
—Hã?
Antes mesmo que eu virasse por completo, vejo uma perna vindo em minha direção.
E essa é a ultima lembrança que eu tenho daquela quinta-feira nublada, o dia em que o homem dos papéis trocou eles por uma câmera, garotas com orelhas de gato me cercavam, fleches iluminavam o restaurante, eu fui atingido por um russo e minha irmã corava por um tal de “Takao”.
Fale com o autor