Yume - Diário de Sonhos
8 Segredo de Família (Isabel)
Notas iniciais
Nesse sonho, houve um “antes”.
Foi quando eu era um pouco mais nova, ainda uma menina. Nosso território era o que eu considerava “normal”, pois não conhecia nenhum outro: um certo terreno, inteiro coberto por uma mata cerrada de um verde que não parecia lá o mais saudável. Às vezes tinha uma trilha marcando o caminho, às vezes não. Mais para dentro havia uma área onde o que poderiam muito bem ser algumas ruínas — se os móveis não tivessem aparência de novos — se encontravam: uma parede e meia, a menor com um buraco como se fosse uma porta; uma mesa e três cadeiras de madeira; e alguns quadrados de piso no chão. Nada mais.
Eu não sabia do tamanho do nosso terreno, sobretudo por causa da mata fechada. Eu tinha uma vaga noção, mas era difícil saber com certeza. Não era um dos terrenos mais amplos, na verdade; nós não éramos exatamente uma família proeminente.
Para entrar no nosso território, havia um “portão” que, esse sim, eu sabia ser parecido com o das outras casas. Uma câmara com armações de metal pesado e grandes lentes de vidro, como uma cápsula, onde as pessoas entravam de um lado e esperavam que os moradores permitissem sua entrada, abrindo o outro. Não que ajudasse muito no nosso caso, pois nossas únicas barreiras eram uma espécie de cerca viva natural, feita de uma enorme variedade de plantas que não pareciam combinar umas com as outras, que haviam crescido na borda como se fossem uma espécie de muro. Mas mesmo esse muro não era muito alto. A única coisa favorável a nós nesse ponto era que a educação exigia que você entrasse pela cápsula das pessoas quando fosse entrar em sua moradia.
A minha família tinha quatro pessoas, o que era uma quantidade relativamente comum: eu, uma menina de cabelos curtos que não sabia como o mundo funcionava; minha mãe, uma moça de longos cabelos lisos e escuros que nos amava; meu irmão um pouco mais novo, que sabia do mundo ainda menos do que eu sabia; e nosso pai, um homem esforçado, de cabelos longos, claros e quase sempre meio desgrenhados.
Nós vivíamos normalmente durante uma boa parte da minha vida. Mas então, naquele dia, eu e minha mãe, por algum motivo, entramos um pouco mais nos fundos do nosso terreno-casa, além da única sala pela metade. Meu pai e meu irmão iam nos esperar, enquanto fazíamos algo para aqueles lados.
E então, a criatura surgiu.
Eu não lembro se aquilo era ou não humano; para mim, naquela hora, definitivamente não era.
Minha mãe começou a correr, puxando minha mãozinha enquanto abria caminho na mata. Encontramos uma das trilhas espalhadas pelo terreno, mas se aquilo facilitava para nós, também facilitava para ele. Minha mãe era boa em correr na mata densa, então agora que penso sobre isso, ela só foi na trilha por minha causa.
Mas de repente, eu tropecei em alguma coisa. Minha mãe olhou para mim e vi o desespero em seus olhos quando a criatura se aproximou de nós.
Ela voltou e me ajudou a levantar mais depressa, e continuamos a correr, mas foi por pouco. Agora a criatura estava a poucos passos de distância.
Eu não sei quanto tempo se passou entre essa cena e a seguinte. A próxima coisa de que me lembro era de nós duas, andando em um lugar que eu conhecia bem.
Em teoria, nós não vivíamos em uma monarquia, mas aquela família era algo muito próximo de uma família real. Sobretudo a filha mais nova, que recebera o apelido de “Princesa”.
Naquele momento, andávamos apressadas por um corredor de grama que dava para o jardim da parte de trás da propriedade dessa família. À nossa direita, as paredes da grande casa; à esquerda, uma cerca viva cuidadosamente podada. Apesar de eu conhecer o caminho bem de vista, não me lembrava de já ter ido por ali; pelo medo de ofender a família por invasão de privacidade, todas as crianças eram ensinadas desde cedo a evitar os caminhos laterais da casa.
Mas lá estávamos nós. Minha mãe apressada à minha frente, e eu seguindo-a, sem questionar, mas também sem entender.
No final do caminho e começo do jardim de trás, vimos a Princesa. Ela era bem elegante e jovem, e usava um vestido digno de seu apelido, embora supostamente casual.
Pouco entendi do diálogo que se seguiu, então mesmo depois de crescer, não me lembrava nem mesmo de uma única palavra. Mas eu via os gestos. Lembro-me da Princesa abrindo os braços como se dissesse “bem-vinda” e sorrindo, mas um sorriso distinto, como se estivesse presenciando algo agradável, mas previsível.
Nunca me disseram nada a respeito, então não sei por quê, mas quando cresci, sempre que me lembrava dessa cena, uma palavra saltava em minha mente.
Irmãs.
.
Depois disso, nunca mais vimos nossa mãe.
Meu pai passou a se esforçar ainda mais para ser um bom pai. Lá, a pobreza extrema era algo bem raro, então nós éramos uma das famílias mais pobres da região. Mas mesmo assim ele se esforçava para sustentar minhas excentricidades; eu me lembro bem de uma pasta grossa de plástico cheia de papéis coloridos e uma caixa de lápis de cor quase completa.
Nós passávamos a maior parte do tempo num bar bastante conhecido e frequentado. Na verdade, quase todo mundo passava o dia lá, mas como aquele país não era muito populoso, sempre havia alguns lugares vazios.
O lugar era todo trabalhado em madeira escura, o que em quase qualquer situação deixaria o ambiente não muito aconchegante. Porém, uma abertura na parte de trás, como se tivessem demolido a parede até a altura de um homem médio, deixava entrar bastante da luz cinzenta do lado de fora.
A primeira coisa que se via eram algumas mesas daquelas compridas, também de madeira escura, de lado quando vistas da porta. Não havia um único banco, mas várias cadeiras.
Depois dessas mesas, havia um vazio onde as pessoas poderiam ficar de pé ou dançar ao som de alguma música, quando havia (o que não era muito frequente, mas também não era impossível). Nessa parte do estabelecimento, as texturas do chão escuro eram ajeitadas para formar uma espécie de círculo, que era como se fosse um pequeno “salão”.
Dos dois lados do salão e à esquerda das mesas vendo da porta, havia escadas que davam para o andar de cima. Ele não era tão espaçoso quanto o de baixo; havia um enorme buraco em cima de onde ficava o salão, e mesmo no resto do espaço o chão tendia a contornar as paredes, sem se aventurar muito para o meio da sala.
Apesar de tudo isso, porém, o bar não era lá tão grande. Seu comprimento era menor do que o caminho de grama que eu percorrera com minha mãe tanto tempo atrás.
Como minha família era a mais pobre das que frequentava ali, havia o constante perigo de decidirem que não queriam mais a gente por lá. Para evitar isso, meu pai procurava socializar com as pessoas das esferas médias, ao mesmo tempo em que sentava próximo às minhas coisas de desenho quando eu não as estava usando, mais ou menos de olho nelas. Ele quase sempre ficava na mesa perto da porta.
Mas não dependia só dele, é claro. Eu e meu irmão também deveríamos nos comportar bem para que pudéssemos ser aceitos. Infelizmente, porém, eu tinha muito menos bom-senso do que meu irmão mais novo.
Não vou dizer que eu era peste, mas beirava isso. Não filtrava muito minhas ações, mas também não era malandra ou grosseira. Mas perto do meu caçula, eu era o maior perigo para a família, sem sombra de dúvidas.
Quanto à minha mãe, não sabíamos nada. Não sabíamos onde estava, se estava viva ou morta. Ou melhor, eu e meu irmão não sabíamos; eu acho que meu pai sabia. Mas não perguntávamos a ele, porque era um assunto delicado.
Eu não me lembro de quando conheci o meu amigo, mas tenho uma vaga noção de como foi. Trocamos algumas palavras meio por trocar, sem muito entusiasmo. Então, percebemos que nosso sarcasmo era meio parecido, e decidimos ser amigos. Achamos que não ia durar muito, que era algo mais por falar do que por fazer, mas calhou de a relação durar.
Ele era de uma família mais abastada que a nossa — o que, para ser sincera, não era muito difícil. Enquanto eu era esguia, de pernas e braços finos, mas não magros, ele era redondo, rechonchudo. Isso não tinha nada a ver com as condições da família; várias das famílias mais ricas tinham filhos magros. A Princesa mesma era um bom exemplo. Não; aquilo era algo dele.
Nesse dia em especial eu bati aquele papo rápido que costumava bater com meu “amigo”. Eu lembro de ver uma garota dançando no salão — era uma jovem no começo da adolescência, mais ou menos da minha idade. Seus cabelos tinham duas cores singulares (eram divididos na metade). Uma delas era um verde metálico um pouco fosforescente, e não me lembro muito bem da outra, mas também era metálica. Me lembro de associá-la a uma cor de lápis que eu ainda não tinha, e de, por algum motivo, pensar que se falasse com ela conseguiria arranjar esse lápis. Por isso, desci os poucos degraus da escada na qual estava sentada com o garoto e fui dançar com ela. Como ela estava sozinha, não foi difícil convidá-la.
Por mais estranho que parecesse, eu não escondia o motivo de ter ido com ela, e ela não estranhava minhas razões. Ela era diferente da maioria das pessoas dali, e parecia de certa forma introvertida, ou pelo menos um pouco. Ela olhava para mim com um olhar um pouco torto, como se dançar comigo fosse sua obrigação, mas ela não fosse muito com a minha cara. Nossos dois cabelos eram curtos, mas os dela eram um pouco mais longos que os meus. Ou melhor, os meus eram um pouco mais curtos que os dela.
Mas depois de algumas voltas na dança, sem muita cerimônia, ela relaxou comigo. Acho que ela sentiu que eu era meio excêntrica, mas não demasiado estranha ou perigosa de qualquer forma. Só um pouco elétrica, talvez. E se no começo ela achava meu motivo egoísta, logo parou de se incomodar.
Me lembro de ganhar não um, mas dois lápis novos depois disso, ambos com duas cores, uma em cada ponta. Eu estava feliz da vida, e sinto que a garota até me achara simpática — não que eu sentisse isso na hora. A “eu” de lá não conseguia sentir a atmosfera muito bem; estava sempre ligada no 330, pensando apenas no “agora” e no que faria a seguir.
Assim que arranjei os lápis, fui voltar para a mesa onde meu pai estava com a minha pasta, ansiosa para guardá-los nas minhas caixas.
Mas acontecia uma coisa especial: lá, eu também conseguia pular muito alto. Tipo, MUITO alto. Quando quis voltar para a mesa e vi que teria que atravessar três outras (a nossa era a quarta), resolvi que seria mais rápido pular por cima. Pulei a primeira, subindo vários metros no ar — definitivamente mais do que seria necessário. Vi as caras de surpresa abaixo de mim; acho que sempre tinha alguém que nunca tinha me visto fazer aquilo, mas dessa vez tinha mais do que o habitual.
Fui pular a próxima mesa, mas estava muito empolgada; acabei pulando mais do que devia. Vi que cairia na metade da mesa seguinte à que pulava.
“Desculpa!”, disse, começando a cair, mas minha força de vontade foi mais forte do que eu previra. Joguei minhas pernas para cima e consegui dar mais uma cambalhota antes de cair entre aquela mesa e a de meu pai. Me lembro nitidamente de minha cabeça para baixo, com quatro pares de olhos arregalados me olhando de volta.
Assim que olhei para meu pai, vi um ligeiro medo em seus olhos. Ele olhava para mim assim às vezes, quando eu pulava, mas eu não conseguia impedir; eu gostava de pular alto.
Os homens ao seu redor comentaram sobre como eu conseguia pular alto, como eu era habilidosa e como estavam surpresos, mas meu pai apenas meio ouviu o que diziam. Balbuciou algumas desculpas enquanto chamava meu irmão, e puxou nós dois para fora, nos levando para casa.
Ele não me dava bronca, mas era como se o que eu fazia fosse perigoso. Ele sempre nos tirava de lá quando eu pulava por cima das mesas.
Eu não me lembro direito do resto do sonho; apenas alguns flashes.
Lembro de alguns membros das famílias mais ricas indo à nossa casa; me lembro deles na cápsula, esperando para entrar, e meu pai desconfortável, mas sabendo muito bem que não podia dizer “não”.
Em seguida, lembro de meu amigo gordo ter ido em casa. Eu não sei por que nenhum de nós dois ficou surpreso de alguém de uma família média ir visitar alguém de família relativamente pobre, mas nossa relação era bem distinta em vários sentidos, então não estranhávamos mais nada.
Então me lembro de nós dois, correndo; uma criatura que me era muito familiar nos perseguia. O dia já estava em processo de entardecer, então o caminho estava um pouco mais cinzento do que de costume. Meu amigo não corria tão rápido quanto eu, e estava ficando para trás. Me lembrei de eu e minha mãe fugindo, e sobre como eu tinha tropeçado e isso quase acabara com nós duas. Dessa vez, eu o tinha chamado para casa. E embora não tenha certeza do quê, eu me lembro de que ele sabia de alguma coisa da história de minha mãe; talvez ele estivesse tentando descobrir comigo, embora nossa amizade fosse algo do estilo “eu te ajudo, mas se for para me meter em encrenca estou fora.” Ele ultrapassara a linha que inconscientemente definia nossa relação, e provavelmente estávamos chegando perto demais de alguma coisa que não devíamos descobrir.
Mais uma vez, alguém importante para mim estava em perigo por culpa minha. Naquele momento, decidi que, se era para nós sermos pegos, seríamos pegos juntos; voltei para trás dele e comecei a empurrá-lo enquanto corria.
Mesmo em meio a todo o perigo, por um momento eu percebi, surpresa, que o plano estava dando certo. Eu quase conseguia enxergar ele tropeçando e nós sendo inevitavelmente alcançados, mas ele estava conseguindo se manter de pé, e nós dois estávamos mantendo o passo.
Mas aquilo não era o suficiente. A criatura estava chegando cada vez mais perto...
30 de junho — 1º de julho de 2017
Fale com o autor