Yume - Diário de Sonhos
3 A Prisão (Isabel)
Notas iniciais

Naquele sonho, eu estava cercada de muros.
Na verdade, o ambiente inteiro era bastante hostil, mas os muros faziam parte disso. E ram muros imensos, tão altos que se você chegasse perto de um e tentasse ver seu topo, seu pescoço doeria. Eram feitos de enormes tijolos de pedra pura, cinza e áspera, e o único jeito de sair era pelos enormes portões feitos de barras de metal pintadas de preto e permanentemente trancados por grossas correntes de ferro e um grande cadeado.
O chão lá dentro era de grama, mas mesmo chamá-la de "verde" seria algo incrivelmente generoso. Cada folha era acinzentada, seca e quebradiça, tão baixas que apenas as mais altas alcançavam a ponta do dedo mindinho.
O céu estava sempre coberto de pesadas nuvens cinza escuras. Mesmo durante as horas mais claras do dia, não havia nada que se pudesse chamar de cores, pois mesmo se o ambiente transbordasse vida, aquelas nuvens jamais deixariam a luz chegar. Era como se o horário mais próximo do meio-dia ao qual pudéssemos chegar fosse algo perto das oito da manhã, no máximo nove, antes que o dia tornasse a escurecer.
E então, havia as outras construções.
Como se não bastasse sua aparência bruta, a parte de cima do muro era pontilhada de lanças, e entre elas havia sido feito um corredor, pelo qual os vigias faziam seus turnos. O lugar era um verdadeiro forte.
Além disso, havia três prédios lá dentro, todos feitos com os mesmos materiais rústicos. O primeiro deles, mais perto do portão, era relativamente alto, mas sua área interna era pequena. O segundo era bem mais baixo, mal chegando a um andar de altura, mas nós sabíamos que havia pelo menos mais um piso abaixo daquele. E, por fim, o terceiro prédio, mais distante do portão e pouco mais baixo que o primeiro — esse eu acho que nunca descobrirei do que se tratava. As três construções ficavam visivelmente mais próximas de um dos lados do muro, de forma a deixar um largo corredor aberto à frente do portão e com pouco espaço entre cada um.
Naquele sonho, havia muitas crianças. A maioria delas era formada por meninas, mas havia meninos também. Nenhum passava dos doze ou treze anos, seguindo mais ou menos na faixa dos onze.
E havia os adultos.
Eu já especulei muito sobre o motivo de tudo, chegando a bolar várias teorias, mas a verdade é que nunca soube com certeza o porquê de tudo. O que eu sabia era que todas as manhãs, as crianças eram reunidas em frente ao portão, organizadas em uma formação impecável, como um pequeno exército. Naquela formação, os adultos executavam uma contagem, embora qualquer falta fosse facilmente percebida. Todos os dias, rigorosamente.
E depois, durante a tarde, éramos soltos para fazer o que quiséssemos. Porém, não havia muito o que se fazer lá dentro.
Dentre os adultos, havia aqueles que eram sentinelas, e ficavam o tempo todo de olho em nós, de cima do muro ou de dentro dele. Outras estavam lá para cuidar de nós. E havia uma, que era a mais assustadora de todas.
Eu não sei o que ela era, mas todos sabíamos o que ela fazia. Bom... mais ou menos. Mas nós sabíamos que ela estava no controle de tudo, pois era sempre ela quem religiosamente nos contava, um a um, no começo de cada dia. Além disso, às vezes ela chamava alguém para ir no prédio do meio — e quando se era chamado para lá, era apenas questão de tempo até você desaparecer.
Nós não estávamos apavorados ou em pânico. Vivíamos aquela realidade desde que nos lembrávamos. Não aceitávamos nada daquilo, é claro, mas de que adiantava? Havia soldados munidos com armas de fogo nos observando a cada instante, esperando para tentarmos alguma gracinha.
E quando a noite chegava, íamos para o primeiro prédio. Ele era uma espécie de dormitório, mas essa terminologia também é um tanto generosa. Cada andar era tão pequeno que, apertando muito, dificilmente caberiam mais do que dez crianças em cada um. E embora não nos apertássemos tanto, cada piso tinha de quatro a cinco crianças diferentes, o que não deixava de ser muito. Além disso, cada andar era tão baixo que mesmo os menores de nós tinham que se abaixar para conseguir ficar lá, tornando o ambiente incrivelmente claustrofóbico. Para ir de um a outro, usava-se uma escada em espiral de degraus bastante estreitos, onde também só passava uma criança por vez. Por causa do desenho do lugar, em alguns andares era muito difícil conseguir entrar na escadaria, pois o teto e os degraus ficavam em desnível.
Eu e algumas amigas ficávamos em um dos andares de cima.
Assim nós vivíamos, dia após dia. Tentávamos arranjar coisas para fazer ou novas brincadeiras, mas era difícil. Não tínhamos esperança nenhuma, e nem nos preocupávamos em ter, então apenas esperávamos o momento em que seríamos chamados e desapareceríamos.
Até que, certa noite, eu estava olhando por uma das minúsculas janelas dos andares, e resolvi que estava cansada daquilo. Com uma vida daquelas, qualquer tentativa era válida.
Acontece que o nosso andar era pouco mais de um metro mais alto que o muro, e o prédio era muito próximo de lá. Eu falei para minhas colegas de piso que ia embora — eu desceria pela janela à noite enquanto os sentinelas estivessem longe, do outro lado do muro, desceria pelas árvores do lado de fora e encontraria ajuda, e então voltaria para buscá-las.
Acho que elas disseram que era uma má ideia, mas elas também achavam que àquela altura qualquer chance valia. De qualquer forma, elas não tentaram me impedir com muito afinco. Resolvi pôr o plano em andamento no dia seguinte.
Quando subimos para dormir, fiquei esperando até o fim da tarde. Não achei que faria muita diferença estar ou não escuro, mas seria arriscado para mim sair na floresta no meio da noite, sem poder ver nada. Esperei até algo um pouco antes do pôr-do-sol, quando todos nós já estávamos em nossos quartos, esperando para adormecer. Vi um par de sentinelas passar e esperei um pouco até que tivessem se afastado, mas antes que o próximo par estivesse se aproximando. Quando vi minha chance, abri a pequena janela retangular e me espremi para fora.
A janela de baixo estava aberta, e a pequena diferença de altura entre os andares me deu um apoio pelo qual subir no muro. Eu estava fora.
Porém, assim que pisei lá, ouvi a comoção. Os sentinelas me viram quase instantaneamente.
Antes que chegassem perto, olhei para fora.
Do lado de fora do muro, só havia árvores magras e secas, quase todas mortas. Elas eram muito espaçadas, de forma que aquilo mal oferecia uma cobertura nas primeiras centenas de metros, antes que elas se tornassem mais próximas e o amontoado de galhos bloqueasse parte da visão.
Eu poderia ter pensado que a árvore não aguentaria meu peso, mas não havia tempo para hesitar. Agarrei-me a ela e desci tão rápido quanto pude.
Assim que meus pés tocaram o chão, saí correndo. Ouvi tiros atrás de mim, atingindo o chão próximo aos meus pés. Corri em zigue-zague, pois tinha ouvido que aquilo ajudava, mas isso me deixava simplesmente lenta demais.
Então, de repente, um pensamento brotou na minha cabeça. Dei um forte pisão para simular um impacto e me joguei no chão.
Assim eu fiquei, imóvel. Como imaginei, depois de mais alguns tiros muito próximos de meus ouvidos, os sentinelas começaram a parar. Eles achavam que eu tinha sido atingida.
Eu sabia que não conseguiria fingir por muito tempo e tive medo de que enviassem alguém para verificar, então ignorei todas as histórias que tinha ouvido e que gritavam em minha cabeça para que eu esperasse pelo menos cinco minutos. Assim que senti sua atenção se afastar de mim, pus-me de pé e comecei a correr.
Os tiros não recomeçaram.
Logo eu estava longe. Não sei quanto tempo se passou nesse intervalo. Assim que comecei a ver árvores mais altas e firmes, comecei a escalá-las, tentando ver alguma coisa ao longe.
Porém, a realidade logo se tornou clara. Não havia nada.
Eu poderia andar infinitamente, mas no fundo eu sabia que aquela floresta de árvores secas se estendiam para sempre. Se não para sempre, ao menos por uma área suficiente para eu não conseguir atravessar. Eu não tinha recursos nem qualquer coisa que pudesse me ajudar.
Apesar de a coisa mais provável de acontecer a seguir seria eu entrar em pânico, a realidade era tão simples e objetiva que eu apenas a aceitei. Não havia ninguém para ajudar.
Desde aquele exato momento, eu já soube que ia voltar. Talvez não houvesse ajuda externa, mas meus amigos ainda estavam lá dentro.
Porém, eu tinha uma carta na manga. Se tudo desse certo, os adultos não me esperariam de volta, principalmente tão cedo. Com isso em mente, esperei o anoitecer seguinte e comecei a retornar.
Não sei quanto tempo se passou desde que saí de lá até o momento em que voltei. Cheguei ao meu destino em noite alta, e a escuridão dessa vez estaria ao meu favor, pois eu não tinha mais como me perder: o território era familiar. A árvore que eu descera ainda estava lá, e logo tornei a escalá-la.
Esperei o momento certo para subir no muro. E dessa vez, ninguém me percebeu.
Encontrei a minha janela e abri-a pelo lado de fora com um puxão. Me esticando o máximo possível, consegui entrar.
Uma das coisas das quais me lembro mais vividamente foi o momento de meu retorno. A primeira coisa que vi ao entrar foram cinco meninas que eu conhecia bem. Elas normalmente moravam no andar acima do meu. E elas estavam chorando.
Quando a primeira delas me viu, seus olhos se arregalaram. Sua reação chamou a atenção das outras.
A menina que me vira primeiro saltou sobre mim e me abraçou com força, chorando.
— Você está viva! Você está viva! — exclamava ela, com a voz embargada. Instintivamente compreendendo a situação, abracei-a de volta, dizendo "Sim, estou. Estou aqui."
As meninas me contaram que a notícia divulgada foi de que eu tinha morrido. Todos haviam ouvido os tiros e duas das crianças viram o momento em que desabei. O anúncio oficial foi feito na manhã seguinte à minha partida, no horário da contagem — e, ocasionalmente, dos avisos. A mulher foi clara e fez questão de que todos ouvissem bem e entendessem o que acontecia com as pessoas que tentavam fugir. Quando olharam pelo portão e viram que eu não estava mais lá, apenas deduziram que meu corpo havia sido recolhido.
Ouvindo a história, senti um misto de sentimentos. Meu coração se apertou quando soube de tudo pelo que haviam passado, imaginando como eu teria reagido na mesma situação, mas ao mesmo tempo o fato de elas terem sido tão afetadas pela minha perda me deixou extremamente feliz e tranquila, além de mais determinada do que nunca.
Eu não tinha um plano. Na verdade, podia-se dizer que era quase um plano suicida, embora morrer não estivesse no projeto. Mas eu tinha decidido fazer alguma coisa. Não podíamos mais depender de alguém de fora.
Enquanto eu era atualizada a respeito da situação, as crianças dos outros andares foram avisados do meu retorno. A notícia causou euforia, e nenhum de nós pensou nem por um momento em disfarçar a animação, esperando que os adultos não percebessem o tumulto.
Quando comecei a descer a escadaria em direção ao primeiro piso, fui recebida do mesmo jeito em todos os andares. Eu tinha saído e voltado com vida: para os nossos parâmetros, eu era uma heroína.
Eu já tinha certeza disso antes mesmo de ir embora, mas agora era cada vez mais claro. Eles eram meus irmãos, irmãs, amigos e amigas. Eu era querida ali.
Até que finalmente saí do prédio.
Me escondendo nas sombras da noite, andei até o prédio do meio, onde sabia que a mulher estaria.
O andar visível da construção era praticamente vazio. As paredes tinham uma pintura branca descascada ao extremo, e os únicos móveis eram um esqueleto de madeira de uma mesa velha e algumas outras coisas destruídas antes mesmo de serem terminadas. A escadaria para o andar de baixo estava encostada na parede do fundo.
Eu tinha um plano. Não sei se era um plano racional, mas eu tinha. E não era impossível. Embora se livrar dela não significasse necessariamente se livrar dos outros, ela era a cabeça de tudo. E a mais cruel. Se ao menos pudesse impedí-la, então nós daríamos um jeito.
E finalmente, eu desci o último degrau.
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