Yume - Diário de Sonhos
13 Olhos Brancos (Isabel)
No começo, eu estava atrás do meu quintal.
Meu professor de kung fu estava lá. Eu estava ensaiando uma apresentação. Alguma coisa relacionada a sorvetes de chocolate.
Ao final do ensaio, minha mãe veio falar comigo, e nós duas caminhamos até a parte da frente do quintal.
Assim como na vida real, a varanda da minha casa era em cima da garagem. Se você andasse até a borda e olhasse para baixo, veria dois ou três metros de distância até a rua, mas nesse sonho, a varanda era muito mais alta.
Em algum momento, minha mãe saiu para fazer alguma coisa, e eu fiquei ali, à toa, olhando em volta.
Não sei quanto tempo se passou, mas em determinado momento, eu vi um movimento perto da escada subindo da garagem. Virei-me para olhar.
No começo, eu estranhei. Pela escada, subiam diversas pessoas idênticas. Homens jovens de cabelos castanhos crespos e pele morena. Pareciam ter saído de um seriado de TV que eu às vezes assistia.
Eles olhavam em volta, como se estivessem procurando algo — ou apenas absorvendo a paisagem, mas, por algum motivo, essa segunda possibilidade não me descia.
Então, um deles me viu.
Um arrepio gelado percorreu a minha espinha. No instante seguinte, todos eles estavam me encarando. Somente então percebi que seus olhos eram completamente brancos. Ou quase completamente; havia pupilas, mas elas eram tão pequenas que só tornavam a imagem mais aterrorizante.
De repente, eles começaram a correr na minha direção. Seus movimentos eram antinaturais e eles faziam barulhos estranhos com a boca, como gritos animais esganiçados, mas eram incrivelmente rápidos.
Sem ter para onde fugir, corri até a borda da varanda e olhei para baixo. No mínimo cinco, talvez dez metros me separavam da rua. Era muito, mas a parede era levemente inclinada, e só pude torcer para não quebrar a perna na descida. Saltei por cima da mureta e comecei a escorregar parede abaixo.
Meus pés aterrissaram no chão firme. Pelo que pude perceber, meus tornozelos estavam intactos, mas eu ainda não estava a salvo. Podia ouvir os sons do que quer que fosse aquilo que me perseguia, se aproximando atrás de mim, e não demoraria para que eles percebessem que podiam descer por ali também.
Para onde eu iria? Eles eram muito mais rápidos do que eu, e eu não tinha como saber se eles ficavam cansados. Eu certamente ficaria, se tivesse que fugir por muito tempo, embora naquele momento a adrenalina mascarasse essa previsão.
Olhei em volta. A minha casa era a única alta além do vizinho, que tinha trancas no portão. Além disso, eu não via ninguém.
Nesse momento, um carro passou correndo no meio da rua.
Sabendo que aquela era provavelmente a minha única chance, comecei a gritar por ajuda, balançando os braços acima da cabeça.
Para meu alívio, o carro parrou cerca de dez metros à minha frente, provavelmente assim que me perceberam. Uma das portas abriu-se e uma menina começou a correr na minha direção. Ela parecia ser mais ou menos da minha idade.
Também saí correndo, na direção dela e do carro. Quando ela chegava perto de mim, seus olhos se arregalaram ao ver algo às minhas costas, e percebi que eles estavam chegando.
Juntas, nós corremos de volta até o carro. Ela pulou no assento do carona, enquanto abriam a porta de trás para eu entrar. Já havia outras três garotas lá, mas não havia tempo de eu me ajeitar, então apenas entrei como pude, pedindo desculpas para a menina em cima da qual desabei, e ouvi a porta sendo fechada com força ao meu lado.
Uma das outras garotas era muito pequena, e a outra era enorme. A maior era tão grande que parecia ser uma filha de gigantes. Não pude ver a motorista em detalhes, e a que me buscara, é claro, era mais ou menos do meu tamanho.
O carro acelerou o máximo possível. Virei o pescoço para olhar pelo vidro traseiro e vi as criaturas estranhas ficando para trás. Eles não eram três ou quatro, mas oito homens idênticos, todos com a mesma fisionomia sinistra.
Olhei para frente e vi a garota que tinha vindo me buscar. Ela estava ofegante, os olhos bem abertos por causa da adrenalina.
Isso era óbvio, mas naquele momento se tornou ainda mais claro o fato de que, apesar de ter salvo a minha vida, ela era uma garota comum como eu.
Estendi minha mão para ela, com a palma virada para baixo.
Ela ficou um pouco confusa, mas meio que tentando entender o gesto, ela colocou a dela sobre a minha, e eu coloquei a minha esquerda sobre as duas. Assim, segurei sua mão entre as minhas, tentando transmitir o meu calor e acalmá-la, como se dissesse que, agora, nenhuma de nós duas estava sozinha, e que eu era grata pelo que ela tinha feito.
Ao perceber o que eu estava fazendo, ela colocou também sua outra mão sobre a pilha. E assim ficamos por vários minutos, só nós duas, ofegantes, aliviadas pelo fato de que estávamos vivas.
Conforme elas pegavam um caminho familiar para mim, lá para o fim do meu condomínio, eu vi que os carros começavam a se amontoar.
Como toda vez que eu sonho com esse condomínio, dessa vez, a casa do final era diferente. Ela era uma casa de aparência meio moderna, de dois andares. As paredes eram brancas, e os vidros, quadrados.
Não podíamos nos demorar lá fora. Uma das meninas saltou do carro para destrancar a porta, enquanto eu e as outras descemos do veículo. Não tínhamos tempo de estacionar, então eu apenas empurrei o carro de lado (era mais leve do que eu imaginava) até ele ficar fora do caminho, e entramos na casa.
Lá dentro, havia vários outros jovens e crianças. Parecia ser uma espécie de refúgio temporário.
Os quatro moradores e moradoras originais tinham várias fotos em algumas das paredes. Pareciam ser de uma família rica, mas não sei onde estavam todos os adultos.
Fui recebida rapidamente, e comecei a olhar em volta. Uma das moradoras originais parecia ter sido colega de classe da minha irmã, e tinha algumas fotos com ela na parede.
Assim eu fiquei por alguns minutos, até olhar para a janela e perceber alguma coisa errada.
Não sei como eu soube que tinha algo ali, mas nesse momento saí correndo até ela. Aquela janela era de um tipo que não podia ser trancada se não fosse ligeiramente aberta antes, por causa de algo semelhante a uma maçaneta, e eu sabia que, se colocasse minha mão ali, seria agarrada, então peguei o fio mais próximo e enrolei rapidamente na tal "maçaneta", empurrei um pouco para trás e puxei de volta o mais rápido que pude.
Mas não fui rápida o suficiente. Uma mão assustadoramente pálida enfiou-se pela fresta.
Consegui evitar que ela entrasse inteira ou pegasse o meu próprio pulso, mas agora as pontas de seus dedos bloqueavam a fresta e eu não consegua fechá-la, e temia que, se demorasse muito, mais deles apareceriam. De forma alguma eu conseguiria resistir se houvesse mais criaturas forçando para abrí-la.
Gritei para as outras pessoas da casa. Perguntei se tinha algum garoto ou garota forte que pudesse me ajudar a tirar aquela mão — eu sabia que não conseguiria sozinha, mas tinha medo de que alguém mais fraco do que eu acabaria não conseguindo ajudar e também sendo pego no processo.
A garota que parecia ser uma pequena gigante disse que ia pegar uma coisa para me ajudar, mas depois de vários minutos, ela ainda não tinha aparecido.
Chamei por ajuda de novo. O fio fino como barbante começou a escorregar em minhas mãos. Se demorasse demais, eu não conseguiria segurar.
Nesse momento, um rapaz, o mais velho dos garotos, acho, veio e me ajudou.
Ele tinha cabelos castanhos e braços bem fortes; talvez fizesse alguma aula de esporte. Seu rosto era bastante decidido e confiável, o que me deixou aliviada quando ele me ajudou a forçar a mão para fora e fechar a janela com força.
Quando a menina gigante apareceu, o garoto deu uma bronca nela. Ela tinha se distraído enquanto fazia alguma coisa e esquecido de mim aqui. Aparentemente, ela tinha problemas para manter o foco. Eles começaram a discutir sobre responsabilidade. Em algum momento, lembro de ele dizer "o que você acha que eu sinto sabendo que os mais velhos daqui
têm quase a mesma idade dos mais novos?" Eu não tinha certeza, mas pelo que entendi, ele praticava alguma arte marcial ou tinha se alistado no exército, e seus colegas lá eram praticamente todos mais velhos. Mas ele não dissera aquilo de maneira ofensiva.
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