Yume
1 Único
Era uma manhã escura, com muitas nuvens carregadas e um céu cinza. No país de Fiora, mais precisamente em Magnólia, na Fairy Hills, certa azulada se levantava cedo, com o intuito de ir para a guild encontrar seus companheiros de time.
Jet e Droy moravam num apê próximo à Fairy Tail, então dependendo do horário que saia de casa, passava em seu apartamento e se juntava a eles na caminhada até a aliança, que se mantinha sempre animada. E naquela manhã, por mais frio e nublado que o tempo estivesse, não seria diferente.
A garota se livrou do conforto da própria cama e se levantou, indo até o banheiro, despindo-se e entrando na banheira.
O corpo da mesma pareceu relaxar a ponto de que nem mesmo os olhos castanhos conseguiam se manter abertos.
Acabou cochilando por curtos minutos, mas despertou ao se engasgar com a água que entrou pela boca.
– Eu tenho que parar com essa mania de tomar banho de banheira quando acordo... Eu ainda morro afogada por causa disso. – murmurou-a, tentando gravar aquilo em sua mente.
O papel amarelado foi pregado com a frase “Sem banhos de banheira quando estou com sono”. Assim ela não poderia esquecer.
Saiu do banheiro, vendo a neblina calorosa – devido à água quente – se dissipar ao entrar em contato com o ar de temperatura ambiente do quarto.
Indo até a cômoda, ela separou um short branco e curto; uma blusa listrada em azul celeste e branco; as roupas íntimas e um arquinho preto com um laço.
Vestiu-se rapidamente, tomou seu café – que fora constituído por uma pequena porção de salada de frutas e um copo de suco de laranja – e saiu, levando consigo um guarda-chuva amarelo.
Checando a hora no relógio de pulso, ela parou em frente ao prédio dos outros componentes do trio Shadow Gear. Eles não a esperavam na porta – como de costume – naquela manhã. Ou queria dizer que eles foram mais cedo, algo que era um pouco impossível em plena às oito e meia da manhã; ou eles ainda estavam dormindo.
A baixinha subiu as escadas e entrou no prédio, passando pelo pequeno hall e subindo mais dois lances de escadas até estar na porta com o número B13 gravado.
Bateu de leve na madeira – uma vez que o apartamento não possuía campainha – e esperou que a porta se abrisse, revelando o sempre sorridente, Jet, e o comilão, Droy. Nada...
Tentou girar a maçaneta, mas estava trancada.
– Estranho... Eles nunca saem sozinhos antes das nove... – murmurou-a consigo mesma.
Ignorando o fato, ela se afastou e desceu as escadas com pulinhos – bem como uma criança de oito anos faz – e logo saiu do prédio, inalando o ar puro que previa chuva.
Caminhou em passos curtos e lentos até a guild, para encontrar, lá, Jet e Droy dormindo juntos em uma mesa no canto.
Provavelmente, não haviam sequer voltado para casa depois da festa da noite anterior.
Seguiu até o balcão, cumprimentando a Lissanna e a albina mais velha por detrás do balcão.
– Ohayo, minna! – disse-a, sentando-se ao lado de Lissanna, logo mergulhando na conversa das duas e esquecendo-se de todo o resto.
Horas depois, quando o sino da igreja de Magnólia já havia tocado, sinalizando que já passava do meio dia, Jet e Droy acordaram e foram até o balcão, tomaram um copo de água cada um e então se afastaram, sem ao menos dirigirem alguma palavra à maga de solid script.
– O que eles tem? – perguntou ela para as albinas.
– Ou estão com uma ressaca das feias, que chegam a causar mau humor... – a albina mais nova sugeriu e deixou que a conclusão fosse feita pela irmã.
– Ou estão chateados com algo. – disse-a.
– Eles beberam muito? – perguntou a mais baixa. – Até porque... Jet e Droy não são do tipo que guarda mágoas.
– Eles beberam uma quantidade razoável para um mago da Fairy Tail. – brincaram as albinas, rindo e Levy as acompanhou.
– Vou ver o que eles tem... – informou-a para ambas as garotas ali presentes. – Sei que tem algo errado...
Então a mesma seguiu para a mesa onde estavam os dois. Eles conversavam em murmúrios curtos e baixos, sem sorrisos, brincadeiras... Nada. Nem mesmo Droy – que era Droy – tinha o costumeiro saco de batatinhas chips em mãos.
– Quantas vezes terei que dizer para que não bebam tanto? Só porque Cana aguenta, não quer dizer que devem tentar... Não sei nem como aquela mulher ainda não entrou em coma alcoólico. – brincou-a, sorrindo para os dois e se sentando com eles, que viraram a cara. – Aconteceu algo?
– E desde quando se importa? – murmurou Droy, mal humorado.
– O que? É claro que me importo! – disse Levy, se defendendo de tal acusação. – Vocês são meus nakamas...
– Não é o que parece... O time Shadow Gear nem mesmo existe mais. – disse o ruivo.
– Como não existe? – exclamou-a, surpresa com tal fala vinda de Jet.
– Você não tem mais tempo para a gente... Só sai em missões com Gajeel desde que voltaram da ilha Tenrou.
– O que vocês estão falando? É claro que saio em missão com vocês! – disse ela, começando a ficar magoada e se ofender. Como podiam eles – como seus amigos de infância – dizerem tal absurdo?
– Não, Levy! Você só se importa com ele agora... Não liga mais para nós. Só-para-ele. – Jet disse, quase soletrando. – Talvez seja hora de admitir que não se importa com o Shadow Gear, desde que possa ficar com seu amado Dragon Slayer de Ferro, Gajeel!
– O que vocês estão dizendo? – berrou-a. – Sabem que eu nunca seria capaz de tal absurdo! –disse, tentando controlar a voz – o que não era nada fácil com tais insultos à sua fidelidade e amizade. – Vocês são meus amigos, nakamas... Irmãos!
Uma pontada de desapontamento pareceu atingir ambos.
– Pois não aja como se não tivesse consciência! Não aja como se nós não a amassemos, porque sabe que amamos! Sabe que o que sentimos por você não é amor de ir...
– Chega! – gritou-a, interrompendo o que quer que Jet pudesse dizer depois daquilo. Ela tinha consciência. Oh, se tinha, mas não podia, em momento algum, dar esperanças a eles para algo que nunca aconteceria. Ela os via como irmãos. Nada mais que isso. Até por que, em uma coisa eles estavam certos... Ela amava Gajeel... Um amor puro, que renascia todas as manhãs. O amor que nascera de um ódio incontestável e que se transformou num afeto mútuo e consciente no dia em que ele a salvara. E em todas as vezes que tal ato se repetiu.
Ela apenas se levantou e saiu da guild, com lágrimas escorrendo pelo pequeno, fino e pálido rosto da garota inocente que agora caminhava pelas ruas secundárias desertas da cidade.
O clima na guild ficou estranho depois de que todos testemunharam a primeira briga entre Levy – a garota que lembrava mesmo uma fada com toda a gentileza, beleza e meiguice – e os companheiros de time da mesma Jet e Droy – os elfos que faziam de tudo para proteger sua adorada rainha, a mulher que amavam com todas as forças.
* * *
Sentindo a brisa fria e algumas gotas finas da chuva que previra, Levy se encolheu e percebeu que esquecera o guarda-chuva na guild. Apenas o casaco para protegê-la do frio e chuva.
Encontrava-se em um estado deplorável. Lágrimas ainda inundavam a face, escorrendo e pingando na roupa encharcada; o short branco não estava mais branco, ficara um tanto quanto sujo quando caíra – ou jogara-se – na calçada, aos prantos e cansada.
Os pés imploravam por mais descanso, mas dissera a si mesma que não pararia até que estivesse em um lugar tranquilo e longe de casa.
Escolhera a floresta, por ser calmo e exclusivo. Cada cantinho tinha seu próprio aroma e suas próprias características. Era exclusivo, porque Levy tinha seu próprio canto... O lugar onde sempre ficara quando estava triste.
A antiga casa de sua família. Lugar onde passou temporadas com os avós, mas que acabou derrubada por uma tempestade cerca de dez anos atrás.
– Baixinha? – Levy quase pulou de susto ao encontrar o homem alto e de cabelos negros atrás de si. Ele sorriu para ela, quase como se a compreendesse.
Tudo o que conseguiu fazer fora retribuir o sorriso com um mais falso, porém belo, que conseguiu.
A beleza estancada nele não provinha dos dentes claros moldados pela boca perfeita – ao menos era assim vista pelo Dragon Slayer – e pelo rosto perfeito, mas pela força que ela tinha para esconder as lágrimas e sorrir tão abertamente.
Era um sorriso falso, mas belo. Um sorriso que ele queria com todas as forças para si.
– Gajeel... – suspirou-a. – Oh, Gajeel! – ela o surpreendeu, jogando-se em seus braços e o abraçando.
– E-ei, o que houve? – perguntou-o, uma vez que não estivera na guild para ver a discussão.
– Eles disseram coisas horríveis... Eram tão horríveis! Disseram que eu os havia deixado por você! Disseram que meu amor por você estava estragando tudo! Disseram também que... Eles disseram coisas horríveis! – lamentou-a, nem se dando conta do que acabara de dizer.
– S-seu amor... Por mim? – murmurou-o atônito.
– E-eu... – ela se afastou, sem coragem para olhá-lo nos olhos.
– Então a baixinha me ama? – brincou, voltando à pose arrogante de sempre.
– Eu... Me desculpe...
– É bom saber disso...
– P-porque? – perguntou-a, incomodada com o fato de que o mago de ferro se aproximava com um sorriso provocante nos lábios.
– Me deixa mais tranquilo para fazer isto. –sussurrou-o, colando os lábios nos seus.
Levy fez questão de envolvê-lo em seus braços pelo maior tempo possível, sabendo que aquilo não duraria muito, pois conhecendo-o como conhecia, sabia que logo ele faria alguma piadinha.
– Eu te amo, pirralha. – sussurrou-o em seu ouvido, abraçando-a.
Pirralha? Gajeel nunca a chamara de pirralha antes. Já a chamara de baixinha ou derivados, mas nunca a chamaria de pirralha, porque não era tão nova assim.
Foi olhando nos olhos dele, que os cantos de sua visão começaram a escurecer.
* * *
Levy abriu os olhos, encontrando-se em seu próprio quarto.
– Só um sonho? – sussurrou-a, fazendo esforço para se levantar e então notando o braço que envolvia-lhe a cintura.
Gajeel... Então não fora um sonho... Era realidade... Ela havia beijado-o e agora o tinha consigo?
Conseguiu se levantar – depois de lutar contra o peso do braço do moreno – e foi até a sala, onde se olhou no espelho de corpo inteiro. Ela havia crescido de uns meses para cá. Seus seios – que sempre lhe incomodaram por sua ausência – hoje se mostravam mais exuberantes e ela ganhara corpo. Não só corpo, mas também o homem que realmente amava e um dragão-serpente no pescoço, que brilhava em um cinza-chumbo e se via envolto em uma espécie de luz azul.
Ela se lembrava de como ser mordida por Gajeel havia doído, mas aquilo significava muito... Queria dizer que eles finalmente pertenceriam um ao outro... Para sempre e sempre, até o fim dos tempos, eles seriam um casal feliz.
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