Yuki Spiegel Kronika

3 Capítulo 3: A Falsa Cidade


Notas iniciais
...Com a permissão da autora Josi-sama, pronteeeenho o novo capítulo. =D

Uadarrél? Ei, por que um original está com o negrito indicando disclaimers, tia? Bem, bem, eu queria poder dizer que tudo isso é ‘meutodomeu’, mas não, seria mentira... Entretanto, se eu ficasse citando cada autor e cada cria que lhe pertence, isso tomaria todo o espaço da história, então... Saibam que os autores em questão estão devidamente cientes e concordaram (bastante sóbrios) com a idéia. XD






La dagen fa sin hvile na...


O mundo parecia cada vez menor, cada vez menos mundo, encolhendo-se em si mesmo como uma criança assustada, enquanto ia tingindo, inocentemente, o céu de tons carmesins brilhantes. Os olhos, um misto exótico do marrom com um estranho vermelho, como se fosse um tronco de alguma árvore antiga a chorar lágrimas solitárias de sangue, apenas traçavam a nuvem negra que redesenhava o céu, como se o partisse em dois.



...Og natten vil vake for den...


Muito em breve, aquele mundo iria fechar-se. Iria engolir-se e desaparecer para sempre em meio às dimensões. Deixaria de ser Morken. E ela, juntamente, deixaria de ser o que era. Tornar-se-ia apenas uma peça remanescente do tempo que tão impiedosamente recolhia suas fantasias, baixava as cortinas e despedia-se de mais um grande espetáculo. Ela sabia que, ao contrário daquelas pessoas, jamais morreria. Para sempre estaria condenada a andar sobre o nada, respirar o nada, contentar-se com o vazio absoluto.



...Sa nate kan fode en dag...


Esperava pacientemente que tudo explodisse em uma escuridão absoluta, que todas as regras servis e todo o ‘eu’ que construíra ali desaparecesse junto com aquele mundo. Mas nada daquilo aconteceu... Invés disso, uma pessoa caminhou calmamente até ela. Baixou a mão, como se a ignorasse totalmente, e tirou de um dos corpos indiferentes um fragmento brilhante.



...Nocturne.[1]


Analisou-o, girando-o por entre os dedos pálidos e experientes, sem esboçar qualquer emoção que pudesse trair-lhe o rosto. E perguntou, depois de concluída sua missão, muito tempo depois de ter sido apenas observada pela remanescente imortal: “Tem certeza de que quer ficar aqui?”.






YUKI Spiegel Kronika
Petit Ange




Capítulo 3.



[ ... ].


Depois do momento em que o vampiro Mausi abriu os olhos, pouco entendeu acerca sua própria situação e atual localização. Lembrava-se com perfeição do aroma da sala branca, de toda a paleta de cores claríssimas, e até mesmo da aura sagrada e ao mesmo tempo horrenda. E, ao lembrar-se daquela sala, automaticamente vinha-lhe à mente, como uma dança de espadas, o motivo que o levou a estar lá. Um corpo delicado caía em seus braços e seus olhos dourados que, originalmente, eram de um castanho belíssimo, não se abriam mais. Como uma morte perfeita.


O desespero de não ser capaz de fazer nada para ajudá-lo tomou-lhe a mente, minando qualquer outro pensamento consciente. Desespero esse que perdurou por muito tempo, até que uma mensagem dourada com o formato agudo de uma lâmina apareceu e iluminou seu caminho, como uma estrada de ouro. E, quando percebeu, ele estava implorando para seu maior inimigo cuidar do irmão caçula, o ex-príncipe. E estava correndo para o colo da bruxa chamada Mitiko Denwa.


Surpreendeu-se por não estar sozinho. De fato, havia outras duas pessoas com ele naquela sala branca, suplicando a mesma ajuda.


‘Um tritão e um mago’, ela disse.


Amin estava, agora, adormecido no seu castelo, no reino de Feuer. E o vampiro não tinha dúvidas de que Ehre, o irmão, cuidaria muito bem de seu precioso tesouro, que por anos quis ver recuperado. O que lhe preocupava os pensamentos era justamente aquilo: a demora em recolher todos os pedaços de um suposto espelho mágico partido que iniciou tudo aquilo. Seu amante não tinha todo aquele tempo; Mausi era sua “E”.[2] Se demorasse demais, seu pequeno príncipe podia... Morrer.


Sacudiu de imediato a cabeça, afastando qualquer pensamento que pudesse ser levado para esse lado. A Morte não era uma alternativa.


Decidiu, então, prestar mais atenção nos companheiros de viagem, já que passariam o resto da mesma juntos, de acordo com a Arael Magister. Eram dois rapazes altos e distintos. O primeiro era o mais alto de todos, aparentemente. De roupas brancas e detalhadas em azul-escuro. A capa branca tremeluzia como a luz de uma vela ao sabor do vento, e o cajado dourado com a esfera rubicunda era, aparentemente, a “bússola” para que achassem os fragmentos. Ele tinha olhos dourados como os seus. Mas eram orbes gentis; a figura inteira daquele mago exalava um quê de tranqüilidade.


Estando ao lado dele, o outro rapaz parecia ainda mais antônimo. Também era alto (aparentemente, Mausi era mesmo o mais baixo dali), de cabelos loiros e leves. Vestia o que parecia ser um uniforme militar azul de detalhes e acabamentos que misturavam o preto e o dourado. Algumas coisas, talvez, nunca mudassem, até mesmo em outros mundos. O vampiro não sabia explicar porquê, mas tinha certeza, tanto pelas roupas quanto pela postura, a espada e os gestos, mesmo bruscos, que aquele era um soldado. Seus olhos eram uma mistura exótica e indefinida de ouro e âmbar, e os mesmos encaravam a paisagem à sua frente, a sobrancelha arqueada indicando estranheza.


Notava com uma sensação levemente irônica que as roupas dos dois indicavam que vinham de locais frios. Mausi também podia, é claro, dizer que vinha de um lugar assim, por suas vestes, apesar de Feuer ser um reino bastante quente, se comparado ao reino de Wasser[3], por exemplo.


“Bem...” – a voz calma do mais velho de branco foi ouvida, então. – “Parece que estamos mesmo em outro mundo, como disse a senhorita Arael Magister.”


“É mesmo. Nem dá pra acreditar que tudo isso tenha mesmo acontecido...” – comentou o outro, o soldado loiro.


“De acordo com a Arael Magister, a pedra indicaria a presença de um fragmento.”


Os três encararam a mesma. Como o vampiro tinha visto antes, a esfera avermelhada brilhava como se fosse um diamante iluminado pelo sol. Lembrava-se de ter ouvido qualquer coisa sobre quanto mais forte a luz, mais próximo ou mais forte era a energia que o pedaço emanava. Estava mesmo mais preocupado com Amin para ter ouvido devidamente as instruções (o que era lastimável, pensando agora).


“Acho que nossa viagem realmente está começando agora...” – suspirou Mausi.


“Sim. Vai ser difícil, mas vamos conseguir.” – os olhos dourados do mago estreitaram-se num sorriso. – “Afinal, somos um grupo tão curioso.”


‘Um vampiro, um tritão e um mago’, dissera a bruxa.


De fato, um trio altamente confuso.


“Bem... Aparentemente, devemos seguir o sinal desta pedra.” – o aparente mais velho disse, depois de um breve silêncio. – “Vamos seguir pelo noroeste. O sinal fica mais forte vindo de lá.”


“Certo.” – assentiu o vampiro.


Não havia clima algum para conversas amenas, Mausi sentiu. E, mesmo se houvesse, dedicar-se-ia a pensar, recluso em seu mundo particular. Por mais que sentisse que devesse fazer isso para não se ferir por se distrair ou mesmo para não perder a calma, era difícil não pensar em Amin.


Eles andaram por muito tempo, sempre seguindo a luz tênue.


E quando enfim o sol começou a se pôr, desaparecendo por entre as colinas verdejantes, a floresta onde estavam começou a ficar subitamente escura e inóspita, como se os galhos retorcidos os quisessem abraçar. Neste momento, decidiram que era hora de acampar providencialmente.


O soldado loiro ficou responsável por achar algum animal da floresta ou pelo menos frutas ou cogumelos, enfim, coisas comestíveis. Mausi também quis ajudar, e o mago pediu-lhe, então, que procurasse boa madeira para fazerem uma fogueira. Quando o vampiro voltou, coisa que não demorou nem um pouco, graças aos dons vampíricos de agilidade impecável e olhos de águia, aquilo tinha mesmo a aparência de algum acampamento improvisado, daqueles nos quais não foram poucas as vezes em que achou suas vítimas, na Floresta das Brumas.


Usando-se de magia, o mago acendeu o fogo e, logo, o crepitar das chamas enchia ainda mais a mata densa e escura de sons.


Com coelhos sobre os ombros, o outro chegara a tempo, sorrindo num contentamento velado de quem fica satisfeito com pouco ao divisar a luz dourada do fogo, enquanto o mesmo lhe aquecia as faces. Com os gravetos mais fortes que encontraram, logo a carne estava assando, e eles esperavam pacientemente a refeição.


“...Seu nome é Souma-san, não é?”


Tanto o vampiro quanto o tritão foram despertos da distração que embalava a espera tortuosa por comida.


“S-sim, sou eu.” – ele respondeu, surpreso.


O mago sorriu. – “Que bom, ainda lembro-me da senhorita Denwa falando seus nomes. Você é Mausi-san, correto?”


“Está certo.” – assentiu o loiro. – “Perdoe-me, você é...?”


“Chamo-me ‘Nami’, muito prazer.” – inclinou a cabeça, respeitosamente. – “Apesar das circunstâncias.”


Além de gentil, aparentemente, o tal Nami tinha uma excelente memória. O loiro começou a achar, em alguma parte de si, que aqueles companheiros de viagem não seriam, de todo, apenas mais obstáculos em seu caminho.


“Enfim, Souma-san, enquanto caçava, o senhor achou algum lago ou algo do tipo? Precisamos nos banhar e, numa floresta, só resta-nos esta opção.” – explicou, mexendo com um graveto na madeira que queimava na fogueira improvisada. – “O senhor também, Mausi-san, não achou nada?”


Souma sacudiu a cabeça, suspirando pesadamente.


“Também pensei nisso, e até procurei, senão teria voltado mais cedo. Sequer ouvi o som de água correndo. Por aqui, não há nada.”


“Minha audição teria captado se houvesse qualquer traço líquido nas redondezas.”


“...Entendo.” – o rapaz dos cabelos brancos também suspirou. – “Então, estamos mesmo dentro da floresta.”


Mausi deu de ombros. – “Não adianta lamentarmos. Amanhã, caminharemos um pouco mais e, quem sabe, acharemos água. Apenas temos que nos manter firmes.”


“...E evitar a desidratação.”


E, enfurnados em florestas densas que abrigavam nada mais do que o verde e o som dos pequeninos animais e deixavam entrever apenas um céu índigo maculado de tantas estrelas brancas que até pareciam a própria cor da noite, eles sabiam que não conseguiriam manter-se com aquela moral toda por muito tempo.


“Parece que terei mesmo de fazer aquilo...” – Nami disse, pesaroso.


“Aquilo...?”



[ xXxXx ]


Uma capa vermelha e botas num tom um pouco mais escuro da mesma cor faziam uma trilha, junto com cintos e detalhes, e enfim, o conjunto negro que compunha as vestes do vampiro primordial Mausi: tudo estava no chão. Mais à frente, as roupas brancas e a capa, tudo meticulosamente dobrado, do mago Nami, juntamente com o báculo dourado. O soldado Souma permitiu-se se despir mais próximo à fonte, mas sua vontade era ter feito como Mausi e ter simplesmente mandado tudo às favas quando viu água quente e a promessa de um ótimo banho.


“Nami-san, você é demais!” – o soldado sorria de orelha a orelha, totalmente esquecido da estranheza por estar ali.


“Estou de acordo. Agora, eu realmente agradeço por termos um mago tão talentoso assim conosco.” – Mausi assentiu. – “Uma fonte termal no meio da floresta!”


No reino de Feuer, até mesmo no território do lorde Hessen, que agora era dele, existiam algumas fontes termais (apesar de não serem famosas como as dos reinos mais gélidos, onde as fontes eram literalmente no meio de verdadeiras campinas de gelo). Geralmente, as daquele reino eram nas montanhas. A raríssima exceção que havia nas terras do castelo foi bastante usada pelo vampiro. Ainda mais depois da vinda de Amin; ele tinha uma legítima paixão pelas águas quentes.


E o loiro sequer pôde conter um sorriso ao lembrar-se, com uma nostalgia melancólica, de como ele também se apaixonou por aquele lugar, assim que passou a freqüentá-lo junto com o amante.


“Essa magia exaure muito, mas... Fico feliz que tenha valido a pena.” – Nami sorriu-lhes, aparentemente também relaxado por um banho daqueles.


Na verdade, ainda era bastante assustador lembrarem-se do fato. Depois de terem jantado devidamente, o mago avisou que criaria um lugar para que pudessem tomar banho sem nenhuma preocupação.


E, recitando algumas palavras mágicas, possivelmente na língua-mãe dele, o mago branco fez nascer, como num espetáculo de alquimia, praticamente do nada, aquela fonte, aquela água quente e perfeita. E fez nascer um imenso sorriso na boca do vampiro, que foi o primeiro a querer conferir de perto se aquilo era mesmo real.


“Realmente, devemos nossa vida a você!” – e o pedido de desculpas de Souma estava embutido no elogio.


“Ora, o que é isso... É um prazer ajudar.” – ele respondeu, polidamente.


Deixando que um longo e satisfeito suspiro escapasse dos lábios, o loiro descansou a cabeça na relva, e encarou o céu cheio de estrelas.


“...Olha só isso. A noite aqui é tão pura.” – comentou, distraído. – “Lá no meu reino, não têm tantas estrelas assim.”


Nami, então, também passou a encará-las.


“A noite daqui é mesmo muito linda.” – concordou. – “Há tantas estrelas que tudo fica iluminado assim mesmo sem lua.”


Mausi, em um silêncio recolhido, também deixou que a água quente relaxasse os músculos exaustos. Uma sonolência abatia-se sobre sua mente, cobrindo os pensamentos com uma conhecida sensação de nebulosidade.


“...Em meu reino, Feuer, também existe uma fonte termal na floresta onde moro.”


Pois senão, em outras situações, ele jamais teria falado sobre aquilo com estranhos que conhecera... ‘Hoje’, considerando seu próprio tempo.


“Mausi-san mora em uma floresta?” – o mago pareceu subitamente interessado.


Mesmo que estivessem dividindo o banho, numa intimidade gritante, uma vez que, poucas horas depois que se conheceram já estavam até se desnudando (mesmo que fosse uma situação inevitável), o vampiro ainda se mantinha cauteloso.


Porém, naquele momento, viu que, agora que já havia incitado a centelha da curiosidade, teria mesmo que apagá-la.


“Bem, não é exatamente minha propriedade, mas... É um bom lugar.” – explicava, enquanto enchia a mão de água e despejava-a pelos ombros tensos. – “Um castelo imponente, muito bom. Sou um tanto recluso, já que o mesmo é cercado por uma floresta, digamos assim, um tanto quanto proibida... Mas enfim, existe mesmo uma terma por ali. Tão agradável quanto esta.”


“Ah, parece tão divertido!” – ele sorriu, ao fim da explicação.


“Nem tão divertido assim...” – na verdade, era bastante desagradável. Como grande parte dos fatos de sua vida. Mas aquilo já era passado.


“Também venho de um reino. Mas lá neva o tempo inteiro. O clima é glacial e tudo o mais, sabe...” – Souma comentou, aproveitando o assunto estabelecido. – “Mas existem fontes termais no meio da neve. Nunca visitei nenhuma, só ouvi falar delas, mas são atrações principalmente para pessoas em lua-de-mel.”


Estranhamente, esta última oração saiu como um resmungo irritado da boca do soldado de olhos âmbares.


“Mesmo?” – e Mausi não conteve um riso. – “Mas que coisa! No reino de Wasser, não tão longe assim do reino onde vivo, também tem um clima glacial com fontes termais que servem para diversão dos recém-casados. Será que é sempre assim?”


“Mas, afinal, é até meio romântico mesmo...” – Nami concluiu, depois de parecer pensativo a respeito.


Souma ergueu a sobrancelha de novo, olhando para os dois rapazes com ele.


“Isso soou tão mal...” – disse, enfim.


Nami riu. – “Ah, mas isso é algo totalmente diferente! Na verdade, o clima entre nós pode ser qualquer coisa, menos romântico, nesse momento!”


“É, eu concordo!” – o loiro deu de ombros.


Mausi abriu, então, um sorriso altamente cafajeste. Encarou o soldado de cima a baixo, até onde a água (que, infelizmente, não era transparente) permitia, e meneou a cabeça lentamente.


“Bom, eu não acharia nada ruim ter um clima romântico com você... Soumazinho.”


“...Que?” – e o rosto contorceu-se num asco surpreso.


“Ora?” – Nami pareceu ainda mais curioso depois daquilo.


“...Ei, Nami-san, essa água que você deu pra gente beber tinha alguma magia estranha, tipo, parecendo cerveja?” – e, enquanto perguntava, o rapaz foi discretamente se afastando mais do outro.


“Não que eu saiba...” – o outro disse.


O vampiro conteve-se para não rir alto. Ao invés disso, deixou-se apenas sorrir.


“Brincar com você é tão divertido, Soumazinho.” – repetiu o apelido infame. – “Apesar de eu ter falado sério, de certa forma.”


O constrangimento do outro era palpável.


“E-eu... Eu acho que já vou indo. Estou com sono e precisamos acordar cedo amanhã e continuarmos viagem.” – ele dizia, já pegando a toalha improvisada que estava em cima de suas roupas (realmente, a magia de transmutação de Nami era uma dádiva!) e enrolando-a à cintura, em seguida pegando suas vestes.


“Boa noite, Souma-san.”


“Sonhe comigo, Soumazinho. ♥”


Tão logo o soldado desapareceu dali, quem sabe para ter um colapso nervoso e morrer de vergonha sozinho, os outros dois riram-se, sem conseguirem mais se conter.


Porém, pararam de rir segundos depois.


“...Há alguém aqui.” – Mausi declarou, sério, virando o rosto para o lugar na floresta onde eles estavam, onde o fogo ainda crepitava.


“Devemos ajudar Souma-san.” – o mago concordou.


Não houve tempo.


Tudo que viram diante de si foi um borrão que desceu dos céus como um raio negro. E, em seguida, o silêncio.



[ xXxXx ]


Foi acordando aos poucos, acostumando-se com a luz do sol que atravessava as janelas do castelo sem nenhum pudor.


Estranho... Onde deviam estar as pesadas cortinas que impediam a luz?


Mausi esfregou, sonolento, os olhos, contendo um bocejo preguiçoso. Os séculos passavam e ele ficava cada dia mais assim. Daqui a pouco, chamar-se-ia de velho! Quem sabe, vampiros também hibernassem...


Ao menos, seria uma explicação decente e, principalmente, honrosa para aquela exaustão toda que sentia.


Virou-se. Ao seu lado, dormia placidamente um rapazinho.


Os cabelos castanhos e um tanto compridos espalhavam-se pelo travesseiro, contrastando com a pele branca como os lençóis. Uma visão tão tentadora que o vampiro não conseguiu conter-se: tocou o rosto daquela criatura, apenas para percebê-la real, e não algum sonho, como imaginava.


E então, os olhos daquele pequeno também se abriram, confusos. Eram dourados e belos, como os dele.


‘Oh...’ – sussurrou ele. – ‘Bom dia, Mausi.’


O loiro lembrou-se, subitamente, como se aquelas palavras fossem a senha para o paraíso: ele já não estava mais sozinho. Já não era mais infeliz.


‘Bom dia, Amin.’ – sorriu.


‘Aconteceu alguma coisa? Que cara é essa...?’ – a voz era rouca e delicada, como uma carícia.


Mausi tocou-lhe o rosto, deslizando os dedos pela pele aveludada.


‘Estava pensando em como é perigoso acordar assim, ao seu lado... Por um instante, achei que havia morrido e você era um anjo.’


Amin riu deliciosamente. – ‘Seu bobo.’


Fustigado por aquele súbito sonho, Mausi desejou ardentemente que ele se tornasse realidade. Quis, naquele ínfimo instante, acordar outra vez ao lado de Amin, poder tocá-lo e ouvir sua voz, sentir o corpo quente embaixo dos lençóis. E perceber, com um susto que se dissiparia no mesmo instante para dar vez ao alívio, que aquilo fora só um sonho desagradável e bastante criativo, tinha de admitir.


Mas aquilo nunca aconteceu. O vampiro abriu os olhos e viu-se amarrado fortemente por cordas nos pulsos e nos tornozelos. Estava jogado ao chão, enquanto o mesmo gelava-lhe o corpo. Imaginou se estava ali desde aquela noite, quando foram pegos enquanto se banhavam.


Graças aos céus era um vampiro shinsou, ou certamente teria morrido de frio ou, ao menos, pego uma gripe memorável.


Lembrando-se, então, dos companheiros de viagem, desviou os orbes, procurando a presença deles pelo local. Encontrou-os mais à frente, desacordados. Estavam apenas de toalha. Assim como ele.


“Nami-san! Souma!” – chamou-lhes, olhando ao redor em seguida.


O outro loiro foi o primeiro a despertar, num sobressalto típico para alguém com o treinamento e a lembrança que tinha. Tateou a espada, mas percebeu-se desnudo, com a arma muito distante de seu alcance e com as mãos e pés atados.


“Mas o que... Mausi, o que aconteceu por aqui?” – perguntou, também analisando o ambiente, tentando reconhecê-lo.


“Fomos capturados.” – ele disse o óbvio. – “Mas... Não entendo.”


“Foi tão rápido que eu sequer consegui reagir...” – ele concordou, tão surpreso quanto o vampiro pelo fato.


“Não era uma pessoa normal.” – Nami falou, enfim, depois de ter recobrado, às duras penas, as memórias dolorosas sobre a noite passada. – “Desconheço se, neste país, todos são assim, mas aquele que nos rendeu não era um simples humano...”


Souma estremeceu de frio, derrotado.


“E o pior: nos rendeu do pior jeito.” – com os olhos, indicou o estado deles.


“...De fato, estamos totalmente indefesos.”


Nami olhou ao redor. – “Não estamos sendo observados.”


Tanto o soldado quanto o vampiro, ao ouvirem o mago falar aquilo, relaxaram o corpo e entreolharam-se, como num acordo tácito.


“...Isso são apenas cordas.” – Souma parecia incrédulo. – “Nami-san pode simplesmente sumir com elas, eu posso me soltar sem problemas e o Mausi... Bem, o Mausi pode fazê-lo ainda mais rapidamente.”


“Exato, mas como vocês sabem, não devemos nos precipitar.” – o rapaz de cabelos brancos respirou fundo. – “Não sabemos como este país é ou mesmo quem nos prendeu... Precisamos fingir desamparo neste momento.”


O vampiro loiro continuava encarando o lugar onde estavam, neste meio tempo, enquanto ouvia os outros dois discutirem as hipóteses.


“Parece que isso aqui é uma barraca.” – ele comentou, enfim.


“Além disso, dá pra ouvir movimentação lá fora.” – Souma completou, também já tendo notado aquele detalhe.


“...Será que fomos pegos por soldados de um acampamento?”


“Faz sentido.” – concordou Mausi. – “Devem ter achado que invadimos seu território como assassinos ou ladrões, e pretendem nos punir.”


As aulas de História antiga pareciam cruzar a mente do tritão, repentinamente, com uma força que só podia ser comparada à de alguém que se choca, por exemplo, a algum trem em movimento.


“...Não importa quantas opções temos, o destino para ladrões ou assassinos capturados nestes casos é sempre amargo.” – disse, enfim.


“Poderíamos simplesmente fugir...”


“...Mas não é aconselhável angariar inimizade com o povo deste país.” – Nami entendeu a questão.


“Vamos fazer o quê? Nos entregar pacificamente ao castigo de nos decepar uma mão, cozinhar nossos corpos ou pior?”


“Negociar.” – o vampiro suspirou. – “Precisamos de uma história convincente.”


“...Quando sequer sabemos quem nos capturou.” – Souma resmungou.


“Vamos esperar.” – Nami tranqüilizou-o. – “Certamente, não nos deixariam sozinhos por muito tempo. Nem que seja para nos vigiar, alguém aparecerá logo.”


“Sabe o que me deixa mais irritado...?”


“Hum?”


“...Eles sequer deixaram nos vestir.” – gota.


Neste momento, Mausi deixou um sorriso triunfante e malicioso ao mesmo tempo, bastante perturbador, de fato, brotar nos lábios.


“Pois, para mim, está sendo ótimo.” – admitiu. – “Poder vê-lo assim, seminu e totalmente rendido, Soumazinho... Até está me dando idéias, na verdade...”


“Argh!...” – o soldado estremeceu. – “Pare com isso!”


“Você provavelmente não sabe, mas... Eu sou bi.” – confessou, tentando aproximar-se, como podia, do outro loiro. – “E senti-me atraído por você desde a primeira vez que nos vimos, lá com a Arael Magister.”


“Tô falando sério, pare com isso já!” – bradou outra vez.


“Se eu não estivesse amarrado, pularia sobre você, indefeso assim, agorinha. ♥”


“Nami-san, socorro!...” – vendo-se sem saída a não ser implorar por sua vida, Souma tentou arrastar-se para mais perto do mago, que apenas sorria.


“Ora, Mausi-san, pare de traumatizar o pobrezinho...” – ele falou, num tom de quem tenta manter a ordem (sem muito sucesso, aparentemente).


Ele fez um beicinho. – “Ah, mas agora que ficava divertido ver a cara dele!...”


Um som os fez desviarem a atenção para a abertura da tenda, que se abriu, permitindo que uma figura entrasse ali.


A pessoa que havia entrado era um rapaz de aparentes dezoito anos. Tinha os cabelos loiros e sedosos, até a altura dos ombros, com franjas compridas caindo-lhe harmoniosamente sobre o rosto. Enquanto ele caminhava, dirigindo-se até os prisioneiros, os fios dourados esvoaçavam, leves como asas de pássaros. Os olhos eram azuis e límpidos, num tom de quando o céu é puro e calmo.


A aparência era tipicamente caucasiana. Trajava uma calça e botas negras e uma camisa branca e leve, entreaberta, de mangas compridas e largas, que afinavam apenas ao chegarem no pulso.


“Boa tarde.” – cumprimentou-os, polidamente, com uma voz calma.


Nami devolveu-lhe o cumprimento, sorrindo.


Mausi e Souma ergueram a sobrancelha; aquela placidez que os envolveu foi tão estranhamente certa que eles até ficaram com medo.


“Pediram para que eu viesse inspecioná-los.” – disse, em seguida. – “Estão bem?”


“Bom... Se estar bem é ficar assim, seminu, rendido e tudo o mais... É, acho que estamos, não é?” – o vampiro sorriu, cinicamente.


“Eu sinto muitíssimo por isso.” – o rapaz loiro baixou os olhos. – “Recebi ordens para capturar os estranhos que estavam rondando nosso acampamento. Sequer dei-lhes a chance de se defenderem. Foi covarde e peço perdão, porém...”


“Ordens? Acampamento...?”


E, repentinamente, Souma teve um lampejo de idéia.


“...Quem é o seu senhor?” – perguntou, cautelosamente.


“O barão Trent.[4]”


“Barão, é...” – o tritão repetiu.


Tanto o mago quanto o vampiro tinham suas dúvidas quanto o método de Souma de conversar com aquele estranho, mas resolveram ver até onde ele podia ir.


“Receio que seu senhor esteja cometendo um engano. Não somos meros camponeses ou mesmo civis, apesar de não termos nenhuma comitiva conosco. É uma longa história, na verdade...” – suspirou, imprimindo um tom estranhamente teatral, para os que já o conheciam há mais tempo. – “Uma história que merece ser contada ao seu barão, para que ele nos solte já.”


O loiro misterioso ergueu a sobrancelha. – “Uma longa história...”


“Por favor, gostaríamos muito de falar com o barão. Providencie um meio dele querer nos ver. E... Você sabe, um mero serviçal não deve intrometer-se nisso, correto?”


Como se subitamente esbofeteado, o rapaz retesou os ombros.


“...Verei o que posso fazer. Voltarei em breve para manter-lhes à par da situação.” – inclinou-se, num princípio de mesura. – “Os senhores queiram me perdoar, mas terei de ir-me embora agora.”


Tão rápido quanto entrou, aquele rapaz saiu, deixando entrever a claridade da tarde pelo tecido da barraca onde estavam.


“O que foi aquilo, Souma-san?” – Nami parecia curioso.


“Eu só entendi quando ele falou ‘barão’. Você entendeu o resto, Soumazinho?”


O soldado, por sua vez, já não parecia animado. – “Receio que, na História do meu mundo, isso já tenha acontecido... Ouviram falar de algo chamado Idade Média?”


Entreolhando-se, os dois negaram.


“Foi o que pensei...” – suspirou. – “Basicamente, estamos num país que tem a mesma lógica. E, nesse momento, somos prisioneiros. O mesmo valor de lixo.”


“E o que podemos fazer para...?”


Nami assentiu para si mesmo, de repente. – “Souma-san, pode, por favor, falar-me mais a respeito deste período histórico?”


“Nami-san?...”


“Preciso que me dê o máximo possível de informações acerca os hábitos, as pessoas, os acontecimentos. O que você souber a respeito.” – ele disse. – “...E, depois disso, deixem o resto comigo, por favor.”



[ xXxXx ]


O rapaz loiro atravessava o acampamento num modo automático, enquanto a mente distraída e soterrada de outros assuntos soprava-lhe novas imagens, a maioria nada agradáveis, o tempo inteiro.


Eles haviam parado mais uma vez, já que, agora, uma milady estava adoentada e não podia mover-se muito. Ordens da mãe. O loiro sorriu para si próprio, ao lembrar-se do ocorrido. Outros senhores poderiam muito bem ter abandonado mãe e filha à própria sorte; seria o certo a ser feito, para que não atrapalhassem a viagem dos outros. Até mesmo aquele pedido silencioso estava estampado nos olhos de todos.


Mas seu senhor não fez isso. Ele era honrado demais, gentil demais com as damas. Simplesmente deu ordens para que parassem outra vez, para que esperassem a melhora da senhorita adoentada.


O loiro havia ido até lá saber sobre sua saúde para poupar o melhor amigo de seu senhor da incumbência (já que o rapaz sabia que, certamente, ele iria fazer isso tão logo tivesse a chance), e a mãe, num tom ríspido que ele relevou, compreendendo-a nervosa, respondeu-lhe que ela ainda não havia apresentado melhoras. Estava levando tal notícia juntamente com aquele estranho convite.


Entrou, assim, numa das barracas, e percebeu de imediato a figura de seu senhor, de costas para si.


Como imaginou, ele estava com ela...


“Senhor Daniel...?[4] ”


Quase que no mesmo segundo, a silhueta virou-se para o rapaz que adentrara o recinto. Se não lhe houvesse reconhecido a voz, certamente teria empertigado o corpo, demonstrado uma segurança que estava longe de ter, de fato. Mas, pelo fato de ter-lhe reconhecido, quando o encarou, tinha em seus olhos uma derrota indizível.


Daniel Trent era um homem alto e assustador para os que o vissem pela primeira vez. Tinha um quê taciturno e ameaçador. Os cabelos negros, a face sempre séria e os olhos ainda mais escuros, quase como olhos de um possesso por demônios, não contribuíam muito para melhorar a imagem.


“É você, Sehriel.[5]” – ele assentiu, ao vê-lo, desviando o olhar outra vez. – “E então? Como está a senhorita Claire[6]?”


Sehriel ajoelhou-se, como se indicasse que ficaria ali por certo tempo.


“A senhora Noelle Vardin[7] disse que ela ainda está mal.”


“Entendo...” – suspirou. – “Bem, parece que ainda ficaremos mais um pouco aqui.”


Os olhos azuis do servo fixaram-se, então, naquele corpo que estava debaixo de uma coberta de peles.


Era uma moça adormecida, de aparência delicada. Como uma princesa. O vestido que lhe compraram ainda estava nela: era verde, sem maiores detalhes, mas a deixava tão bonita. Ainda lembrava-se da satisfação velada do seu senhor ao vê-la no mesmo. E lembrava-se, com ainda maior nostalgia, o quanto ela era querida. Poucos viam-na com bons olhos, mas os que conseguiam fazê-lo, a amavam por demais. Sehriel era um deles; tinha uma dívida eterna com aquela moça.


Os cabelos ruivos e compridos, levemente ondulados, espalhavam-se pelo travesseiro improvisado, pelas peles, até mesmo roçando no vestido esverdeado. Daniel, até onde via Sehriel, costumava acariciar uma mecha deles em seus dedos, e o cheiro adocicado deles era como uma carícia nostálgica.


Porém, do que ele realmente sentia falta, muito mais do que a gentileza dela, do que suas atitudes tão impróprias para uma moça, eram seus olhos. Aqueles orbes azuis, como flores de primavera. Quem os encarasse, não importa quem fosse, era invariavelmente mudado. Cativado para sempre. E, agora, eles estavam fechados para sempre, enquanto ela continuava respirando placidamente, vivendo num sono eterno.


“Permite-me perguntar como está a senhorita...?”


“Rousse[8] continua a mesma.” – ele disse, num tom neutro. – “Continua dormindo.”


O loiro baixou o rosto. – “Naquele dia, foi tudo tão doloroso. Ela simplesmente caiu adormecida e não abriu mais os olhos.”


E, ainda sim, seu senhor Daniel tinha de comandar os fugitivos, cuidar de tudo e fingir que aquilo não o abalava. Ao menos, não tão intimamente.


“Mas iremos acordá-la em breve, Sehriel.” – o moreno o tranqüilizou.


“Eu não devia ficar surpreso. Afinal, desde que o mundo é mundo as pessoas buscam o Alarum.” – o loiro comentou. – “Seus próprios antepassados tentaram o obter. Mas me surpreendo por você querê-lo, senhor Daniel.”


“É que, afinal, o Alarum sempre foi desejado para fins egoístas.”


“...Vai tentar acordar a senhorita Rousse com ele?” – arriscou Sehriel, num tom tão baixo que somente seu senhor ouviria-o, de qualquer forma.


“Depois de libertar os oprimidos deste país.”


O rapaz sabia que não devia sorrir. Mesmo assim, não conseguiu evitar que um brotasse automaticamente em seus lábios. Seu senhor era mesmo... Alguém único.


“Dizem até mesmo que o Alarum pode nos trazer de volta a uma pessoa querida que já morreu...”


“Chega, Sehriel. Eu sei do que ele é capaz.” – Daniel silenciou-o no mesmo instante, bruscamente, retesando subitamente os ombros, como se lembranças em forma de pesadelos homéricos estivessem o assaltando naquele exato momento.


“Sinto muito, senhor Daniel...” – murmurou, afastando-se um pouco mais.


Já era doloroso por demais só poder ver Rousse, adormecida e desamparada, apenas algumas vezes, quando finalmente tinha uma pequena folga em seus serviços no acampamento. Depois, era ainda mais doloroso vê-la e tocá-la, mas ela ser apenas uma casca vazia e indiferente àquela mão.


Tudo do que Daniel Trent não precisava eram de mais lembranças. Estas memórias que o fizeram, também, viajar.


“Ah, meu senhor.” – ele lembrou-se, de repente, do segundo assunto que o trouxe até ali (e envergonhou-se por quase ter o esquecido).


“Sim?” – suspirou.


“...Sobre os prisioneiros.”


Daniel virou-se para encarar o rosto de Sehriel. A sobrancelha negra, soerguida, demonstrava sua defesa instintiva quanto ao assunto.


“O que tem eles?”


“Querem falar com o senhor.” – o loiro explicou-se. – “Dizem que não são camponeses, sequer civis comuns. Mas não me quiseram relatar a história. Desejaram que o senhor a ouvisse, entretanto.”


O moreno suspirou pesadamente, de novo. – “Quantas vezes já disse que não é para ficar conversando com os prisioneiros?”


“Sim, eu sei, senhor Daniel... Eu apenas fui saber deles, mas...”


“Hesitar desse jeito não é de seu feitio.” – o barão declarou. – “Você sentiu alguma coisa neles, Sehriel?”


A escuridão e a luz encontraram-se. Os orbes de ambos encaravam-se firmemente.


“Como seu Godsibb[9], senhor Daniel, não senti nenhuma má intenção vinda deles. E, sem dúvidas, não são dos Claymor. Acho que realmente devia escutá-los.” – numa pausa hesitante, ele emendou. – “Mas, é claro, se o senhor quiser escutar a opinião de sir Ke...”


“Não será necessário.”


E virou-se para a jovem dos cabelos de fogo, tão logo disse aquilo.


“Eu confio em seu julgamento, Sehriel.” – declarou, num tom baixo. – “Apenas... Apenas vou ficar aqui mais um pouco. Já irei falar com eles.”


“Se precisar de alguma coisa, por favor, chame-me, senhor Daniel.”


Percebendo-se um incômodo para aquele momento, o rapaz dos cabelos loiros deixou o recinto, apressadamente.



[ xXxXx ]


“Como será que o Nami está se saindo...?” – perguntou o primeiro deles.


“Não sei.” – suspirou o segundo. – “Mas estão demorando muito.”


“Será que você não devia ter falado com eles, Soumazinho? Afinal, deu uma aula de História tão completa para nós dois.”


“Sei lá, eu podia ter tentado, mas Nami-san insistiu tanto...”


Mausi sorriu, subitamente. – “Bom, não é assim tão ruim. Agora, estamos aqui, sozinhos. Só nós dois.”


“...Não começa.” – resmungou.


“Ah, Soumazinho é tão chato~!” – ele suspirou, entre o tédio e a vontade sádica de continuar a brincar com ele.


De fato, enquanto o fazia, o vampiro aproveitava para pensar em coisas um pouco mais importantes, como o que fazer, caso eles não acreditassem na história que o mago inventasse (que ele nem sabia qual era). Se fosse assim, teriam de se libertar e seguir outra vez a viagem, sozinhos, mas havia soldados ali. Iriam caçá-los e, pior, se prendessem-nos de novo, corriam o risco de serem mortos.


Tudo apontava para uma única solução, que já não era muito honrosa e executável: genocídio. Assassinato em massa. Precisariam destruir aquelas pessoas que iriam querer atrasá-los. Eram todos simples humanos; aparentemente, aquele país não lidava com magia, além do possível fragmento do Espelho do Tempo.


Mas os métodos de tortura eram cruéis, caso não conseguissem e considerassem ameaça a presença deles ali. A aula de Souma foi o suficiente para comprovar tal fato.


Além disso, um outro problema erguia-se: aquele rapaz. O loiro estranho e de voz polida. Desde o momento em que ele pôs os pés ali, Mausi sentiu que não era uma pessoa comum. Tinha a aparência de uma, o cheiro de uma, até mesmo a voz e o jeito, mas não era um simples humano.


E apenas isso já era o suficiente para começar a plantar a semente da dúvida. O que ele representaria, caso decidissem se rebelar e fugirem? Uma grande ameaça, talvez. Ainda mais se ele viesse a perder os companheiros.


Seu companheiro de viagem, o tritão Souma, já era um pouco mais fácil de se lidar. Sabia que, desde que eles foram presos e conheceram aquele loiro o rapaz já estava pensando exatamente nisso, tentando achar alguma saída estratégica. Ele só voltaria a falar do assunto caso achasse alguma solução; senão, apenas se alguém comentasse algo ele responderia.


Infelizmente, as esperanças estavam contidas em Nami. Eles poderiam escapar facilmente dali, mas o melhor mesmo era ter aliados naquele mundo. Não conhecendo nada do país, da geografia dele, seriam vítimas fáceis, invariavelmente, por mais que fossem criaturas místicas com poderes extremamente fortes.


“Sabe...” – ele puxou conversa, apenas para ter com o que se distrair. – “Meus braços já estão ficando dormentes, nessa posição...”


“É sim.” – Souma concordou, aparentemente também desejando distração. – “Seria tão mais fácil simplesmente nos soltar (e bem mais honroso também, já que continuamos seminus), mas fingir que somos humanos indefesos é tão...”


“Já estou ficando até meio aborrecido.”


“Idem.”


Suspiraram ambos, imaginando, cada qual da sua maneira, quanto mais deveriam ficar ali, rendidos como prisioneiros baratos.


Para suas sortes, um som pronunciou-se do lado de fora, despertando-os.


“Com suas licenças.” – e a luz do sol feriu-lhes brevemente os olhos.


Sehriel entrou, com um sorriso polido e gestos rápidos, e pequenas trouxa de roupas típicas daquele lugar nas mãos, e caminhou até eles. Ajoelhou-se e começou a desatá-los, sem maiores explicações.


“Sinto muitíssimo pelo ocorrido, sir Keane.”


“...Hã?” – Souma, que estava sendo liberto primeiro, teve a impressão de tê-lo ouvido dizer, referindo-se à ele, ‘sir Keane’.


“Eu e meu senhor, o barão Trent, realmente sentimos muito. Providenciamos vestes adequadas para os senhores imediatamente.” – o loiro continuava alheio à confusão dele. – “Se seu senhor quiser que você puna alguém, por favor, puna a mim. Eu fui aquele que os capturou...”


O soldado pareceu captar, de alguma forma, mais ou menos, a situação. – “Meu senhor conseguiu...”


“Sim. O barão Camie é uma ótima pessoa. Explicou-nos com muita paciência sua situação e até mesmo ofereceu ajuda à nossa causa.” – ele sorriu, levemente. – “É claro que meu senhor Daniel teve uma séria desconfiança, mas acredito que, de certa forma, ele soube também que não se tratava de um meliante.”


Souma encarou Mausi que, amarrado, continuava estático, como que também tentando entender tudo aquilo.


“Desde que os vi, entretanto, soube que eram cavalheiros muito habilidosos. Sua perícia com a espada é incrível, sir Keane.”


“Ahn... Obrigado, acho.” – sussurrou, incrédulo, ao ver-se solto.


Assim, Sehriel dirigiu-se ao vampiro. – “Quanto ao senhor... Eu também sinto muito por render um irmão.”


“Irmão?”


“Claro. Afinal, você é o Godsibb do barão Camie, não é?” – sorriu, agradavelmente, assim que lhe tirou as cordas dos pulsos.


Massageando os mesmos, o loiro ergueu a sobrancelha. – “Godsibb...”


“Por favor, vistam-se e saiam. O barão quer conhecê-los devidamente e desculpar-se por tamanho mal-entendido.”


Erguendo-se, ainda mais rápido, o loiro foi saindo.


“Estarei aguardando-os aqui fora.”


Souma desviou o olhar para Mausi que, superando como num passe de mágica a confusão, olhou para suas roupas, para as roupas do tritão e para o rosto dele, numa seqüência desagradável.


“...Bem, dispa-se, Soumazinho.” – sorriu, como se nada acontecesse.


Vire-pra-lá-AGORA!” – rosnou.


Mesmo não entendendo muita coisa (aparentemente, o poder de convicção do mago era mesmo forte), os dois vestiram-se. Eram roupas simples. Seguiam o mesmo estilo das do loiro alto, basicamente. As camisas variavam de cor, entretanto. Para Souma, uma azul-escura. Para Mausi, uma verde. As faixas da calça tinham a mesma cor.


Ao saírem da tenda, perceberam diante de si um acampamento, com vários homens e mulheres transitando o tempo todo. Alguns vestiam uma espécie de armadura, com malhas de ferro, evidenciando-se soldados. As mulheres que apareciam tinham vestidos simples e sujos, alguns puídos em excesso, e todos denunciavam uma origem relativamente simples.


Alguns cavalos estavam amarrados em uma das tendas, alheios a toda aquela confusão de humanos. Souma percebeu que estavam longe do lugar onde foram capturados, já que, para haverem animais e humanos ali, certamente um lago ou ao menos uma grande quantidade de água também estava obrigatoriamente presente.


“Acompanhem-me, sim?”


Sem discutir, ambos seguiram Sehriel, que passava e distribuía cumprimentos rápidos, regados com aquele sorriso característico, aos que encontrava. Os mesmos devolviam-lhe num tom parecido, como que abençoados com aquele humor num tempo em que tudo o que menos tinham era felicidade.


“Senhor Daniel, trouxe os outros dois.” – o loiro avisou, tão logo chegaram.


“Muito bem, Sehriel.” – ele assentiu. – “Aproximem-se, os dois.”


O tritão e o vampiro entreolharam-se, rapidamente. Diante de ambos, Nami estava também já devidamente vestido (se bem que ele o fizera antes, quando conseguiu sair para falar com o barão), com um sorriso aliviado ao vê-los bem. Ao lado dele, estava o tal barão Daniel. Era um homem de aparência mal-encarada.


“O barão Camie explicou-nos a situação.” – ele disse. – “Quero desculpar-me por tamanha falta de modos.”


“...Não, está tudo bem. Compreendemos sua cautela.” – Souma emendou, apesar de não compreender nem como seu novo nome era aquele.


“Os tempos estão difíceis para nós, aqui em Morken. Fugir de um país para o outro...” – continuou explicando-se, passando a mão pelos cabelos. – “Espero que este nosso encontro desagradável não seja um empecilho para a relação.”


Nami meneou a cabeça. – “Está tudo bem, barão Trent. Viemos de muito longe, mas em nosso país, estas perseguições deprimentes também acontecem. Não podemos dar as costas para um povo na mesma situação. Não é, sir Keane?”


Mausi deu uma cotovelada discreta no tritão. – “Ah, sim, sim, é verdade!”


“Eu também tenho de pedir desculpas.” – Nami continuou. Aparentemente, ele estava totalmente fundido naquele ambiente. – “Vir assim, sem nenhuma comitiva, como se fosse nas sombras... Certamente, é compreensível a sua reação diante do fato, ainda mais tendo tantas famílias para proteger.”


“Obrigado.” – ele assentiu.


“Sou Sehriel, o Godsibb da família Trent...” – o loiro deu um passo à frente, parecendo envergonhado. – “Sinto muitíssimo pelo tratamento que os dispensei.”


“Por favor, não se incomode com isso.” – o mago continuava inabalável. – “Olhe, este ali é o meu Godsibb, o senhor... Hum... Masiel.”


Repentinamente, o vampiro ergueu a sobrancelha. ‘Masiel’, ele?...


“Boa tarde.” – Sehriel sorriu-lhe de novo.


“...Ah, olá.” – e o outro tentou, com o máximo de vontade que conseguia, não imprimir seu desgosto pelo novo nome na fala.


(Depois, eles teriam muito que conversar. Muito mesmo.)


“Oh, mas como estamos mesmo unidos nesta nova aliança, é preciso conhecer o poder de fogo do aliado, correto?” – Nami, então, caminhou até os companheiros. – “Eu tenho muita curiosidade de saber como o senhor lida com Sehriel.”


Daniel ergueu a sobrancelha.


“...De fato, seu Godsibb é bem diferente. Parece ser forte. Gostaria também de comprovar até onde ele será útil.”


Mas o que é isso?! Nami-san praticamente já tem o controle da situação!’, Souma pensava, como um espectador passivo (e assustado) da história.


“Depois eu explicarei tudo direitinho.” – o mago branco sussurrou, de repente. – “Por enquanto, façam o que eu disser.”


Mausi desviou os olhos, discretamente. – “Nami... Você está dificultando tudo. Agora, quer me fazer lutar contra aquele loiro.”


“Eu já tive meus avanços, mas se continuarmos a cooperar com a libertação deste povo e com os desejos do barão Trent, estaremos seguros.” – ele continuou. – “E, para isso, preciso que você lute mesmo com ele. Será rápido, prometo.”


“...Não acredito que buscar fragmentos é assim tão complicado.” – Souma suspirou.


“Tudo bem, tudo bem.” – o vampiro revirou os olhos. – “Mas depois, você vai me explicar de onde diabos tirou esses nomes toscos!”


“Ei, isso é verdade!” – o tritão concordou plenamente.


“O senhor tem um lugar em mente, senhor Trent...?” – enfim, o rapaz de cabelos brancos virou-se para o barão do lugar.


“Aqui mesmo, na verdade.” – ele disse, sem maiores problemas. – “Acredito que os soldados precisam ver com quem estarão lidando agora. Mesmo tendo um bom título, sem respeito, não será nada...”


O jovem Kyoku suspirou de novo, achando aquilo o cúmulo da nostalgia. Até podia lembrar-se da irmã lhe ensinando sobre aquele período histórico.


“...Masiel, pode fazê-lo?” – e tocou nos ombros do outro.


“É claro, senhor.” – aparentemente, por suas observações rápidas, os tais Godsibb eram criaturas servis. – “Desculpe por isso, Sehriel.”


“Tudo bem. De qualquer forma, não temos escolha mesmo.” – ele deu de ombros. – “Espero que tenhamos uma boa luta.”


“...Apesar de ser uma demonstração.” – completou.



[ xXxXx ]


Lá estavam eles, como sempre. Os homens da comitiva seguiam seu senhor como se fossem... Ovelhas. A imagem a fez sorrir mentalmente. Ovelhas eram imoladas o tempo inteiro. Eles também deviam todos morrer. Ao menos, se o fizessem, a pequena iria se sentir melhor, muito melhor.


“Abram caminho, escórias.”


Os homens a encararam de suas alturas. Uma criança numa guerra de adultos. Em situações normais, aquilo seria uma piada tão sem-graça que até faria alguém rir. Era uma utopia completa. Mas, na comitiva de Claymor, até mesmo os piores pesadelos tornavam-se reais, de alguma forma. Ela era a prova viva disso: um soldado. Uma fêmea. Uma criança. Coisas tão distintas unidas numa só, num circo de aberrações.


Não seria surpreendente que eles a chutassem, mandassem-na calar-se ou matassem-na ali mesmo por tamanha desonra. Mas tudo o que fizeram foram obedecer: abriram caminho para a pequenina, deixando-a passar e ir até seu senhor.


Era uma menina de no máximo quatorze anos. Porém, com aquele corpo desprovido de curvas memoráveis, a idade aparente era ainda menor. Estava usando uma armadura, como os homens. Era mais compacta e sem malhas de ferro, mas era uma armadura. A insígnia dos Claymor estava incrustada no peito. Os cabelos loiros e até abaixo da cintura bruxuleavam como a luz de uma vela ao sabor do vento e a pele pálida evidenciava ainda mais aquele ar frágil. Os olhos eram de um estranho violeta desbotado; uma cor impossível para os humanos.


Seus passos eram rápidos e confiantes, e em nenhum momento ela desviou os olhos para encarar qualquer um daqueles macacos que se chamavam “soldados”.


Tinha a atenção focada nele. Seu senhor.


Ele estava diante do que parecia ser um cadáver feminino. A espada estava mergulhada no vermelho profundo do sangue. Aquele vermelho que a menina tanto gostava. Combinava bem com seu senhor.


“Alexei.[10]” – chamou-o, seriamente.


Alexei Claymor virou-se, encarando a criança que o chamara e que tanto amedrontava seus soldados. Era um homem alto e de traços belos, cabelos loiro e que iam até abaixo dos ombros. Os olhos eram azuis, tão puros que sequer pareciam reais. Ele todo exalava uma mistura de masculinidade e estranha fragilidade.


Era um descendente de russos. A garota lembrava-se do dia em que seu antigo senhor, Albert Claymor[11], o vira pela primeira vez. Ele era apaixonado por aquela russa que lhe deu um herdeiro. Era um homem deprimente, essa era a verdade.


“Ah, é você, Remliel.[12]” – ele disse, simplesmente.


Indo até ele, a pequena viu, então, o cadáver. Devia ter sido uma bela mulher em vida. Ao menos, uma mulher desejável. Agora, o vestido azul estava cheio de sangue, e o peito estava irreconhecível. As faces maculadas pelas lágrimas e o horror.


“...Por que não deixou que eu fizesse isso?” – ela questionou, de repente. – “Como a Godsibb dos Claymor, é meu dever.”


“Sei que você gosta disso, mas eu quis fazê-lo, dessa vez.” – ele falou, num ódio contido bravamente.


“O marido dela também...?”


“Ambos os Danry.[13]” – ele respondeu, simplesmente. – “Ele está lá dentro.”


“Você exagerou...” – Remliel comentou, como se estivesse falando do tempo. – “Mas eu gostei. Foi criativo, até.”


“...O que você quer?”


“Só mantê-lo informado dos acontecimentos, já que acabei de voltar.” – ela sorriu discretamente. – “Ainda não encontrei Jehanie Claymor, apesar de senti-la. Também não posso afirmar se está viva ou morta...”


“Hugh.[14]”


“Hum?”


“Continue vasculhando tudo à procura de Jehan.” – Alexei respondeu. – “Mas procure também esse homem. Hugh.”


“...Vai me deixar brincar com ele, então?”


“Se você merecer fazê-lo.” – o loiro sorriu de leve.



Continua...






Notas:


[1]Esse é o trecho de uma música chamada “Nocturne”, de Secret Garden.


[2]“E” vem de ‘Emono’, que significa, literalmente, ‘Presa/Caça’ em japonês.


[3]Wasser é também, originalmente, um dos reinos de “Phönix” (Akane Kittsune), que remete à água.


[4]Personagem que aparece, originalmente, em “A Insígnia de Claymor” (Josiane Veiga). Na obra, também é um barão.


[5]Personagem de “Esperanto:Solfege” (Petit Ange). No original, é um anjo inorgânico de nome humano Himitsu que serve a japonesa Maiko Isono.


[6]Personagem original de “A Insígnia de Claymor” (Josiane Veiga). Também é uma fugitiva waldense na obra.


[7]Personagem original de “A Insígnia de Claymor” (Josiane Veiga). Mãe de Claire também na original.


[8]Personagem que aparece, originalmente, em “A Insígnia de Claymor” (Josiane Veiga). Na obra, Rousse é o nome que Jehanie Claymor, filha de um duque, recebe após perder a memória.


[9]Literalmente, ‘Padrinho’ em inglês arcaico.


[10]Personagem original de “A Insígnia de Claymor” (Josiane Veiga). Na fic de origem, também é um lorde que busca a irmã desaparecida.


[11]Personagem de “A Insígnia de Claymor” (Josiane Veiga). Na obra, também é pai de Jehanie e Alexei.


[12]Personagem que aparece, originalmente, em “Esperanto:Solfege” (Petit Ange). Na obra, é um anjo inorgânico que deseja vingar-se de Sehriel.


[13]Pierre e Nicolle Danry aparecem, originalmente, em “A Insígnia de Claymor” (Josiane Veiga). Também morrem do mesmo jeito, na obra original.


[14]Personagem original de “A Insígnia de Claymor” (Josiane Veiga). Na obra, também é um bandido que rapta Jehanie.