Yu-gi-oh! GX Duel Academy - Chapéu Vermelho
4 Capítulo 4 - A vida e o jogo
Notas iniciais
Aquela não teria sido a última vez em que eu perdera para Zane. Nos próximos três dias eu ainda solicitaria revanche três vezes. Nada fora diferente. Não importava que tipo de estratégia eu utilizasse, o quanto eu pensasse à frente, não importava que tipo de mão eu começasse o jogo com, não havia jeito ou maneira. Em menos de dez turnos, invariavelmente, Zane sempre me derrotaria. A princípio, era como se ele não se importasse comigo tomando seu tempo. A partir do segundo dia ele já estava cansado de mim, como se eu fosse um fardo intermitente. No último duelo ele finalmente me disse:
– “Nem que duelássemos mil vezes mais, nem com toda a sorte do mundo, nem que algum deus lhe abençoasse, o resultado seria o mesmo. Você precisa aprender a respeitar seu adversário”. – E fechando os olhos, com uma expressão carrancuda, me disse: -“Não torne a voltar”.
Levantei-me e limpei a poeira das minhas calças de sarja azuis. Arrumei o boné no topo da minha cabeça e caminhei, quietamente, para onde quer que meus pés me levassem. Passei um bom tempo vagando pelas florestas. Esmurrei uma árvore em frustração. De fato. Seu deck era rápido demais, suas cartas eram fortes demais. A cada turno dele, ele dava vinte passos. A cada turno meu eu apenas percorria a distância de um. Esta corrida nunca poderia ter um resultado diferente. Ninguém mais possuía sequer um pingo de fé em minhas chances, como evidenciava a escassez de plateia nos últimos dois dias. Lembrei-me da história de Ícaro, que voou próximo demais do sol e perdeu suas asas. Assim como ele, eu também tinha despencado e encontrado um oceano frio e sem vida. Por tanto tempo eu tinha ficado tão obcecado com vencer que me esqueci de tomar as coisas em perspectiva. Agi como uma criança teimosa e não aprendi com meus erros. Eu merecia aquela vergonha. Merecia a raiva de Zane e merecia minha nova reputação, de wannabe¹ e tryhard². Aquele que ladra mais do que morde, que por fora parece durão, mas não consegue manter-se intacto sob real pressão.
Cheguei ao dormitório dos Slifers enquanto o sol se punha. Tranquei-me no meu quarto. Era uma coisa miúda e trancafiada; o único com uma cama de solteiro ao invés de um beliche, sendo sua pequenez um preço baixo a se pagar, em minha opinião, por um pouco de solidão. Como todos os outros quartos, era equipado com uma cadeira de rolamento, uma escrivaninha, um criado mudo e um armário. Havia um pequeno porta-coisas com algumas canetas e lápis e um simples abajur metálico. Algumas de minhas malas ainda estavam largadas no chão, seus conteúdos por ser organizados, a negligência advindo da minha impulsividade.
Me despi de minha jaqueta e minha camisa preta, jogando-as de qualquer forma por cima da cama. Deitei-me no chão, sentindo o frio e a aspereza das tábuas de madeira e dos grãos de areia e poeira. “Eu tenho que varrer isso aqui de vez em quando”, concluí.
Por quinze minutos, me deixei descansar naquele lugar. Meu chapéu já tinha tombado para trás, ficando largado de cabeça para baixo no chão e revelando uma cabeça cheia de cabelos negros. Fazia tempo que não os aparava, já estavam cobrindo minhas orelhas. Tentei pensar em nada, em me afastar o máximo possível das minhas frustrações. Descobri por mim mesmo, anos atrás, que sou propenso a me obcecar pelas coisas facilmente, o que é uma bênção mista. Procurei não pensar muito no duelo, ou em duelos, ou em estratégias agora. Não queria pensar nos meus erros e acertos e sobre o que mudar. Isso viria depois. Bem depois. Agora, era a hora de me separar disso. Se não o fizesse, nada iria adquirir além de frustração e mágoa.
Para ocupar minha mente, ocupei meu corpo. Comecei minha série de exercícios. Tinha negligenciado meu corpo essa última semana, com todos os duelos e tudo mais, o que não era do meu feitio. Eu costumava ter orgulho dos meus músculos, esculpidos desde o começo da minha adolescência por exercícios diários. Recomeçar a rotina era a prioridade agora. Fiz abdominais até meu limite. Depois me levantei e usei a armação de madeira da cama para fazer agachamentos. Mais uma vez cheguei ao meu limite e parti para fazer barras...
Quando terminei, estava suado. O céu lá fora já estava tingido de um azul mais escuro. A esse ponto, os banhos do dormitório já deviam estar mais desocupados. Quase todos os Slifers tomavam suas duchas às dezenove, uma vez que o jantar era servido às dezoito. Eu provavelmente teria que comer as sobras já frias, mas isso não me incomodava. Peguei uma toalha do meu armário. Tinha trazido uns três pares, por insistência da minha mãe. Por um momento, pensamentos sobre minha família invadiram-me, e com eles a saudade. Prometi-me que escreveria uma carta, assim que acabasse de jantar. Deixei uma folha de papel em branco e uma caneta em cima da mesa de madeira e usei o abajur como peso de papel, para que não me esquecesse.
Desci as escadas, com a toalha dobrada em mãos, a pequena pochete em que eu podia guardar meus instrumentos de higiene no topo, e em baixo uma muda de roupas casuais, equilibrando a pilha por cima de uma palma, minhas sandálias penduradas pelas alças na outra mão. Muito embora houvesse sabão e shampoo oferecidos pelo dormitório, eu ainda preferia usar os meus próprios. Os chuveiros eram por uma porta atrás do edifício, e por isso fiz uma cara feia quando fui forçado a andar pelo chão terroso descalço. Pelo menos já estava encaminhado para o banho.
Enquanto chegava perto, ouvi o barulho de água caindo no chão. Algum retardatário, decerto.
Segurei a maçaneta da porta e girei. Parecia estar trancado, o que era estranho, pois não havia nenhuma fechadura. Ajoelhei-me, contra a vontade do meu corpo e resistindo a fadiga muscular, de forma a ver por entre as frestas da porta o que estava trancando-a. Notei que havia algo tapando parcialmente a luz que saía pela fresta de baixo. Alguém devia ter deixado algo muito pesado para bloquear a abertura da porta ali pousado. Subi mais um pouco, e percebi uma folha de papel dobrada que havia sido colocada entre a aresta da porta e a armação, de forma a fazer a porta deslizar ainda menos.
Soltei um grunhido de frustração. Esquecer um objeto pesado bloqueando a porta era uma coisa, mas aquilo era muito deliberado. Ele achava que tinha o direito de bloquear o acesso dos outros estudantes ao chuveirão comunal?
Mas reclamar não era muito do meu feitio, e, portanto, pouco a pouco eu simplesmente folguei a pressão entre a porta e a folha de papel, até que fiquei convencido de que ela tinha caído, por dentro. Depois, foi somente lutar contra o peso do objeto, que depois me foi revelado ser uma bolsa, quase uma mala de viagem. Enchi-me de suspeita, mas nada falei. Minha rebeldia quanto aos termos da situação talvez fosse mensagem o suficiente da minha indignação. Foi então que ouvi o barulho do chuveiro parar. Provavelmente o sujeito iria sair e dar de cara comigo.
Saindo do segundo boxe da direita, com passos suaves em seguida, olhos fechados e uma toalha cobrindo todo o topo da cabeça, estava uma figura feminina. Soube imediatamente pela forma com a qual a toalha estava presa, por baixo das axilas, revelando um corpo com curvas acentuadas. Despreocupada, ela andava em direção, assumo, de sua mala, seus passos sendo acompanhados pelos barulhos molhados de um pé ensopado.
Paralisei. Nunca soube que havia meninas no dormitório. Não tinha visto uma sequer durante toda a minha estadia ali. Será que eu tinha chegado numa hora em que o banho era só feminino? Não, isso não existia, uma coisa assim teria sido informada pelo professor logo no primeiro dia, e seria algo tão presente que eu não me esqueceria. Eu não tinha entrado no banheiro errado tampouco, pois havia somente um. Mas se não havia Slifers femininos, quem diabos era aquela pessoa?
Eu engoli um seco quando ela finalmente abriu os olhos. Senti meu rosto corar levemente. Passamos um momento eterno em contato visual, eu observando suas grandes írises castanhas, sua pele macia e decididamente feminina, seus grandes cílios. No segundo momento, seus olhos se arregalaram, sua boca se abriu como se num impulso de gritar, até que ela conteve a voz por pôr a mão para tampá-la. No terceiro momento, ela moveu-se como um furacão, vindo em minha direção, segurando com seus dedos o meu queixo, levantando meu rosto para cima, suas unhas relativamente grandes ameaçando perfurar a pele das minhas bochechas. Eu engoli um seco.
– “Você não viu nada, ouviu?!” – Sua voz trêmula quebrou por um instante num agudo estridente. Mas, por trás de sua aflição, era possível perceber como sua voz era de um soprano bonito, que poderia agradar os ouvidos. Mas nesse momento, era aterrorizante, mesmo quando decidiu reduzi-la a um murmúrio. Apesar de ter uma toalha cobrindo a maior parte de suas vergonhas, ela ainda pôs o braço por cima de seus seios para evitar que eu os visse mesmo com o canto do olho. – "T-Tá tudo bem..." – Ela falou, penso, tentando se convencer daquilo. O gaguejado não mais saiu de sua voz, enquanto falava apressadamente: – "N-Ninguém pode saber, tá ouvindo?! V-Você vai andar até a p-parede. Não vai olhar para trás até ouvir a porta bater." – Um momento de silêncio se sucedeu. – "Fala!" – Ela quis minha confirmação.
Não consegui falar nada. Meu coração estava acelerado enquanto eu tentava não fazer nada que me condenasse. Eu já tinha visto garotas despidas várias vezes na minha vida antes, algumas bem mais velhas, e portanto não estava prestes a completamente perder minha compostura. Mas ainda assim, eu tinha sido pego completamente fora de guarda. Ao invés de falar, assenti com a cabeça, o que pareceu ser o suficiente. Ela concordou em soltar meu rosto, mas não pude mais ver a expressão dela. Ou melhor, fiz menção de não manter contato visual mais, em respeito a ela. Observei aqueles azulejos de cor bege bem de perto, perto o suficiente para ver as falhas na argamassa das junções, olhando-os por dois, três, sete minutos, até ouvir a porta bater com um estrondo.
Achei por bem esquecer-me daquele acontecimento. Além do mais, com quem eu segredaria aquilo? Não tinha amigos no Slifer, somente colegas. Não era a pessoa mais extrovertida do mundo. Apesar de ter meus momentos de extrovertimento, não sentia a necessidade de falar sobre quaisquer curiosidades da minha vida com ninguém. Nem sequer sabia direito se aquele acontecimento fora verdade ou se apenas uma obra de minha mente desiludida e cansada. Não. Decididamente, ninguém saberia daquele acontecimento.
Mas algo em mim desejava vê-la de novo, sob outras circunstâncias. Uma parte púbere, claro. Mas você realmente pode me culpar por isso?
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