O sol nascia aos poucos no horizonte, seu brilho quase não atravessava as grossas nuvens que cobriam os céus

A madrugada tinha aroma de saudade, e deixava um inesquecível tom de azul escuro no céu

Assim que a divisa da cidade era cruzada, já era possível sentir toda a influência de Neo Domino se tornando presente novamente

Placas brilhantes, grandes letreiros, e lá no fundo era possível ver a cidade, brilhante como nunca, chamativa como sempre

Cada quilômetro daquela rodovia parecia deixá-lo mais e mais distante de onde veio, já que por mais que fosse a mesma cidade em sua aparência...

...

Sabia que o tempo havia deixado-o para trás

...

Mas segurou esse sentimento, e parou sua moto no acostamento

Seu motor rugia em meio a vazia estrada, onde não se via ninguém atrás dele e nem um sinal de ninguém a sua frente

Sua única companhia naquela solitária madrugada eram as luzes da pista, e seu desejo de retornar logo

Encarou o horizonte, Neo Domino em toda sua brilhante glória, desceu da moto e retirou o capacete, deixando seus cabelos escuros de mechas azuladas ficarem soltos

Respirou aquele ar como se fosse o mais puro do mundo

– Espero que não tenha me esquecido, Neo Domino...pois eu voltei, assim como prometi...

Do bolso de sua jaqueta de motoqueiro, retirou seu celular, discou alguns números e esperou que sua chamada obtivesse resposta

– "Pois não?" Disse a voz ao telefone

– Esse ainda é o número de Marcos Zeyher?

– "Sim...a que devo a ligação?" Perguntou, interessado

– Um favor, que pedi a muito tempo atrás, e que finalmente estou aqui para cobrar, te lembra algo?

Houve um breve silêncio entre os dois na ligação

– "Então finalmente chegou o dia..."

– Sim, finalmente chegou.

– "Passe aqui na oficina, vamos conversar um pouco"

– "Estou a caminho"

Ele já ia desligar o telefone, quando uma última frase foi dita.

– "Bem vindo de volta, Cayel"

A chamada foi encerrada, ele guardou o telefone em seu bolso, colocou seu capacete e subiu em sua moto mais uma vez

Cayel – Depois de três anos, é bom estar em casa novamente.

...

Yu-Gi-Oh! Rise — Winds of Change

...

No distrito norte da cidade, uma modesta oficina abria uma das portas de suas baias, nela esperava um já não tão jovem adulto, com óculos de proteção em seu rosto e um macacão manchado de tinta

Normalmente não abria em horário tão incomum, mas aquela era uma ocasião especial

Afinal faziam três anos desde a última vez em que haviam se visto

Cayel ainda era um garoto entrando em sua adolescência, e hoje já beirava sua idade adulta

Mas naquele dia, em que se despediram, Cayel havia pedido um favor especial, que May não pode recusar

E agora que o rapaz havia voltado, era evidente que aquele realmente era o seu sonho, que estava disposto a segui-lo

Então May faria de tudo para ajudá-lo, na medida do que fosse possível, a realizar o seu sonho

...

Não demorou muito para que chegasse o convidado, estacionando sua moto na frente da oficina

Era uma moto esportiva, relativamente antiga, mas que se encontrava bem conservada pelo seu tempo de uso

Cayel desceu da moto e tirou o capacete, ficando frente a frente com May, seus olhos na mesma altura que os dele

Eles se encararam ali, por pelo pelo menos três segundos, sem dizer uma palavra

Aquele era um momento extremamente especial, que não precisava de palavras para ser apreciado

Até que por fim, a primeira palavra foi dita, para quebrar aquele aparente eterno silêncio

...

May – Pelo visto você deu uma esticada – May disse, em tom cômico, rindo da situação

...

Como era bom escutar aquilo

...

Cayel – Queria poder dizer o mesmo, pelo menos você se manteve inteiro – Cayel então entrou na brincadeira, também rindo

May – Não ia ser um acidente daqueles que ia me tirar de jogo – Ele sorriu, confiante

Foram poucas palavras trocadas, mas as sensações já haviam sido transmitidas

Eles não eram as mesmas pessoas que um dia foram

Mas ainda mantiveram parte do mesmo jeito, que permitiu se conectarem tão bem, todos aqueles anos atrás

May – É bom te ver de novo, Cayel – O mecânico sorriu, reencontrando seu pequeno amigo, agora já crescido

Cayel – Você nem imagina – Cayel foi de encontro a um abraço com May, aquele tipo de abraço digno de uns tapinhas nas costas

Era um reencontro emocionante para Cayel, eram memórias sendo reconectadas, que foram largadas lá a três anos

Cayel – Como foram os negócios nesses últimos anos?

May – O mesmo de sempre, alguns trabalhos aqui e outros ali, o suficiente para manter o negócio de pé – Comentou, com um resquício de sorriso em seu rosto – Mas e você? Parece que também não está tão mal assim – Ele olhou para a moto estacionada logo atrás do rapaz

Cayel – Um belo achado, não acha? – Ele também olhou para sua moto, estacionada logo ali

May – 250 cilindradas, parece que você não deixou a velocidade de lado.

Cayel – Pode se dizer que sim...mas não chega nem na sombra daquela sua – Cayel virou-se de frente e inclinou sua cabeça para o lado, vendo de longe a moto estacionada nos fundos da oficina, pela porta dos fundos que havia ficado aberta

May – Foi um pouco mais trabalhoso do que da primeira vez, mas ela voltou a toda sua antiga glória...

Cayel – E que ela nunca mais tenha de perdê-la.

Uma das coisas que ainda ficaram vivas em ambas as suas memórias foi o fatídico dia do acidente que quase levou ambos

Inegavelmente uma situação que possivelmente jamais ocorreria uma segunda vez

Foi uma marca para uma vida inteira, de um jeito ou de outro.

May – Anda, entra, vamos sentar um pouco, deve estar cansado depois dessa viagem – May entrou primeiro, convidando Cayel em seguida

Cayel – Pra falar a verdade, estou um pouco – Ele entrou logo após – Esperei três longos anos por isso.

May se sentou no velho sofá da oficina, acompanhado por Cayel, já bem velho, mas ainda muito aconchegante.

May – E então, o que achou da cidade à primeira vista? Alguma mudança drástica?

Cayel – Praticamente imperceptível, essa cidade sempre foi um caixote de luzes e cores brilhantes, dava pra ver a pelo menos doze quilômetros de distância na rodovia

May – E cada vez teremos mais luzes, se gosta de ver os céus acho bom procurar algum outro lugar – Brincou ele, rindo um pouco

Cayel – Não é como se os arranha-céus ajudassem também – Cayel riu levemente

May – Boa parte das coisas novas na cidade tem vindo de uma só empresa, talvez tenha visto a marca dela em alguns lugares no seu caminho pra cá.

Cayel – Eu até reparei alguns outdoors com uma logomarca diferente, acho que era KSY.

May – KSU, eles são os grandes peixes da cidade, de mais maneiras do que uma só.

Cayel ficou um pouco intrigado com aquela afirmativa

Como poderia uma corporação só estar por trás de tanta coisa na cidade, tão de repente?

Cayel – Quem são esses caras? Eles vieram pra cá depois que eu saí?

May – São um dos grandes conglomerados econômicos, que praticamente surgiu do nada. Quando nos demos conta, já tinham anexado boa parte das outras empresas, e agora possuem influência no ramo de duelos como nenhuma outra.

Cayel – Isso me parece algo meio distópico...e não me passa uma boa impressão.

May – Por que tem seus lados negativos também, e um deles você não vai gostar muito de ouvir...

Parece que era muito mais do que só uma má impressão

Cayel – E o que é?

May – Bem, eu detesto ser o portador de más notícias...mas o mundo dos Riding Duels que você conhecia morreu.

A expressão no rosto do rapaz já mostrou um choque extremo, não esperava aquela notícia.

May – A KSU também assumiu o controle das competições, houveram muitas mudanças no regulamento, muitos duelistas se aposentaram, e o esporte perdeu a essência.

Cayel – E eles...simplesmente fizeram isso?

May – Para ser sincero, ouvi histórias de que alguns tentaram protestar contra, mas a velha geração foi deixada de lado e substituída por novos talentos, e a força da corporação é simplesmente imparável, eles controlam tudo, quem ganha, quem perde e quem entra.

Cayel – Então quer dizer que removeram toda a alma do esporte...que bando de cretinos – O rapaz ficou irritado ao ouvir aquilo, o suficiente para apertar seus punhos com força, mas nada além disso

Era o seu sonho, seu esporte favorito, sendo usado como nada além de um esquema qualquer

Essas não eram as notícias que Cayel esperava escutar, logo em seu dia de retorno

May – Se você for entrar nesse mundo, ou se torna um deles, ou vão fazer com que desista – May disse aquelas palavras olhando no fundo dos olhos de Cayel, para ver qual seria a reação do rapaz

E para sua surpresa, aquilo não o desmotivou nem um pouco

Cayel – Então parece que alguém tem que mostrar para eles, mostrar que existe uma terceira opção, não acha?

Com sua resposta, exalava confiança e determinação

A mesma determinação que tinha em seus olhos quando fez aquele pedido, todos aqueles anos atrás

May – Desafiá-los em seu próprio jogo não vai ser uma tarefa fácil, você vai querer mesmo fazer isso?

...

Essa seria a pergunta que definiria sua jornada dali para frente

...

Cayel – Se eu vim até aqui, ainda resta alguma dúvida?

...

E ele não parecia querer recuar, nem por um momento

Essa era a resposta que ele queria ouvir, inclusive foi a razão de um moderado sorriso em seu rosto

May – Sequer posso te chamar de maluco...por que no seu lugar, eu faria a mesma coisa – Respondeu quase que naturalmente, sorrindo

Ele ainda via em Cayel lembranças de seu eu menor, e queria vê-lo alcançar seus sonhos

May – Bem...quanto a parte dos duelos, nisso não posso te ajudar, mas... – Pausou brevemente, estava contente de que aquele momento havia chegado – Na parte da velocidade, vou fazer tudo ao meu alcance para que você chegue lá.

Cayel ficou extremamente contente por escutar aquilo de seu amigo mecânico

Era o primeiro passo para a realização de um sonho

Olharam novamente um para o outro, agora prestes a se comprometer em um novo compromisso

Seus antigos eus viviam em suas atitudes, mas ali conversaram como adultos, conversaram como iguais

Novamente, aquele breve silêncio preencheu a oficina, mas uma decisão já havia sido tomada

May – Venha me ver fora do horário de serviço, vou te levar a um lugar onde poderemos melhorar suas habilidades de direção.

Cayel – Pode apostar que estarei aqui...mas antes, eu tenho uma pergunta

May – E qual seria ela?

Cayel – Direção realmente importa se os circuitos são pistas ovais? – Era realmente uma pergunta genuína, quebrando as expectativas do mecânico

Ele por sua vez, gargalhou, aquela era uma pergunta óbvia, mas que possuía uma resposta não tão óbvia assim

May – Nunca se sabe do que você vai ter que desviar, ou do que seu adversário será capaz nesses tempos estranhos. Mais do que ser rápido, é fundamental que seus reflexos estejam afiados, isso vai te ajudar tanto dentro quanto fora das pistas – Disse ele, deixando o sorriso de lado – Fora que existem técnicas de pilotagem que podem te fazer ir ainda mais rápido, e se bem me lembro duelar não é a única maneira de ganhar uma disputa dessas, não é?

Cayel – Sim...só que ninguém nunca fez isso.

...

May – Porque ninguém nunca tentou ser mais rápido que o vento.

...

Cayel então se recordou daqueles poucos momentos em que havia passeado com May, antes do acidente, de como tudo ao seu redor parecia se mover em câmera lenta, de tão rápido que estavam.

Mais rápidos que o vento

...

Cayel – Eu mal posso esperar pra aprender com você – Respondeu, animado e determinado, era o primeiro passo que precisava para ir em busca do seu sonho

May – Já tem um lugar para ficar aqui em Neo Domino?

Cayel – Estava pensando em olhar algum hotel no centro, lembro que existem muitos por lá.

May – Se quiser, a oficina tem um quarto dos fundos, não muito distante de onde guardo a minha moto. Está longe de ser um hotel quatro estrelas, mas pelo menos não vai ficar sem dinheiro em dois dias.

Cayel – Está falando sério? Mas e você?

May – A minha casa não fica muito distante daqui, fora que quando eu durmo na oficina, geralmente deito no sofá, então acabo nem usando o quarto.

Cayel – Eu não vou ter palavras pra te agradecer May.

May – Considere isso como um presente de boas vindas, vamos ter muito trabalho a fazer

Cayel sorriu, e fez força para segurar suas lágrimas

Não eram lágrimas de tristeza, mas sim de felicidade, felicidade e orgulho

...

Mas aquilo não era hora de chorar, ele rapidamente enxugou os olhos e virou-se para May

...

Cayel – Então me deixe te ajudar também

May – Me ajudar? – Respondeu, surpreso – Qual o seu plano?

Cayel – Te ajudar aqui na oficina, com as motos, assim também posso aprender mais sobre elas com você.

Aquilo fez um sorriso aparecer no rosto do nem tão velho mecânico.

May – A conexão de um piloto com sua moto é um dos laços mais importantes que existem, quando estiver pilotando você estará completamente dependente dela, se não conhecer cada parte dela, não terá confiança suficiente para guiá-la em seu limite.

Cayel – Eu quero ser...quero ser o melhor duelista de velocidade que Neo Domino já viu, e não posso fazer isso se não for o melhor piloto também.

May – Então é bom começarmos o mais cedo possível, porque essa vai ser uma longa jornada, mas você ainda deve ter pessoas pra ver por aqui, não é?

Cayel – Sim, preciso fazer algumas visitas antes de poder começar isso tudo – Cayel pegou seu capacete e se levantou do sofá, indo para fora da oficina

May – Qualquer coisa, basta me ligar.

Cayel – Pode deixar May...E muito obrigado por tudo.

May – Disponha.

Da sua jaqueta, tirou seu telefone e discou mais alguns números, esperando que a pessoa do outro lado da linha respondesse

– "Pois não?" Disse uma voz sonolenta, do outro lado da linha

– Desculpa interromper seu sono amigão, tem um minuto?

– "Tenho sim...espera aí" Pelo tom de voz, alguém havia ligado alguns pontos "Você está vindo pra Neo Domino?"

– Já estou aqui pra falar a verdade

– "Passa aqui em casa, vou estar te esperando no portão."

– Já estou a caminho.

Ele desligou o telefone, guardou de volta na jaqueta e subiu na moto.

Vestiu o capacete, virou a chave na ignição e ligou a moto, saindo em direção a seu próximo destino

May – (Acredito que esse seu espírito flamejante é o que essa cidade precisava pra ver uns novos tempos de ânimo) – Pensou o mecânico, vendo o rapaz se distanciar

...

Menos de cinco minutos depois, Cayel havia chegado a seu destino, podia ver um rapaz esperando-o à frente do portão, usava um jaleco de cientista relativamente amassado, pelo visto alguém havia dormido com ele...múltiplas noites

Cabelos curtos bagunçados, e um rosto amassado de quem estava no melhor dos sonos de sua vida

Cayel desceu da moto, deixou o capacete em cima do banco e foi de encontro ao rapaz

Cayel – Parece que você não dorme a umas boas noites, ou que um caminhão passou por cima de você... – Disse ele, rindo atoa

? – Nem me diga... – O rapaz deu um leve riso, em meio a todo seu cansaço, apertou a mão de seu amigo e lhe deu um abraço – É muito bom te ter aqui de novo, Cayel.

Cayel – Também senti muitas saudades, Isac – Eles então se separaram do abraço – Mas olha só você e esse jaleco, entrou de cabeça no mundo da ciência?

Isac – Mais ou menos. Fiz algumas pesquisas...mas ainda estou pra entrar em um projeto grande essa semana...ou ver se consigo entrar – Dizia ele, com pausas na voz graças ao sono.

Cayel – Preparado para fazer grandes avanços tecnológicos e tudo mais?

Isac – Claro, tem que estar preparado pra tudo nesse tipo de emprego...mas e você? Como foram esses três anos? Você não foi de mandar muitas notícias.

Cayel – Foram tempos difíceis, mas que agora já ficaram para trás.

Aquela era uma reunião de velhos melhores amigos, que ainda se identificavam muito

Mas agora com seus rumos traçados em caminhos diferentes.

...

Era uma estranha sensação, conforme passado e presente tentavam se conectar, mas não pareciam conseguir completamente

...

O silêncio pairou por um tempo no ar, conforme olharam um para o outro, até que por fim algumas palavras voltaram a ser ditas

...

Isac – Eu busquei tentar entender o que aconteceu no dia do seu acidente, depois que você foi embora

Para além das coisas que apenas Cayel havia visto, e não havia contado para ninguém , havia se esquecido que seus amigos também haviam presenciado o evento

E pelo visto, aquela seria mais uma das raízes dele se desdobrando em outra direção

Cayel – E descobriu alguma coisa?

Isac suspirou, não só estava cansado como aquele era um tópico cansativo de se discutir

Isac – Após alguns meses, saíram notícias no jornal, que acusavam o acidente como uma reação acidental de energia síncrona.

Cayel – Energia o que? – Perguntou o rapaz, agora que a conversa começava a ficar um pouco mais técnica.

Isac – Talvez não se lembre, mas uma vez me recordo de ter dito sobre como a cidade hoje era alimentada por energia síncrona, talvez eu tenha chamado de energia de duelos antigamente.

Cayel – Ah sim, me lembro de algo assim.

Isac – Mas...pelo que eu pude ver por mim mesmo, não existe nenhum gerador síncrono naquela região, então não poderia ter sido essa a causa.

Cayel – Então o que poderia ter sido?

Isac – Esse que é o problema, não consegui achar nada sobre...é um assunto que não se consegue achar praticamente nenhuma informação sobre, eles estão escondendo alguma coisa...mas eu ainda continuo pesquisando de vez em quando sobre, para ver se acho algo.

Cayel – (Nem sequer eu sei como explicar o que eu vi lá para ele...imagino como deve ter sido achar isso tudo sozinho...)

Seja lá o que for...tive muita sorte

Isac – Foi um verdadeiro milagre você ter saído vivo de lá...mas pelo visto isso não foi o suficiente pra te manter longe do seu sonho – Disse ele, olhando para a moto parada do outro lado da rua.

Cayel – Sim...passei no May antes de vir aqui inclusive, ele só não está mais acabado do que você.

Isac – Não se preocupe...isso aqui sai depois do banho

Eles riram brevemente, aproveitando aquele bom momento

...

Mas ainda sim havia uma questão no ar que ambos reconheciam, mas ninguém sabia como falar sobre.

...

Isac – Não vou te desencorajar de seguir seus sonhos, mas você já ficou sabendo sobre a situação dos riding duels por aqui?

Cayel – May me contou sobre, parece que perdeu completamente a essência, e agora não passa de um jogo armado.

Isac – Isso é o de menos...tem gente muito influente e perigosa por trás da organização desses campeonatos. Você pode acabar se envolvendo em coisas que não deveria, se entrar nesse meio – Disse ele, relativamente preocupado

Cayel – Não importa o que eles queiram fazer comigo, eu não vou me render tão fácil assim. Pelo contrário, eu vou mostrar pra eles o que é o verdadeiro riding duel. – Ele disse com a mesma determinação que havia dito para May, convicto de que faria de tudo para que aquele sonho se realizasse – Eu prometi que ia escrever meu nome no vento, e eu vou.

O silêncio pairou novamente no ar

...

Isac – Não sei se devemos fazer mais promessas, Cayel.

...

O tempo definitivamente os levou em direções diferentes

...

Cayel – E por que não?

Isac – O peso de uma promessa é muito maior do que quando éramos crianças ou adolescentes. E algumas delas acabam custando muito caro.

Mesmo sem citar um nome, ou dar um detalhe, ambos sabiam exatamente do que estavam falando sobre

E isso foi suficiente para fazer o confiante sorriso de Cayel sair de seu rosto.

...

Cayel – Teve alguma notícia dela?

...

Isac – Não a vejo desde o fim do ensino médio, também não fiz nenhuma ligação ou mandei mensagem...ela mudou bastante depois daquele dia.

...

Cayel – Você contou pra ela?

...

Isac – Não, afinal de contas você me pediu para que não contasse.

Cayel – Espero que ela esteja bem – Expressou, sinceramente

Ela era alguém importante

Isac – Depois que você foi embora, ainda conversávamos de vez em quando. Sempre que o assunto remetia levemente a você, ela fazia questão de trocar, e quando eventualmente o assunto foi você...digamos que ela não poupou palavras para expressar como se sentia...

Jamais ter contado para ela a real razão de ter saído de Neo Domino, ainda que fosse uma diferença mínima na realidade, deixou uma péssima impressão, e um dano permanente na imagem do rapaz na vista de sua antiga amiga.

Isac – Você sabe que vai ter que dizer para ela a verdade em algum momento, não é?

Cayel – Eu sei...e sei também que essa não vai ser uma conversa fácil de se ter..

Isac – Ela acha que você abandonou nós dois, abandonou toda uma vida, apenas para seguir seu sonho...acho que você já viu onde isso vai levar, não é?

Cayel – Sim, isso só vai fazer com que ela não queria me ver ainda mais.

Isac – Mas eu espero que vocês possam se entender, eu sinto um pouco de falta de como as coisas eram antigamente...mas também compreendo que elas jamais voltarão a ser da mesma maneira, e dificilmente teriam sido se tivesse continuado aqui.

Cayel – O tempo não foi generoso para nenhum de nós.

Mudar de cidade não havia deixado os problemas para trás, muito pelo contrário, apenas haviam esperado para que pudessem correr atrás dele novamente.

Isac – Tem lugar pra passar a noite?

Cayel – May me deixou ficar na oficina, tem um quarto dos fundos lá.

Isac – Não é tão bom quanto um hotel, mas...

Cayel – Não vai me falir em dois dias, foi isso que ele disse também.

Isac – As coisas aqui ficam cada vez mais caras, mas é o preço a se pagar pela cidade do progresso.

Se o céu não estivesse tão iluminado pelas luzes de holofotes, seria possível ver algumas estrelas nele

Cayel – Pode voltar pro sono de beleza, ainda tenho mais um lugar pra ir.

Isac – Pois é, estou precisando mesmo – Ele se espreguiçou – Mas quem ainda falta pra você ver? Achei que sua mãe tivesse se mudado com vocês pouco tempo depois.

Cayel – E ela se mudou, eu estou indo ver a Aria.

Isac – Aria? – Perguntou ele, confuso – Aria Sayiho? No mínimo peculiar...

Cayel – Também acho, mas eu preciso ir lá falar com ela.

Isac – Bem, a gente se fala então, pode ser?

Cayel – Combinado.

Isac – Se cuida, Cayel.

Cayel – Eu quem deveria estar falando isso pra você, mas pode deixar, eu vou.

Isac entrou pelo portão, fechando-o em seguida, voltando para dentro de sua casa.

Cayel por sua vez, ficou próximo de sua moto, pensava em pegar seu telefone, mas suas mãos recusam a obedecê-lo.

...

Eu espero mesmo, que essa tenha sido a escolha certa

...

Ainda que desde o dia em que a fiz, tenha me arrependido de ter mentido para você

E agora saber que a única verdade pra você é essa mentira

...

Mas eu vou acertar as coisas com você...eu preciso acertar

...

Eu só não sei como

...

Algum dia ainda vamos rir muito disso tudo, Susie.

...

O rapaz suspirou, botando seus pensamentos novamente no lugar e finalmente pegando seu telefone celular.

Cayel – Nem eu acredito que estou ligando pra ela, mas fazer o que... – Pensava alto, enquanto terminava de discar o número, esperou então para a chamada ser completada, o que não levou tempo algum.

– "Gostaria de saber quem está ligando em meu número pessoal" Disse uma voz feminina do outro lado da linha, sua voz era firme.

– Bem, esse é o único número que eu tenho... Respondeu ele, meio sem jeito

– "A julgar pelo horário e dia, me resta um suspeito"

Antes mesmo que ele pudesse responder, ela falou novamente, logo em seguida

– "Fujiwara Cayel...A que devo a ocasião?"

Ela ainda se lembra

– Estou de volta a cidade, pensei que seria bom fazer uma visita.

– "Então finalmente retornou para Neo Domino. Fico feliz em ouvir essa notícia" Ainda que fosse quase imperceptível pela voz praticamente apática, talvez estivesse mesmo contente em escutar as boas novas "Ainda é muito cedo, mas podemos nos encontrar em breve. Parece razoável para você?

– Por mim, tudo certo.

– "Estarei lhe esperando no café Domino Plaza, as oito horas, não se atrase."

– Não irei, pode deixar.

– "É bom escutar sua voz novamente, vejo você em breve."

A chamada foi encerrada

Cayel – Formal como sempre, senão até mais...nunca imaginei que de todas as pessoas, Aria seria uma das que se lembrasse de mim...

Mas se bem que ela quem disse, que ansiava meu retorno

Cayel – Bem, ainda tenho muito tempo...acho que posso perder um pouco dele passeando pela cidade, não faria mal.

O rapaz ligou sua moto e saiu em direção ao centro da cidade, matando algum tempo até que fosse o momento de sua reunião com Aria

Após isso, era hora de se estabelecer e começar essa nova jornada

...

As horas passaram, o dia amanheceu e os letreiros brilhantes se apagaram. Os trabalhadores saiam às ruas e os carros se moviam pelas avenidas.

As oito horas em ponto, Cayel estacionou sua moto em frente ao ponto de encontro que havia sido informado

O café Domino Plaza é um daqueles lugares onde escritores iam para tomar café e levar seus notebooks para escreverem os próximos capítulos de suas novelas, ou que jovens tinham encontros românticos, era belo, moderno, requintado e...caro

Chegando no lugar, a maioria das mesas ainda estavam vazias, o local havia acabado de abrir

Ele então olhou em meio às pessoas que estavam lá, tentando identificar Aria em meio a eles...mas não parecia encontrá-la.

Seria aquele mesmo o lugar certo? Teria outro daquele na cidade?

Que vexame seria deixar alguém esperando porque errou o local.

? – Caso ainda não tenha notado, estou bem atrás de você – Disse uma voz feminina, a menos de dois passos de distância de Cayel

O rapaz se virou, finalmente podendo vê-la frente a frente

Ela estava bem mais alta e formosa, a puberdade havia lhe caído bem, seus olhos castanhos com o mesmo olhar afiado que possuía, e seu cabelos levemente azulados caindo até a altura de seus ombros

Muito bem cuidados diga-se de passagem

Cayel – Bem...atrás de mim era o único local que eu não tinha pensado em procurar...

Aria – Por que não pegamos uma mesa, não gostaria de passar muito tempo em pé.

Cayel – Mas é claro...bem, que tal essa aqui? – O rapaz apontou para uma mesa próxima, vazia, do lado de fora do café.

Aria – Boa escolha

Ela se sentou a mesa, logo após ele ter feito o mesmo

Não havia largado a aristocracia, muito menos sua elegância.

Aria – É bom tê-lo na cidade novamente, já fazem muitos anos.

Cayel – É, bons anos...

Um breve silêncio preencheu o ar, e então ao ver que ele não sabia ao certo o que dizer após aquela frase, a moça prosseguiu com sua pergunta.

Aria – Pois bem, como posso lhe ajudar, Cayel?

Cayel – Ajudar? – Perguntou ele, confuso – Eu não acho que eu esteja precisando de ajuda nenhuma.

Aria – Então qual foi a razão da ligação? Achei que tivesse sido esse o motivo.

Ele então lembrou do que ela havia dito quando lhe entregou seu número

"Se precisar de qualquer coisa, me ligue"

Cayel – Não teve razão alguma...foi como eu disse, cheguei recentemente a cidade e pensei em ligar, para saber como estão as coisas...botar as notícias em dia, sabe?

Um vestígio de sorriso veio a seus femininos lábios

Aria – Sinto muito, quanta ignorância minha – Ela estava realmente se desculpando

Cayel – Não se preocupe, eu também não expliquei direito.

Aria – Neste caso – Seu foco mudou completamente e totalmente para Cayel, que se encontrava em sua frente – Como foram as coisas no tempo de sua ausência? O tempo parece ter sido generoso com você – Ela o elogiou.

Cayel – Só parte dele foi. Mas acho que posso dizer o mesmo de você – E ele retribuiu o elogio...da melhor maneira que conseguia

Aria – Foram três longos anos, as coisas sempre ficam em ritmo de mudança.

Cayel – Nem me diga...mas posso dizer que estou muito contente em estar de volta, senti muita falta dessa cidade.

Aria – Quem sabe a cidade também não tenha sentido muita falta de você.

Cayel – Pelo menos ela não me esqueceu, já é tudo que eu pedi antes de sair.

Ela olhou no fundo dos olhos do rapaz, antes de dizer sua próxima frase

Aria – Memórias funcionam de uma maneira peculiar. Certas vezes nos lembramos de mínimos detalhes, e em outras nos esquecemos da grande maioria, tudo que basta é ela ser marcante o suficiente para cada um.

...

O rapaz apenas ficou calado, escutando aquelas palavras e refletindo em seus próprios atos

Mas em seu campo de vista, tudo que via eram seus olhos cacheados, encarando-o profundamente

Ela lia-o como um livro, do qual queria conhecer muito mais páginas

...

Aria – E pelo seu olhar...

Com aquelas palavras, tomou a total atenção do rapaz

...

"Você tem algumas coisas que gostaria de esquecer."

...

Cayel se surpreendeu com a afirmativa que Aria disse

...

Aquilo não fora uma suposição

...

Ela havia olhado no fundo de seus olhos, e decifrado palavras que ele sequer havia dito

E ela também sabia que não era mentira alguma

...

Cayel – Mas...como você... – Ele sequer sabia como terminar aquela frase – Você viu isso tudo, apenas olhando nos meus olhos?

Ela riu brevemente, abrindo um formidável sorriso.

Aria – Os olhos dizem muitas coisas sem falar sequer uma palavra, é uma magnífica maneira de se conhecer alguém melhor.

...

O que era aquilo?

Como ela consegue fazer algo assim?

Eram esses os pensamentos que passavam pela mente do rapaz, e pouco a pouco ele se lembrou que ela também havia feito isso durante a despedida dos dois.

...

"...Pelo seu olhar, parece estar perdido em seus próprios pensamentos..."

...

Ela já havia feito aquilo antes

E hoje, ele se encontrava da mesma maneira

...

Aria – Você pode deixar a cidade, mas ela nunca vai deixar você, Cayel.

...

O rapaz encontrou-se completamente sem palavras

Tudo a sua volta parecia lhe recordar de velhos problemas, ou apenas instaurar novos para que se preocupasse

Seria aquilo um pesadelo?

Ou ela apenas está a fazendo questão, de mostrar tudo aquilo que ele não queria lembrar

...

Aria – Mas, acho que já chega de velhos problemas, conseguirá resolver a todos, em seu tempo – Afirmou ela, com certeza em sua voz

...

Escutando ela dizer aquela frase, deu-se por si novamente e recuperou-se dos distantes pensamentos

Não sabia ao certo o que havia sido

Mas Aria tinha um jeito impressionante com as palavras

...

Aria — O que traz de novo para nós? Quais seus planos agora que retornou.

Cayel – Bem...tudo que trago dessa vez é um sonho.

Aria – E que sonho seria esse, se importaria de compartilhar ele comigo? – Ela olhava para ele com olhar interessado, querendo enxergá-lo além de velhos momentos.

Cayel – Eu vim para me tornar um Riding Duelist, eu quero eternizar meu nome, como o melhor duelista que essa cidade já viu – Respondeu, olhando de volta para ela, olho no olho, demonstrando que ele realmente resguardava tudo aquilo que falou

Aria – Riding Duelist...interessante. Se consolidar como o melhor não vai ser uma tarefa fácil, Neo Domino é um lugar por onde já passaram muitos talentos

Cayel – Eu sei...vai ser um longo caminho.

"Mas"

Novamente, obteve a completa atenção do rapaz

Aria – Acredito que você irá conseguir, e digo isso com sinceridade.

Aquela resposta deixou Cayel surpreso, claro que era esperado que tivesse apoio para seguir seu sonho, mesmo se tratando de algo tão grandioso

Mas não esperava algo assim vindo dela

O jeito com que ela disse, ou melhor, o jeito com que ela afirmou aquilo, não era algo que um dia esperava escutar de alguém

Especialmente alguém que teve tão pouco envolvimento

Aria – Acredito que tenha se tornado um duelista ainda melhor após todos esses anos, e com a determinação que você mostra, uma hora vai ter sua grande oportunidade

Cayel – Caramba...obrigado pelo encorajamento – Disse ele, lisonjeado.

Aria – E quando chegar lá...poderemos ter nosso duelo.

Cayel – Você...ainda se lembra disso?

Aria – É uma promessa minha que eu fiz questão de não esquecer.

...

Cayel – Bem, não é preciso esperar tanto assim, podemos ter uma partida amigável quando você quiser.

Aria – Nós iremos nos enfrentar ainda, além de só amigavelmente.

...

Cayel – Se você diz... – Respondeu ele, sem entender muito bem em que sentido havia sido dito aquela frase.

A jovem abriu um breve sorriso no canto de sua boca

Aria – Gostaria de poder passar mais tempo aqui, entretanto possuo alguns compromissos para lidar.

Cayel – Nem vi o tempo passar...sequer tive tempo de perguntar o que você andou fazendo.

Aria – Não se preocupe, podemos nos reunir novamente em outro momento, ou se preferir pode entrar em contato, botar as notícias em dia, como você disse.

Cayel – Não vou garantir que vou ligar tão cedo...mas garanto que vou ligar em algum momento.

Aria – Já é mais que o suficiente para mim, nos encontraremos nos caminhos desta vida em breve, passar bem – Ela se levantou, despedindo-se do rapaz

Cayel – Nos vemos por aí então – Ele também se despediu

Foi com certeza o encontro que ele menos esperava que ocorresse, mas acabou sendo um dos que ele mais precisava

Era hora de botar as ideias em ordem, de definir objetivos, e de começar sua longa jornada

...

E quem sabe de tomar café da manhã também

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Notas finais
Até um próximo capítulo, see ya!