. . .

“Então, vamos dar uma voltinha”

. . .

May foi até as baias do fundo da oficina enquanto Cayel foi pegar sua moto que estava estacionada na rua. May pegou suas roupas, colocou seu capacete e ligou sua velha Duel Runner, uma sinfonia praticamente divina no formato de um motor preenchendo toda a garagem, como o rugido de uma fera selvagem.

Era uma besta que Cayel só havia visto uma vez, e pelo visto havia ficado ainda mais selvagem após sua reconstrução.

Enquanto May deixava a moto esquentar um pouco na garagem e vestia sua roupa, Cayel ponderava suas próprias ideias, pensando sobre o momento em que teria de arranjar sua própria Duel Runner. Talvez fosse uma boa ideia tentar procurar alguma no ferro velho, assim como o mecânico havia feito, para poder reconstruir ao longo do tempo.

Seria uma chance de ter algo único e, ao mesmo tempo, aprender mais sobre mecânica ao lado de May, visto que este aprendizado seria útil tanto dentro da oficina quanto fora dela.

As baias traseiras da garagem se abriram e May saiu com…sua moto pessoal?

Cayel – Espera…mas…cadê a duel runner? – Perguntou ele, bem confuso

May – Está ali dentro. O que foi, achou que eu fosse usar ela? – Perguntou ele, rindo atoa

Cayel – É lógico, você até ligou ela.

May – É bom ligar seu veículo de vez em quando, pra garantir que está tudo funcionando direito. Mas não temos como usar ela, a diferença de potência com a sua moto é incomparável, por isso vou usar a minha belezinha aqui, deve ser uma competição justa.

Cayel – E eu aqui já ficando animado pra correr contra ela – Suspirou, mas riu logo em seguida por ter sido feito de bobo

May – Alguma hora iremos correr com ela, não se preocupe, mas por hora, vamos nos limitar a duzentas e cinquenta cilindradas, já será o suficiente para o que vamos fazer. – May fechou a garagem dos fundos da oficina, e em seguida fechou seu visor – Me acompanhe

May saiu acelerando na frente, Cayel o acompanhou logo atrás, andando pelas avenidas do norte de Neo Domino, em direção ao que aparentavam ser os limites da cidade.

…

A paisagem era formidável, conforme via a cidade se desconstruindo pouco a pouco, os prédios começavam a dar lugar às casas, e as casas davam lugar a lotes vagos e terrenos ocupados por plantas. Mesmo tendo morado em Neo Domino por praticamente toda sua vida, Cayel não tinha a menor ideia que um lugar como aquele existia na cidade.

Era refrescante ver um local que ficou, de certo modo, congelado no tempo.

Aquilo servia para evidenciar uma das características mais importante da cidade dos progressos, a maneira que ele havia ocorrido.

A expansão tecnológica de Neo Domino City correu sempre do centro para as extremidades, assim como havia sido com Domino City quando a cidade ainda existia.

Os grandes empresários construíam seus arranha céus enormes de grandes janelas nos centro da cidade, isso acabava por atrair moradores, outros investidores, e assim iam se expandindo conforme acabava o espaço

Consequentemente, houveram áreas mais e menos desenvolvidas, baseado no quão próximas estavam de todo luxo e glória, infelizmente a zona norte não foi uma delas. Ainda que tivesse sua parcela de prédios, não eram nem um quarto do tamanho dos do centro, e a maioria hoje estava à venda, largado ou abandonado.

A zona norte havia se tornado quase uma área dormitório, onde aqueles de classes mais baixas moravam, acordando todas as manhãs para poderem servir em seus empregos, ou tentar a sorte e abrir um negócio próprio, correndo o risco de ficar sem clientela

Era o resquício que ainda havia sobrado da antiga Cidade Domino, deixado de lado, completamente vazio, assim como aqueles que moravam naquela região

Marcos Zeyher era um desses, que presenciou a evolução e a metamorfose da cidade, conforme ficava deixado de lado, viu sua paixão se tornar obsoleta conforme novas coisas surgiram e, por fim, decidiu entregar-se a sua paixão, abrindo sua própria oficina

Não era um ramo fácil, a localidade atrapalhava muito, por isso teve de investir em um negócio de nicho, que coincidentemente foram as novas Duel Runners, o mesmo veículo que tornou seu esporte e sua vocação de piloto obsoletos

Já não eram mais necessários circuitos, times elaborados, técnicas, agora tinham uma nova diversão, os duelos de velocidade, circuitos ovais, duelos rápidos…qualquer um poderia se tornar um campeão

Mas não segurou mágoas, entendeu que aquilo fazia parte do ciclo social, e algum dia viria outra coisa para tornar obsoletas todas as novas tecnologias.

Conseguiu manter-se longos anos no negócio, construindo uma clientela fiel, mas que ao longo dos tempos foi reduzindo cada vez mais, conforme novos especialistas surgiam nos grandes centros, tunando e modificando as motos com as tecnologias mais recentes, sem um pingo de afinação.

Era uma boa vida, pacata, pra quem um dia já viveu a mais de 170 km/h, com adrenalina correndo por todas as veias do corpo, mas de vez em quando se via pilotando novamente, para relembrar seus velhos tempos

Esse era o caso de hoje, por mais que estivesse ali para cumprir uma promessa.

May via em Cayel um reflexo de si quando era jovem, determinado e apaixonado, fazendo de tudo para alcançar seus sonhos. Certas horas a diferença entre os dois era apenas a faixa etária

A maneira com que ele conectava-se com seus motores era a maneira que Cayel se conectava com suas cartas, era uma nova instância do mesmo sonho que um dia já teve

Por isso, não pôde dizer não quando o rapaz pediu aquele favor a três anos atrás, entretanto, ficou mais orgulhoso ainda quando ele retornou, e provou que o sonho ainda existia

Provou ter a garra para buscá-lo, mesmo sabendo de todas as dificuldades. Quem não os conhecesse, talvez pudesse até dizer que eram irmãos

E o já nem tão jovem mecânico queria ajudá-lo a alcançar o seu sonho, de todas as maneiras que pudesse

Por isso inclusive estavam ali, percorrendo as largas avenidas vazias do Norte, permitindo que ambos pudessem tirar um pouco mais de proveito daquela breve viagem antes que chegassem no seu destino

Queriam sentir o vento cortante contra suas proteções, conforme aceleravam cada vez mais rápido.

110 Km/h

…

130 Km/h

…

155 Km/h

…

170 Km/h

Parecia que aquele trecho de pista não tinha fim, era a primeira vez que Cayel pilotava tão rapidamente em sua própria moto, e ainda sim, sabia que não havia alcançado nem uma fração do que havia sentido naquele dia.

Não muito a frente, May começou a reduzir a velocidade, indicando que mais a frente estaria fazendo uma curva, Cayel reduziu logo atrás, não sabia onde estavam parando até que os faróis de suas motos bateram contra uma grande parede no final da estrada

“Autódromo de Domino City, Presa do Dragão”

Pararam logo a frente do grande muro, que circulava a grande pista de corrida, May desceu de sua moto, tirou o capacete e esticou um pouco as costas

May – Faz tempo que não visito aqui, mas é sempre bom ver esse lugar novamente – Disse ele, contemplando o portão de entrada, que estava com algumas correntes e cadeados, obstruindo a passagem.

Cayel – Então era aqui que você corria? Não sabia que Neo Domino tinha um autódromo.

May – E não tem, esse Autódromo foi construído quando isso ainda era parte de Domino City…se bem que ainda é de um jeito ou de outro.

Cayel – Domino City? Achei que isso fosse Neo Domino tivesse sido feita em cima dela…como isso sobrou aqui?

May – Bem, Domino City foi uma cidade enorme, e esse é um pedacinho que ficou largado ao tempo…ainda me lembro do dia que inauguraram isso, eu tinha meus treze anos…

Cayel – Hum…quantos anos você tem agora?

May – Trinta e Oito

Cayel – Você realmente não aparenta essa idade.

May – A graxa ajuda a manter a pele jovem – Ele riu um pouco – Mas foi aqui que eu comecei a minha carreira de piloto, também foi aqui que fiz muitas corridas, algumas das minhas melhores inclusive. Adorava vir aqui nos tempos de ensino médio, com minha antiga moto que eu tinha comprado do meu pai, me juntar com um monte de colegas e ficarmos dando voltas e volta por essa pista, apostando corridas… – Falou, lembrando-se de seu doce passado

…

“O tempo não perdoa mesmo…”

…

Essas palavras ecoaram na mente de Cayel, remetendo-lhe as suas próprias memórias

“Mas pra ser bem sincero, nem deveria, acho que nós quem temos que aprender um pouquinho a mais com ele…aprender a aproveitar mais as coisas…”

E assim como havia levado Cayel a refletir, na mesma velocidade o puxou de volta para a vida real. Ainda que parecesse um recado jogado ao vento, um mero pensamento em voz alta qual queria dizer para convencer a si mesmo, servia também de conselho

…

Um conselho que ambos podiam seguir.

…

May – Bem, as memórias vão ter que esperar mais um pouco, é hora de irmos pra pista – May foi andando em direção ao grande portão, que ainda estava trancado

Cayel – Mas o portão tá trancado – Comentou, olhando todas aquelas correntes e cadeados

May – Eu sei, mas não é como se eu já não tivesse a minha chave alternativa – Ele foi até o cadeado e apenas puxou ele para baixo com força, abrindo a tranca.

Ele retirou todas as correntes e finalmente abriu o grande portão, que dava acesso direto a onde ficavam os boxes.

May – Faça as honras

Cayel adentrou os portões da pista de corrida com sua moto, sendo seguido por May pouco tempo depois. Dirigiram-se aos boxes, que davam acesso à pista propriamente dita.

Era perceptível a sujeira e poeira que foram se acumulando ao longo do tempo naquele lugar, pelo visto ninguém usou o autódromo em muito tempo. Dentro de certos boxes ainda era possível encontrar itens largados para trás, alguns pneus que já se encontravam cheios de matos e musgos, panfletos e pôsteres rasgados, empoeirados e danificados, junto de equipamentos de manutenção, largados para virarem ferrugem

May – Vamos para a linha de largada, seu primeiro desafio começa lá – Ele passou a frente de Cayel, mostrando-lhe como chegar na pista principal

Assim que alinharam-se com as marcas de posições no chão, ambos pararam suas motos

May – Faremos uma volta de perseguição, eu irei na sua frente e você larga atrás de mim, tente se manter o mais próximo que conseguir. Não se preocupe com tempos, essa é sua primeira volta na pista – Explicou o mecânico, olhando para a pista em sua frente – Farei uma contagem regressiva de cinco a zero, esteja atento.

Sabendo disso, o rapaz respirou fundo, fazendo questão de escutar atentamente os sons ao seu redor, fossem dos fracos ventos que sopravam contra eles, batendo contra folhas e matos, fosse dos motores de suas motos, aguardando a largada, até mesmo o som de sua própria respiração.

…

“5”

…

“4”

…

“3”

…

“2”

…

“1”

…

“0”

…

Em um átimo, a turbulência dos motores acelerando em rotação máxima preencheu o ambiente, ecoando para fora do autódromo.

May e Cayel largaram com toda potência que podiam, ainda que Cayel tenha sido pego levemente de surpresa pelo torque extremo da moto em uma aceleração tão brusca, conseguiu se recuperar poucos momentos após largar.

Aquele era um circuito técnico, com sequências de curvas importantes que qualquer piloto acharia útil saber enfrentar. Logo após a largada, uma curva aguda para a esquerda, levando a primeira reta, dessa saia diretamente em uma curva em S, mais adiante jogando os pilotos para a próxima curva aberta a direita, por fim, havia uma última curva fechada à esquerda antes da sessão de alta velocidade principal da pista, que ia se curvando para a esquerda levemente. Ao final, havia uma chicana para reduzir a velocidade dos pilotos e jogá-los na última curva a esquerda, de volta para a linha de largada.

Quando vista de cima, o desenho lembrava a presa de um dragão, o que fez este se tornar o nome oficial da pista.

May abriu a primeira curva por fora, guiando pelo interior da curva e inclinando seu corpo junto da moto, saindo pelo lado de fora da saída em velocidade moderada. Cayel seguiu pelo meio da pista, freando antes da curva e virando o guidão conforme necessitava de ângulo de viragem, tomando cuidado para não sair da pista, entretanto acabou saindo de forma lenta da primeira curva

A distância entre os dois, que havia começado nula, já havia se tornado equivalente a uma ou duas motos de distância, mesmo que estivessem com motos de mesma cilindrada

Seguindo para a curva em S, May novamente demonstrou sua proeza de piloto, guiando a moto pelas linhas de apex perfeitamente, usando seu corpo como extensão de sua moto para entrar e sair da curva com extrema velocidade

Cayel novamente segurou mais a moto, freando mais que o necessário e fazendo a curva de modo lento e seguro. Quando finalmente saiu da curva em S, abrindo levemente para a direita, podia ver May mais a frente, fazendo a curva fechada e acelerando com tudo.

Em apenas duas curvas rápidas, ele já havia ficado pelo menos três ou quatro segundos atrás, não havia como recuperar tanta distância assim.

Ele fez a curva fechada, chegando na sessão de alta velocidade, tentando recuperar o máximo de tempo que conseguia, acelerando ao máximo, mas já era inútil

Não via nem sinal de May a sua frente, nem mesmo após a chicana, ele já havia terminado a volta na pista

Era incrível como ele conseguia ser tão rápido e preciso.

Por fim, guiou a moto pela chicana e acelerou uma última vez até a linha de chegada, onde May já o esperava, com sua moto completamente parada. Fez questão de parar do lado dele, retirando o capacete

Cayel – Eu te perdi completamente de vista depois da terceira curva, tentei te seguir o mais rápido que eu pude – Comentou, extremamente impressionado

May – Conhecer a pista faz muita diferença, eu admito, mas isso aconteceu por conta da maneira como eu guio a moto pelas curvas, você deve ter conseguido reparar logo no começo – Explicou o mecânico – Pra fazer isso eu utilizei algumas técnicas que aprendi ao longo dos meus anos de piloto, e a primeira delas que você vai precisar aprender é a Fora Dentro Fora.

Cayel – Fora dentro fora? Eu não entendi…

May — É um princípio de posicionamento, você abre a curva, ficando mais próximo do lado de fora dela, depois vai em direção ao centro, o lado de dentro da curva e por fim sai pelo lado de fora, permitindo que você acelere logo que cruzar a parte de dentro. Isso vai fazer com que você não precise frear tanto chegando na curva e ajudar para que acelere mais rápido na saída.

Cayel – Eu…acho que entendi.

May – Não precisa se preocupar com a explicação, assim que começar a praticar você vai ficar melhor. Vamos começar com a primeira curva, assim que conseguir executar ela iremos para a próxima, ok?

Cayel – Tudo bem. Começar por fora, passar por dentro da curva e em seguida acelerar, não parece tão difícil assim.

May – Vou ficar te observando do lado de fora da pista, pode começar quando quiser – Ele guiou sua moto para fora da pista, ficando frente a frente com a primeira curva, para que pudesse observar as tentativas de Cayel.

Cayel – Beleza, aqui vou eu! – Cayel acelerou sua moto novamente, com o objetivo traçado de aprender aquela técnica de pilotagem

E ali eles ficariam por muitas horas, tentativa após tentativa, com May orientando Cayel em cada um de seus erros e de como executar corretamente uma das técnicas que ele achava mais importante para uma pilotagem rápida

Ainda que, no fundo de sua mente, Cayel duvidava um pouco da utilidade daquela técnica, uma vez que todos os circuitos de duelos eram ovais, e as rodovias eram praticamente todas em linha reta, mas pouco importava.

Se era uma etapa para conseguir pilotar igual May, e ele insistiu em ensiná-lo, sabia que era importante, e iria executar até se tornar bom o suficiente

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Centro Comercial de Neo Domino

. . .

Em um espaçoso escritório, trabalhava uma jovem moça, realizando diversas anotações em seu computador pessoal, sua sala era a única no andar que ainda tinha as luzes acesas, indicando que todos os outros já haviam ido embora

…

Aria Sayiho, ainda que estivesse apenas em seus jovens vinte e um anos, era responsável por parte dos negócios de sua família, dos quais envolviam primariamente duas áreas, o ramo imobiliário e o ramo energético.

Ainda em seu tempo de adolescente, algum tempo antes de se tornar colega de turma de Cayel, convenceu sua família a investir nesse novo ramo de energia síncrona, que vinha se construindo pouco a pouco mas já se mostrava extremamente rentável.

Era uma maneira de gerar energia limpa para a cidade, além de consequentemente permitir que outras tecnologias futuras pudessem ser desenvolvidas na apelidada revolução synchro.

Com isso Neo Domino viu novos tempos de prosperidade, praticamente todo elemento tecnológico da cidade recebeu um upgrade, especialmente no conglomerado que era a Ilusões Industriais, inspirados por esta nova tecnologia, desenvolveram os chamados monstros synchro, que por si só provocaram uma revolução no modo de jogar e competir de monstros de duelo

Era novamente a mesma história, do novo que torna o antigo absoluto, na busca eterna pela evolução

Um dos ramos mais beneficiados dos duelos foram os Riding Duels, concebidos durante a era de fusões e rituais, um esporte de extrema velocidade e que utilizava dessa adrenalina para dar ao público e aos duelistas uma experiência única no mundo dos duelos

A mudança abrupta fez com que velhos moldes tivessem que ser abandonados, e aqueles que não conseguissem se adaptar infelizmente ficariam para trás, fosse na competição, fosse na sociedade.

Estranhamente, sequer foi dada a oportunidade de se adaptar, uma vez que um novo grupo econômico surgiu na cidade de repente.

A KSU era uma empresa sem muitos rastros, seu fundador era um milionário influente, que aparentava ter ficado rico antes mesmo da revolução synchro e que agora queria participar da única maneira que achava relevante, comprando e fundindo-se com demais empresas da cidade

E assim, pouco a pouco, a KSU se tornou dona de uma grande parcela dos negócios em Neo Domino, comprando inclusive os direitos de transmissão e execução do World Racing GrandPrix, o que deu a eles contato direto com a Ilusões Industriais, e, mais importante, fez com que possuíssem influência o suficiente para manipular o conselho esportivo de duelos, provocando inúmeras mudanças de regra na maneira como Riding Duels eram conduzidos e feitos.

Para muitos, aquilo era completamente normal, mudanças grandes sempre aconteciam, eram necessárias para manter o esporte fresco e interessante, mas também havia aqueles que duvidavam de tantas trocas.

Uma dessas pessoas era Aria, que encarava o grupo com receio, isso por que, além de serem rivais diretos no ramo imobiliário, a KSU também tentou adquirir várias vezes a companhia energética da família, com ofertas extremamente absurdas que ninguém em sã consciência recusaria…exceto ela

O problema é que, com o tempo, o que era para ser uma competição de mercado se tornou uma competição pessoal, com a KSU fazendo de tudo para tentar tirar a família de Aria do mercado. E hoje não seria diferente

…

Um leve toque era ouvido contra a porta de vidro do escritório, seguido pela entrada de uma figura imponente, era um homem alto, de bom físico, já na meia idade, vestindo um belo paletó, trajado de roupas elegantes.

Aria – Se veio fazer uma visita, agende um horário, eu não quero te receber aqui agora – Disse ela, sem mesmo nem olhar para o homem

? – É assim que cumprimenta todos que vem aqui? Achei que fosse ter consideração maior por uma das figuras mais importantes de Neo Domino – Respondeu o homem, gargalhando de leve – Lhe trouxe um pequeno presente, espero que aprecie-o… – O homem se preparava para retirar algo do paletó que vestia

Aria – Viktor, está lidando diretamente comigo, não desperdice meu tempo e vá direto ao assunto, ambos sabemos o que você veio fazer aqui – Respondeu ela, ríspida, encarando o homem com olhar imparcial

Viktor – Continua arrogante como sempre…Mas já que insiste, também não preciso manter minha postura aqui – Ele puxou uma cadeira à frente da mesa de Aria, ficando ambos frente a frente – E então, já decidiu aceitar minha última oferta? Senhorita Sayiho.

Aria – Você já sabe muito bem a minha resposta Viktor, eu não vou te vender nem sequer um pedaço dessa companhia, o seu esquema não vai funcionar comigo.

Viktor – Veja bem, está falando com um dos maiores acionistas de todo seu departamento energético, não queremos que vocês percam seus fundos e tenham que abrir falência…não é mesmo? – Disse ele, com soberba em sua voz, o que retirou uma reação de surpresa da jovem moça

Aria – Do que você está falando? – Perguntou, um pouco incrédula – Você não tem um dedo sequer na minha companhia, se acha isso está extremamente enganado

Viktor – Nem pensar senhorita, você quem está extremamente enganada – Disse, com um sorriso vitorioso no rosto – Ultimamente fiz algumas aquisições, e dessas, coincidentemente a maioria são investidores da sua companhia…e agora que possuo a maior parte das ações deles, consigo tomar algumas decisões por parte deles.

Aria – De quantos por cento você é dono afinal…anda, diga logo – Ela subiu levemente o tom de voz, mostrando-se irritada, o que apenas satisfazia ainda mais Viktor

Viktor – Trinta e dois, mas é apenas uma questão de tempo até que chegue ao quarenta e nove, e depois disso…cinquenta e um, mas, antes que tenha que chegar nesse ponto, estou lhe oferecendo uma oferta sensata, venda logo de uma vez a sua companhia de pesquisa energética, e viva feliz com sua família e seu dinheiro, podemos inclusive acertar a questão do ramo imobiliário, para que não se sinta tão prejudicada

Aria – Você está me chantageando por acaso?

Viktor – Oh não, longe de mim…isso ainda não é chantagem, é apenas misericórdia. O resto de sua família ao menos entende bem de como funciona o mercado dos negócios, mas você parece que ainda está pouco informada, então deixe me atualizá-la de como isso funciona – Ele olhou no fundo dos olhos dela, com olhar afiado e confiante – Essa aqui não é mais uma brincadeira de criança, Aria. Neste mundo, existem as presas e os predadores, você pode ser um predador neste momento, mas sempre haverá alguém maior que você neste mundo…e esse alguém sou eu.

Aria escutava aquelas palavras enquanto segurava sua raiva e frustração, não querendo se rebaixar ao nível dele, afinal era exatamente o que ele queria, que ela começasse a hesitar, que cedesse completamente a seu jogo

Viktor – Afinal, sejamos francos também, isso deixou de ser só negócios já faz um bom tempo, mas já está na hora de você aprender o seu lugar…você não tem condição alguma de bater de frente comigo, e quanto mais cedo perceber isso melhor e mais fácil será para você.

Aria – Se pensa que eu vou me render a seu jogo sujo, é bom pensar duas vezes, por que eu não vou ceder, não hoje e nem nunca. Eu não sei o que você quer com tudo isso, mas sei que não é boa coisa, a mim você não engana, Viktor – Respondeu ela, tentando manter a postura e a calma

Viktor – Você é extremamente insistente para uma pirralha, se continuar nesse caminho, eu não vou poupar esforços pra acabar com você. Você não tem como se defender para sempre, uma hora você vai ceder, e nesse momento verá com quem você tentou competir…por sorte sua, sou muito benevolente, por isso tenho uma nova proposta que pode lhe interessar muito bem – Ele finalmente retirou o pacote do bolso do paletó, era uma carta com selo do comitê esportivo de duelos de Neo Domino

Aria – O que é isso? Qual é o seu plano? – Ela olhou o envelope, com suas suspeitas altas

Viktor – Eu sei o quão você gosta de se vangloriar de ser uma excelente duelista, suas aventuras no mundo dos Riding Duels não são novidade para mim. Então o que acha de jogarmos um joguinho? O próximo WRGP está logo ali no horizonte, temos novos talentos prontos para brilhar…caso vença o torneio, prometo que cessarei minhas tentativas de compra, seja do seu ramo imobiliário, seja do energético. Mas se você perder… – Pausou enfaticamente, rindo descaradamente – Você vai ter que vender a sua companhia para mim, cem por cento dela.

Aria – E o que faz você pensar que vou aceitar isso?

Viktor – Se você não aceitar, farei questão de trucidar seus negócios, de você e da sua família, até que não reste pedra sobre pedra, sairão sem nada, completamente destruídos e derrotados, afinal, você sabe que é uma questão de tempo até que isso aconteça. Como fez questão de recusar todas as minhas ofertas sensatas até este momento, eu já perdi a minha paciência para lidar com você.

Ele havia colocado ela exatamente onde queria, debaixo de suas ameaças, e por mais bem portada que fosse, era perceptível como seu corpo tremia levemente, ao reconhecer que estava encurralada no jogo dele, sem ser ter percebido

Viktor – Sei que é uma decisão difícil, por isso vou lhe dar uma semana para que possa pensar nisso. Uma de minhas secretárias virá coletar sua resposta, afinal estou muito ocupado resolvendo questões importantes… Mas pense rápido Aria, o tempo está se esgotando para você – Ele se levantou da cadeira, indo em direção a saída do escritório – Mande um abraço para seus pais e para o seu irmão

Ele saiu pela porta, com passos pesados que se distanciaram cada vez mais, enquanto Aria se via na situação em que havia parado, seus punhos tremiam de raiva, mas também de medo

Aria – Eu não acredito…eu não acredito que ele me encurralou assim, como um rato… – Ela olhava para o convite em sua mesa, relembrando muito bem as palavras que ele havia dito a pouco – Inferno! – Exaltou-se, deixando sua voz alta ecoar pelas paredes do escritório, levantando-se da sua cadeira e caminhando pela sala – Tem algo muito errado nisso tudo, e se eu permitir que ele vença essa disputa…eu não sei o que pode acontecer

…

“Isso já não são negócios a muito tempo, não tem como ser, tem algo por trás disso tudo e ele quer me atrair para lá de qualquer jeito”

…

Aria virou-se para a janela de seu escritório, podendo ver de longe as luzes do grande estádio de Riding Duels de Neo Domino, com suas fachadas brilhantes, sinalizando a mensagem de que as preliminares do próximo WRGP começariam em breve

…

“Não há decisão a ser tomada…”

“Eu não tenho outra escolha”

…

. . .

Já eram quase onze horas da noite, Cayel e May haviam ficado praticando por pelo menos quatro horas seguidas, mas o treino estava obtendo resultados

Após tantas tentativas, ele havia pegado o jeito, e agora traçava uma volta completa ao longo do circuito, aplicando a técnica que havia aprendido em mais uma volta de perseguição atrás de May

Haviam começado lado a lado, como foi da primeira vez que correram, mas dessa vez a distância entre Cayel e May na primeira curva era bem menor, cerca de menos de um segundo

Ambos aceleraram com tudo na saída da curva, conseguindo grande velocidade para a curva em S, lá Cayel aplicou novamente a técnica do jeito que havia aprendido. Era incrível quanto algo tão simples quanto o posicionamento para uma curva podia fazer tanta diferença assim.

Saindo da curva em S, seguiram em direção a primeira reta, dessa vez Cayel conseguia ver claramente May em sua frente, dois segundos de diferença no máximo.

Entraram os dois na curva fechada, sempre priorizando manter a maior velocidade na entrada e acelerar com tudo na saída. Isso fez com que finalmente não perdesse o mecânico de vista na reta, ainda sim, era perceptível como ele parecia acumular velocidade muito mais rápido, graças a maneira como ficava em sua moto, abrindo distância de Cayel novamente.

Por fim, passaram por dentro da chicana e aceleraram para a linha de chegada, parando lado a lado.

Cayel – Dessa vez eu não te perdi de vista, fiquei na sua cola a pista inteira – Disse o rapaz, retirando o capacete

May – Os treinos surtiram efeito, você aprendeu a como se aproximar das curvas, amanhã veremos mais uma técnica que você vai poder começar a aplicar para conseguir se tornar ainda mais rápido ao redor das curvas – Disse o mecânico, também removendo seu capacete

Cayel – Mas May…esse treino de curvas vai ser realmente tão necessário assim? – Perguntou, ressaltando a dúvida que tinha durante todo esse tempo

May – Não é muito difícil ir rápido em uma linha reta, qualquer um sabe acelerar. Mas saber guiar a moto quando chegam as curvas, saber como manter a velocidade e sair ainda mais rápido, são poucos que conhecem.

Foi então que a ideia finalmente penetrou a cabeça de Cayel, por mais que em sua cabeça só conseguiu enxergar que haviam treinado como fazer curvas fechadas, percebeu o verdadeiro significado daquele primeiro dia de treinamentos

Pouco a pouco foi relembrando de todas as dicas que recebeu, e de como serviam para ensiná-lo a se manter sempre na velocidade mais alta possível, mantendo o controle da moto, e que aquilo não servia somente para curvas sinuosas, poderia servir também para o circuito oval

Cayel – O duelista que atravessa a primeira curva na frente começa o duelo…então isso quer dizer que

May – Se você conseguir fazer a primeira curva mais rápido que eles, começará na vantagem se assim quiser – Explicou para o rapaz

Cayel – Caramba, isso é fantástico! Eu não fazia nem ideia…

May – Eles podem até saber guiar uma D-Wheel, mas pilotar vai muito além disso. Agora o que me diz de voltarmos para a oficina? Já está bem tarde, temos que nos preparar para o dia de amanhã, além de que o café de mais cedo já começou a perder o efeito.

Cayel – Claro, acho que eu também preciso descansar depois de tanto tempo em cima de uma moto.

Os dois aceleraram para fora da pista, May colocando novamente as correntes e fechando o grande portão com o velho cadeado, que teria que aguardar até o dia seguinte para ser aberto novamente.

May – O último a chegar na oficina paga um lanche pro vencedor, o que me diz?

Cayel – Se for assim, pode apostar que vou dar um jeito de chegar lá antes de você.

May – Isso é o que vamos ver, te vejo na porta da garagem Cayel!

Ambos aceleraram em direção ao horizonte, percorrendo a longa avenida de volta para a oficina, aproveitando o vento noturno contra seus corpos conforme iam cada vez mais rápido.

A luz da lua refletia em suas motos, banhando aquela parte vazia da cidade com seu brilho lunar

Aquele foi o primeiro bater de asas desse novo sonho, que tinha tudo para decolar em breve.

. . .

Notas finais
Até um próximo capítulo, see ya!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.