You've got the Sunrise
21 Capítulo 21 - Cole
Notas iniciais
Eu podia ter feito as coisas de um jeito diferente. Podia mesmo. Podia ter sido sincero desde o começo, mas não fui. Ela merecia isso.
FLASHBACK ON
Estávamos no jardim da escola, eu sentado no banco de madeira das mesas de piquenique e Emma deitada com a cabeça apoiada nas minhas pernas. Acho que isso era o mais próximo que eu já tinha ficado de uma garota. Em toda a vida.
Eu estava enrolando uma mecha de seu cabelo sedoso e cheiroso enquanto, inconscientemente, passava a língua nos dentes superiores, onde o aparelho ficava até a semana passada. Ela riu e eu parei no momento em que percebi o que estava fazendo. Não queria passar a imagem de que era tosco para Emma.
– É tão estranho assim quando faço isso? — perguntei.
– Não. É só porque eu adoro rir da sua cara.
– Engraçadinha. — dei-lhe um selinho e ela parou uns poucos segundos para pensar.
– Eu sei que você não gosta muito de festas, mas quer vir ao baile comigo?
Ela me pegou desprevenido e eu me emudeci. Não podia dizer não à ela. Ela era muito adorável para dizer não. Mas eu não queria ir. Odiava ser claustrofóbico e asmático ao mesmo tempo. Após algum tempo eu respondi.
– Eu não sei, Emma. Eu nunca fui para uma festa da escola. Na verdade, nunca fui para muitas festas. — confessei. E era verdade. Nunca gostei muito de festas porque as pessoas me intimidavam e eu, por vezes, tinha falta de ar, tendo que sair da diversão e ir para um canto esperar a respiração voltar ao normal.
– Vamos. Como uma experiência. — ela insistiu.
– Não sei. — repeti.
– Vamos, Col. Eu prometo que dou um jeito de fazer a noite ser fantástica pra você. Se for por ser não ter experiência com festas, eu posso dar um curso intensivo sobre festas. — ela segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos, ficando apenas olhando para meus olhos. Como eu podia continuar enrolando com ela me olhando assim?
– Não é por ser uma festa. É que eu estou cansado de estar na coluna de fofocas do jornal da escola. Eu não posso sequer dar a mão a você sem que uma foto apareça lá. — menti.
– Se o problema for esse, eu prometo que falo com quem quer que seja o editor do jornal e isso nunca mais vai ser um problema. — ela falou e o brilho que vi em seus olhos me disse que ela não estava brincando quando disse isso. Ela realmente tinha capacidade de fazer isso.
– Você não pode convencer todos a fazerem o que você quer. Sabe disso. — meus olhos estavam fechados. Era mais fácil enrolar alguma desculpa assim, sem olhar naqueles sinceros olhos azuis.
– Eu sei. Mas, sério, se esse for o problema, eu prometo que dou um jeito de fazer isso parar.
Suspirei. Tinha que me render em algum momento. Eu ia contar para ela... eventualmente.
– Eu preciso levar um corsage? — perguntei.
– Não. — sua boca se curvou em um sorriso lindo que só ela sabia dar. — Apenas esteja lá.
– Ok. — beijei-a de leve nos lábios e olhei em seus olhos. Tinha que aproveitar esses momentos. Eles não durariam mais tanto tempo se eu continuasse com meu plano. — Eu vou estar.
– Ótimo. — ela me beijou novamente.
Eu não mereço essa garota e ela merece bem mais do que um nerd que tem vergonha até de andar de mãos dadas com ela. Ela merece alguém que não seja tímido a ponto de mal conseguir falar com os amigos populares dela. Ela precisa de um anti-eu.
FLASHBACK OFF
Agora, eu admito que só faço merda. Digamos que hoje é a noite do baile e, ao invés de estar acompanhando minha namorada, eu estou em casa, deitado no sofá, assistindo Peppa Pig por causa da minha sobrinha. E eu, ainda por cima, ME OFERECI para ficar de babá dela. Qualquer coisa sobre minha irmã e meu cunhado irem ao teatro e não terem com quem deixar a filha de três anos.
Para ser sincero, eu não queria ir pro baile, mas o baile é melhor do que uma overdose de Peppa Pig e Galinha Pintadinha. Meu telefone começou a vibrar em cima da mesa de centro. Era Emma.
– Oi, Emma. — respondi o telefone.
– Oi, Cole. — pude perceber que ela estava sorrindo. — Quer que eu passe pra te buscar?
– Não precisa, Ems. Eu vou pegar carona com o Luke, meu irmão. — menti.
– Tudo bem. Te vejo no baile? — ela perguntou, seu tom soando um tanto quanto ansioso.
– Com certeza.
– Eu te amo. — sorri com aquela frase.
– Também te amo.
Desliguei o telefone e comecei a procurar pela criatura fofinha de três anos para desligar aquela merda da televisão. Quando a achei ela estava na minha frente, olhando fixamente para mim com aqueles olhos castanhos inocentes brilhando, como se quisessem saber de algo.
– O que foi, Ally? — perguntei.
– Eu quero brincar, tio Col. — Ally falou, sua vozinha fina e irritante me dando dor nos ouvidos.
Respirei fundo. Essa ia ser minha penitência: imaginar a MINHA garota dançando e se divertindo com outros caras, esperando que eu chegasse (o que não aconteceria) enquanto eu fico preso em casa tomando conta de uma pestinha de três anos que nem aprendeu a pronunciar o "r" direito. Tudo porque eu não tive coragem de contar pra minha namorada que sou claustrofóbico e tenho asma.
– Do que você quer brincar? — perguntei, tentando ser paciente com ela. Ela sorriu.
– De barbie!
– Mas eu não brinco de barbie.
– Por favor, tio Cole! — ela pediu, suas mãozinhas juntas em uma súplica. Eu posso até fingir que não me derreto por ela, mas é impossível. Acabei cedendo.
– Como eu brinco de barbie? — perguntei.
Ela abriu um sorriso enorme e me entregou uma de suas barbies. Graças a Deus, não tinha mais ninguém em casa, ou isso daria um vídeo lindo que alguém ia mostrar para Emma algum dia. Se é que ela ainda vai querer estar com um fracassado medroso que nem eu depois de hoje.
Acabou que a definição de Ally para brincar de Barbie com ela era eu ficar segurando a boneca como se fosse um suporte. Se eu soubesse disso, teria pegado um suporte de microfone tempos atrás. Sou tirado da brincadeira por um telefonema.
– Só um minuto, ok, Ally?
Saí de perto dela. Não queria que ela ouvisse nada.
– Você ainda está vindo? — Emma perguntou, sem enrolação. Provavelmente já estava muito puta comigo nessa hora.
– Claro. Só estou esperando o Luke terminar de se arrumar para pegar o encontro dele. — menti.
– Isso quer dizer que você já está aqui? Porque eu estou com seu irmão e com o encontro dele, que, por acaso, é a Keith. Então seja sincero: você está vindo ou não?
Ela me pegou de surpresa. Merda. Não sabia que a Keith era o encontro do Luke. Respirei fundo. Eu sabia que ia doer tanto em mim quanto nela. Mas eu precisava falar a verdade.
– Não.
Ouvi-a engolir em seco e ia falar que estava tomando conta da Ally, que não fui porque odeio pessoas, porque não consigo respirar. Ia contar tudo. Eu estava para começar quando ela cortou minha linha de raciocínio.
– Certo. — ela falou e desligou imediatamente.
Isso só podia significar uma coisa. Emma estava terminando comigo. Se eu estivesse sozinho ou trancado em meu quarto eu talvez começasse a me bater ou bater a cabeça na parede, talvez até a chorar. Emma foi a melhor coisa que já aconteceu comigo, considerando que acontece muita merda na minha vida, e eu deixei ela ir porque sou muito orgulhoso para deixá-la saber de algo tão banal como um problema respiratório e uma fobia. Como sou estúpido!
Uma lágrima solitária rolou pela minha bochecha e escorreu até o queixo, caindo no chão. Senti uma criaturinha abraçando minhas pernas e vi Ally agarrada nas minhas coxas.
– O que foi, tio? — ela perguntou, seus olhos inocentes brilhando.
– Nada. Quer voltar a brincar com as barbies?
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