You're My Only Song
1 Entrada No Acampamento
Notas iniciais
Leiam às notas iniciais.
Logan desceu do carro de má vontade. Não tinha necessidade nenhuma de ele estar ali. Ele estava de férias. Deveria estar numa praia do Caribe ou aproveitando o calor do sol no Brasil. Mas, não. Ao invés disso, ele era obrigado a ir para aquele lugar imundo, lotado de crianças idiotas e monitores que gritavam, sem motivo aparente. Não que ele já tivesse ido a um acampamento antes. Mas filmes de TV deixavam isso aparentemente claro, afinal, nenhum nunca contradisse essa teoria antes, e se contradisse, ele provavelmente nunca assistira a esse filme.
Caminhou pelo interior do acampamento lentamente e foi em direção a uma grande placa escrita: “Bem-Vindos”. Uma mulher segurava uma prancheta e o olhava sorridentemente. Havia algo errado ali. A mulher não era nem um pouco bruta como os filmes mostravam. Era bonita, tinha um corpo bem distribuído e seus olhos azuis eram perfeitamente ressaltados pela pele clara e os cabelos negros.
– Bem-vindo – Ela sorriu – Qual o seu nome?
– Lo... Hortence Mitchell – O garoto gaguejou.
– Certo... Me deixe ver – A mulher procurou na prancheta e apontou um nome. Riscou algo com a caneta e pegou uma chave na mesa ao seu lado – Certo. Essa é a sua cabana – A mulher entregou a chave a Logan – O bloco fica logo após daquele prédio vermelho. Ali é o refeitório, a propósito, se quiser comer alguma coisa, pode ir lá. Eu sou Amy, sou a monitora da sua turma. Pode falar comigo se precisar de algo.
– Obrigado – O garoto agradeceu e foi em direção ao prédio apontado. Foi impacientemente até o local e finalmente encontrou a tal cabana. Bloco G, cabana 07.
Ele entrou rapidamente e deu de cara com uma pequena figura arrumando a mochila. Logan deixou a porta aberta e colocou a mochila sobre a cama. Depois de um tempo mexendo nas coisas para colocar dentro do baú com o bilhete “Keep you stuff here (Guarde suas coisas aqui)”, Logan decidiu falar com o outro garoto que ainda mexia na mochila e tirava suas coisas.
– Boa tarde – Ele saudou timidamente. O outro garoto não respondeu. Logan não entendeu nada. Ele tinha certeza que tinha falado alto o suficiente – Eu disse boa tarde – Ele insistiu. O garoto parecia ainda ignorá-lo. Logan já estava estressado o suficiente pra ser ignorado por um ninguém. Tocou nas costas do garoto violentamente, assustando-o e fazendo o se virar – Você não tem educação.
– Ô! Uou! – Um garoto mais alto entrou na cabana rapidamente e afastou Logan do menor – O que foi isso?
– Esse imbecil sem educação me ignorando – Logan esbravejou.
– Ei, calma aí. O Carlos não escuta – O garoto disse.
Logan sentiu suas orelhas esquentarem e sua pele ficar vermelha, de vergonha. Apertou os próprios dedos e mordeu o lábio.
– Eu... Eu sinto muito. Eu não sabia. Achei que ele estava sendo grosso – Logan disse olhando para eles e depois pra baixo enquanto riscava o chão com o pé.
– Tudo bem – O garoto mais alto disse. Ele se virou para o pequeno e fez alguns gestos.
O garoto também fez alguns gestos e o mais alto se voltou para Logan.
– Carlos disse que está tudo bem. Você só o assustou um pouco, mas ele não se importa. Você não sabia – Ele explicou.
– Eu sinto muito mesmo... Eu sou o Logan – O moreno se desculpou mais uma vez e estendeu a mão.
Carlos a apertou calmamente, mas se voltou para o maior dentre eles. O garoto gesticulou novamente e no fim fez as letras com as mãos. Isso Logan entendia. Ele já havia visto o alfabeto de libras em algum lugar. Ele identificou as letas, mesmo que o rapaz fizesse os gestos com velocidade. Foram “L-O-G-A-N”. Esse era o nome dele. Logo, Carlos começou a gesticular e deu as letras de seu nome “C-A-R-L-O-S” para Logan.
– Ele disse que é um prazer conhecer você e que o nome dele é Carlos – O maior explicou – Eu... Sou... James... Prazer em conhecer você – Disse gesticulando a cada palavra para que Carlos entendesse também.
Logan olhou para Carlos rapidamente e ele fez um gesto. Simbolizou a leta “L” com os dedos e fazendo isso, passou a ponta dos dedos pelas bochechas. Depois fez um gesto para James que Logan não entendia.
– Ah, esse é o seu sinal – James disse repetindo o gesto – Deficientes auditivos costumam encurtar o nome das pessoas dando um sinal. Em geral a primeira letra do nome e uma característica física.
– Hm... – Logan sorriu novamente.
James gesticulou com Carlos mais uma vez.
– Eu perguntei a ele o que ele usou para fazer seu sinal. Ele disse que foram suas covinhas – James afirmou apontando as bochechas de Logan e o mesmo corou.
– Esse é o meu sinal – James disse desenhando um jota na frente de seus olhos – E esse é o do Carlos – James fez a letra “C” e a colocou em frente ao peito esquerdo.
Logan examinou o peito esquerdo de Carlos. Não tinha nada de mais nele.
– Não entendi.
– É que o Carlos é latino – James sorriu – Então, a gente usa a primeira letra do nome dele “C” perto do coração, que é “Corazon” em espanhol.
– Ah... – Logan sorriu mais uma vez.
– Bem... Logan, estamos... Indo... Almoçar... Quer... Ir... Conosco? – James fez as libras e Carlos se assustou imediatamente, dando-lhe um tapa.
– Acho que ele não quer que vá – Logan disse envergonhado.
– Espera – James disse.
Ele começou a discutir com Carlos por libras e por fim, o latino parecia ter perdido a batalha, sendo que ficou com uma cara emburrada que tentava esconder de Logan.
– Não tem nada a ver com ele não gostar de você – James explicou – É que o Carlos é tímido e não gosta quando as pessoas descobrem sobre ele não ouvir. Mas não se preocupa. Ele gostou de você.
Logan sorriu torto e acenou que sim. Carlos retribui com o mesmo sorriso, e também acenou.
James conduziu ambos até o refeitório do acampamento. Até que não era algo tão ruim assim. A comida tinha uma aparência agradável. Mesmo que fosse toda naturalista.
– James... Sei que é uma pergunta idiota... Mas o Carlos é surdo desde que nasceu? – Logan perguntou.
– Na verdade nem é tão idiota – James sorriu – A verdade é que o Carlos sofreu um acidente quando tinha sete anos. O pai dele é médico veterinário e trabalha com formol. O Carlos pegou um cotonete e molhou no produto químico achando que era água. Ele limpou os ouvidos com isso.
– Nossa... Isso foi...
– Felizmente o pai dele percebeu e ajudou ele antes que o formol corroesse os tímpanos completamente. Mas a audição dele ficou altamente danificada. Ele só consegue ouvir barulhos bem, bem altos.
– Como o quê?
– Ele ainda escuta trovões, bombinhas de traque, explosões de filmes no cinema.
– Ele vai ao cinema?
– Bem... O pai dele paga mais caro, mas o Carlos assiste ao filme legendado.
– Nossa...
– Você nunca conheceu alguém assim antes, conheceu? – James perguntou sorrindo.
– Não – Logan respondeu timidamente.
– Bem, aquela mesa está vaga – James apontou sorrindo. Os três foram em direção ao lugar e se sentaram. Antes de começarem a comer, a porta do refeitório se abriu com violência e um grito ecoou.
– Chegamos! Galera! – O garoto loiro berrou, assustando a todos.
Carlos imediatamente se encolheu. James ficou mais atento ao lado dele.
– Quem é esse? – Logan perguntou.
– Kendall Knight. Ele vem todos os anos pro acampamento e todos os anos ele inferniza a vida de todo mundo. Tirando a minha e a do Carlos. Ele não tem moral pra mexer com a gente.
– Por quê?
– Ele faz isso com as pessoas porque é rico. Mas a minha família e a do Carlos estão bem acima da dele.
Logan suspirou. Primeiro de alívio, por saber que o tal Kendall também não teria como mexer com ele. Ele que ousasse mexer com o filho dono da rede hotéis mais rica dos Estados Unidos.
– Mas qual é exatamente o patamar dele?
– Ele é o filho do dono de uma rede de restaurantes famosa aqui no estado. Mas só isso.
– Ah...
– E aí?! – Kendall perguntou se colocando atrás do moreno menor e dando-lhe um tapa no topo da cabeça.
– Deixa ele em paz, Kendall – James ameaçou.
– Arrumou mais um namoradinho, Diamond? Achei que o anãozinho aí fosse o suficiente, mas você não gosta de engolir uma rola só, não é? – Kendall provocou.
– Olha aqui... – James ia para cima de Kendall, mas Carlos ficou na frente dele.
– Olha só... Sendo parado pela namoradinha – O loiro zombou.
– Você se acha melhor que nós, mas comparada à fortuna do meu pai, sua rede de restaurantes não é nada – James disse.
Kendall se calou e o olhou com ódio. O refeitório todo estava encarando-o com sorrisos no rosto. Ninguém nunca tinha rebaixado sua riqueza antes e James era o primeiro a fazer isso. O ódio tomou conta do loiro e ele desferiu um soco. Carlos estava na frente e foi quem foi atingido.
– Carlos – James disse segurando o corpo do mais baixo.
– Você não tem vergonha dessa covardia? – Logan não aguentou e se levantou.
– Eu teria vergonha se fosse você – Kendall disse convencido.
– Estranho... Eu não tenho vergonha de ser filho de Ross Mitchell, dono da Mitchell Palace Place – Logan afirmou orgulhoso. Os olhos de Kendall se arregalaram e sussurros se espalharam pelo lugar. Kendall se sentia humilhado, mas não ia deixar barato. Seu punho girou mais uma vez.
Mas o quê?
Como assim?
Logan tinha parado o soco num reflexo imediato.
– Dois anos de caratê, faixa preta em tae-kwon-do... Devia checar o histórico das pessoas antes de tentar bater nelas – Logan disse sorrindo e imediatamente golpeou Kendall no peito, jogando-o no chão.
Risos ecoaram pelo lugar. Logan sorria orgulhoso.
Sim, ele era rico. Sim, ele não gostava de ficar num lugar lotado de pessoas pobres. Mas, não. Ele nunca fez bullying com alguém só por ter menos zeros na conta bancária do que ele. Isso o deixava possesso. Principalmente porque ele sempre foi o nerd quando criança e sabia o quanto o bullying é perturbador.
– Você vai pagar por isso – Kendall disse se levantando.
– Não se preocupe, eu tenho dinheiro para tal – Logan afirmou e o refeitório inteiro lançou assobios e vaias na direção de Kendall. O loiro saiu de dentro do lugar esfumaçando de raiva. Logan iria pagar por aquilo, ele tinha certeza.
_*_
Logan passou o dia inteiro com James e Carlos. Inclusive, já sabia o alfabeto inteiro de cor e já conseguia fazer alguns gestos pra falar com Carlos. Assim, James já não fazia falta quando estava perto. Mas era muito bom ficar com ele também.
Além de conversas, o dia guardou muitas atividades. Escalada, tirolesa, um pouco de mergulho no lago do parque. Isso serviu para que Logan pudesse ter uma vista do físico impressionante de James e Carlos. James não parecia ter dezessete anos. Seu corpo era o de um jovem de vinte e três anos. Já Carlos, parecia se importar bastante com a forma física, também. Logan não se envergonhou em mostrar seu corpo. Ele tinha engordado durante um tempo, mas seu corpo estava de volta ao normal e ele fazia questão de exibir isso.
Conheceram três garotas também. Jo, Camille e Lucy. As três eram supersimpáticas e logo ficaram familiarizadas com os garotos. Camille se deu superbem com Carlos, já que ela tinha doença auditiva. Não como a de Carlos. A sua, era uma doença na base do estribo. O osso crescia e às vezes, Camille ficava temporariamente surda. Ela comentou algo com eles sobre fazer uma cirurgia para isso. Jo se deu bem com James, já que ela era a intérprete de Camille quando a amiga não conseguia entender. Lucy e Logan foram os próximos a se darem bem. Os dois haviam chegado esse ano no acampamento e tinha feito amizade com os outros da mesma forma – só que Lucy foi menos violenta como Logan – e também passaram o dia juntos.
No final do dia, Logan e Carlos voltaram à sua cabana. Estava começando a ficar um pouco frio e o céu anunciava que iria chover. Os dois entraram e Logan procurou uma toalha em meio às suas coisas.
– V... Você... Gosta... Cavalos* – Carlos balbuciou, para a surpresa de Logan. James havia mencionado que ele ainda falava, mas não sabia que o latino faria isso na frente dele.
(*Deficientes auditivos não aprendem preposições ou pronomes direito. Algumas falas deles ficam assim como, por exemplo, “Eu gosto Cavalos” ou “Eu ir restaurante aqui”).
Logan sabia que Carlos não ia ouvir, então apenas sorriu e acenou que sim.
Carlos também sorriu.
Alguém bateu na porta da cabana.
– Meninos – A voz de Amy os chamou.
Logan imediatamente soletrou o nome para Carlos e recebeu um gesto que Carlos mostrou ser o sinal de Amy. Colocar a letra “A” na testa e deslizar até os olhos. Logan entendeu e abriu à porta.
– Oi, Amy – Logan sorriu.
– Se divertiu hoje... Er... Logan, não é?
– Aham... Mas me chama de Logan, por favor. Me diverti sim, obrigado.
– Vejo que conheceu um colega de quarto... Bem, o jantar vai ser servido na cabana hoje, porque, aparentemente vai chover e não queremos que se molhem indo ao refeitório e voltando depois. Apenas me digam o que vão querer.
– Quantas fatias de pizza vem se eu pedir uma inteira?
– Calma aí, guloso – Amy riu – Assim como no refeitório, você pode pegar até três fatias.
– Certo... Eu vou querer pizza, três fatias, e um refrigerante – Logan disse. Ele se virou para Carlos e librou com ele sobre o que ele ia querer – Ele vai querer o mesmo.
– Certo... Os monitores vão entregar as caixas de comida em breve.
Amy saiu os dois ficaram sozinhos de novo. Nenhum dos dois se preocupou em dizer o sabor da pizza. Eles sabiam que só existia um sabor no refeitório: queijo com orégano e tomate. Sem nenhuma carne. Mas o orégano ainda dava um sabor agradável à pizza.
– Você... Gosta... Aqui? – Carlos perguntou.
Logan mais uma vez acenou com a cabeça afirmativamente. Carlos sorriu.
“É melhor trocarmos roupas molhadas” Logan librou. Carlos acenou, que sim.
Nenhum dos dois se preocupou em estarem ficando nus em frente a outro homem. Carlos não sabia que Logan sentia atração por outros homens, mas o moreno também não sabia se o latino tinha o mesmo sentimento. Mesmo assim, ele se sentia a vontade. De certa forma, Carlos e eles não se importavam com isso.
Ambos terminaram de tirar as roupas e se puseram em roupas de dormir. Carlos colocou uma blusa vermelha e uma calça de moletom. Logan se conformou em colocar um short branco e uma blusa azul.
Logo em seguida, alguém bateu na porta.
“A comida chegou” Logan gesticulou e Carlos assentiu com a cabeça.
Logan abriu a porta e foi surpreendido por um soco em seu rosto. Carlos se assustou e ficou olhando em volta, sem saber o que fazer. Três garotos mascarados entraram na cabana e amarraram as mãos de Logan e prenderam Carlos também. Amordaçaram ambos e os jogaram na cama de bruços.
– Agora vocês vão pagar – Uma voz muito familiar para Logan disse. O moreno olhou para Carlos. Ele estava assustado e quase chorando. Ele não tinha feito nada àqueles garotos para que isso estivesse acontecendo.
– Por quem começamos? – Um deles perguntou. Essa voz, Logan não conhecia.
– Vamos pelo surdinho que tem a bunda maior – A voz familiar disse de novo. Quem era o dono daquela voz.
Os garotos abaixaram a calça de Carlos.
– Olha só que beleza – Outra voz disse, dando leves tapas nas nádegas de Carlos.
– Gente, vamos jantar juntos agor... – James entrou na cabana e deu de cara com a cena.
– Merda... Quem deixou a porta aberta? – O da voz conhecida esbravejou.
– Quem são vocês e o que iam fazer com ele? – James perguntou vendo o estado de Carlos.
– Peguem ele também. Aí a gente fica com um pra cada um – O segundo disse indo pra cima de James, mas levou um chute e caiu. Logan aproveitou que os outros estavam distraídos e deu um chute entre as pernas do que tinha a voz familiar. Foi com força e o garoto se sentou na outra cama com medo. James correu para cima do outro e os dois começaram a se agarrar. Por fim, James arremessou o garoto no chão e se pôs a soltar Logan. Quando ele terminou com as mãos, o garoto que havia sido chutado levantou. Ele estava prestes a atacar James quando...
– Meninos, a comida de vocês – Amy entrou sorrindo, mas viu o que estava acontecendo – Mas o que é isso?
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