You're Driving Me Crazy!
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Vale do Café,
1921
Darcy Williamson não era um homem cheio de certezas, diferentemente de muitas pessoas que ele conhecia, que demonstravam excesso de confiança em suas crenças. Ele acreditava na ciência, gostava de seguir correntes de pensamento racionais e não questionava a superioridade da natureza.
Mas, fora isso, havia poucas coisas que ele poderia afirmar sem sombras de dúvidas, e estas eram tão fáceis de listar que ele nem precisava pensar muito a respeito:
1. Pemberley era seu lugar favorito no mundo.
2. Depois de Pemberley, onde ele mais gostava de estar não era um lugar específico, mas qualquer lugar, se é que isso fazia algum sentido. Ele era apaixonado por viagens e já havia visitado tantos países que sequer era capaz de contar, pois nada o fascinava tanto quanto conhecer culturas diferentes.
3. O amor não dura.
Darcy não se considerava muito experiente neste tema, uma vez que tivera poucos relacionamentos e todos foram superficiais, mas ele chegou a esta conclusão quando era ainda criança e apenas tinha reforçado sua confirmação com o passar dos anos.
O relacionamento forte, verdadeiro e digno de admiração de seus pais tinha sido seu primeiro exemplo. Quando ainda era uma criança, Darcy foi testemunha da felicidade que irradiavam simplesmente por estarem juntos, o que fez Darcy acreditar que o amor que sentiam era uma constante na vida dos dois e que aquilo jamais mudaria.
Mas mudou.
Foi uma mudança gradual. No início, os desentendimentos começavam por pequenos motivos, mas logo ficavam mais intensos e, apesar de seus pais tentarem esconder suas brigas, Darcy vez ou outra escutava os gritos e as ofensas que proferiam um ao outro. Com o passar do tempo, eles passaram a evitar estarem juntos no mesmo ambiente e Darcy, que ainda era jovem demais para entender o que estava acontecendo, se perguntava como uma pessoa podia deixar seus sentimentos morrerem de tal maneira.
Quando seu questionamento era feito em voz alta, sua mãe ou seu pai apenas dava de ombros com uma expressão triste e dizia que a convivência nem sempre era fácil e que era muito comum que relacionamentos se desgastassem. Sua mãe, no entanto, sempre terminava a conversa aconselhando que ele não deixasse de acreditar no amor, apesar de tudo.
Um conselho difícil de ser seguido, senão impossível.
À medida que foi crescendo e expandindo seu círculo de amizade e de conhecidos, Darcy presenciou diversos casos de amor que se desfizeram por diversos razões, tais como infidelidade, perda de confiança, incompatibilidade de interesses e problemas financeiros.
Por isso, ele acreditava que o amor efêmero era a regra, não a exceção.
E o mais prudente a ser feito era evitar se apaixonar, já que a decepção era uma consequência inevitável de um relacionamento.
4. Não poderia existir no universo duas pessoas mais diferentes que Elisabeta Benedito e ele, e este provavelmente era o único ponto no qual os dois concordavam.
Desde o momento em que se conheceram, há cerca de um ano, uma série de desentendimentos moldou a (agora inexistente) relação dos dois.
Na primeira vez, eles brigaram por causa de uma calça que ambos queriam comprar na alfaiataria, poucas semanas após Darcy se mudar para o Vale do Café. Ele só entendeu o porquê de ela querer tanto o traje ao vê-la vestida com ele num baile a fantasia, dias depois. Apesar da situação frustrante que viveram, observá-la tão à vontade no que parecia ser o início de sua busca por liberdade fez Darcy admirar sua ousadia e se esquecer por um momento de que aquela era a mesma moça encrenqueira que ele conhecera.
Apenas por um momento.
Não demorou mais que dez minutos para que voltassem a discutir.
Ele estava conversando com Camilo, que perguntou sua opinião sobre Elisabeta. A resposta instintiva de Darcy foi “ela é tolerável, mas não bonita o suficiente para me tentar”.
O que era uma mentira.
Elisabeta era uma mulher bonita. Ou, para ser sincero, belíssima.
Entretanto, ele não estava disposto a admiti-lo para Camilo, que interpretaria suas palavras como um interesse romântico, e isto não poderia estar mais longe da verdade. Seu primeiro encontro tinha sido um indício de que os dois eram incompatíveis, uma vez que discutiram por bobagens e a última coisa que Darcy procurava era um relacionamento problemático — se mesmo com amor a maioria dos casais se frustrava, o que não aconteceria se uma relação estivesse marcada por desentendimentos?
Além disso, Elisabeta o enlouquecia. Fazia que ele perdesse a razão e o bom senso.
Não que ele fosse admitir isso para alguém.
Camilo, então, mudou de assunto e revelou que seu encantamento por Jane apenas crescia à medida que a conhecia melhor, e Darcy aconselhou o amigo a tomar cuidado, pois havia sido advertido por Susana que as Benedito eram famosas na cidade por demonstrarem excesso de interesse em homens ricos. Ele não teria levado a sério a veracidade desta informação — ele gostava de chegar a conclusões por si mesmo — se não tivesse visto, naquela mesma noite, Ofélia Benedito planejar o casamento de sua filha com Camilo precipitadamente, parabenizando Jane de maneira discreta (ou tão sutilmente quanto Ofélia conseguia) por ter cativado Camilo, um homem de posses e, portanto, bom partido.
Elisabeta escutou a conversa dos amigos e os interrompeu, repreendendo Darcy por sua falta de confiança no caráter da irmã ao argumentar que ele sequer a conhecia para formar uma opinião tão dura a seu respeito.
Por mais que estivesse tentado a discordar de Elisabeta, que o abordou de forma abrupta e não permitiu que ele se explicasse, Darcy sabia que havia razão nas palavras dela: seu comportamento fora preconceituoso. Na mesma noite, ele passou um tempo conversando com Jane para decifrar sua personalidade e interesses, o que o fez se arrepender profundamente do conselho que dera a Camilo, pois descobriu que Jane era doce, amorosa, fiel e companheira.
Possivelmente a situação com Elisabeta não teria se agravado e Jane sequer saberia de todo o mal-entendido se, na próxima vez que se encontraram, num baile oferecido por Julieta, Susana não tivesse se intrometido mais uma vez no assunto e dito para Darcy que a Benedito não estava bem intencionada.
Desta vez, no entanto, todo o Vale do Café ouviu as palavras de Susana, que fora proferida em voz alta no pequeno intervalo de tempo em que a música parou de tocar.
No momento em que Darcy ia dizer algo em defesa da Benedito, Elisabeta o interrompeu e afirmou que a irmã já estava abalada demais para que ele apontasse seu dedo para ela também. E Jane, que estava se segurando para não chorar, saiu correndo do salão com Camilo e Elisabeta atrás de si.
No dia seguinte, Darcy foi até a casa dos Benedito e, após se desculpar com Jane, tentou falar com Elisabeta também, mas ela se negou a vê-lo. Ele tentou mais duas vezes. E nas duas vezes ela apenas mandou um recado através de sua irmã mais nova informando que não estava disponível para receber visitas.
Deste modo, Darcy descobriu que Elisabeta era irredutível.
Ele se equivocou gravemente em relação a Jane, mas Elisabeta era dura em suas batalhas e nunca quis ouvir o que ele tinha a dizer — ele explicaria a ela que seu conselho fora dado em benefício de um amigo, pois Camilo era muito ingênuo e seria incapaz de identificar as más intenções dos demais. Além disso, Camilo já tinha vivido experiências desagradáveis em relação a pessoas interesseiras em Paris e Londres.
Mas Elisabeta se recusava a escutá-lo, e por isso Darcy parou de tentar se explicar.
Assim, eles nunca mais conseguiram se entender. Cada vez que se encontravam em algum lugar, ela dirigia a ele olhares gélidos e evitava participar de conversas nas quais ele estava incluído. Quando isto era inevitável, eles discordavam em relação a tudo.
E já que todas as ocasiões acabavam sendo desconfortáveis de alguma forma, Darcy e Elisabeta criaram um tipo de acordo silencioso de evitarem ir a lugares em que era sabido que o outro estava presente.
Apesar de ter criado uma amizade bonita com Jane e um imenso respeito pelos Benedito após o casamento dela com Camilo, que aconteceu poucos meses depois do mal entendido, Darcy não acompanhava o amigo nas visitas à família de sua esposa e Elisabeta não costumava ir aos jantares oferecidos por Julieta.
Além disso, atualmente eles raramente se encontravam. Darcy se estabeleceu no Vale do Café para assumir as obras da ferrovia iniciadas por seu pai e Elisabeta passava a maior parte de seu tempo em São Paulo, escrevendo colunas para diferentes jornais e produzindo um livro.
Mas a gloriosa distância entre os dois estava prestes a deixar de existir se Darcy aceitasse o pedido que Camilo estava fazendo.
— Você não está falando sério. — Ele disse, incrédulo.
— Darcy, você é meu melhor amigo. Meu único amigo, eu ouso dizer. Seria uma honra para mim se você fosse o padrinho desta criança abençoada. — Camilo disse e seus olhos brilharam ao mencionar seu filho. Jane estava grávida há quatro meses e este era o motivo da imensa felicidade dos Bittencourt, dos Benedito e de Darcy também.
Ele estava radiante com a notícia, exceto por um pequeno detalhe:
— Nada me faria mais feliz. — Darcy disse com sinceridade. — Mas você tem certeza? Nós dois? — Sua expressão se tornou pensativa, pois ele começou a refletir sobre as implicações do pedido que o amigo fez.
Elisabeta e Darcy precisariam estar presentes na vida da criança e, consequentemente, na vida um do outro. Isto não devia ser algo bom, pois não faltavam faíscas de exasperação quando estavam no mesmo lugar.
Era sempre muito intenso, e isto acabava sendo desgastante.
— Jane faz questão que Elisabeta seja a madrinha. — Camilo disse em um tom animado, como se estivesse tentando convencer Darcy de que a ideia era maravilhosa.
E era. Ao menos em partes. Ele se sentia honrado pelo convite, mas, ele pensou novamente, Elisabeta e ele…
Bom, ele precisava falar sobre isso com Camilo:
— Mas você sabe que ela e eu… — Darcy pausou, procurando as palavras.
— … se bicam como se fossem dois pombinhos? — Camilo completou, provocante.
Darcy estreitou seus olhos e corrigiu-o:
— Pombos que brigariam por causa da menor migalha de pão.
Camilo se levantou do sofá da casa de Darcy e pegou seu paletó, caminhando até a porta. Quando chegou lá, disse:
— Eu tenho mais um pedido a ser feito.
— Sim? — Darcy se aproximou.
— Elisabeta está em São Paulo resolvendo algumas questões do livro com a editora. Jane ligou perguntando se ela poderia vir para o Vale do Café, pois não quer fazer o convite por telefone, mas parece que Elisabeta não conseguiu nenhum meio de transporte. Estão acontecendo algumas greves na capital.
— Esquece o que eu disse mais cedo. — Darcy respondeu ao perceber a intenção de Camilo. — É agora que você não está falando sério.
— Vocês vão precisar aprender a conviver quando forem padrinhos da nossa filha.
— Filha? — Darcy arqueou as sobrancelhas e Camilo abriu um largo sorriso.
— Estou sentindo que será uma menina. Ela vai ter o sorriso de Jane, e será mais esperta que nós. Os empregados não se aproveitarão dela. — Camilo brincou e então seu tom de voz voltou a ficar sério. — Meu amigo, você vai e volta de São Paulo o tempo inteiro. Não seria um problema dar uma carona a Elisa.
— Supondo que ela irá aceitar, é claro. O que eu duvido. — Darcy disse.
— Se você for agradável, ela aceitará, sim. E por favor, seja. É provável que Elisabeta hesite, afinal… Bom, afinal ela teria que lidar com você. Mas se você se esforçar, tenho certeza que serão grandes amigos.
Darcy o encarou descrente, e Camilo argumentou:
— Ela não é tão orgulhosa quanto você pensa, Darcy. Se vocês deixarem seus preconceitos de lado, vão acabar se entendendo.
Darcy não estava tão confiante quanto Camilo, mas considerou o pedido do amigo com todo seu coração. Não deveria ser tão ruim assim precisar voltar a conviver com Elisabeta, afinal era por um motivo maior. Um motivo especial. Ele não a conhecia tão bem, mas se ela era tão maravilhosa quanto todos no Vale do Café afirmavam, concordaria em deixar de lado suas desavenças com ele pelo bem da criança que logo chegaria ao mundo.
Mas Darcy sabia que não seria uma tarefa fácil.
Elisabeta não era fácil.
Quando estava perto dela, tudo o que ele dizia soava errado.
Tudo o que fazia parecia errado.
Ele nunca quis sua inimizade, mas este fora o caminho natural dos acontecimentos e agora a situação era irreversível.
Ou não?
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