You're Driving Me Crazy!
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Darcy e Elisabeta decidiram viajar na terça-feira pela manhã, de modo que ambos tivessem tempo para se organizarem antes de partirem para o Vale do Café. Embora tivessem decidido sair de São Paulo antes mesmo do início da manhã, Darcy chegou ao prédio de Elisabeta com vinte minutos de antecedência. Ela já havia informado ao porteiro que receberia Darcy, de modo que ele foi diretamente para o apartamento. Ele tocou a campainha e quando ela abriu a porta, notou que ela já estava vestida, mas tinha um cobertor envolvendo seu corpo.
E um rosto bastante sonolento.
— Bom dia! — Ele disse.
Elisabeta piscou duas vezes, tentando focar no rosto dele.
— Dia… — Ela respondeu antes de bocejar.
— Eu acordei você? — Darcy perguntou.
Elisabeta assentiu, mas depois negou com a cabeça.
— Sim. Não. — Ela deu alguns passos para trás e fez um gesto para que ele entrasse no apartamento. — Eu acordei para me arrumar, mas quando percebi que estava cedo demais, resolvi tirar um cochilo.
A entrada do apartamento de Elisabeta dava para a sala, que estava decorada principalmente em tons vermelhos. Darcy analisou rapidamente o cômodo e pensou que aquele era exatamente o tipo de lugar que fazia alguém se lembrar de Elisabeta. Ao lado da sala tinha uma bancada que separava o cômodo da cozinha, onde, no chão, tinha uma caminha de cachorro. Austen estava ali, deitado com sua barriga virada pra cima. Embora também estivesse com muito sono, quando viu Darcy ele começou a balançar suas patinhas, pedindo por carinho. Darcy sentiu vontade de ir até o cachorro, mas tinha algumas sacolas de papel em sua mão.
— Você já tomou seu café da manhã? Eu trouxe algumas coisas para… — Darcy se virou para Elisabeta novamente, mas ela já tinha se sentado no sofá, recostado sua cabeça na almofada e seus olhos estavam fechados.
Darcy sorriu. Ele tinha sugerido viajar num horário tão cedo para que conseguissem chegar ao Vale do Café antes do almoço, de modo que Elisabeta pudesse participar da refeição em sua casa. Ele sabia o quanto Jane e os demais Benedito sentiam falta dela, afinal Darcy pôde perceber, no tempo que conhecia aquela família, o quanto eram unidos.
Ele olhou para a cozinha. Será que Elisabeta consideraria muito atrevimento de sua parte se ele fosse até lá para preparar algo para comerem? Era a primeira vez que ele visitava o apartamento dela e os dois não tinham amizade suficiente para que Darcy entrasse em ambientes do apartamento onde não havia sido convidado.
Mas Elisabeta estava tão serena dormindo…
Darcy não teve coragem de despertá-la — ao menos, não por enquanto. Por isso, se esforçou em fazer o mínimo de barulho possível ao entrar na cozinha. Ele tirou da sacola uma garrafa de café, uma de suco de laranja, os pães e demais ingredientes para fazer sanduíches e algumas fatias de brownie, e se perguntou se ela já tinha experimentado esta iguaria, que tinha sido popularizada há poucos anos na Inglaterra e apenas recentemente Darcy descobriu uma confeitaria em São Paulo que vendia.
Após uma rápida procura, Darcy encontrou uma bandeja, xícaras, copos, pratos e talheres e preparou uma refeição para os dois. Quando voltou para a sala, pensou em dizer o nome de Elisabeta a certa distância, mas desistiu por temer assustá-la. Assim, ele apoiou a bandeja numa mesinha de centro e se ajoelhou perto dela e, quando seu rosto estava de frente para o dela, olhou-a.
De repente, era como se o tempo tivesse parado.
Céus, como ela é linda, Darcy pensou.
Não que ele não soubesse disso, afinal a beleza dela era notável, mas ele nunca tinha tido a oportunidade de observá-la com atenção e tão de perto. Algumas sardas enfeitavam graciosamente sua pele macia e os cachos de seus cabelos, cuja cor permeiava entre loiro e castanho, caíam delicadamente sobre seus ombros, e Darcy sentiu vontade de tocá-los.
Seus lábios eram rosados e seu formato era simplesmente perfeito para sorrisos… e beijos.
Ele se repreendeu mentalmente, pois era loucura pensar em Elisabeta em tais termos. Passou as mãos pelos próprios cabelos e, após alguns segundos, resolveu chamá-la.
— Elisabeta? — ele murmurou, mas ela permaneceu adormecida, e então ele tocou gentilmente seu ombro que estava sob o cobertor. Desse modo, seus dedos encontraram o cabelo dela e ele não foi capaz de resistir, enrolou uma mecha em seus dedos.
As pálpebras de Elisabeta pareciam pesadas, mas com certo esforço ela conseguiu abrir seus olhos.
— Me desculpe, foi muito rude de minha parte adormecer. Não foi intencional. — Elisabeta disse e endireitou sua postura ao mesmo tempo em que Darcy se afastava dela para se levantar.
— Não se preocupe. Está cedo demais e eu cheguei antes do combinado. Sou eu quem devo desculpas. — Darcy disse.
Elisabeta sorriu timidamente e se levantou, deixando o cobertor no sofá.
— Imagina! Bom, se você estiver pronto, podemos ir.
— Já estou, mas antes… — Ele apontou para a mesinha de centro. — Você já tomou café da manhã? Espero que você não se importe, pois fui até a cozinha para pegar alguns utensílios.
— Ah! — Elisabeta exclamou, surpresa. — Você preparou isso?
— Somente os sanduíches.
Elisabeta arqueou as sobrancelhas, divertida.
— Quem diria!?
— Está surpresa? — Darcy perguntou.
— Para ser sincera, sim! Darcy Williamson sabe fazer sanduíches. Eu nunca imaginaria.
— Espero que você goste. — Darcy se aproximou da mesinha de centro, pegou a bandeja e levou-a para uma mesa maior. Elisabeta agradeceu e se sentou numa cadeira enquanto ele foi buscar outra bandeja para si.
Eles comeram sem conversar, vez ou outra apenas comentarando algo sobre a refeição ou sendo interrompidos por Austen que pulava na perna de um dos dois ao sentir o cheiro de comida.
— Você não pode comer isso, mocinho. — Elisabeta acariciou a cabeça de seu cachorro quando terminou de tomar seu café da manhã. — Mas Dona Marta sempre faz suas vontades, então você vai comer tudo o que não deve nos próximos dias.
— Ele não vai conosco? — Darcy perguntou, interrompendo a conversa dos dois.
— Austen? — Elisabeta questionou e Darcy assentiu. — Achei melhor não levá-lo, porque eu não tenho uma daquelas caixas de transporte para cachorros.
— Seria muito perigoso ele ir no banco mesmo?
— Acho que não. — Ela disse. — Eu estava mais preocupada com o fato de que ele faria muita bagunça durante a viagem.
Darcy sorriu e disse:
— Eu acho que o sacrifício valeria a pena.
— Ele poderia sujar seu carro… — Elisabeta supôs.
— Podemos parar em algum lugar para limpar.
— Ele poderia ficar entediado e começar a latir ou uivar…
— Um pouco de música tornaria a viagem mais divertida.
Ela riu, e o som daquela risada impactou Darcy pela primeira vez. Ele conhecia Elisabeta há mais de um ano, já tinha presenciado suas expressões em diferentes ocasiões, mas nunca a tinha visto rir.
Bom, isso não era verdade. Ele já a tinha visto rir, mas nunca para ele e muito menos com ele. E foi uma sensação muito estranha, porque naquele momento Darcy se sentiu à vontade, como se estivesse exatamente onde devia estar e com quem devia estar. A risada de Elisabeta era tão deliciosa que ele se surpreendeu ao perceber que estava sorrindo simplesmente por observá-la.
— Eu acho que seu conceito de música está um pouquinho equivocado. Quando é seu aniversário? — Ela perguntou. — Me sinto na obrigação de te dar um dicionário de presente.
Ele não disse nada e, sem que percebesse, corou.
— Darcy... — Elisabeta estreitou os olhos. — … quando é seu aniversário?
Elisabeta parecia curiosa. Pelo que ele conhecia dela, ela era o tipo de pessoa que gostava de respostas. Quando tinha uma dúvida, ela não conseguia esperar muito tempo até encontrar alguma maneira de saná-la. E quando fazia uma pergunta — mesmo uma tão mundana e comum quanto o aniversário de alguém — e a pessoa corava em resposta…
Ela simplesmente precisava saber o motivo.
— Na semana que vem. — Ele respondeu.
— Ah… — Elisabeta exclamou. — E você vai comemorar?
— Não. Pelo menos, não por enquanto. Eu estarei em São Paulo, já que na semana seguinte a ferrovia vai inaugurar e preciso conseguir permissão do governo para o evento. Mas logo depois vou voltar à Inglaterra, então é provável que Charlotte organize uma pequena comemoração familiar lá. — Darcy sorriu ao pensar da irmã. — Ela me lembra Jane. Faria qualquer coisa para eu me sentir acolhido e querido. Inclusive uma festa, mesmo sabendo que não combina muito comigo.
Elisabeta passou um tempo analisando o rosto dele, e então falou:
— Sim. Você prefere ser insociável e taciturno. — Logo após dizer isso, Elisabeta levou uma mão à sua boca em um gesto de arrependimento. — Me desculpe. Não quis te ofender.
— Não se preocupe, acho que minha reputação consegue conviver com estes adjetivos. — Ele brincou.
Elisabeta sorriu.
— Você desperta o pior de mim.
— Eu diria que desperto o melhor. — Darcy disse.
Elisabeta riu de novo. E Darcy apreciou a preciosidade daquele momento de novo.
— Se você diz com tanta convicção, não posso discordar.
Elisabeta se levantou para limpar a mesa. Darcy ofereceu sua ajuda, mas ela recusou alegando que, como ele tinha preparado o café da manhã, seria justo que, em troca, ela se encarregasse de lavar os utensílios.
Enquanto ela terminava a tarefa, Darcy se sentou no sofá e, quando se certificou que ela não estava percebendo, começou a observá-la enquanto divagava. Aparentemente Camilo tinha razão: Elisabeta não parecia ser a pedra de gelo que ele supunha. Talvez tivesse faltado a ele disposição para conversar com ela e esclarecer os fatos. Embora ainda não tivessem conversado tão abertamente sobre o passado, ela parecia disposta aceitar um certo tipo de convívio cordial entre os dois. Às vezes ela voltava a se fechar, provavelmente quando se lembrava das diferenças que haviam entre os dois, mas ele tinha esperança de que pudessem deixá-las para trás, mesmo que levasse algum tempo.
Afinal, estariam muito presentes na vida do filho de Camilo e Jane e este era o motivo pelo qual eles precisavam passar um tempo juntos, não era?
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Elisabeta sentia que não se conhecia mais. Durante a conversa que teve com Darcy, ela se assustou com o interesse que sentiu por ele. Por que quis tanto saber quando era seu aniversário? Se ele iria comemorar? Por que ela teve vontade de perguntá-lo sobre sua vida na Inglaterra e pedir que ele falasse mais sobre Charlotte? Ela tinha feito uma rápida busca em seus conhecimentos sobre Darcy e percebeu que ninguém nunca tinha dito a ela sobre os pais dele. Eles estavam vivos? Ela teve tanta vontade de conhecê-lo melhor…
E isso era insanidade.
Tanta que, mesmo sem perceber, encontrou uma maneira de insultá-lo sobre sua personalidade fechada. E se arrependeu profundamente. Não que quisesse se defender, mas era assustador quando uma pessoa de quem você sempre desgostou se revela, na verdade, uma pessoa mais sensível, divertida e simpática do que você supunha, e por este motivo ela ficou na defensiva.
Enquanto Elisabeta se acomodava no banco do carro, ao lado de Darcy e com Austen em seu colo, ela o olhou de relance e suspirou. Precisava admitir a si mesma que ele não parecia ser o monstro que ela imaginou.
Mas era difícil saber quem ele realmente era: Darcy era uma incógnita.
E que Deus a ajudasse, mas ela sentia vontade de desvendá-lo.
— Podemos partir? — Darcy perguntou após afivelar seu cinto de segurança.
Elisabeta respondeu afirmativamente e Darcy arrancou. Quando já estavam na estrada, Austen se remexeu no colo de Elisabeta, inquieto.
— É a primeira vez dele viajando de carro? — Darcy perguntou.
— Sim. — Ela respondeu e quando fazia carinho no cachorro. — Ele deve estar estranhando um pouco, mas daqui a pouco volta a dormir. Ele é bem preguiçoso, diferente do que li sobre os cachorros da raça dele, então acho que já deve estar ficando velhinho.
— Desde quando você tem ele?
— Hmmm… — Elisabeta pensou. — Já faz seis meses, desde que vim pra São Paulo pela primeira vez. Eu morava num cortiço e acho que Austen foi abandonado ou se perdeu, porque o encontrei na rua. Eu levei ele pra morar comigo sem que ninguém soubesse, porque não consegui resistir às súplicas de carinho desta coisinha gordinha.
— E pouco tempo depois você alugou um apartamento. — Darcy supôs.
Elisabeta assentiu.
— Sim.
— Você gosta de morar em São Paulo?
— Amo. — Elisabeta disse e um sorriso nostálgico surgiu em seu rosto. — E com a mesma intensidade, amo quando volto para o Vale do Café. Mas São Paulo… bom, eu acho que uma parte de mim sempre vai ser aventureira e querer conhecer lugares novos e diferentes, mas sempre vou ser grata por tudo que tem acontecido comigo na cidade. Tive muita sorte por conseguir começar minha carreira aqui.
— A cidade realmente é cheia de oportunidades, mas eu acho que… — A voz de Darcy se perdeu.
— O quê? — Elisabeta perguntou.
Darcy balançou a cabeça.
— Nada demais.
— Por favor, diga. — Elisabeta pediu com sinceridade. Ela realmente queria escutar o que ele tinha a dizer.
Darcy suspirou e desviou sua atenção da estrada rapidamente para estudar o rosto de Elisabeta, como se estivesse tomando coragem para dizer algo.
— Eu acho que você está enganada quando diz que teve sorte. — Darcy explicou. — Acho que a palavra apropriada é talento.
Elisabeta encarou-o, surpresa. Darcy estava querendo dizer que tinha lido suas colunas?
— Como você sabe? Você já leu algo do que escrevi? — Ela não pôde conter a pergunta.
Darcy ficou um tempo em silêncio, mas admitiu:
— Sim. Eu assino um dos jornais para os quais você trabalha e todas as semanas leio suas colunas. O outro periódico não é entregue no Vale, então leio somente quando estou aqui.
Elisabeta não disse nada, tamanha era sua surpresa. Pelo modo como ele falava, era como se ele se importasse em ler seus textos. Ela nunca tinha pensado sobre isso, mas se o tivesse feito, teria imaginado que ele não tinha interesse por nada que estivesse relacionado a ela.
Afinal, ela se empenhou tanto em ignorá-lo desde que se conheceram.
Ele não fez o mesmo?
— Eu li pela primeira vez quando Camilo foi até minha casa e esqueceu o jornal lá. Quando vi seu nome impresso, senti certa curiosidade e desde então acompanho seu trabalho. E eu acho que você tem muito talento. — Darcy continuou. — Você é tão vivaz nos seus textos quanto é pessoalmente, e isso, de certa forma, faz com que suas colunas sejam envolventes. Qualquer um que lê fica com vontade de enxergar o mundo através dos seus olhos.
Uma onda de satisfação envolveu todo o corpo de Elisabeta após ouvir o que Darcy disse. Ela simplesmente não conseguia desviar o olhar do rosto dele, sentindo vontade, pelo que devia ser a milésima vez naquela manhã, de descobrir tudo sobre ele.
Suas opiniões, seus desejos, sua história.
— E por que… — Ela engoliu em seco, tentando normalizar sua voz que saiu fraca. — Por que você nunca me disse isso?
— Acho que seria como Michelangelo admitindo para Da Vinci que era o maior admirador de sua obra. — Darcy brincou.
— Seria... antes. — Elisabeta disse impulsivamente. Ela quis dizer algo a mais, mas não sabia o quê, por isso ficou imersa em seus pensamentos durante vários minutos, até que Austen voltou a ficar inquieto novamente.
Elisabeta estava prestes a sugerir que Darcy parasse o carro para que ela colocasse o cachorro no banco de trás, quando Austen pulou do colo dela para o de Darcy, fazendo-o perder o controle da direção.
Ele freou bruscamente, fazendo com que Elisabeta batesse sua cabeça na parte dianteira do carro, sangrando sua testa.
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