Notas iniciais
Oi, gente! Finalmente voltei!!

Às 20h05, Darcy ainda estava na entrada do cinema e Elisabeta não tinha chegado, fazendo-o concluir que ela não compareceria à sessão.

Ele tinha considerado esta possibilidade inúmeras vezes, mas o encontro que tiveram mais cedo não tinha sido tão ruim — ou, para ser exato, poderia ter sido muito pior. Por isso, ele chegou às 19h30 e ficou esperando Elisabeta, pensando no que falar e como oferecer-lhe uma carona ao Vale do Café.

Mas ela não apareceu.

Darcy olhou para seu ingresso mais uma vez e confirmou o horário do filme. O Garoto, 20h.

Ele suspirou. Bom, precisaria pensar em outra ocasião para conversar com Elisabeta. Ele tinha prometido a Camilo que faria isso.

Talvez fosse melhor ir embora e se preocupar com isso no dia seguinte. A semana tinha sido muito cansativa, pois ele precisou resolver inúmeras pendências jurídicas para a inauguração da ferrovia que aconteceria em poucas semanas. Seria ótimo ir para casa, tomar um banho, jantar e dormir.

Darcy passou os dedos sobre o papel do ingresso. Mas e se tivesse alguma chance de Elisabeta chegar? E se tivesse ocorrido algum imprevisto e por isso ela se atrasaria alguns minutos?

Ele olhou para a porta de saída. Ele poderia ir para casa agora e finalmente descansar.

Ele olhou para a porta de entrada da sala de cinema. Ou ele poderia ver o filme na esperança de que Elisabeta chegaria.

Ir para casa?

Ou esperar Elisabeta?

Ele estava muito cansado; não sentia este nível de exaustão há muito tempo. A semana seguinte também seria bastante atarefada, por isso tudo que ele precisava era de uma noite tranquila, sem discussões ou desavenças. E dormir por dez horas seguidas.

Darcy suspirou. Já era 20h10. Era hora de fazer uma escolha.

E sua escolha foi...

~~~~~

Elisabeta estava atrasada.

Ela passou a tarde inteira trabalhando no seu livro, mais especificamente no capítulo que se tratava das primeiras mulheres a frequentarem faculdades ao redor do mundo, e, como o tema era muito interessante, ela sequer notou o tempo passando. Foi apenas quando Austen começou a chamar sua atenção que ela se deu conta do quão tarde era. Ele costumava fazer isso quando estava com fome e ela só servia as refeições dele às 19h.

E então ela olhou para o relógio, que estava marcando 19h47. Ela se surpreendeu e olhou pela janela, percebendo que já era noite.

Céus, estava atrasada para encontrar Darcy. Ele a estava esperando e ela certamente não conseguiria chegar antes das 20h. Assim, ela considerou desistir de sair e ficar em casa mesmo.

Não era como se o convite — podia ser considerado um convite? — de Darcy tivesse sido algo comum. Pelo contrário. Ela tinha certeza que era a última pessoa quem Darcy convidaria para o cinema simplesmente pelo prazer de sua companhia, e isto era recíproco. Por este mesmo motivo, Elisabeta decidiu encontrá-lo, afinal precisava descobrir sobre o que ele precisava conversar com ela. Das últimas vezes que se viram, os dois pareciam satisfeitos com a decisão silenciosa e mútua de se ignorarem. O que havia feito ele mudar de ideia?

Assim, ela se arrumou rapidamente e saiu de casa em direção ao cinema, embora soubesse que iria perder boa parte do filme e que havia a possibilidade de Darcy já ter ido embora.

Às 20h15, Elisabeta entrou na sala de cinema e, exceto pela claridade advinda da tela, o local estava escuro. Mesmo assim, ela examinou as fileiras e procurou por Darcy, mas não o encontrou. Aparentemente ele tinha ido embora e Elisabeta não o culpava por isso... mas também não se culpava. Ela adorava ir ao cinema sozinha e, de qualquer maneira, teria sido cansativo lidar com Darcy Williamson.

O prepotente, orgulhoso, preconceituoso, insolente e vaidoso Darcy Williamson.

O que ele tinha de altura, ele tinha de arrogância.

E de beleza também.

Mas isso era só o mundo mostrando como a vida é injusta.

Bom, melhor esquecê-lo e começar a prestar atenção no filme. Ela não conseguiu evitar um sorriso ao ver a cena em que Charles Chaplin limpava o nariz de um garotinho. Elisabeta se perguntou qual era o enredo, afinal tinha perdido o início da história. Ela se virou para o senhor ao seu lado para analisar se parecia uma pessoa simpática que estaria disposta a contar-lhe um resumo do que havia acontecido até então, mas de repente sentiu algo atingindo sua cabeça levemente.

Ela olhou para cima para conferir se tinha caído do teto.

Aparentemente não.

Ela olhou para trás e não viu nada também. Mas quando sua visão alcançou a última fileira...

Darcy.

Que havia jogado uma pipoca nela.

Ela se virou para frente novamente, um pouco relutante em se levantar para ir até ele. Ao lado dele tinham duas cadeiras vagas e ao lado dela, nenhuma. No entanto, ela sequer precisou pensar muito, já que logo ela ouviu os passos de alguém se aproximando. Pelo canto do olho, notou que Darcy se sentou numa cadeira vaga na fileira de trás.

Darcy a cutucou e estendeu um panfleto que continha um breve resumo do filme.

— Obrigada. — ela sussurrou novamente enquanto pegava o papel.

— Vocês querem se sentar juntos? — disse o homem que estava ao lado de Elisabeta.

— Não, obrig... — Ela começou a responder, mas logo Darcy a contradisse.

— Sim! — Darcy disse e se levantou.

Quando já estava sentado ao lado de Elisabeta, ele murmurou:

— Oi.

— Boa noite. — Elisabeta acenou com a cabeça e voltou sua atenção para o filme, embora não fosse uma tarefa fácil. Parecia impossível ignorar a presença de Darcy.

Poucos minutos depois, ele moveu o vasilhame de pipoca que estava segurando em direção a ela, oferecendo-lhe:

— Aceita?

Elisabeta escutou sua barriga roncar. Ela não tinha comido nada desde o almoço.

— Não, obrigada. — ela se forçou a dizer.

Darcy sorriu.

— Que pena, está deliciosa. — Ele suspirou. — É amanteigada.

Elisabeta sentiu o cheiro e sua barriga roncou novamente.

— Ah, muito bem. Se você insiste. — Ela disse e pegou um pouco da pipoca. Elisabeta não tinha desviado o olhar do filme, mas de certa forma ela sabia que Darcy tinha alargado seu sorriso.

— Shhhh! — Alguém falou atrás deles. — Façam silêncio.

Elisabeta franziu o cenho e disse em voz baixa:

— Como se tivesse algo do filme para escutar.

Darcy começou a falar algo sem que nenhum som saísse de sua boca, esperando que Elisabeta fizesse leitura labial, mas ela o interrompeu:

— Shhhh! Faça silêncio. — Ela o repreendeu e revirou os olhos.

Darcy sorriu.

— Touché.

Quando Darcy voltou assistir o filme, Elisabeta encarou-o por um rápido momento, se perguntando quem era aquele homem de sorriso fácil que ela nunca tinha conhecido antes.

E se perguntou por que ela nunca o tinha conhecido antes: por que Darcy nunca tinha se mostrado assim pra ela, afinal não tinha motivos para isso, ou por que ela nunca havia permitido uma aproximação dele?

Durante todo o filme, Elisabeta dividia sua atenção entre as cenas e os pensamentos que continuavam a percorrer sua mente. Quando olhava para Darcy ao seu lado, ela se lembrava do quanto aquela situação era incomum. Era como se Darcy estivesse se esforçando para estabelecer uma trégua ou até mesmo um tipo de… amizade?

Talvez mais importante que esta pergunta era outra: estaria ela disposta a aceitar este tipo de relação com ele, dependendo do motivo pelo qual ele fazia isso? Seria difícil. Ela não conseguia deixar de pensar que ele tinha magoado Jane profundamente.

Após aproximadamente dez minutos, Darcy aproximou sua cabeça da de Elisabeta, sussurrando:

— Olhe para este garotinho do filme. Você não acha que o filho de Jane e Camilo será exatamente assim, caso seja um menino? Loirinho, alegre e bondoso.

Elisabeta sentiu um sorriso se formar em seu rosto ao escutar Darcy comparar seu sobrinho ao garoto do filme. O nascimento do filho de Jane e Camilo era a data mais esperada por Elisabeta, pois ela mal podia esperar para encher a criança de beijos, abraços e mimos.

— Sim! — Ela respondeu, divertida. — E também acho que o filho deles vai se meter em confusão só para ajudar as pessoas que ama, igual aos pais e ao garotinho.

— Você tem toda razão. — Darcy riu e o som fez com que Elisabeta o olhasse novamente. Apesar de sua altura e das cadeiras do cinema serem pequenas, ele parecia confortável, e de certa forma ela se sentiu relaxar também.

Uma cena na tela chamou a atenção de Elisabeta e ela se esqueceu completamente de tudo que estava pensando, pois ficou muito preocupada com a continuação da história. Ela nunca tinha se considerado muito emotiva — ao menos não tanto quanto a maioria de suas irmãs —, mas seu coração se apertou quando, no filme, dois policiais impediram o garotinho de viver com o personagem de Charles Chaplin.

— Ah, não. — Ela disse inconscientemente com uma voz chorosa.

Ela não tinha percebido que Darcy notou a reação dela até que ele lhe ofereceu um lenço.

— Eu não estou chorando. — Ela fungou e se virou para ele, percebendo seus olhos mais brilhantes que o normal. — Mas você estava chorando!

Darcy pigarreou.

— Eu? — Ele balançou a cabeça negativamente e sua voz soou grave. — Não.

Ele se virou para o filme, e Elisabeta suspeitou que ele estava apenas tentando se esquivar do assunto.

Darcy Williamson emocionado por causa de um filme. Olha só, ela poderia agora adicionar algo mais à lista de características de Darcy: prepotente, orgulhoso, preconceituoso, insolente, vaidoso… e sensível.

Elisabeta decidiu pensar nesta nova descoberta depois, pois o filme parecia se aproximar do fim e ela estava realmente curiosa quanto ao desfecho da história. Quando os créditos começaram a aparecer na tela, ela piscou e sentiu uma lágrima cair.

Aparentemente ela realmente estava chorando. Darcy estendeu seu lenço outra vez. Ela suspirou e pegou o pequeno pedaço de pano, limpando seus olhos.

— Os dois vão se apaixonar e ficar juntos, sabe? — Ela disse, se referindo ao filme. — E o garotinho terá uma família enorme.

Darcy franziu a sobrancelha.

— A história tem continuação?

Elisabeta negou.

— Acho que não.

— Então como você sabe? — Ele perguntou.

Ela suspirou.

— Porque precisa ser assim.

Darcy ficou pensativo por um momento e Elisabeta suspeitou que ele estava refletindo sobre algo além do filme, mas por fim ele apenas disse:

— Um final feliz.

Elisabeta assentiu.

— Como todas as pessoas merecem.

— Inclusive eu? — Ele arqueou as sobrancelhas, divertido.

— Exceto você. — Ela se corrigiu. — Vilões não merecem finais felizes.

Darcy suspirou, resignado.

— E eu aqui pensando que conseguiria me safar de toda a infelicidade que causei ao mundo…

Elisabeta franziu os lábios, evitando sorrir.

— Não tão facilmente, se Deus está ouvindo minhas preces.

Darcy riu.

— Então farei orações contrárias às suas.

Elisabeta sorriu, mas não respondeu, e somente quando os dois ficaram em silêncio perceberam que todos os demais já haviam deixado a sala de cinema. Eles se levantaram e começaram a caminhar em direção à saída. Quando já estavam na rua, Elisabeta parou e se virou para ele, não conseguindo mais esconder sua curiosidade.

— Sobre o que você precisava conversar comigo?

— Podemos ir caminhando enquanto eu te explico? — ele perguntou.

Elisabeta hesitou.

— Não é necessário. Eu moro bem ali. — Ela apontou em direção a um prédio.

— Eu sei. Mesmo assim, eu gostaria de te acompanhar.

Relutante, Elisabeta cedeu e os dois começaram a andar.

— E então? — Ela perguntou.

— Jane e Camilo gostariam de conversar com você pessoalmente. — Darcy explicou e Elisabeta assentiu, pois a irmã já havia dito isso a ela. — Ela me disse que estão acontecendo algumas greves na capital, o que está dificultando sua ida ao Vale do Café.

Elisabeta confirmou:

— Não consegui nenhuma passagem ainda.

— Por isso eu gostaria de saber se você aceita viajar comigo para lá.

Elisabeta parou de andar.

— Com você? — Ela arregalou os olhos.

Darcy assentiu.

— Eu agradeço, mas preciso recusar. — Ela engoliu em seco, pensando numa desculpa, pois viajar com ele seria estranho demais. — Segunda-feira precisarei trabalhar.

Não era verdade. Geralmente ela podia trabalhar de casa, e sua presença era requerida nos jornais apenas uma ou duas vezes por semana.

— Será que você não consegue uma folga de alguns dias? Posso te trazer de volta no dia que você precisar.

— Eu não sei. — Elisabeta começou a se sentir tensa. De alguma forma, pensar no Vale do Café fazia com que ela se lembrasse de tudo que havia acontecido com Darcy lá. Às vezes ela temia que alguma palavra ou gesto que ele dissesse a Jane fosse despertar na irmã sua insegurança.

Darcy a encarou por alguns segundos com uma expressão compreensiva.

— Eu não te repreendo pelo que você pensa sobre mim. — Darcy começou a falar e Elisabeta se surpreendeu com sua sinceridade. — Minha opinião sobre Jane foi errônea e eu a julguei precipitadamente, mas eu prometo a você que desenvolvi por ela um carinho parecido com o que tenho pela minha própria irmã. Você e eu nunca tivemos a chance de conversar sobre isso e, mais uma vez, eu acho que te entendo por preferir não fazê-lo. Acho que somos diferentes em muitos aspectos, mas de maneira semelhante a você, minha boa opinião, uma vez perdida, está perdida para sempre. Você não está errada sobre meu orgulho. Por mais que eu tente mudar este traço de minha personalidade, não é tão fácil fazê-lo. Mas enfim, acho que será difícil sairmos completamente da vida um do outro, por mais que este deva seu maior objetivo de vida. — Os olhos de Darcy capturaram os de Elisabeta para assegurar que ele estava brincando, tentando tornar seu monólogo mais leve. — Jane e Camilo querem muito conversar com você e eu gostaria de selar um, digamos, acordo de paz entre nós, e acredito que te oferecer uma carona até o Vale do Café pode ser a maneira de ideal de fazer isso. Então por que você não conversa com seus chefes sobre tirar alguns dias de folga? Eu tenho certeza que vai valer a pena. — Darcy concluiu.

Elisabeta ficou sem reação, pois não sabia o que pensar e tampouco o que dizer. Ela ficou em silêncio por aproximadamente um minuto, incapaz de fazer qualquer coisa além de tentar processar tudo que ele havia acabado de lhe confessar. Por fim, ela se ateve à parte do diálogo dele que abria uma brecha para ela se esquivar de uma resposta à sua proposta:

— O que vai valer a pena? O que Jane tem a me dizer ou sua companhia?

— Por melhor que seja minha companhia, embora a senhorita ainda não saiba, eu me refiro ao que Jane tem a te dizer. — O tom de Darcy era amigável e sincero. Ele sorriu e Elisabeta viu beleza naquele gesto. Céus, que loucura!

— Você sabe o que é? — Os olhos dela brilharam em curiosidade.

Darcy colocou as mãos no bolso e olhou despretensiosamente para o céu.

— Talvez…

Elisabeta estreitou os olhos.

— E você garante que a novidade é tão boa a ponto de ser motivo suficiente para eu deixar São Paulo e ir para o Vale do Café com a pessoa que torna meus dias menos felizes?

— Te dou minha palavra.

Elisabeta olhou para os lados, tomando coragem para proferir as palavras que em seguida saíram de sua boca:

— Muito bem, então. Quando partimos?

Notas finais
Eu queria pedir desculpas a vocês por ter prometido uma fanfic em que Darcy e Elisabeta no início não se gostam, porque claramente eu não consigo fazer esses dois se odiarem tanto assim kkkkk