You're Driving Me Crazy!
13 Capítulo 13
O chá da tarde para o qual Elisabeta foi convidada por Archibald, onde estavam presentes também Darcy, Francisca e Charlotte, foi surpreendente. Ela não imaginava que a família era tão carismática e receptiva. Até mesmo Archibald era uma boa companhia quando estava disposto, apesar de sua tentativa de moldar todos que estavam a seu redor às próprias expectativas.
Francisca era mais serena que o marido por conta de sua incondicional amabilidade e empatia; já Archibald não conseguia esconder seu desgosto quando não concordava com as opiniões de alguém ou quando não concordavam com as dele. Elisabeta imaginou que os ânimos distintos do casal foram o motivo pelo qual o casamento apresentou dificuldades, e não a falta de amor.
Por experiência própria, Elisabeta compreendia como os contrastes de personalidade podiam afastar pessoas queridas ou que poderiam chegar a sê-lo, tal como acontecera com ela e Darcy por tanto tempo.
Era visível, em cada palavra e olhar de Darcy, o amor que sentia por sua família. Com Charlotte — que era uma mulher inteligente e interessante — ele também era bastante protetivo. Agora que tinha chance de observar os Williamson juntos, Elisabeta descobriu como Darcy era devoto à família e o quanto deve ter sofrido por conta das crises pelas quais todos passaram nos últimos anos anos.
Neste momento ele estava sorrindo para Francisca, que contava alguma anedota sobre Londres. Impulsivamente, Elisabeta levou sua mão para segurar a de Darcy sob a mesa sem que ninguém percebesse. Não era algo que ela podia dizer em voz alta, mas de alguma forma ela gostaria que ele não duvidasse do quanto merecia ser feliz, do quanto sua família o amava e...
Ela também, embora ainda não tivesse dito isso a ele.
Apesar de tentar manter a serenidade em seu rosto para que os Williamson não notassem que ela não conseguia prestar atenção na conversa, Darcy não foi igualmente discreto e sorriu para ela enquanto suas mãos se acariciavam.
E então foi inevitável sorrir para ele também.
Foi difícil desviar seus olhares — foi como se eles tivessem se perdido um no outro por diversos segundos —, mas se esforçaram em fazê-lo com a intenção de voltar interagir com os demais, mas, quando se viraram, se depararam com três Williamson encarando-os.
Archibald franzia o cenho.
Francisca estava surpresa.
Charlotte tinha uma expressão satisfeita.
— Senhores… — Elisabeta tentou pensar em alguma desculpa para inventar.
Não conseguiu.
Todos continuaram fitando-a, até mesmo Darcy, que deveria ter vindo em seu auxílio. Ela olhou para seu prato e disse a primeira coisa que veio à sua mente:
— Estávamos concordando que este pudim está simplesmente maravilhoso. É um dos melhores que eu já comi. — Elisabeta foi sincera apenas na última afirmação. Ela estava mentindo tanto nos últimos dias que se sentiu culpada, porém resolveu ignorar este sentimento por enquanto.
— Mas Darcy, você nem quis comer. — Francisca cedeu a um sorriso provocante.
Elisabeta olhou para onde deveria estar o prato dele: o lugar estava vazio. Que pessoa em sã consciência se recusaria a comer pudim?
Darcy, aparentemente.
— Verdade. — Elisabeta concordou e se virou para Darcy com uma expressão inocente. — Como você sabe que o pudim está bom?
Ele a encarou desesperado — um preço a se pagar por ter recusado um doce tão maravilhoso, ela pensou — e engoliu em seco.
— Eu… ah… — Pigarreou. — Bom, eu confio no bom julgamento de Victoria.
Charlotte sorriu e Francisca apenas assentiu. Archibald, por sua vez, adotou um olhar desconfiado na direção dos dois e Elisabeta sentiu-se perdida.
Seu objetivo era ganhar a amizade dele, de modo que ele não rejeitasse a ideia de que ela e Darcy poderiam ter um relacionamento algum dia. Bem, na verdade era como se eles já tivessem, mas qual tipo?
Ainda estavam se conhecendo?
Não, não apenas isso. Ela sentia que, embora havia ainda traços da personalidade de Darcy a serem descobertos, ela conhecia a essência sua alma.
Estavam namorando?
Ah, difícil dizer. Eles definitivamente faziam coisas de namorados — afinal amigos não se beijam —, mas nunca teve nenhum tipo de pedido formal. Não houve sequer tempo para isso, pois seus sentimentos, que nasceram pela proximidade que criaram no Brasil, se aprofundaram apenas com a distância.
Talvez a pergunta mais importante neste momento era: qual tipo de relacionamento ela queria ter com Darcy? Se a resposta fosse a primeira palavra que surgiu em sua mente, seria: todos.
Isso a fez pensar no quanto havia mudado nos últimos tempos.
Quando conheceu Darcy, Elisabeta tinha um único sonho: percorrer o mundo. Naquela época, ela acreditava que o amor em forma de relacionamento colocaria um impedimento a seus planos. A Elisabeta de hoje, no entanto, não conseguia deixar de pensar como seria maravilhoso dividir cada momento de sua vida com Darcy: cada novidade, cada expectativa, cada alegria, cada divertimento, cada angústia e cada decepção.
Simplesmente tudo.
Ela decidiu que gostaria de formalizar seu relacionamento com ele, começando pelo namoro, e então os dois traçariam juntos um plano para que Lorde Williamson não se opusesse à relação, pois Darcy se magoaria se seu pai não aprovasse suas escolhas. Ela se esforçaria em conquistar a amizade de Archibald, não apenas por Darcy, mas também por si mesma. Ela queria de criar laços com a família dele, assim como ele tinha com a sua.
— Sinto muita saudade das sobremesas brasileiras. — Francisca comentou, finalmente quebrando o silêncio e tentando mudar de assunto. — Você já experimentou bolo de rolo feito com goiabada, meu amor?
— Acredito que não. — Archibald respondeu com uma expressão ainda pensativa dirigida a Elisabeta e Darcy.
— É delicioso! Pena que não tenho a receita.
— Minha mãe me ensinou a fazer este bolo. Caso a senhora queira, posso lhe passar a receita. — Elisabeta ofereceu.
— Excelente! Eu mesma prepararei na próxima semana, então. E adoraria que você também experimentasse, querida. — Ela disse a Elisabeta.
— Eu te ajudo, mamãe. Ou, melhor, por que nós três não fazemos juntas? — Charlotte sugeriu, animada. — E papai fica responsável pelo chá, já que ele sempre sabe o sabor ideal para cada tipo de comida.
Elisabeta compreendeu a atitude de Charlotte, que visava acolhê-la.
— Que ideia maravilhosa, Charlotte! Victoria, você aceita? — Francisca perguntou.
A empolgação de Elisabeta desapareceu ao escutar aquele nome e um nó se formou em sua garganta.
Céus, por que ela foi tão impulsiva a ponto de mentir para eles? Ela sabia a resposta: pelo medo de ter sido rejeitada desde o primeiro momento. Mas Elisabeta Benedito nunca foi medrosa, por que agora?
Os Williamson estavam sendo tão gentis com ela, e em troca ela os enganava.
Ela não podia fazer isso.
— Não há nada eu gostaria mais, mas… eu preciso dizer algo.
— À cozinheira. — Darcy se apressou em dizer.
Ela o encarou, confusa.
— Como? — Ela perguntou.
— Você disse que gostaria de cumprimentar a cozinheira pelo pudim, não é? Eu te acompanharei até a cozinha. A sra. Evans ficará deslumbrada.
Elisabeta abriu a boca para protestar, mas Darcy se levantou e se posicionou atrás da cadeira dela, pressionado-a para que se levantasse também. Ela o fez a contragosto e, assim que os dois saíram da sala de jantar, ela perguntou:
— O que foi isso?
— Você estava prestes a dizer seu verdadeiro nome, não é mesmo? Eu percebi como você mudou ao escutar minha mãe te chamar de Victoria.
Elisabeta se sentiu cansada de repente.
— Não é justo que eu minta para eles, Darcy. Eu agi tão impulsivamente que não percebi o quão cruel minha ideia foi.
— Elisa, eu… — Neste momento, os dois escutaram algum barulho vindo da sala de jantar. — Vem comigo.
Ele segurou sua mão e a levou até a biblioteca.
Lá, ele a fitou de maneira compreensiva.
— O que estamos fazendo é por um motivo maior. É por nós.
Elisabeta assentiu e se explicou:
— Eu tive medo que seu pai me rejeitasse exatamente no momento em que soubesse quem sou, mas mesmo assim…
— Vocês sabem… — A voz de Charlotte surgiu no ambiente e Elisabeta se sobressaltou, pois não havia escutado sua aproximação. — … que não estão enganando ninguém, não é mesmo? Quero dizer, só papai.
— Charlotte... — Foi tudo que Darcy disse.
— Roupas vermelhas, olhos verdes, um sorriso cheio de vida, culta, interessante, belíssima. Darcy sempre fala sobre você, então desde o momento em que a vi… — Charlotte apontou para Elisabeta. — Eu soube que você é Elisabeta, a única mulher quem meu irmão já amou.
Elisabeta sentiu seu corpo ser percorrido por borboletas.
Amor.
— E não apenas por estas características, mas também pelo modo como ele te observa.
Uma alegria inesperada e urgente surgiu em Elisabeta, e então ela riu.
— Então quer dizer que você estragou meu disfarce pela maneira como me olha, sr. Darcy? — Elisabeta provocou, permitindo-se um momento de vaidade.
Ele não teve chance de responder, pois Francisca também apareceu.
— Uma reunião familiar sem mim!? — Ela repreendeu sem seriedade e se aproximou de Darcy para que ele a acolhesse num abraço.
Elisabeta teve vontade de abraçá-la também. Por acaso ela disse família? E a incluiu no termo?
— Elisabeta, eu estava ansiosa por conhecê-la de verdade.
A expressão da Benedito demonstrava sua genuína surpresa.
— Então vocês sabiam. — Ela constatou e as duas assentiram. — Lady Williamson e Charlotte, eu gostaria de pedir perdão a vocês. Eu não deveria ter inventado esta história.
— Tudo vale em nome do amor. — Francisca a interrompeu com um sorriso. — Por favor, me chame de Francisca. Mas me contem, qual foi o motivo?
— Elisabeta escutou papai falando sobre ela, mãe. — Darcy informou.
— Ah, eu imagino o que ele tenha dito. — Francisca revirou os olhos. — Por favor, Elisabeta, perdoe as opiniões de meu marido.
Elisabeta meneou a cabeça.
— Não se preocupe, de verdade. No momento eu tive uma ideia tola. Imaginei que, se ele conhecesse quem realmente sou, sem a pré-concepção que já possui sobre mim, talvez eu seria capaz de ganhar sua aprovação.
— Pois eu acho que você tem razão. Quando meu pai gosta de uma pessoa, ele a considera parte da família. — Charlotte afirmou. — Meu pai é uma pessoa difícil, mas ele é bom. No entanto, é necessário ter paciência para despertar o lado sensível dele. Mamãe, Darcy e eu poderemos te ajudar no seu plano dando algumas dicas, tais como assuntos pelos quais ele se interessa.
— Eu espero que você goste de chás, pois é a maior paixão dele. — Francisca disse. — Ah, já sei! Pergunte a ele sobre a diferença entre chá e infusão. Ele vai tagarelar por horas, mas vai adorar ver que você se interessa pelo assunto.
— E também desafie ele para uma partida de xadrez. — Darcy sugeriu. — Jane já me disse que ninguém no Vale do Café consegue te superar no jogo. Se você ganhar, ele vai declarar que você utilizou de alguma artimanha e querer revanche. No fim, vai apenas se admirar pela sua proeza e querer aprender com você.
Elisabeta agradeceu a ajuda de todos, mas suas prudência falou mais alto:
— Mas quando ele descobrir porque eu fiz isso, é provável que se decepcione comigo e sua opinião sobre mim seja ainda mais dura.
Charlotte meneou a cabeça.
— Papai é inteligente, Elisa. É possível que ele não descubra seu nome, mas ele vai perceber a bondade do seu caráter e compreender seus sentimentos e motivações, mesmo que se zangue por um ou dois dias.
Francisca concordou:
— No fim, tudo que ele quer é a felicidade de Darcy.
Elisabeta sorriu.
— Eu irei seguir os conselhos de vocês, então. Espero que ele compreenda meus motivos.
Francisca se soltou de Darcy e segurou a mão de Charlotte para que ambas voltassem para a sala de jantar, mas antes repetiu:
— Tudo vale em nome do amor, Elisa.
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Darcy permaneceu pensativo por alguns segundos desde que ficou sozinho com Elisabeta. Sua mãe e Charlotte praticamente fizeram declarações de amor a ela em seu nome, e agora ele não sabia o que dizer. Eles ainda não haviam conversado sobre sentimentos ou namoro, e ele sabia que este poderia ser um tema delicado, pois Elisabeta sempre deixara claro para todos que se opunha às restrições advindas de um relacionamento.
Mas ele tentaria mostrar a ela que nunca seria um empecilho para sua liberdade.
Ele seria livre com ela.
Elisabeta, por outro lado, parecia alheia às preocupações de Darcy, pois segurou cada uma das mãos dele com as suas e ficou de frente para ele com o sorriso mais lindo que ele já vira em sua vida.
O sorriso que ele não conseguia mais se imaginar vivendo sem.
— Amor. — Ela disse simplesmente.
Ele aproximou-se e colou sua testa à dela, e então assentiu ligeiramente.
— Amor. — Darcy concordou.
Elisabeta suspirou.
— Eu tenho uma pergunta para você.
Darcy beijou a testa de Elisabeta, então sua sobrancelha e por fim o espaço entre seus olhos.
— Hmmm? — Ele murmurou.
— Darcy Williamson. — Elisabeta pronunciou seu nome de maneira séria, e por isso ele afastou seu rosto para poder fitá-la, mas ela apenas riu ao notar a preocupação no rosto dele. — Você aceita namorar comigo?
Darcy encontrou no olhar dela seu próprio futuro.
— Elisabeta Benedito. — Ele respondeu, com seu coração cheio de paixão. — É tudo que eu mais quero.
Darcy se aproximou lentamente de Elisabeta e os dois se beijaram, selando o início do resto de suas vidas.
Elisabeta se afastou um pouco, mas manteve-se próxima para que sua boca ainda pudesse tocar a dele numa fração de segundo, caso quisesse.
— Acho que devemos voltar. — Ela sussurrou.
Darcy mordeu o lábio dela com delicadeza, provocando-a.
— Eu discordo.
Elisabeta estremeceu e beijou-o novamente.
— Seu pai vai estranhar nossa ausência. — Ela insistiu, por fim.
Darcy acariciou seu rosto.
— Ele entenderia que estamos fazendo algo importante.
Elisabeta assentiu.
— Muito importante.
Darcy passou a língua pelo lábio inferior de Elisabeta, fazendo-a gemer.
— Mas temos que ir... — Ela reafirmou sem convicção.
— Você vai jogar xadrez com ele, não? Ainda precisamos ir buscar o jogo.
Elisabeta respirou fundo, tentando voltar a ser capaz de raciocinar.
— Onde ele está?
Darcy trilhou selinhos até o pescoço dela.
— No meu quarto.
Elisabeta sorriu, desistindo de ceder à tentação.
— Então precisamos buscar.
— Já que você insiste...
Darcy pegou a mão dela e guiou-a pela casa sorrateiramente até chegar ao quarto dele.
É claro que eles não fizeram nada por lá — ao menos, nada além de beijos e carícias não-tão-inocentes-nem-tão-íntimas.
É claro que demoraram muito para voltar à companhia dos demais, mas Charlotte e Francisca se empenharam em ocupar o tempo de Archibald para que ele não notasse.
É claro que foi difícil esconder a felicidade que sentiam pela certeza de que estariam juntos até a eternidade, mas nada que algumas desculpas para sairem da sala por alguns (vários) minutos não resolvessem.

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