Young Volcanoes

3 Que a força esteja com Luke


Notas iniciais
Desculpa pela demora!! Tive uns contratempos....

Jimmy me levou até o carro, ficou quieto boa parte do tempo, não parecia estar furioso comigo, mas não estava nem um pouco a vontade. Não sabia se deveria pedir desculpas, ou apenas esperar para a bronca que iria levar do Carlos.

Como havia prometido, Jimmy me deixou até um certo ponto, o mais próximo de casa, e seguiu para o trabalho.

A minha punição era simples, Jimmy havia me entregado uma lista de coisas que deveria fazer, acho que ele já tinha essa lista a um tempo, só estava esperando eu fazer alguma besteira. Acho que todo pai deve ter uma lista de fazeres pro filho, caso ele faça algo de errado. E todo mundo sabe que nós sempre fazemos algo de errado!

Tinha que fazer estupidas e simples tarefas em casa, Jimmy colocou na lista:

Levar a roupa suja na lavanderia

Limpar o seu buraco negro (meu quarto)

Dar uma arrumada no quarto do Lucas

Tirar o lixo

Pegar Lucas na escola ao 12:30 p.m

Lave a louça

Guarde a louça

NÃO SE ESQUEÇA DO LUCAS!

De algo para o Lucas comer

Certifique-se que não se esqueceu do Lucas.

Chegando em casa, tirei meu uniforme ridículo. E comecei a fazer aquilo que a lista pedia. Fui até a lavanderia mais próxima que havia perto de casa, esperei uns quarenta minutos até tudo estar limpo, não conseguia deixar as roupas na maquina e ir embora, como algumas pessoas costumam fazer. Além do mais, o filho mais novo do dono sempre ficava "conversando" comigo... Digamos que não conversávamos muito... Nos fundos da lavanderia...

David, era seu nome, tinha dezessete anos. Moreno, com um cabelo preto como carvão, com cachos que daria inveja em qualquer garota. Alto, tinha em média: um e setenta. E uma capacidade incrível de me deixar perdida, só com um olhar.

E lá estávamos, em um lugar minúsculo mas ao mesmo tempo aconchegante, quieto mas tão barulhento em minha mente. Pode até parecer algo que se diz em novela, mas a minha vida de certa forma se transformava em uma.

Eu podia senti-lo, estávamos em total sintonia. Suas mãos segurando a minha cintura, seus lábios levemente gelados iam descendo em meu pescoço, nossos corpos se aproximando cada vez mais e nos deixando completamente em um colapso.

Me segurava em seus braços, e meus pés mal tocavam o chão, seu perfume ficava preso em minhas roupas. E os minutos... Que mais pareciam horas, um tempo infinito. O mundo inteiro poderia explodir, e ainda estaríamos ali, juntando nossas energias, nos transformando em um só. Naquele momento, o que importava, era aqueles lábios carnudos em minha boca, nada mais era suficiente, tudo desaparecia em um piscar de olhos.

E meu celular despertou, havia se passado quarenta minutos, e aquela vontade de jogar o celular pro céu, mas não poderia nem pensar, tinha que pegar o Lucas na escola. Então dei adeus, peguei minhas coisas e continuei a fazer as tarefas.

Meu quarto que estava um verdadeiro desastre. Roupas espalhadas pelo chão, canecas com restos de café em minha mesa, mais lixo em baixo da minha cama. Até parecia que um monstro vivia ali.

Joguei todas as roupas no meu armário, tirei os lixos de baixo da cama, e coloquei os pôsteres dos Sex Pistols, Ramones e Social Distortion que já estavam ficando sem cola. No final, mal poderia reconhecer. Tudo estava arrumado, e organizado demais. Não dou uma semana para bagunçar tudo de novo...

Quarto do Lucas era o menor, e o menos bagunçado. Com alguns brinquedos espalhados por todo o quarto: Lego e bonecos de ação. Papeis de doces, jogados na cama. Arrumei tudo em questão de minutos.

Ao terminar as tarefas, tudo estava pronto antes do meio dia, tomo um rápido banho, me arrumo para buscar Lucas:

Uma calça jeans preta, rasgada e um tanto justa. Uma camiseta larga do Sex Pistols aberta nas laterais, e um all star velho e surrado.

Não levei meu cigarro ou qualquer outro tipo de toxina.

Chegando a escola de Lucas, "Fundamental Porto Sul", olho em meu relógio, meio dia e cinco minutos. Cheguei mais cedo do que havia imaginado. Me sento em um dos bancos próximo a escola e espero até que encontre uma pequena pessoa, um tanto tímido, moreno, com cabelos lisos, e grandes olhos.

Ouvi o grande sino, abriram os portões e crianças de todo o tipo saiu de dentro da escola, correndo como se mal pudesse esperar para chegar em casa.

Nunca tinha visto tanta criança em um lugar só, ficava cada vez mais difícil de encontrar Lucas. Até encontrar um garoto, com a mesma descrição de Lucas, mas nada tímido, estava em uma roda de amigos, crianças do seu tamanho, rindo e brincando. Mal acreditava que um garoto que em casa mal dizia seu nome, na escola era o mais extrovertido, e alegre.

Ele me vê, sorri de orelha a orelha, acena rapidamente e corre até mim:

–Você não deveria estar na escola? — Ele perguntou. Era tão pequeno, era um dos únicos que erguia tanto a cabeça, só para olhar pra mim.

–Sai mais cedo. — Peguei sua pequena mochila colorida. — Vamos pra casa.

–Cadê o pai Jimmy? Achei que ele iria me buscar. — Andava devagar, suas pernas eram tão pequenas.

–-Jimmy é muito ocupado, isso vai acontecer mais vezes. Sempre lotado de trabalho. Mas não se preocupa, que eu sei cuidar de uma criança. — Ele olhou para mim, sabia que eu estava blefando. — Está bem... Não sei. Mas uma hora isso tinha que acontecer certo?. — Ele concordou alegremente com a cabeça. Brincava com toda pedra ou folha que via pela frente. Voltava da escola feliz, como eu jamais voltei. Era feliz por não ter que pensar no mundo, feliz por ser pequeno e tudo ao seu redor ser grande. Tinha a magia de imaginar, e transformar qualquer prédio em grandes e terríveis dinossauros. Transformava o cinza em amarelo. E me fazia lembrar, como era bom ser pequeno, pensar que podemos dominar o mundo só fechando os olhos. Que todos éramos felizes, até crescermos e encaramos o mundo de frente.

–Um garoto da minha sala. — Lucas pensou em voz alta.

–O que foi que disse? — Perguntei novamente.

–Tem um garoto na minha sala. — Ele ainda dizia contente. — Ele é... Como foi que a minha professora disse... — Tentava se lembrar. — Rude.

–Rude? — Soltei uma risada. — E por quê ele seria "rude"?

–Ele gosta de brigar com todo mundo. — Ele tirou o sorriso do rosto. — Eu estava brincando... De boneca com as meninas da sala, e ele, foi rude comigo. — Paramos de andar no mesmo instante, me abaixei até ele e disse:

–Seja lá o que esse garoto tenha dito. Não importa... Você não é menos "garoto" por que gosta de brincar com alguns brinquedos que dizem não ser para você.

–Mas todo mundo riu. — Ele abaixou a cabeça. — Falam que eu sou que nem o papai

–Lucas, você é muito pequeno para lidar com esse tipo de coisa. E se você for como o papai? Você viu como ele é feliz, tem uma família... E como os pais desse garoto são?

–Os pais dele não vivem juntos.

–Pois bem... Ele é rude, mas ainda é uma criança, não sabe o que diz. E você também é, brinque com o que você quiser. Seja você mesmo. — Me levantei, olhei para o céu, que já estava nublado e cinza. — Vamos logo, se não vamos pegar a maior chuva. — Me preocupava, tudo o que eu queria era ver meu irmão mais novo triste por isso.

Chegando em casa, fiz o almoço de Lucas, seu preferido macarrão com queijo, o único que conseguia fazer macarrão com queijo perfeito, era Carlos. Mas ainda sim, Lucas comeu tudo.

–Vamos brincar lá fora? — Lucas olhou para o quintal, onde seu pequeno parque estava, molhando pela chuva.

–Ficou maluco? — Perguntei. — Olha só, está chovendo muito. — Lucas parecia triste, sentou no sofá, ligou a televisão, e rodava todos os canais, e rodava, parecia que queria um milagre a meio de tantos canais chatos. — Já sei! — Gritei, assustando Lucas.

–O que?

–Vamos assistir o melhor filme de toda galáxia! — Levantei animada. — Não saia da ai. — Fui até o quarto de Jimmy e Carlos. Dentro do armário, na prateleira mais alta, estava lá, empoeirado, uma caixa personalizada com todos os filmes já lançado do Star Wars. Peguei a caixa e voltei até Lucas.

–O que é isso? — Olhos de Lucas brilhavam, a curiosidade exalava

–O melhor filme da sua vida!

–Star Wars? — Ele disse em um tom de duvida.

–Não julgue. — Dei a caixa para Lucas. — Coloque, e eu vou fazer alguma coisa para comermos. — E então Lucas se animou. Fui até a cozinha, olhei para todos os armários e pensei no que poderia fazer com tudo que tínhamos

–O que vai fazer? — Ele gritou.

–Não sei, vou juntar tudo que temos na dispensa... — Gritei de volta

–Parece bom.

–Vem me ajudar. — Então Lucas apareceu na cozinha, e fizemos a maior zona. Não parecia que tinha arrumado tudo hoje de manhã. Mas a mistura que fizemos ficou pior: Pipoca misturada com nachos e queijo; Pão com creme de amendoim, geleia e cereal. Doces misturados com salgados. Refringentes diferente em um copo só. Coisas que farão Lucas ficar em casa amanhã, passando mal.

Passamos a tarde chuvosa assistindo todos os filme do Star Wars, do Ataque dos clones até o Retorno de Jedi. E Lucas estava adorando tudo, não piscava em nenhum momento. Tinha um pressentimento que Lucas iria acabar dormindo em um dos filmes, ou que acharia chato, mas ele adorou, ficamos assistindo até o Jimmy e Carlos chegar:

–Boa noite. — Jimmy deu um beijo em nossas cabeças. Carlos parecia sério, mas ainda sim fez o mesmo que Jimmy, desejou uma boa noite e deu um beijo em Lucas

–Eli... Acho que precisamos conversar. — Carlos cruzou os braços, olhando diretamente para Lucas

–Tudo bem... Luke Skywalker, vai pro seu quarto. Eu arrumo tudo isso. — Luke se levantou, subiu as escadas a caminho do seu quarto. — Pronto... Mandem bala.

–Eli. — Carlos se sentou ao meu lado. — O que você pensou que estava fazendo? Ele é seu professor, a autoridade maior.

–Eu sei.. Olha e eu peço desculpas por isso. Mas não me arrependo de nada.

–Jimmy, isso é invenção sua. — Carlos se levantou a diante de Jimmy, que no momento não disse nada, apenas olhou surpreso. — Fica colocando essas ideologias na cabeça dessa menina.

–Eu nunca falei sobre homossexualidade com ela, Carlos, se ela sabe de tudo isso é por conta dela! — Jimmy retrucou.

–Eu disse a você... Toda essa atitude só pode ser ausência de...

–Ah meu Deus! Já chega! — Interrompi. — Querem parar por um segundo de focar em vocês? O problema não é com vocês. E não eu não estou fazendo isso para chamar a atenção de vocês ou por alguma razão psicológica que você sempre inventa pai. — Jimmy e Carlos ficaram calados, ouviram tudo o que eu tinha a dizer, pela primeira vez. — Eu... Eu não entendo. Meus pais homossexuais me colocam em uma escola onde o amor de vocês não é aceitável?!

–Eli, a questão não é essa. — Jimmy tentou me acalmar. — Só pensamos no seu futuro, não ligamos pra aquilo que todos eles dizem, nunca vai nos afetar. O que vai nos afetar é se você continuar tendo essas atitudes com um professor, você sabe como a gente se sente a respeito disso.

–Mais que inferno! — Gritei. — O que há de errado com vocês?!

–Olha o tom mocinha! — Carlos, já estava perdendo a paciência

–Não, eu não vou parar, vocês podem ir a diretoria todos os dias... Mas eu não vou parar até que eu me tirem de lá...

–Eli pensa em você... — Jimmy tentou criar uma frase motivadora que pudesse mudar minha ideia, mas interrompi outra vez

–Não.... Por quê vocês não pensam em mim? Ou quem sabe no Luke, que já cedo está sofrendo por homofobia, por que os pais são "diferentes"

–Já pro seu quarto. — Carlos disse, em um tom seco e triste. — Amanhã... Você não vai pro treinamento de boxe.

–O que?

–Isso que você ouviu... Vai pro seu quarto, eu e seu pai arrumamos aqui.

–Foda-se. — Sai correndo até meu quarto, antes que a discussão voltasse. Após uns cinco minutos dentro do meu quarto, sai em silencio até a escada, e tentar escutar o que Carlos e Jimmy estavam falando.

–Ela é incrível Carlos. — Jimmy andava da sala até a cozinha com os restos de comida que haviam sobrado.

–Não podemos passar a mão na cabeça dela Jim.

–Não estou pedindo isso. Mas mudar de escola não parece algo tão ruim. — Ele se sentou no sofá. — Além do mais, ela pode ir para uma pública, e quem sabe assim não se arrependa... E no final, você estará certo como sempre.

–Você é igual a ela... — Ele se sentou ao lado de Jimmy. — Vamos ver... Vou procurar alguma escola que aceite pequenas marginais. — Ele riu.

–Isso ela puxou de você. — Jimmy brincou. — Agora, em relação ao Lucas?

–A gente sabia que isso iria acontecer... Garotos maldosos, que iriam maltratar Lucas por ter "pais diferentes"...

–A gente vai dar um jeito nisso. — Jimmy deu um beijo na testa de Carlos e se levantou. Subiu as escadas, rumo ao seu quarto. — Vai dormir. — Ele me disse. — Amanhã vai ser um longo dia...

Entrei em meu quarto, tirei minha roupa. Coloquei minha meia calça rasgada, meu shorts jeans, uma camiseta branca, e meu único salto preto. Peguei meu cigarro e minha jaqueta de couro e fugi pela janela. Fui até King´s Trash, agora quem precisava de um tempo... Era eu...

Notas finais
Espero que tenham gostado! E estou tentando prestar mais atenção nos erros
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.