You mean a lot to me, a lot
3 Wish you were here
Notas iniciais
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Casablanca, 1985
Fora um pesadelo que fizera Melinda May acordar no meio da madrugada. Algo violento, e que desaparecera completamente de sua mente um minuto depois que acordara, mas que ainda assim a deixara sem fôlego e a empurrara para fora da cama, em direção à cozinha do pequeno apartamento. Eram menos de 20 passos até a cozinha, e mesmo assim ela conseguira bater o dedinho na porta ao sair do quarto e o quadril na bancada da cozinha, antes que pudesse alcançar o interruptor e acender a luz.
— Merda – ela reclamou com irritação, olhando para o pedaço de pele exposta que havia se chocado contra o mármore, certa de que em menos de duas horas teria um hematoma feio. Sentindo-se completamente acordada, agora que se chocara contra os móveis e sentia uma dor crescente em seu pé, ela abriu a porta da geladeira quase vazia e suspirou antes de pegar a garrafa de água. Por puro reflexo, ao passar em direção ao guarda-louças, ela apertou o botão de ligar do pequeno rádio de pilhas, que chiou um pouco antes de começar a tocar o finalzinho de uma música que ela não conseguiu identificar apenas pelos acordes finais.
“Aqui é o DJ Tommy, e esse é o Night Night Casablanca, o melhor programa da madrugada para os que estão de pé até essa hora. São 03:24 e vocês acabaram de ouvir uma sequência de Carpenters, David Bowie e Rolling Stones”, o apresentador de rádio disse com um forte sotaque árabe, e a mulher acomodou-se em seu sofá, posicionando o rádio em cima da mesa de centro. Havia um copo de água gelada em sua mão e ela piscava preguiçosamente, olhando para a janela da sala. Chovia lá fora, e mesmo assim o calor da madrugada era intenso. “Nós acabamos de receber a ligação de uma ouvinte, que disse que ultimamente seus dias vem sendo os mais difíceis de sua vida, e que a única hora de paz de seu dia são madrugadas, quando tudo é calmo”, o homem continuou falando e ela identificou-se com a ouvinte.
Desde o último verão, quando formara-se na Academia, Melinda havia se mudado para um prédio a menos de 2 quilômetros de seu antigo dormitório, e durante 5 meses dividira o apartamento com seu melhor amigo, que provara-se um excelente colega de quarto. Foram os cinco meses mais simples e felizes de sua vida, onde suas primeiras missões eram fáceis – exceto pela desastrosa tarefa em Sausalito, que a deixara gripada por quase duas semanas – e seus dias eram divertidos, coloridos pelas piadas sem graça de Phil e sua comida muito gostosa. Quando o inverno acabara e não havia mais nenhum sinal de neve no chão, o Comandante Fury convocara todos os agentes para receberem suas ordens para o ano seguinte, e o mundo de Melinda desabou ao saber que fora designada para uma unidade em Casablanca, enquanto Phil passaria os próximos oito meses em DC, auxiliando uma nova turma de novos cadetes. Ela passara vários dias pensando em um plano para que Phil fosse redesignado para a mesma unidade que ela, e até enviara uma carta para o gabinete da diretora, que nunca nem respondera sua solicitação.
— Isso não é justo – ela reclamara com irritação e sentira o impulso de bater o pé no chão, como uma criança.
— São as nossas ordens Mel – Phil respondera, já resignado e ela bufou, antes de enfiar mais cinco camisetas em sua mala.
— Eu fui treinada para ser sua parceira. Eu sou uma especialista, você é agente de campo, nós somos uma dupla... Não é justo, nós somos os melhores daqui! Eles deviam mandar aquele idiota do Garret pra treinar cadetes – ela continuara reclamando e ele sentira vontade de rir.
— Exatamente, ele é um idiota, e nós não queremos idiotas treinando cadetes – dissera com um sorriso e a puxara para um abraço apertado – Promete que vai se cuidar direito, criança?
— Para de me chamar de criança... Eu faço vinte anos em três meses – resmungara contra o peito do amigo, antes de respirar fundo e segurar a vontade de chorar – Eu vou me cuidar direitinho – garantira, e pouco mais de uma hora depois, saíra do apartamento com todas as suas roupas, pronta para sua viagem de 9 horas até Marrocos.
Lembrando-se agora daquele momento em particular, Melinda descobriu porque acordara e porque tivera um pesadelo, e olhou de relance para o calendário só para confirmar. Era a madrugada do dia 20 de setembro, o dia em que finalmente fazia 20 anos, e havia um aperto em seu peito por estar sozinha.
“Agora, a pedido de um ouvinte que sente-se solitário nessa madrugada, um clássico, Wish You Were Here”, o dj anunciou e ela fechou os olhos com força assim que ouviu os primeiros acordes da música. Maldita rádio, ela pensou, sentindo-se frustrada. Sem pensar duas vezes, esticou-se em direção à mesa de canto e puxou o telefone para sua orelha, antes de discar o número imenso que sabia decor. Depois de três toques, ela ouviu o som do telefone sendo tirado do gancho e prendeu a respiração, antes de ouvir a voz do outro lado.
— Alô – a voz masculina e sonolenta disse e ela sorriu.
— Oi Phil – ela respondeu e pôde ouvir o sorriso na voz do amigo – Eu acordei você? – ela perguntou e ele fez um som confirmando, mas falou em seguida:
— Feliz aniversário!
— Você lembrou – ela comentou, feliz em saber que ele lembrava-se.
— É claro que eu lembrei... Faz quatro anos que eu te dou feliz aniversário no mesmo dia, seria ridículo se eu esquecesse – divagou e ela sentiu um nó em sua garganta – Mel, se eu não me engano, é madrugada aí, certo?
— Uhum – confirmou rapidamente.
— Por que você tá acordada? – ele perguntou com um tom de voz preocupado – Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
— Eu tive um pesadelo, eu acho – respondeu e logo continuou – Eu levantei pra tomar água, bati meu pé na porta e o quadril no balcão da cozinha, e então eu liguei o rádio, e começou a tocar uma música ... – ela explicou, e sentiu-se a beira do choro.
— Qual música?
— Nenhuma especial – mentiu e girou o botão do volume do rádio para diminuí-lo. É claro que era uma música especial. Era uma das favoritas de Melinda, e uma das favoritas de Phil, e com sua letra que falava sobre querer alguém por perto, ela fora levada imediatamente a pensar no amigo que deixara pra trás.
— Quais são seus planos pra hoje? – questionou, e quando ela não respondeu, ele começou a dar ideias – Você pode pedir uma pizza, e se quiser, me ligar enquanto come, e pode me contar como foi o seu dia...
— Eu queria estar com você – ela confessou, interrompendo-o subitamente, e sentiu uma lágrima quente em sua bochecha. Houve um silêncio da parte de Phil, e só o que ela podia ouvir era um farfalhar de papéis – Phil? – chamou, certa de que havia o espantado.
— Eu tô aqui – ele respondeu e respirou fundo – Aqui são meia noite e pouquinho... Tem uma carga que vai sair da Triskelion às 6 da manhã, em direção a Marrakesh – ele começou a dizer, e ela novamente prendeu a respiração, esperançosa – Se você quiser, eu posso estar nesse avião – sugeriu e ela fechou os olhos e sorriu largamente.
— Sim, sim, por favor – respondeu quase que no mesmo segundo e ele riu do outro lado.
— Então, está feito, no fim do dia eu estou aí – confirmou e ela respirou fundo, sentindo-se leve – Com uma condição: volta pra cama agora, você precisa dormir – ele disse com firmeza e ela assentiu, antes de lembrar-se que ele não podia vê-la.
— Sim senhor!
— Vejo você daqui a 16 horas – Phil prometeu com um sorriso na voz.
— Vejo você daqui a 16 horas – Melinda repetiu, e no minuto seguinte, devolveu o telefone a seu lugar, em cima da mesa de canto, sorrindo como uma criança na noite de Natal. “Volte pra cama agora”, ela ordenou a si mesmo, e praticamente dançou em direção a seu quarto, dessa vez sem bater-se contra a porta. Ao colocar a cabeça no travesseiro ela fechou os olhos, determinada a voltar a dormir. Em menos de duas horas teria que estar de pé para começar seu dia, e provavelmente estaria exausta e com olheiras, mas Phil Coulson estava vindo para Casablanca só para fazê-la companhia em seu aniversário, e nada – repito – nada nesse mundo destruiria seu bom humor.
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