You make me feel wrong
4 Love Will Tear Us Apart
Notas iniciais
Jardins de infância eram lugares interessantes. Isso decididamente não queria dizer que Shey iria por livre e espontânea vontade, ou que gostava de passar o dia lá, mas, ainda assim, não era tão ruim quanto poderia ser. Era decididamente melhor que antes, quando crianças corriam atabalhoadamente para todos os lados e tinha de ajudar Leon a colocá-las no lugar, apenas para ao olhar ao redor descobrir que o pirralho do qual você deixou de vigiar por cinco segundos estava comendo cola ou massinha de modelar.
Depois que elas descobriram que ele sabia desenhar e ele inventara de pintar uma borboleta no rosto de uma menininha que estava ameaçando chorar, porque era tudo muito barulhento e aturar mais o som estridente de choro de criança seria insuportável, elas ficavam empolgadas quando o viam, formavam uma fila para que pintasse fadas, alienígenas, personagens de desenho estampados em mochilas, corações, espadas e machados nas costas de suas mãozinhas, com sorrisos empolgados que faltavam dentes, mas claramente se esforçando para ficar quietinhas e não precisarem ficar sem o desenho ou ir para o final da fila.
Era sempre pelo menos um pouco engraçado, por sinal, quando uma delas entrava na fila duas vezes e tentava fingir que não havia sido pintada, se negando a estender a mão direita. Um garotinho uma vez até mesmo dissera que não tinha um dos braços, e o colocara dentro da camisa da escola bem na sua frente, como se não pudesse ver o que ele estava fazendo, deixando-o sem saber como reagir até que Leon aparecesse e o levasse para fazer um desenho em uma daquelas mesas coloridas.
Shey também ganhava muitos desenhos, que em sua maioria eram ele de uma forma distorcida, muito quadrada, redonda ou magra, ou uma réplica da pintura de tinta guaxe antialérgica em suas mãos, e entregava tudo a Leon depois, pois não tinha interesse naquilo, à exceção de um algo cheio de rabiscos disformes e estranhos que até o presente momento estava tentando interpretar. Havia ainda o garoto agitado que passava mais da metade do dia dançando em sua frente, tentando lhe arrancar um sorriso, e o grupo de menininhas vestidas de rosa que ficavam lhe fazendo perguntas: “Tio, você é filho do tio Leon?”, “Tio, posso pentear seu cabelo?”, “Tio, posso desenhar na sua mão?”, “Tio, qual sua cor favorita?”...
Jardins de infância eram lugares interessantes.
O que não queria dizer que ele gostava de crianças.
Na verdade, elas o cansavam a um ponto em que estava infinitamente grato quando pôde ir embora com Leon, olhando pela janela do carro, perdido em pensamentos enquanto o irmão punha em uma rádio em que tocava um hip-hop genérico. Ele queria ir para casa fazer algo de útil, como estudar até entender perfeitamente bem as matérias de Matemática e Física ou decorar os nomes estranhos de Genética.
Mesmo assim, o clima no carro parecia muito mais leve que no dia anterior, o que devia significar que Leon não o odiava mais, e o tempo estava um pouco nublado, o que queria dizer que poucas pessoas estavam na rua e ele podia se distrair tentando adivinhar o destino delas enquanto passava brevemente por suas vidas, no carro, respondendo ao irmão com monossílabos para não se desconcentrar e o ouvindo suspirar antes de ficar quieto, ainda no meio do caminho.
Eles apenas voltaram a se fala na rua de casa, quando Leon parou o carro antes que estivessem no portão, o que finalmente fez o mais novo fitá-lo de fato, percebendo-o mirar a frente com o cenho um pouco franzido, embora não parecesse irritado ou frustrado.
— O que foi? — questionou, vendo-o virar um pouco para encará-lo, um sorriso pequeno lhe enfeitando os lábios.
— Aquele ali na frente de casa não é o seu amigo?
— Que amigo?! — gritou, virando para olhar, se inclinando um pouco para frente para ver melhor. Ele conseguia reconhecer o garoto de cabelos negros e roupas largas e claras, sentado em frente a seu portão, com enormes headphones vermelhos na cabeça, as pernas se movendo levemente, mesmo que estivesse sentado, como se seguindo o ritmo da música. — Meu Deus do Céu...
— Ele deve ter ficado preocupado.
— Meu Deus do Céu...
— Vai lá, vai.
— Eu não! Por que eu iria?! — Leon arqueou uma das sobrancelhas, lhe acertando um tapa no braço.
— É seu amigo. Sai do carro e vai falar com ele. Chama pra jantar com a gente.
— O que?!
— A mãe vai gostar de conhecer.
— Eu não quero que ele jante com a gente!
— Por que não? — questionou, com o cenho franzido.
— Porque... porque ele não... ele é... quero dizer... ele não... não deve estar... psicologicamente preparado para... conhecer a mãe de um amigo? — Leon o observou com desdém por alguns segundos torturantes, piscando lentamente, antes de crispar os lábios.
— Vai lá, Shey.
Ele bufou baixinho, abrindo a porta e saindo do carro com desânimo, se aproximando de casa com passos arrastados. Santini estava sentado bem em frente ao portão, remexendo-se, absorto na música, mas com uma expressão séria que Shey não estava muito acostumado a ver em seu rosto. Ele não demorou muito a olhar ao redor atentamente e notar o loiro se aproximando, imediatamente se levantando, abrindo um sorriso largo, abaixando os headphones e ajeitando a mochila nas costas.
— Oi! Espero que não te incomode eu vir aqui na sua casa. — começou, antes que Shey houvesse acabado de cobrir a distância entre eles ou tivesse a chance de abrir a boca para dizer algo.
— Não... tudo bem. — resmungou assim que estavam apropriadamente próximos, sem ter muita certeza se era sincero. — Você precisa de mim pra algo?
— Ah, não, eu só... — ele hesitou, mordendo um pouco o lábio e desviando os olhos por um mísero segundo. — Eu queria me desculpar por não ter ido atrás de você ontem...
— Você não tem obrigação nenhuma de correr atrás de mim. — Shey retrucou, incomodado, ouvindo o outro soltar uma breve risadinha sem humor.
— Sei lá. Vá saber o que podia acontecer. — replicou, sem vestígios de risada na voz, novamente sem olhá-lo.
— Eu só estava um pouco nervoso.
— Você parecia em pânico. — então tornou a sorrir, encolhendo um pouco os ombros. — Ou algo assim. Eu não estava na sua cabeça, é claro. Aqui, eu trouxe isso. — continuou, de um jeito infinitamente mais ameno, tirando a mochila das costas. — Você deixou pra trás. — explicou, lhe estendendo o objeto, que Shey pegou com um suspiro aliviado.
— Obrigado. Eu achei que tinha perdido em algum lugar. — Santini abanou com uma das mãos, tirando importância.
— Ficou lá na árvore. — explicou, como se nada. — Eu até pensei em abrir pra atender o celular, porque ele tocou bastante, mas... não sei, você parece reservado demais pra isso...
— Podia ter atendido. — respondeu simplesmente, abrindo o bolso da frente e tomando o celular nas mãos. A bateria resistia por um fio e havia 24 chamadas perdidas de Leon. Ele entendia um pouco melhor por que o irmão estava tão irritado.
— Bem, vá saber. — respondeu, mordiscando levemente o lábio. — Não é legal arrumar briga por um motivo desses com alguém com quem ter fazer amizade. Por sinal, você nem me testou pra ver se eu não tinha bisbilhotando mesmo! Podia ter soltado alguma indireta ou estar conferindo se está tudo no lugar!
— Hmmm...
— Você sabe, tipo "Gostou do meu lápis da Marvel?", ou algo assim. Não que uma tentativa amadora dessas fosse me pegar, é claro. E eu realmente espero que você não tenha um lápis da Marvel.
— Não tem nada demais na minha mochila. — Santini sorriu de leve, pondo o cabelo pra trás da orelha em uma tentativa de tirá-lo do rosto.
— Não é esse o ponto.
— Por que não? Se não tem nada que eu me importaria caso roubassem ou tem um valor alto, tirando o celular...
— São as suas coisas. Ninguém tem o direito de mexer sem a sua permissão. — interrompeu, com um meio sorriso quase irônico nos lábios, e o loiro involuntariamente corou um pouco, com a sensação de que dissera algo tremendamente errado.
— Você não está achando agora que eu reviraria a sua mochila, certo? — Santini arqueou uma das sobrancelhas, parecendo confuso.
— Hã... não?
— Eu não faria isso, tudo bem?
— Se você está dizendo, acho tenho que confiar, hn? — resmungou, cruzando os braços. — Mas se te deixar um tempo sozinho com algo meu vou me lembrar de te testar apropriadamente.
— C-certo. — ele riu um pouco, abandonando a pose e gesticulando de um jeito desdenhoso.
— Eu tô só brincando. Relaxa.
— Ah... — soltou, um pouco aliviado. Entreolharam-se por mais alguns segundos e Santini remexeu nos headphones com mãos ansiosas.
— Então, acho que eu vou indo, tá?
— Ah... certo. Tudo bem. — o outro assentiu e sorriu de leve.
— Boa noite, Shey! A gente se vê amanhã na escola. Tipo, a gente com certeza se vê. Eu vou lá na sua sala te chamar pra ir almoçar comigo.
— Tá. — respondeu apenas, desviando os olhos para o chão com um pouco de desconforto e ouvindo o moreno soltar outra breve risadinha, enquanto seus pés viravam para que pudesse dar a volta.
— Ei! — a voz de Leon chamou, quando Santini mal havia dado cinco passos, e Shey se virou, vendo o irmão não muito distante.
— Ei, irmão do Shey que eu me esqueci o nome! — o outro garoto exclamou e, quando o loiro mais novo voltou-se para olhá-lo, percebeu-o acenando discretamente com uma das mãos, com um sorriso. — Boa noite.
— Boa noite. E é Leon.
— Eu sou Santini. — retribuiu, virando-se completamente.
— Ah, eu me lembro.
— Droga, eu me sinto tão mal-educado agora. — comentou, ainda que soasse bem-humorado, o que fez Shey franzir um pouco o cenho, desentendido. — É só Leon mesmo ou é um apelido?
— Apelido de Leonard. Mas eu realmente odeio esse maldito nome, então, pelo amor de Deus, o esqueça. — Santini riu um pouco, assentindo com a cabeça.
— Nesse caso, pode me chamar de Santie.
— Por quê? Tem ódio ao próprio nome também?
— Que nada, eu adoro o meu nome. Mas se vou ficar te chamando pelo apelido, sinta-se à vontade pra fazer o mesmo. — então teve um repentino sobressalto, desviando o olhar pra Shey. — Você também pode me chamar de Santie, ok? — o loiro abaixou os olhos, um pouco incomodado com a ideia, mas mantendo-se quieto, sem saber bem como dizer isso a ele. — Ou continuar a me chamar de Santini. Você que sabe, e tal.
— Você não quer ficar pra jantar? — Leon sugeriu, ao que o irmão mais novo o olhou com agitação, esquecendo-se da questão anterior. Se ele não havia perguntado, pelos Céus, não era para que outra pessoa o fizesse. Observou Santini, engolindo em seco de leve, vendo o garoto piscar algumas vezes e deixar o olhar viajar entre os dois irmãos até abrir um pequeno sorriso, negando com a cabeça.
— Vamos deixar pra próxima.
— Quer carona, nesse caso? — o moreno abanou uma das mãos, recusando.
— Ah, não precisa. Ainda vou procurar alguma coisa pra fazer, sabe. Não estou indo pra casa agora.
— Então tá certo... Cuide-se, viu.
— Pode deixar! Ninguém se mete com gente intimidadora como eu, de qualquer forma.
— Ah, claro. Tenho certeza que pelo menos nenhum grupo praticante de canibalismo vai tentar algo contra. — Santini riu novamente, assentindo de forma enérgica.
— É assim que se vê o lado positivo da magreza, tá vendo? — brincou, puxando os headphones para colocá-los no ouvido. — Então boa noite, pra vocês dois! Até amanhã, Shey.
— Boa noite! — Leon exclamou de volta, enquanto o garoto se virava e começava a andar. Os irmãos ficaram parados por um segundo até ele estar suficientemente longe e o mais velho acertou a cabeça do mais novo com um tapa certeiro, fazendo-o soltar um resmungo de protesto. — Cabeçudo. Você tinha que ficar fazendo aquela cara óbvia de “Não te quero pro jantar”?
— Eu não estava. — resmungou de volta, puxando as chaves do bolso e caminhando em direção ao portão para abri-lo.
— Estava, sim! — o outro retrucou logo antes de voltar para o carro, parado não muito distante. Esperou o mais novo abrir o portão de garagem por completo, estacionando-o em uma das duas vagas e então saindo novamente, indo para perto dele. — Heim, mas o moleque é bem simpático, pelo menos.
— Acho que sim. — murmurou, indo até a porta, pondo a chave na fechadura e a girando, para em seguida fazer o mesmo com a maçaneta e empurrar a folha da madeira, tirando-a do caminho. Leon adentrou a casa antes dele próprio, acendendo a luz da sala e indo até o braço de um dos sofás, se sentando nele para começar a tirar os sapatos.
— É bonito, também. — continuou, enquanto Shey movia os pés para descalçar os tênis sem ter de abaixar-se.
— Acho que sim.
— Você pelo menos tem bom gosto. — brincou, e o mais novo engoliu em seco, mordicando um pouco o lábio antes de iniciar uma marcha veloz até as escadas, começando a subi-las. — Ei, vai fugir descaradamente assim mesmo?
— Vou estudar. — respondeu em um sussurrou, esperando que houvesse sido entendido, logo antes de ultrapassar o último degrau e praticamente correr para o próprio quarto, fechando a porta ao passar.
Ele jogou a mochila na cama e suspirou pesado enquanto a abria, tirando os cadernos que estavam lá dentro e os pondo em cima da bancada, pois não havia revisado o que os professores haviam passado no dia anterior e Deus bem sabia que era do tipo que precisava se esforçar para ter notas boas.
~o~
Do que ele se lembrava dos horários de almoço com seus antigos amigos, eles passavam todo o tempo falando sobre garotas, festas e esporte. De vez em quando de videogames, mas era algo mais raro: no geral estavam muito mais interessados em entrar de cabeça no que o Ensino Médio “tinha de melhor”, e precisavam decidir em que tipo de clube entrar, que tipo de imagem formar, e todas essas coisas às quais Shey não dava a mínima, mas fingira se importar. Ele já estava mantendo uma imagem, e tivera vontade de zombar da forma como aquelas pessoas acreditavam que era simples fazê-lo.
De qualquer forma, foi interessante observar, pois havia uma parte de seu manual sobre como se comportar como todos os outros em que analisara que tipo de atitude, aparência, estilo e habilidades eram necessários para alguém que queria ser popular. No fim das contas, apenas as pessoas que batiam com sua análise estavam agora no topo da cadeia alimentar escolar. Também foram as primeiras a ignorá-lo, mas isso fazia parte da atitude que esperava delas e ele estava feliz de ver uma teoria sendo confirmada.
Na mesa de Santini as coisas não giravam bem em torno de nada daquilo. Ele estava lá sentado, vez ou outra dando mordidas mínimas no sanduíche de queijo com alface que preparara pela manhã, ouvindo Daniel se queixar de suas notas em Exatas e do fato de Helena não ter ido almoçar com ele, enquanto Sarosh inventava desculpas para não ajudá-lo naquele momento e Santini tentava iniciar uma conversa descente com milhões de comentários aleatórios sobre as pessoas que passavam por eles.
Ele o ouvira falar sobre o botão “legal de dragões” do casaco de alguém, por sinal. Daniel e Sarosh até mesmo pararam de falar e olharam o amigo com estranheza, fazendo-o corar e pôr uma garfada da comida servida na escola na boca, mantendo a cabeça um pouco baixa pelo próximo minuto. Foi um pouco bonitinho, na verdade.
— Você não está comendo direito. — Santini comentou, quando já estava recuperado e o coitado do garoto mais alto desistiu de pedir e se concentrou na comida que trouxera em uma marmita, com um olhar desolado. Shey franziu o cenho, olhando para seu sanduiche, do qual já havia comido quase a metade.
— Estou, sim.
— Você parece estar quase morrendo pra engolir cada mordida, e eu vi os pedacinhos mínimos que você está tirando. — o loiro encolheu um pouco os ombros, tentando pensar no que dizer, qualquer coisa que tirasse o olhar desconfiado daquelas íris azuis.
— E como exatamente isso é problema seu, Santie? — Sarosh resmungou, fitando o amigo com incômodo, e Santini imediatamente virou o rosto para olhá-lo, parecendo chocado por um mínimo segundo, antes que começassem a se encarar de uma forma mutuamente irritada.
— Eu tenho remédios pra enjoo, caso você queira. — Daniel sugeriu, abrindo um sorriso, o que deixou Shey realmente nervoso.
— Ah, eu não...
— Ou você tá de dieta? — sugeriu, arqueando as sobrancelhas. — A Helena também vive de dieta, o que é um saco, porque eu nem posso pagar uma pipoca pra minha namorada quando a gente vai no cinema. Argh. Ah, mas eu faço um molho pra ela colocar nos sanduíches sem gosto dela. É super light também, porque a gente pesquisou juntos o que podia colocar pra não transformar em bomba calórica, se você quer saber. Quer que eu te traga um pouco amanhã? — o loiro ficou em silêncio, abaixando os olhos para o sanduiche, observando as ondinhas nas bordas da folha de alface, que escapava pelos cantos do pão.
— Não...
— Não o que?
— Não estou de dieta, nem nada.
— Sério? Então tá. Mas não é legal ficar comendo isso todo dia no almoço. Aquela nutricionista te deu maior bronca e ficou falando sobre a importância de se comer direito quando você comentou que não tomava café da manhã, né Sash? — ele falou, virando a cabeça para os outros dois, que ainda se fitavam como se desafiando um ao outro a começar uma discussão. — Que isso, gente?
— Não é nada, não. — Santini apressou-se em dizer, virando-se para Daniel com um sorriso e então se levantando, agarrando o ruivo pelo pulso e o puxando para cima. — Só vamos ali conversar rapidinho. — acrescentou, começando a andar para longe, arrastando o outro atrás de si.
— Eles são malucos, ou algo assim? — o mais alto resmungou, virando para Shey com o cenho franzido. — Que do nada.
— Desculpe. — o loiro sussurrou, mordendo o lábio de leve, sentindo a respiração sair tensa. Daniel piscou em confusão, olhando-o das mãos aos olhos em seguida.
— Pelo quê?
— Por... hã... deixa pra lá. — Daniel crispou os lábios, estranhado.
— Você é meio esquisito, cara.
— É, acho que sim... — e o outro riu, como se houvesse dito algo de engraçado, e se virou para tentar ver onde os amigos estavam indo.
Quando eles voltaram para a mesa, alguns minutos depois, pareciam ainda mais irritados, mas trataram de sorrir um pouco para Daniel, e Santini tentou ensiná-lo pelo menos um pouco de Física, em uma explicação tão ruim que Shey, que se interessara um pouco, uma vez que a matéria também lhe trazia dificuldade, apenas se sentiu mais confuso. Ele pegou Sarosh o olhando de uma forma estranhamente analítica, e se perguntou se deveria considerar isto como bom ou ruim, optando pela segunda opção.
Também tentou não se sentir mal por provavelmente estar fazendo aqueles dois brigarem. Ele não achava que havia dado muito certo, pois no dia seguinte estava tão nervoso com a ideia da cena tornar a ocorrer que tentou correr para o banheiro assim que o sinal tocou, mas por obra do destino Santini estava saindo de lá naquele exato momento e disse que o esperaria do lado de fora, quase em um tom que o desafiava a mandá-lo ir na frente.
O pior de tudo é que mesmo que houvesse sido um pouco problemático e levemente bobo, ele queria voltar. E teria querido um pouco mais caso Sarosh não continuasse o olhando analiticamente, como se estivesse tentando catalogar todos os defeitos que tinha. Mesmo que soubesse que isso de gostar de estar perto de alguém, de um grupo, era muita burrice. Não sentia como se houvesse algo que pudesse fazer, e assim uma semana e meia se passou como se fosse nada.
~o~
Aquele era um dia particularmente desagradável. Não é que havia acontecido algo de particularmente ruim (pois não havia). Ele apenas acordara sem vontade de se levantar da cama, comer ou respirar, e exigira todo o seu esforço deixar as cobertas. Pudera sentir cada passo que deu enquanto ia do quarto ao banheiro, do banheiro ao quarto e do quarto à porta de saída, arrastando-se e deixando a casa sem tomar café da manhã ou fazer uma marmita ou sanduiche para o almoço, pois não havia mesmo ninguém em casa para repreendê-lo por isso.
Chegar à escola foi um calvário, como ele achou que seria, com a vontade de simplesmente se sentar em algum ponto do chão e esperar a energia de seu corpo voltar ou retornar para casa e se enrolar nas cobertas, ficar silencioso e imóvel por todo dia, se fazendo presente a cada mísero centímetro avançado. Mas ele chegou, e passou pelos corredores fazendo o seu máximo para ignorar a sensação de que todos estavam virando a cabeça para vê-lo caminhar.
Ele se sentou em seu lugar habitual e pôs a cabeça entre as mãos, trêmulo, quando todos procuraram não se sentar perto dele, como todos os dias faziam, porque daquela vez, naquele dia, isso estava o deixando com vontade de gritar e empurrar as malditas cadeiras ao chão, e chutá-las e gritar mais e ferir todos aqueles que haviam encarado a ele e aos lugares vagos naquele dia antes de torcer os lábios ou modificar a expressão e se afastar.
Assim sendo, pode-se dizer que não estava muito animado com a ideia de ir para o refeitório no horário de almoço.
(Na verdade, o simples pensamento quase o levou a um ataque ansioso regado a choro histérico no meio da aula de Química Orgânica, e ele teve de se lembrar das consultas com a psicóloga, que por sinal deveria conversar com a mãe sobre voltar a ver, e das dicas sobre se concentrar em coisas diferentes, coisas reais, que estivessem a sua frente, além dos exercícios de respiração. Ele achou que alguém devia ter zombado, rido ou comentado algo, mas por sorte havia uma pressão estranha em seus ouvidos que o impediu de compreender muita coisa.)
Quando todos foram embora, ele se sentou no cantinho da sala, longe de tudo, com o caderno de desenhos, o qual nunca se esquecia de levar, nas mãos, junto a um lápis, duas canetas, uma borracha e um apontador. Pôs os fones de ouvido e selecionou um dos álbuns do Lacrimosa, pondo no modo aleatório e largando o celular de lado. Então começou sua distração, primeiro desenhando um botão de rosa simples com cabo desfolhado e depois arrancando a folha, encaixando-a debaixo da seguinte, pondo atenção ao que fazia enquanto dividia todos os espaços do papel em figuras geométricas pequenas e variadas.
Foi quando estava começando a pintar as figuras que organizara de jeito a formar o botão da outra folha que o canto de seus olhos captaram alguém se aproximando. Ele não se virou para olhar, não querendo parar o que fazia, mas conhecia aqueles tênis cinza com prateado, as calças largas e o jeito de andar que o canto de seus olhos notaram. Apenas continuou focado enquanto Santini se sentava ao seu lado, permanecendo anormalmente quieto.
Após alguns poucos minutos, de acordo com a música que escutava em seus fones de ouvido, que pareceram longos demais, fitou-o de soslaio, com os olhos estreitados, já temendo haver se confundindo, apenas para encontrá-lo calmamente comendo um enorme pão recheado e tomando goles de sua latinha de refrigerante, sem sequer olhá-lo, com os headphones vermelhos na cabeça.
Ele abaixou os joelhos que erguera para ter bom acesso ao caderno, encarando o garoto ao seu lado de forma insistente, ainda estrado, procurando sinais de que aquele não era Santini, a sua paixão ridícula, e sim... algum outro alguém qualquer, até que ele se virasse e permitisse que olhasse bem naqueles olhos azuis, eliminando suas dúvidas.
— Oi. — ele mais leu-lhe os lábios, que abriam um sorriso pequeno, que ouviu, abaixando o volume da música para evitar confusões.
— O que você está fazendo aqui? — questionou, com desanimo.
— Vim te procurar, é claro. — ele estreitou os olhos, tornando a observá-lo com atenção, largando a caneta vermelha que até então segurava. — Porque, sei lá, eu achei ter te visto na hora da entrada...
— Hmmm...
— Aí eu achei que se sentasse aqui e ficasse na minha não tinha problema, e que se tivesse eu ia ser capaz de notar e... eu tava atrapalhando, né? Vou embora.
— Não... — sussurrou quase que timidamente, quando o outro já começava a se levantar, fazendo-o parar imediatamente e sorrir mais largamente, voltando a sentar-se e dando uma mordida no pão. Shey desviou os olhos, remexendo as mãos com nervosismo, sem ter certeza de porque havia aberto a boca.
— Você já comeu? — o moreno indagou assim que engoliu, em um tom que não soava como o descontraído costumeiro, embora também não fosse completamente tenso.
— Por que você veio? — ele perguntou, tão baixo que achou que Santini não o compreenderia, ouvindo-o soltar um resmungo confuso.
— Porque... achei que tinha te visto na hora da entrada e—
— Não, não isso... — interrompeu, olhando-o com estranheza.
— Ah... — ele franziu as sobrancelhas por um segundo, antes de seu rosto se iluminar em uma expressão de entendimento. — Aaaaaah, você sabe, por um monte de motivos. Porque eu achei que você podia estar mal, porque é isso que os amigos fazem e, hm, porque eu já estive mal também e eu sempre quis muito que quando estivesse tentando não dar crise alguém parasse do meu lado e ficasse ali quietinho e... não sei, cara. Eu só achei que podia ser esse alguém pra você...?
Ah, Shey queria beijá-lo. Aquele tipo de vontade que ele não conseguia negar a si mesmo que sentia, como comer bolo de creme em seus raros momentos de fome ou comprar um livro novo de uma de suas coleções favoritas. Seus olhos se grudaram no movimento dos lábios do outro por alguns segundos antes que notasse o que fazia e olhasse para outro lado. Queria beijá-lo. E isso o fazia sentir tão mal.
— Bem, eu não sei se você estava ou não tentando não dar crise, mas... — ele parou quando o loiro fungou baixinho, apenas para garantir que não choraria, pois os olhos pinicavam de leve, bem leve mesmo. — Uh... quer falar sobre isso?
— Não tem um motivo, nem nada...
— Não tem problema. Acontece, de vez em quando. — ele ficou em silêncio por um segundo antes de acrescentar em uma voz carinhosa: — Vai passar.
— Não, não vai.
— Vai. — e sorriu bem minimamente, empurrando seu braço suavemente. —Eu não faço a menor ideia de quando, mas um dia tem que passar. — eles ficaram em silêncio por alguns poucos segundos, enquanto o loiro continha a vontade de negar com a cabeça, pois sabia que sempre seria um estorvo para alguém, fazia parte de sua composição, era um dos caráteres imutáveis de sua personalidade, era o seu destino, e enquanto assim fosse, o que seria para sempre, não poderia ser feliz de verdade. Era só parte de quem ele era.
Depois disso, ele simplesmente não queria mais pronunciar uma palavra, então ergueu os joelhos e apoiou o caderno neles, recuperando a caneta e voltando a pintar as figuras, percebendo-o recolocar os headphones nas orelhas e continuar a comer sem olhá-lo. Não chegou a terminar antes do sinal tocar, e Santini o ajudou a levantar antes de sair da sala. Ele também surgiu em seu caminho quando estava indo embora, sem Sarosh desta vez, e quase não trocaram nenhuma palavra depois dos cumprimentos padrão.
Santini abaixou os olhos antes de lhe dar um abraço assim que pararam no portão de sua casa, afastando-se com lentidão e se despedindo em uma voz amena, começando a voltar pelo caminho que viera antes que o loiro deixasse a rua.
Shey ainda não sabia bem o porquê, mas chorou todas as três vezes que aleatoriamente se lembrou do momento, naquele dia.
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