Notas iniciais
A música do título é do Florence + The Machine.

Santini se remexeu inquietamente no tapete felpudo no qual se deitara, soltando resmungos ranzinzas e olhando o teto com fastígio. Ele ouviu Sarosh rir, em algum lugar próximo, e lhe chutar a perna esquerda de leve, mas não se deu ao trabalho de sair de sua posição para saber o que estava acontecendo, apenas continuando jogado ali, mergulhado em um mau-humor atípico.

Ele ouviu seu Whatsapp avisar que uma nova mensagem chegara e esticou o braço para pegar o celular, fazendo a sequencia de toques em lugares específicos na tela para desbloquear e indo até o chat, vendo que recebera uma mensagem de Aloá, que lhe contava que finalmente havia começado Ardil 22, e que estava adorando, até então.

Ele sorriu um pouco, digitando algo sobre o livro ir ficando cada vez melhor e que poderiam ver os filmes inspirados nele, depois. Ela lhe perguntou como estava indo com Os Miseráveis, e ele respondeu que estava chegando pela metade, recebendo uma risada em troca, pois, de fato, estava demorando um pouco. Já fazia quase três semanas desde o aniversário de Shey, e as tempestades de neve vinham se tornando cada vez mais espaçadas, o que significava que o inverno estava indo embora, e logo teria de parar de brincar na neve com Amora e aquela amiguinha dela (Namie, se bem se lembrava) e virar um “jovem adulto” novamente.

Maldita adolescência.

— Vai, levanta daí e vem me ajudar logo. — Sarosh exigiu, não deixando escolha ao moreno que não se apoiar nos cotovelos, bufando, e pegar impulso para se pôr sentado.

Ele se arrastou para mais perto da mesinha de centro, onde estavam dois laptops, o que o ruivinho utilizava, virado em sua direção, e o outro no qual ele começara a pesquisa sobre pirâmides e mastabas (as coisas usadas como sepulturas antes das pirâmides e, não, ele não fazia ideia do que era aquilo quando apontou para o tema no quadro e escolheu, durante a aula de História), pois a professora decidira que fariam uma “revista” sobre o Egito Antigo, e dividira a turma em duplas, com cada uma abrangendo um assunto diferente.

Ele e Sarosh haviam ficado com “sepulturas”, e o ruivo até então não havia o perdoado por ter escolhido “aquela merda” no lugar de “guerras”. O pior de tudo é que, como pessoa inútil para se escrever que era, Santini não tinha escolha se não encarar todo o processo de pesquisa e entregar tudo mastigadinho para que o amigo fizesse o artigo.

Além disso, eles também tinham um trabalho de estatística, no qual tinham de fazer pesquisas sobre o percentual de aceitação de duas coisas que poderiam escolher por conta própria, um trabalho de Biologia sobre daltonismo e mais dois trabalhos individuais, um a releitura de uma obra de arte, que todos os segundo anos estavam de fazer e iam ser expostos nos corredores, o que ele achava completamente desnecessário, e o outro em que tinham de recontar um conto sorteado de forma que ele ficasse adequado para crianças, para Redação.

Ele havia ficado com A Máscara da Morte Rubra, de Edgar Allan Poe.

Como diabos esperavam que deixasse aquilo infantil e bonitinho?

Ele tinha esperanças de trocar com Daniel, para que o amigo fizesse aquilo e ele passasse as suas pesquisas de estatística para percentuais, já que ele acabara fazendo dupla com um garoto babaca do clube de teatro que não devia saber fazer conta direito, então havia uma esperança. Ou ao menos era isso que estava tentando dizer a si mesmo. A possibilidade de ficar com um lindo e redondo zero nunca devia ser subestimada.

— Você não está pesquisando. — Sarosh murmurou, fazendo o moreno abandonar seus pensamentos e virar para encará-lo, involuntariamente assumindo uma expressão de fastígio.

— Estava pensando em Máscara da Morte Rubra.

— Transforme morte em catapora.

— Isso é meio tosco.

— Contos infantis costumam ser toscos mesmo, na minha opinião. — o ruivo retrucou, dando de ombros, e Santini riu, assentindo.

— Sobre o que a gente vai fazer a coisa das pesquisas, aliás? — Sarosh umedeceu os lábios antes de responder, franzindo o cenho de forma pensativa.

— Nós supostamente podemos fazer qualquer coisa, o que torna mais difícil, não? — resmungou, voltando a digitar algo e continuando a falar sem olhar para o amigo. — Você tem alguma ideia?

— Não sei, eu queria fazer algo como sair perguntando pra todo mundo pela escola se tem o costume de ler por lazer, ou algo assim.

— Isso pode servir, eu acho. Também podíamos perguntar algo sobre meio-ambiente, não sei. Em quais casas as pessoas tem o costume de separar o lixo, algo assim.

— É, acho que sim...

— Mas a gente ainda tem dois meses pra fazer isso, por enquanto vamos só continuar com o trabalho de História que temos pouco tempo.

— Urgh! — o ruivo revirou os olhos, em seguida lhe encarando com desdém.

— Foi você que escolheu o tema.

— Urgh!

Sarosh riu, negando com a cabeça, e voltou-se para a tela do laptop, continuando a fazer algo que Santini não tinha ideia do que era, mas parecia importante. Ele realmente esperava que fizesse parte de algum trabalho. Desta vez, embora não houvesse parado de se remexer e bufar e levantasse o tempo todo para beber água, só parou de fato a pesquisa quando a mãe de Sarosh, uma mulher baixinha que já fora ruiva natural e agora pintava o cabelo do tom mais próximo possível do que tinha antes, a fim de esconder os fios brancos, chegou com uma caixa de pizza e uma garrafa de refrigerante.

Ele e Sarosh soltaram milhões de indiretas sobre o trabalho estar atrasado, enquanto Violet Uhlish, uma mãe solteira ocupada até a alma, com o laptop aberto sobre a mesa de jantar, terminava de arrumar uma planilha no Excel com uma mão e comia com a outra, até que ela o convidou em um tom vago para dormir ali. Santini agradeceu repetidamente, até que a mulher acabasse rindo e o mandasse parar de mexer os pés debaixo da mesa, porque estava roçando na canela dela e a deixando com calafrios.

~o~

— Isso aqui não tá infantil, cara. — Daniel resmungou, olhando-o por cima do caderno de forma cética.

— Ah, vai, eu minimizei taaanto as coisas! — Santini retrucou, aflito, mordendo o lábio inferior e fitando o amigo como se ele pudesse retirar o clima dramático do conto.

— Você me pediu pra ser sincero. E não tá infantil. — ele reafirmou, encolhendo os ombros, e o moreno mais baixo soltou um resmungo exasperado, cruzando os braços sobre a mesa e enterrando a cabeça neles.

— Eu disse pra ele pra trocar morte por qualquer coisa aleatória. — Sarosh se meteu, com um tom cansado. — Mas ele disse que é tosco.

— Você sugeriu catapora!

— Caralho, Sash. Isso é tosco. — concordou Daniel, e Santini levantou o rosto, vitorioso, vendo o mais alto negar com a cabeça e fechar o caderno, empurrando-o de volta para ele. — Mas você vai ter que continuar procurando um jeito de ajeitar essa coisa.

— Eu sei! — ele murmurou, sofregamente. — Embora ache muito injusto! O que você pegou?

— O Enterro, de Lord Bryon, mas estou indo bem. Já conhecia o conto tinha um tempinho. Estou transformando tudo em uma coisa de príncipes e princesas.

— Rato de biblioteca. — resmungou, fingindo desprezo, e Daniel sorriu, fazendo um gesto amplo ao redor, para o quarto cheio de livros, com a estante lotada e nichos de madeira pendurados aqui e ali para permitir que ele não precisasse se livrar de nada.

— Rato de biblioteca? Eu? Imagina. — brincou, fazendo o de olhos azuis rir baixinho, e deu de ombros, se inclinando um pouco para ver o que Sarosh fazia no laptop, no qual mexia, movendo o mouse o tempo todo, já fazia mais de vinte minutos. — Ah, isso tá ficando foda.

— Valeu.

— Deixa eu ver? — Santini pediu, esticando o pescoço para tentar se adiantar enquanto o ruivo virava a tela para ele, mostrando a releitura de um quadro surrealista de Vladimir Kush, feito no photoshop, com as fotos que o próprio ruivo tirara do céu nublado, a cestinha do balão feita de fósforos e as nuvens que ele pusera de um tom mais azulado, provavelmente no próprio editor de imagem, formando o balão em si. — É, ficou ótimo.

— Como está indo a releitura de vocês, aliás? — os dois morenos se entreolharam, sem saber exatamente o que responder, e então Santini sorriu largamente, puxando o caderno para mais perto e o abrindo na página em uma de suas páginas cheias de rabiscos feios.

— Tá indo. — respondeu, embora sequer houvesse escolhido a obra ainda.

— É mesmo? — Sarosh murmurou, em um tom cínico, e Santini sequer precisava olhar para vê-lo arqueando a sobrancelha. — E qual é o nome do quadro?

— Ah, você sabe... eu não tenho uma memória muito boa pra essas coisas...

— Como ele é, então?

— É aquele do impressionismo, que tem, hã, mato... e... nuvens... e... coisas do tipo... arbustos... — ele levantou um pouco os olhos, mordendo o canto do lábio bem de leve e vendo Sarosh encará-lo com olhos céticos.

— E você vai fazer a releitura com o que?

— Com açúcar.

O ruivo finalmente riu, tampando os olhos com uma das mãos e tentando conter as risadas, que escapavam levemente anasaladas, e Santini acabou o acompanhando, fechando os olhos com força e sentindo as orelhas queimarem.

— Eu gostei da ideia, na verdade. — Daniel comentou, e deu de ombros displicentemente quando Santini ergueu os olhos para ele. — Dá pra fazer com corante. Tenho até um quadro em mente. Pode dar certo.

— Pra você, talvez. — ele concordou, e sorriu de lado, indicando a si mesmo com o dedo. — Mas eu não tenho coordenação motora pra isso mesmo.

— Ah, não pode ser tão difícil assim...

— Pra você que ajudou a tua mãe confeiteira quando era pequeno. Eu só ia conseguir espalhar açúcar pra todo lado, mesmo.

— Ah, não pode ser tão ruim assim. Você sabe cozinhar, não sabe?

— Quem diabos te disse isso? Eu sei... fazer ovos mexidos. E ênfase no mexidos, porque eu não sei fazer ovo frito. Sei fritar bacon... fazer torrada... carne de hambúrguer, daquelas que já vem prontas, lógico, e você fica virando na frigideira. Hã...

— Miojo. — Sarosh acrescentou, assentindo com a cabeça.

— É, miojo. Isso é importante.

— Gelo.

— Gelo, é, lógico. Suco. Água quente. Cappuccino. Café não

— É, seu café é uma merda.

— Ah! Chá. O meu chá é bom.

— É verdade. — o ruivo concordou, assentindo com a cabeça enfaticamente, e Daniel riu, embora até um segundo atrás estivesse com o cenho franzido.

— Mas você sabe, certo, Sash?

— Eu sei picar coisas. — o garoto mais baixo respondeu, encolhendo os ombros. — Aí a gente pica legumes pra jogar no miojo, né, Santie?

— É, aí fica uma merda, e uma vez a mãe do Sash descobriu e agora eu não posso mais entrar na cozinha dela.

O ruivo riu, virando o rosto para o outro lado, provavelmente se lembrando da expressão completamente vermelha e enfezada de dona Violet quando ela os encontrou comendo legumes duros junto com miojo muito cozido, e Santini acabou o acompanhando, abaixando a cabeça.

— Eu jurava que um de vocês sabia cozinhar. Tipo, as duas vezes que eu fui na casa do Sash e só estavam vocês tinha comida, e era boa... e parecia caseira, pra mim.

— Santie trás de casa.

— Eu tô tão decepcionado. — ele murmurou, com o cenho franzido. — Tipo, sério, gente. Vocês precisam dar um jeito nisso.

— Nha, depois. — Santini resmungou.

— Um dia. — Sarosh completou, em um tom vago.

— Talvez.

— Quem sabe?

— Ainda temos tanta vida pela frente.

— Tanto miojo pra fazer.

— Vocês têm problemas. — Daniel soltou, com um riso preso na voz.

— O Shey sabe fazer chocolate quente. — Santini comentou vagamente, sem saber ao certo porque estava falando aquilo. — É bom. Eu não sei fazer chocolate quente direito. Fica todo esquisito. Se bem que eu não sou comparação pra isso, porque não sei nem esquentar comida direito sem queimar e tenho que fazer isso no micro-ondas, e acho que ele sabe, porque não tinha micro-ondas na casa dele. Acho que sabe fazer café, também. Ele comentou algo assim.

And that was the Shey trivia for tonight. — Daniel soltou, no mesmo tom e jeito de falar do narrador de Catherine. — Eu nunca consigo ver isso chegando! — zombou, fazendo Santini sentir o rosto esquentar um pouco.

— Foi mal.

— Ah, eu tava só zoando. Nada supera a sua descrição detalhada do quarto dele. Até porque você repetiu umas cinco vezes. — ele sentiu-se corar de novo, remexendo-se inquieto.

É que havia adorado o quarto do loiro, à exceção do cheiro de xarope que, àquela altura, já devia ter mais que saído. Ele gostara da colcha quadriculada em branco e cinza, que do lado avesso era negra, e do travesseiro, que ele apertara quando Shey estava no banho e o irmão dele já havia saído do quarto, só para saber se era confortável, e descobriu ser daqueles com espuma que começam a voltar ao formato inicial assim que você deixa de exercer pressão.

Ele havia gostado da estante de livros, toda organizada por cores, em uma sequencia que ele notou após algum tempo (duas lombadas predominantemente de cores frias ou neutras, uma de cor quente, e ele não achava que era coincidência, como Daniel insistia em dizer, porque organizar as coisas assim era simplesmente a cara de Shey), gostara da escrivaninha toda bem ordenada, e de como tudo estava absolutamente no lugar dentro do armário de Shey quando ele abriu a porta para pegar roupas (e, sim, ele estava olhando, apenas por curiosidade).

A parte mais legal era que, de alguma forma, o quarto todo exalava a Shey Völkers; ali estava o quadro com o nome e os horários dos remédios que ele tinha de tomar (e para isso Santini fez questão de não olhar muito, pois não queria acidentalmente gravar os nomes e, em um ato de curiosidade, ver na internet para que serviam), ali estavam seus livros preferidos, sua própria forma de organizar coisas e aquela mania que ele parecia ter de querer deixar tudo em ordem. Shey estava em cada cantinho daquele quarto, assim com Daniel estava em todo cantinho do seu, e Sarosh do dele.

E, bem, ele ficara tão absurdamente calmo enquanto estava lá. Tinha uma simpatia natural por qualquer coisa que o fizesse ficar calmo e não o matasse ou viciasse no processo.

Chuveiros a gás e uma boa noite de sono numa cama quentinha e confortável, com um monte de travesseiros e cheirando a amaciante, ainda eram seus itens favoritos em todo o mundo, mas ele achava que podia deixar o quarto de Shey em terceiro ou quarto lugar, numa boa. Perguntou-se se quando Shey fosse adulto e fosse morar sozinho a casa toda dele transmitiria aquelas mesmas sensações. Isso sim seria maravilhoso.

(Se bem que ficara indizivelmente nervoso quando Leon chegara em casa, embora até o presente momento não pudesse explicar por que. Algo em sua mente dizia “pule a janela, pule a janela!”, e ele sentira os pés coçarem, pedindo para que começasse a correr. Esperava que houvesse sido educado. Ele se lembrava vagamente de uma ou duas coisas da conversa que tivera com Leon, com a cabeça viajando por detalhes do ambiente, em uma tentativa desesperada de fazê-lo parecer gente. Mas não era como se pudesse culpar o quarto por isso.)

Ele viu Daniel e Sarosh continuarem uma conversa, abaixando os olhos para seu caderno e abrindo-o na página em que estava sua tentativa de transformar A Máscara da Morte Rubra em conto infantil. Ele fingiu analisar o que estava escrito, procurando por falhas, por alguns minutos, com a voz dos amigos entrando e saindo por seus ouvidos sem que entendesse uma palavra do que eles diziam, até levantar, com um gemido de fastígio, e dizer que ia pegar um ar do lado de fora.

Sacou o celular após se sentar na varanda da casa, olhando para a rua. Niall havia lhe mandado uma mensagem pelo Whatsapp, perguntando se ele iria passar a noite na casa dele, já que era sexta-feira, e ele digitou uma confirmação, perguntando se ele não queria ir buscá-lo ali, na casa de Daniel, pois já eram quase seis da tarde, mesmo, então que diferença fazia?

Ele abriu então a área de mensagens do celular, observando a última que enviara, cerca de três dias atrás, para Shey (porque ele era a única pessoa com a qual ele conversava por SMS, fosse como fosse), pensando se devia abrir aquilo e perguntar alguma coisa aleatória, apenas para dar inicio a uma conversa qualquer. Digitou um “Hey, Shey! Qual seu personagem favorito de Os Miseráveis? =3” com dedos apressados.

Niall respondeu poucos segundos depois que iria passar ali, sim, umas sete da noite, e Santini se levantou, pensando que deveria ir avisar a Daniel antes de passar o endereço, decidido a não esperar uma resposta de Shey, pois algumas vezes ele chegava a demorar um dia inteiro para dignar-se a checar o celular. Mesmo assim, quase uma hora depois, quando Niall parou o carro na frente da casa e ele pulou o portão, arrancando uma risada do universitário, checou se havia SMS novas enquanto terminava de pôr o cinto de segurança.

Fechou os olhos, grudando as costas no assento, pois não gostava muito de carros, e embora a sensação fosse fácil de ignorar no banco de trás, quando estava no do carona sua cabeça girava ao olhar à frente, para a rua pela qual iam avançando, e ele quase tinha pequenos ataques cardíacos toda vez que o carro freava e que passavam perto de pessoas ou de outros carros. Ele teve um sobressalto quando o celular avisou de uma nova mensagem e pegou-o apressadamente nas mãos, ansioso por uma resposta de Shey e se deparando com Helena lhe pedindo para calcular a área de um trapézio.

Ele suspirou, inclinando-se um pouco, para não ver a rua, enquanto respondia, e mudando o toque do Whatsapp para um diferente do das mensagens porque, sinceramente. Ele repentinamente ergueu a cabeça, encarando Niall com o cenho franzido, quando pararam em um sinal vermelho.

— Que foi? — o universitário questionou, arqueando uma sobrancelha em sua direção, parecendo divertido.

— Eu sou estranho.

— Eu sei. Mas o que foi?

— Não, eu acabei de realizar que tava fazendo algo estranho.

— Ah. Então para de me encarar como se fosse culpa minha, caramba.

Ele riu, assentindo e se inclinando para trocar um beijo rápido com o outro, estalando seus lábios nos alheios quando se separaram e fechando os olhos novamente, enquanto se recostava no assento, pois a luz do semáforo voltara a brilhar verde.

Por que exatamente ele havia se preocupado em diferenciar o toque das mensagens de Shey, mesmo?

~o~

A melhor parte de estar especificamente com Niall é que ele deixava Santini absurdamente confortável naquela casa. E não é que o sexo fosse ruim ou a coisa toda de não ter um compromisso não fosse legal, mas ele já havia tido coisas parecidas que eram igualmente deleitosas e divertidas, então não era algo realmente de Niall. Ele até mesmo tivera Jamie, aquele ruivo artificial babaca que começara a gritar com ele quando recusou o tal do pedido de namoro.

Bem, mas voltando.

Ele gostava do fato de Niall lhe deixar escolher o vinho, mesmo que não entendesse porcaria nenhuma do assunto, gostava de poder fuxicar os DVDs e poder cruzar as pernas na cadeira enquanto eles comiam. E, é claro, principalmente do fato de que estava sempre livre para tomar longos banhos naquela ducha a gás com a qual ele se casaria.

Ele saiu feliz do banheiro, passando a toalha pelos cabelos molhados, sentindo a pele se arrepiar pela mudança de temperatura do banheiro cheio de vapor para o quarto, que embora estivesse com o aquecedor ligado não devia estar configurado para mais que 16ºC. Pegara uma camisa emprestado com Daniel, pois ele e Niall tentavam ao máximo não trocar coisas entre si (não era este o tipo de relação que queriam ter), e gostou da sensação da blusa daquele garoto alto, mais alto até que o dono daquela casa, larga e extremamente confortável em seu corpo.

Ele tinha de se lembrar de não sujar aquilo. E talvez de comprar uma daquele tamanho para dormir, porque era tão bom, e às vezes ele tinha que pôr a de Cough Syrup para lavar.

Começou a caminhar até a cozinha abotoando a calça jeans, encontrando Niall de costas na pia, com o barulho de algo sendo frito preenchendo todo o cômodo. Ele foi para mais perto, inspirando profundamente, e puxou a banqueta para o meio da cozinha, percebendo o universitário virar o rosto para vê-lo e abrir um sorriso antes de voltar a encarar o fogão e virar a carne de hambúrguer na frigideira.

— Foi rápido, dessa vez. — ele comentou, naquele seu típico tom descontraído. — Que aconteceu? Quente demais pra você?

— Ah, tava uma delícia, eu me casaria com o seu chuveiro. — Niall riu um pouco, assentindo. — Mas tava com fome. Quando eu saí o Daniel tava começando a fazer a janta e eu fiquei pensando em como ia ficar, então já entrei no seu carro com um pouquinho de fome. Mas ainda é cedo, né? Eu costumo vir aqui mais tarde e você na maior parte das vezes não tinha comido ainda.

— É que eu tive uma merda de seminário pra apresentar hoje e fiquei de madrugada acordado ontem. Tô com um puta sono, agora. E tô meio cansado. A gente pode apressar as coisas pra eu poder dormir logo, certo?

— Ah, claro. Por mim. Eu adoro dormir. — respondeu, dando de ombros. Ele quis perguntar como havia sido no seminário, em nome de sua curiosidade e do fato de que tentava se aproximar das pessoas ao menos um pouco quase que o tempo inteiro, mas conteve-se, sabendo que simplesmente não era esse tipo de relacionamento que eles tinham.

Eles não conversavam sobre estresses do dia a dia ou problemas com outras pessoas. Falavam sobre programas bobos de TV e música, e mencionavam experiências pessoas apenas quando era algo engraçado. E isso era ótimo. Queria dizer que nunca seria questionado sobre porque fechava os olhos no carro, ou porque algumas vezes tinha machucadinhos nos cantos dos lábios, ou o que dizia aos pais para poder passar a noite fora com tanta frequência. Para pessoas como Jamie ele tinha que mentir com muito mais frequência, e não é que isso realmente o incomodasse, mas também não o fazia feliz.

Ele desceu da banqueta, colocando-a no lugar, quando Niall pôs as carnes de hambúrguer em um prato e desligou o fogão. Tratou de pôr um quantidade aceitável da salada de batata, porque adorava batata, mas não estava na casa da avó ou de Daniel pra pegar quanto quisesse, e tanto ele quanto o dono da casa puseram os pratos na bancada da cozinha. Abriu a adega, puxando uma das garrafas que já estavam abertas e pondo-a na bancada também, sentando-se na banqueta e vendo Niall, que já mastigava, virar a garrafa para poder ver o rótulo.

— É muito caro? — ele perguntou, pois era algo que sempre fazia, porque realmente não entendi de vinhos, mas o universitário apenas deu de ombros.

— Até que não. — respondeu assim que engoliu, servindo o vinho nas taças e tomando um pequeno gole antes de voltar para a comida. — Mas você tem algum tipo de cisma com esse, porque é o que mais escolhe.

— Nha, eu pego o primeiro que eu vejo, mesmo. É você que tem cisma, porque eu só pego os que estão abertos e se esse tá quase sempre aberto, então... — o mais velho riu de novo, encolhendo os ombros.

— Eu não disse que você estava escolhendo mal, disse? — brincou, e Santini sorriu, raspou os dentes no lábio inferior e então preparou uma garfada com salada de batata e carne, levando à boca com satisfação. Céus, por que comer tinha que ser tão bom? — Ei, vai ter especial de Buffy amanhã de manhã. — o universitário informou repentinamente, virando para ele, com o garfo que já estava levando aos lábios voltando para o prato. — Sabe? Buffy, a Caça Vampiros. Você gosta? — ele engoliu a comida apenas meio-mastigada em prol de apressar a resposta.

— Nunca vi.

— Seu inculto. — Niall zombou, abrindo um sorriso de lado. — Se a sua mãe não te ligar pra te manda ir pra casa fica aí pra ver. Tem maior tempão que eu não vejo Buffy, e assistir séries sozinho é meio chato.

— Ok. Vai ser legal. — ele concordou, sorrindo empolgado e tomando seu primeiro gole de vinho da noite, sentindo o gosto forte pairar na língua.

~o~

Supostamente, você pode deixar de se pegar com alguém a qualquer momento. É dizer, não é como se fosse certo, saudável ou divertido se sentir obrigado a continuar algo que está lhe incomodando, certo? Até no BDSM existiam safe-words, e isso tudo era ótimo e muito certo.

Apenas existiam algumas situações nas quais você seria meio cretino se o fizesse. Como quando já estava jogado na cama com alguém, já insinuara a mão por dentro da calça alheia e está com seus próprios jeans desabotoados e sem camisa, quando as respirações já estavam um pouco mais arfantes e já fizera questão de arrastar as unhas na lateral do corpo de alguém enquanto subia a camisa, e essa pessoa estava mordiscando o seu pescoço.

Santini tinha uma vaga noção do quão absolutamente inoportuno e cretino e broxante ele estava sendo quando empurrou Niall pelos ombros até conseguir afastá-lo e sentou na cama, ofegante e com os olhos arregalados fitando o nada. Ele também fazia uma vaga ideia da expressão dividida entre confusão e frustração do outro, e, honestamente, ele próprio ainda estava bastante excitado e se estapeando mentalmente, porque estava indo tão bem.

É só que ele havia imaginado como seria sentir cachos loiros e um pouco rebeldes batendo em seu rosto, e como seria ter aqueles lábios que não falavam muito lhe beijando suavemente no pescoço, porque é claro que Niall estava lhe mordiscando, mas ele achava que Shey... ah, não, não, não, ele não estava fazendo isso, ele não estava pensando isso, ele não estava criando argumentos para sua própria imaginação delirante e... não, não...

Quando diabos isso havia acontecido?

— Que porra tá acontecendo? — ele ouviu Niall questionar, em uma voz irritada, e tratou de focar em seu rosto, com os olhos ainda tentando alcançar o tamanho de pratos.

É dizer, ele não estava pensando dessa forma até recentemente, certo?

— Eu não tenho certeza... — ofegou, vendo o universitário franzir ainda mais o cenho.

Por que exatamente ele estava fazendo aquilo consigo mesmo?

— O que? Eu tenho certeza de que não te machuquei!

É dizer, ele sabia que não seria correspondido, e se fosse como daquela última vez em que se apaixonara, aos doze ou treze anos, sabia também o tempo que demorava pra superar a coisa toda.

— Não, não... eu só...

O que Shey pensaria se— ah, droga, ele não estava pensando em nada daquilo quando começara a tentar enturmá-lo, ele jurava que não estava!

— Desculpa, eu não acho que eu queria, agora, você sabe, eu não acho que eu consigo, eu não sei porque, é só que, hã, eu realmente não sei, eu tava numa boa e aí de repente. Caralho, eu sou tão imbecil. Desculpa. — parou para respirar fundo e então mordeu o lábio com força, sentindo as serrinhas dos dentes aos poucos começaram a furar a carne.

Ah, certo. Estava entrando em pânico.

— Tá, tanto faz, eu te desculpo, só para com essa porra. — Niall pediu, com uma expressão perturbada tomando conta de seu rosto.

— Com o que?

— Tem sangue na sua cara. — ele resmungou, se inclinando para agarrar o queixo de Santini com dedos um pouco brutos e franzindo o cenho ainda mais ao ver melhor o mais recente machucado. — É você que faz essas coisas? Eu pensei que... Cacete. Você é maluco.

— Ok. É, eu sou. Desculpa. — o mais jovem se pronunciou, afastando a mão alheia de seu rosto e pulando para fora da cama, segurando a calça antes que ela caísse. — Eu posso ir tomar outro banho? Depois eu vou embora. Desculpa. — pediu, atropelando as palavras. Niall lhe encarou com estranheza antes de dar de ombros. — Obrigado, sério. — sussurrou, já começando a correr para o banheiro.

— Tá... — ouviu o outro soltar, em um tom incerto e espantado, e fechou a porta, passando a tranca por mais que nem sequer tivesse realmente o direito de fazê-lo, pois não estava em casa.

Ele tratou de arrancar a calça e a cueca boxer o mais rápido que pôde e ligou a ducha, fechando a porta de vidro e se sentando no chão do box, tratando de deixar a cabeça na direção do jato d’água. Passou a mão pelo pescoço, mais ou menos onde se lembrava da sensação dos dentes de Niall em sua pele, e suspirou profundamente, atraindo os joelhos para mais perto do peito e apoiando o queixo neles, tentando não se morder, porque tinha certeza de que Sarosh ficaria lhe aporrinhando quando visse as pequenas marcas que já devia ter feito, e quanto mais fossem, mais longas seriam as reclamações.

Quarenta minutos depois, quando já havia se levantado, efetivamente se lavado, retirado a água do corpo com a toalha e posto a calça jeans, que agarrava um pouco em suas pernas úmidas, ele não sabia explicar porque ficara tão nervoso e porque fizera tanto drama assim quanto a tudo aquilo, embora ainda pudesse ver o quanto não ia dar em nada e o quão absolutamente ferrado estava.

Ele esfregou energicamente a toalha pelos cabelos molhados, certo de que àquela altura aquele amontoado de fios que supostamente eram lisos já devia estar parecendo uma juba, e, acostumado com a própria instabilidade o suficiente para não dar ao pequeno ataque um segundo pensamento, girou a tranca, pensando em como diabos faria para dar uma explicação plausível a Niall, quando não podia de fato encontrar uma para si mesmo.

Notas finais
Esse capítulo só está aqui por causa da fofa da Liri-chan ( @Lirium-chan), que postou pra mim, porque o meu notebook quebrou. Brigada~ .... e ter dito que ela pôr essas notas é muito estranho. Also, aqui está um link pro quadro que o Sarosh estava recriando, porque eu não consegui achar o nome https://metodologiavisualdesign.files.wordpress.com/2012/05/070920_blog-uncovering-org_kush_1.jpg E um aviso: essa fic está sendo postada também no Wattpad, agora, por uma outra pessoa (livvyandty). Se você aí ver, esteja avisado que ela pediu permissão, e nós conversamos sobre isso, então não há necessidade alguma de ir lá armar barraco =D .... mas se ver alguém mais postando eu agradeço se avisar pra mim. Acho que é uma boa deixar isso claro -q Bem, é isso. Espero que tenham gostado o/