Notas iniciais
A música do título é de Regina Spektor. Diva.

Shey havia acabado por criar o costume de permanecer na biblioteca após a aula de desenho, sentar-se à uma das mesas brancas com cadeiras coloridas com algum bom livro ou o dever de casa para segunda-feira, acompanhado de Daniel. Estar com o garoto sozinho era indubitavelmente distinto de quando era todo o grupo de amigos: trocavam, sim, comentários caso o outro já houvesse lido o livro que haviam escolhido, faziam citações de partes que achavam interessantes e, algumas vezes, no caminho de volta, conversavam sobre autores, mas a maior parte do tempo permaneciam em silêncio confortável, compartilhando a mesa e nada além disso.

Mesmo assim, Daniel apareceu com uma caixinha com seis mini-cupcakes de baunilha com recheio de chocolate amargo e mini-sininhos de açúcar os decorando, na Páscoa, dizendo que era para ele, sua mãe e seu irmão. O que, é claro, acabou levando sua mãe a mandá-lo convidar o garoto para passar o fim de semana com eles, para fazer nada de especial, apenas ir lá, jogar videogame, assistir TV, comer ou qualquer coisa semelhante.

Foi assim que ele acabou abrindo a porta para Helena e Daniel em um domingo frio, já que sua ideia de dizer que o outro tinha uma namorada e devia estar ocupado funcionou apenas para a mãe dizer que podia chamá-la também. Ela estava usando um vestido azul que parecia um suéter, com calças pretas coladas ao corpo e botas marrom-escuras quase até os joelhos, com cachecol creme para completar e os cabelos presos em um coque malfeito; tão bonita quanto Shey se lembrava, embora lhe lançasse um olhar penetrante de onde estava na porta.

— Hey! — Daniel cumprimentou, com um sorriso. — Tá frio, cara. — avisou, quando Shey e Helena apenas continuaram se encarnado, com ele tentando entender o que ela queria transmitir a ele. Que ameaça estava fazendo, provavelmente.

— Ah, sim, podem entrar. — respondeu em um murmúrio, saindo da frente da porta para deixá-los passar, fechando-a logo que o fizeram. Indicou o porta-casacos, vendo Helena desfazer-se do cachecol e Daniel retirar a jaqueta, pegando o cachecol da namorada e pendurando ambos.

— Onde sua mãe e seu irmão estão? — o garoto perguntou, batendo bem de leve no ombro de Helena, que apenas desviou o olhar por um segundo e soltou um baixo bufar, voltando a encarar Shey em seguida.

— Cozinha. — disse apenas, indicando o sofá, um pouco perdido, e virando-se para ir chamar sua família, dando de cara com Leon chegando à sala. Ele abriu um sorriso simpático para os convidados, tão à vontade quanto sempre estava ao receber visitas.

— Ai meu Deus, é o Shey com uma cara de bom humor! — Daniel exclamou antes que Leon tivesse a chance de dizer algo, em um tom entre o choque e a empolgação, e Shey virou a tempo de vê-lo fazendo uma expressão surpresa, com os olhos levemente arregalados e os lábios entreabertos, enquanto o rosto de Helena enrubescia um pouco. A garota bateu no braço do namorado, um soco bastante descente que o fez soltar um resmungo de dor e esfregar o local atingido, todos de bom grado ignorando a gargalhada de Leon.

— Sim, sim. — Leon concordou, entre risadas, terminando de se aproximar. — Também conhecido como Leon. E você é o amigo confeiteiro. — Daniel sorriu, assentindo sem hesitar, enquanto Helena desmanchava a expressão envergonhada e passava a avaliar Leon com desconfiança.

— Daniel. — ele disse, estendendo a mão para um cumprimento que Leon logo retribuiu, então se voltando a Helena.

— E você é a namorada dele, né? Não se preocupe. — começou, sorrindo de lado e estendendo a mão. — Eu não vou ser grosso como meu irmão, pode deixar. Feito? — a garota abriu um sorriso fraco e torto, apertando a mão do loiro.

— Helena. Blusa legal. — ela comentou, em um tom quase natural, e Leon fez uma expressão levemente surpresa.

— Obrigado. Esse é um grande elogio, vindo de alguém com botas tão fodas. — Helena finalmente abriu um sorriso de fato, fazendo uma expressão lisonjeada exagerada. Leon se virou para o irmão, em seguida, ainda com uma expressão bem-humorada. — Eu vou lá na cozinha ajudar a mãe, você não quer ir vendo o que vocês vão fazer, enquanto isso? — ele questionou, arqueando uma sobrancelha na direção do mais novo.

— Ah... — Shey soltou, um pouco perdido, olhando ao redor para tentar decidir o que era suposto que fizesse.

— Ah, na verdade! — Daniel interrompeu, abrindo um sorriso e indicando a mochila em seu braço, fitando Leon. — Eu trouxe uns baralhos, porque o Shey tem cara de quem não sabe o que fazer em encontros com amigos. Sabe, pra coisa não ficar constrangedora.

Leon voltou a gargalhar, dando duas batidinhas amigáveis e que pareciam ser de consolo, por algum motivo, em seu ombro, Helena tampando a boca e virando o rosto de lado para não evidenciar muito que também ria. Ao menos Daniel parecia tão confuso quanto ele, olhando para os outros dois de forma perdida.

— Ah, cara, eu gosto dele! — Leon decidiu, sorrindo brilhantemente para Daniel. — Vem, eu quero te apresentar pra minha mãe, ela já quer te abrir um fanclube antes de te conhecer.

Daniel riu, seguindo Leon para a cozinha imediatamente, e Shey lançou um olhar à porta, conferindo se estava fechada, antes de fazer um movimento para segui-los, parando quando Helena lhe chamou com um breve toque no ombro. Voltou-se para encarar a garota, encontrando nela o mesmo olhar cheio de animosidade e que parecia querer lhe amaldiçoar.

— Santie não me disse o que aconteceu entre vocês. — ela sussurrou, dando um passo à frente quando Shey recuou à menção surpresa do garoto, arregalando levemente os olhos. — Mas seja lá o que você disse não foi legal e, se você repetir, eu vou juntar alguns dos alunos problemáticos da nossa escola e pôr eles atrás de você, e eu acho bom você acreditar no que eu estou dizendo.

— Eu não disse nada demais a ele. — Shey respondeu, em um tom neutro e encarando-a com indiferença, vendo Helena estreitar os olhos em sua direção.

— Eu não consigo acreditar que você tenha sido decente, pela reação dele e por como ele não quer falar no assunto. O mínimo que se espera é um pouco de gratidão, porque eu tenho certeza que ele te ajudou em alguma coisa, e certeza que aquela história de te encontrar na praça e vocês tomarem o sorvete juntos é desculpa esfarrapada pra alguma coisa que ele não podia falar de você. — Shey apenas a encarou, sentindo um pouco da cor sumir do rosto, sem saber o que devia responder e com o pensamento um pouco confuso.

Helena suspirou profundamente, então, e seguiu para a cozinha. Shey pôde ouvir as vozes animadas dos outros quatro enquanto caminhava para lá também, com os ombros um pouco tensos e passos mais hesitantes que deveria.

Eles jogaram Uno a tarde inteira.

~o~

— Eu fui na casa do Shey nesse domingo.

— Ué, o que você foi fazer na casa do Shey, cara? Você não tava com raiva dele pelo que você tá imaginando que rolou entre a gente? Porque até onde eu lembro na semana passada mesmo você começava a espumar quando ouvia o nome dele.

— Fui com o Dan, idiota.

— Ah, é. Eles estão se falando de novo, né? Isso é legal. Como foi?

— A mãe do Shey é uma mulher bem impressionante. — Helena respondeu apenas, sem parar o apertar frenético de seus botões, continuando a atirar contra ele em Halo, tentando fazer explodir a moto na qual seu personagem vinha feito louco para acertá-la.

Santini e ela estavam jogados no sofá da sala dos Bienow, ela com as pernas jogadas por cima do braço do móvel e a cabeça deitada na coxa do garoto, usando apenas uma camisa rosa de meia manga com o rosto da Minnie espalhados por toda ela e uma bermuda jeans surrada, e ele estava sentado com as pernas entrelaçadas em uma posição confortável, com a camisa engraçada do bonequinho palito sem a linha do meio que representava suas costas, a qual estava “nas mãos” do outro bonequinho ao seu lado, que sorria, a legenda abaixo deles dizendo “I got your back!”, a jaqueta e o tênis jogados no quarto da amiga desde que chegara à casa dela.

— Sim, ela é. — concordou, sorrindo largamente, sem parar mesmo quando seu personagem alçou voou e foi parar do outro lado do campo, morto. Estavam empatados, agora. — É muito legal, também. Ela gostou de Ardil 22, a gente conversou à beça sobre o livro e sobre o quanto guerra é uma merda, aí começamos a falar sobre explosões em filmes de guerra, o que é legal, mesmo que guerra não seja, e mesmo assim ela tem todo esse ar impressionante. Ela também é uma mãe muito boa, na verdade, até onde eu sei, e é super fofinha, por dentro. Eu queria que tivéssemos a mesma idade e que eu tivesse conhecido ela no colégio. É, sério, imagina só, seria super—

— Pelo menos aí você não ia conhecer o Shey. — ela interrompeu, em um tom que tentava ser neutro, e Santini jogou uma granada por cima dela no jogo, aproveitando-se do fato de que ela não se lembrava dos atalhos naquela fase para sequer precisar aparecer para finalizá-la. Ele fez um bico amuado, mesmo que a garota não o olhasse, virando-se para vê-la sentar-se para se concentrar, pois se perdesse novamente seria o fim da partida e a vitória seria dele.

— Eu já disse que não foi tão ruim quanto você tá pintando a coisa? Ah, disse! — sorriu para ela por um momento, sabendo que era percebido pela visão periférica da garota, então voltando-se para a tela. — Mas você não me ouviu, né, Heleninha? — cantarolou, quase podendo vê-la revirar os olhos.

— Eu não sou idiota. — ela retrucou apenas, surgindo de nada e metralhando o personagem do amigo sem dó, fazendo-o ir ao chão. — O Shey já consegue ser um ogro quando não tá tentando. Pior que o Daniel.

— Ele não parecia estar tentando, quando me deu um fora. — contestou, dando de ombros, sem virar-se desta vez, porque a situação estava meio crítica no jogo. — Mas ele não é obrigado a começar a sair comigo.

— O mínimo que ele te deve é um pouco de educação. — ela retrucou, em um tom irritado. — Principalmente depois de você ter o ajudado.

Santini fez uma careta para o que a amiga disse, escondendo-se de uma saraivada de balas ao mesmo tempo.

— Não ajudei.

— Eu já disse que não sou idiota hoje? — ela perguntou, em um tom falsamente amável, e Santini saiu do esconderijo para jogar uma bomba na direção de seu personagem. — Merda! — a garota xingou, conseguindo pular para fora a tempo.

— Eu achei que a gente já tinha conversado sobre isso. — murmurou, um pouco incomodado, mordiscando o lábio de leve.

— É, já conversamos. — ela concordou, em um tom cansado. — Eu também não sei porque o Daniel tá falando com aquele imbecil, sinceramente...

— Bem, eu tenho motivos. — cantarolou em um tom brincalhão. — A) Daniel é um biscoitinho gentil, b) ele confia em mim.

— Grande erro. — ela resmungou, em um tom quase divertido.

— Ei! — protestou, rindo logo em seguida. — Rude. Enfim. C) Shey não é um imbecil.

— Ele é, sim. Ele tá agindo feito um imbecil brincando de ninja no colégio, se escondendo da gente. O que ele tá achando, que a gente vai atrás dele, se jogar no chão e implorar pra ele voltar? — Santini gargalhou, não conseguindo parar nem quando seu personagem foi explodido e parou a metros de distância, o jogo anunciando que havia perdido. — Porra, não ri! — ela reclamou, empurrando-o de leve pelo ombro, embora houvesse um riso contido em sua voz, também.

— Ai meu Deus, a gente nem sabe se ele tá mesmo fazendo isso! — retrucou, entretendo-se com a ideia mental de Shey amarrando uma bandana da Akatsuki na cabeça e passando pelos corredores do colégio sorrateiramente. Começou a gargalhar de novo, tombando no sofá e largando o controle, ouvindo Helena acompanhá-lo, embora ela provavelmente o fizesse por sua risada, e não por qualquer coisa de sua imaginação.

Era surpreendentemente fácil e pouco incômodo pensar em Shey daquela forma, acompanhado e se focando no ridículo da situação. A coisa mudava de figura quando estava sozinho no quarto, ou em situações nas quais via o loiro de relance, ou naquela em que passara por ele no corredor. Aquelas ainda lhe davam vontade de fugir.

Ele havia começado com a psicóloga fazia um mês, já, duas consultas por semana, e não estava dizendo a ninguém, mas a bem da verdade nunca havia soltado nenhuma informação importante para a mulher, e não conseguia falar muito sobre as mordidas nos lábios, visto que não alcançara mais nenhuma situação de desespero graças àquilo e não conseguia forçar as palavras para fora dos lábios em seu estado normal.

E Jaime... Jaime lhe deixava nervoso. Apavorado, para falar a verdade. Ele sabia que esse pavor vinha muito mais do fato de ter provocado a si mesmo uma semana escolar terrível, graças a ele, do que à possibilidade dele espalhar por aí os seus problemas, mas isso não ajudava em nada, talvez porque houvesse sido simplesmente terrível.

O primeiro dia, quando ocasionalmente sentia um olhar sobre si e via Jaime o encarando; e o segundo, quando o mesmo acontecia e o outro ainda lhe dava um sorriso de escárnio; e o terceiro, em que Santini passou metade do dia com as pálpebras tremendo de forma estranha, pensando no que aconteceria se Jaime simplesmente contasse para todos os amigos dele durante o almoço; e o quarto, no qual acidentalmente pensara na última vez que havia dormido com o garoto, enquanto passava água no pescoço, no banheiro da escola, para tentar se acalmar e aplacar o tique no olho, e acabara vomitando em um dos sanitários, sendo ouvido por um inspetor e mandado para casa, quando inventou que estava passando mal, após passar na enfermaria.

E, como se sua mente houvesse planejado o pior dos surtos sem motivo real para o final, o quinto, no qual ele se arrumou, mas, na hora de deixar o quarto e ir se encontrar com Sarosh, caiu em um choro ridiculamente alto, que teve de abafar com uma mão, à qual acabou mordendo sem querer, e caiu de volta cama, com o corpo tremendo e sem a coragem absurda que parecia exigir para girar a maçaneta, com medo da mãe entrar ali para gritar com ele porque o boato que Jaime poderia ter espalhado que ele usava drogas chegara aos vizinhos.

Depois disso, adentrar a sala de aula sem tomar um de seus calmantes para emergência se torara impossível. Ele tentara, na segunda-feira, o que havia sido burrice, pois o simples ato de sair de casa já havia sido um calvário, e ele tirou a prova antes mesmo da aula começar: surgira aquela pressão no ouvido, o estômago se revirara, os pelos se arrepiaram e o coração acelerara, os dedos dos pés se torcendo nervosamente dentro dos tênis. Na terça sequer conseguira se convencer a cruzar a porta antes do remédio fazer efeito.

Ele sabia que Helena notara que algo estava estranho, também. Era difícil não notar, para falar a verdade. Vinha se sobressaltando toda vez que alguém exclamava seu nome, no colégio, e conseguia refrear o impulso que dizia que devia se encolher quando passava por Jaime no corredor, mas ainda engolia em seco quando o garoto não estava mais em seu campo de visão e, mesmo que o remédio mantivesse o tique no olho em cheque pela maior parte do tempo nos dias de semana, quando se encontrava com os amigos nos sábados ou domingos eles ainda podiam ver, se observassem bem.

Soava bom ainda estar com Niall, agora, ainda poder fugir de seu quarto impessoal toda sexta à noite, sem precisar convencê-lo de que estava bem para evitar ter de dar explicações, e sentia falta do chuveiro a gás e do sexo. Fazia um tempo desde a última vez que dormira com alguém. Ele precisava de uma festa, provavelmente.

Helena abriu uma das gavetas do rack da sala, fazendo com que Santini finalmente percebesse que já parara de rir e apenas encarava o painel de madeira escura atrás da televisão com uma expressão neutra, engolindo em seco e sentando-se no sofá enquanto mordiscava o lábio, um pouco constrangido por sua provável mudança brusca de expressão. Ok, então talvez pensar em Shey não fosse assim tão tranquilo, ainda. Eventualmente seria. Não era possível que durasse muito mais.

— Você ainda quer jogar? — questionou para a garota, arqueando uma sobrancelha, e ela virou com um sorriso, dando de ombros.

— Eu queria, mas se você já tiver enjoado a gente pode só conversar. — disse, em um tom ameno que por algum motivo fez com que os pelos da nuca do garoto se levantassem. Ele sentia, embora soubesse que não fora isso, que caso dissesse que preferia conversar teria de dizer o que passara por sua cabeça para transformar sua risada em uma expressão apática tão rápido. E ele sabia que ela não falara com segundas intenções, mas...

— Não, vamos jogar, mesmo. — respondeu, sorrindo largamente e deitando a cabeça no braço do sofá. — Mas, sei lá, escolhe algo em que a gente colabore, que tal? E, ah, que horas as suas irmãs chegam?

— Eu não contei pra Tristha que você tá aqui, pra ela não ficar vegetando no sofá enquanto baba em você, então ela só deve chegar de noite. — Helena conferiu o relógio, dando de ombros. — A Tayla eu tenho que buscar da escolinha de tênis daqui a pouco. — completou, virando para Santini para mostrar a capa de Portal 2, com uma sobrancelha arqueada, como que perguntando se aquele jogo servia, levantando-se assim que o amigo assentiu.

— Eu não já contei pra Tristha que sou gay umas, sei lá, mil vezes? — questionou, vendo Helena revirar os olhos, lhe virando as costas por um segundo, para colocar o CD de Portal 2 no videogame e retirar o de Halo 3, jogando-se no sofá em seguida.

— Contou. Ela ainda gosta de ficar te encarando. Coisa mais bisonha. — Santini acabou rindo, negando com a cabeça e observando enquanto Helena selecionava o jogo.

— Ela é legal.

— Não é, não. Ela é maluca e só pensa em garoto, ultimamente. Eu tenho que ficar ameaçando os infelizes dos namorados esquisitos que ela trás pra cá, porque os moleques não parecem gente boa e... acredita que tem uns que acham que eu não tô falando sério? Pirralhos babacas do caralho. Chuto eles no meio das pernas e— ela parou quando Santini voltou a gargalhar, tampando a boca com as mãos para ver se ficava menos ofensivo. E havia quem duvidasse que Helena era ciumenta e superprotetora, honestamente. — Você acha que eu tô brincando? — ela perguntou, em um tom frio, e Santini soltou uma última risada, se apoiando nos cotovelos para ficar em uma posição melhor.

— Não. — cantarolou, sorrindo largamente a ela. — Acho que você tá falando completamente sério. Essa é a graça. — explicou, espreguiçando-se e pegando o controle, esperando Helena selecionar o modo multiplayer.

Eles continuaram jogando até que o relógio indicasse o horário que Helena tinha de sair para buscar a irmã mais nova, de dez anos, na escolinha de tênis, salvando e desligando o videogame. Santini pegou a jaqueta e os tênis no quarto, colocando-os e esperando na sala enquanto Helena tirava as roupas de ficar em casa e punha algo mais apresentável, saindo alguns minutos depois.

Eles conversaram amenamente, no começo, sobre gostos compartilhados ou completamente oposto, e Santini hesitou assim que ela começou a falar da peça que havia ajudado a preparar, nos bastidores, perguntando-se porque havia deixado a conversa tomar aquele rumo. A garota pareceu notar, parando de falar e encarando-o de um jeito levemente preocupado.

— Shey vai, né? — Santini perguntou, quando viu que ela não continuaria até entender o que havia acontecido, tentando manter o tom relaxado, e Helena torceu os lábios, desviando o olhar.

— Eu posso pedir pro Dan falar que não dá pra ele ir, se você preferir. — ela apressou-se em dizer, em um tom neutro, e Santini riu de leve, negando com a cabeça.

— Não, vamos não ser crianças sobre isso. — cantarolou, passando a mão pelo ombro da garota e acariciando-o de leve. — Ele tem o direito de ver os figurinos muito fodas que você fez. — Helena riu, negando com a cabeça e o encarando de forma divertida.

— São figurinos simples feito com tecido de baixa qualidade. — Santini a olhou de forma contrariada infantil, inflando a bochecha de brincadeira.

— Não acaba com a graça da coisa. Nem dá pra ver a qualidade do pano da plateia, de qualquer jeito.

— Na verdade dá, sim. — ele chiou, encarando-a com o cenho franzido, e ela riu mais, erguendo as palmas e encolhendo os ombros. — Ok, ok, eu me rendo. Figurinos totalmente fodas.

— Isso aí! — ele concordou, rindo de leve. — Foi difícil?

— Não, ok? Feliz agora? — ele soltou um som contente para indicar que sim, assentindo energicamente com a cabeça em seguida, fazendo-a rir novamente, empurrando-lhe de leve pelo ombro. Então ela voltou a encará-lo com preocupação, comprimindo os lábios antes de tornar a falar. — Como você vai fazer pra lidar com isso?

Santini piscou por um momento, franzindo o cenho e tentando improvisar um plano.

— Bem, normalmente? — acabou dizendo, quando não pôde pensar em nada. — Nós dois provavelmente nem vamos nos falar, mesmo. Tipo, além dos cumprimentos educados que eu vou dar e ele retribuiu se quiser. Mas nem vamos estar sozinhos. — sorriu para ela, tentando passar confiança. Qualquer coisa ele teria os remédios no bolso, por via das dúvidas. — É até bom, que se ele estiver se escondendo eu já acabo logo com a brincadeira de ninja. — gracejou, fazendo Helena rir novamente.

A garota passou suavemente para outro assunto relacionado à peça, então, sobre quanto havia sido divertido criar os figurinos dos anos setenta para a peça e ir comprar os tecidos, mesmo que não houvesse tido como levar bem os que queria, e agora estar lá com mais pessoas da produção costurando tudo.

Santini prestou atenção no que ela dizia, tentando focar bem nas palavras e deixar o pânico para o dia da peça, porque Helena parecia muito empolgada e contente e ele a amava, e queria se dar o direito de ignorar sua ansiedade por um momento e permitir-se ficar feliz por Helena.

Notas finais
Oi. Desculpe, tive um bloqueio pra escrever com Santini e Shey. Foi estranho. Eu não costumo ter bloqueios. Bem, até a próxima. Desculpe, novamente.