You make me feel wrong
8 A prayer for your heart
Notas iniciais
Era uma madrugada fria, embora neve não caísse do céu, o qual por sorte se encontrava quase livre de nuvens, que fazia as pessoas sem aquecedores tremerem debaixo de suas cobertas e pijamas e que possivelmente atrapalhava o caminho de qualquer um que houvesse inventado que era uma boa ideia sair para uma festa ou para alguma balada.
Shey estava sentado na varanda dos fundos da casa, tremendo debaixo de seus dois casados, enquanto queimava suas folhas com os desenhos de Santini com um isqueiro, uma por uma, o calor do fogo que era constantemente aceso não permitindo que seus dedos se assemelhassem a gelo sólido. Ele rezou para que ninguém abrisse a porta e o visse ali, pois não conseguia visualizar uma desculpa boa o suficiente para o que estava fazendo, mas precisava se livrar de todas aquelas coisas e nunca mais permitir que seus dedos reproduzissem qualquer traço daquele garoto.
Alguns dias atrás, ele jurara a si mesmo que teria autocontrole, que toda aquela suposta paixão havia acabado, e que nunca mais o desenharia, ou sentiria qualquer coisa que fosse além de amizade, ou pensaria em beijá-lo. Jurara para si mesmo, mas mesmo assim tinha um desenho novo, e simplesmente não conseguia, por mais que tentasse, obrigar seus pensamentos a mudarem; por isso, mais cedo naquele dia, não pudera se obrigar a adentrar a igreja junto da mãe, que ficou sentada ao lado dele nos degraus da entrada, congelando, até que finalmente saísse de seu ataque de ansiedade e eles voltassem para casa.
O ponto em que as coisas estavam chegando era apenas nojento e absurdo demais. Estava tudo tão, tão errado. Ele estava tão errado. Era tão estúpido. Tão estupidamente patético. O que ele sabia sobre aquele sentimento para conseguir fazê-lo parar? Que conhecimento ou experiência ele tinha? Nenhuma; ele não tinha nenhuma, ele não fazia ideia de que tipo de terreno estava pisando.
Ele tentara, então, durante todo o dia, assim que chegaram da igreja, convencer a si mesmo a parar de falar com todas aquelas pessoas, a afastá-las completamente de sua vida e deixar que elas seguissem feliz, afinal de contas não era como se estivesse levando algo de bom a elas, através de sua convivência. Mas já estava tão envolvido, tão acostumado a estar à margem da conversa, ouvindo-os rir, falar e fazê-lo participar do assunto vez ou outra, que o simples pensamento de voltar a passar os horários de almoço sozinho na sala de aula lhe dava náuseas.
Tão, tão estúpido, uma voz em sua cabeça sussurrou em concordância a seus pensamentos, em um tom afiado. Ele largou a última das folhas em chamas, deixando-a cair na neve já repleta de cinzas e pedaços de papel chamuscados. Havia um “beep” constante e irritante no fundo de sua cabeça, e ele bateu de leve no ouvido direito para fazê-lo parar.
— Shhh... — sussurrou para nada em especial, girando o isqueiro apagado entre os dedos. Você devia apenas ter morrido antes de começar a ter tantos problemas. — Shhh... — repetiu, umedecendo os lábios e respirando lentamente. Devia pôr fim nisso tudo e deixar as pessoas seguirem suas vidas sem sua presença para atrapalhar. — Não. — respondeu baixinho, se levantando e entrando em casa, largando o isqueiro na mesa e abrindo um dos armários, o “beep” irritante ainda lhe fazendo companhia.
Você não devia forçar ninguém a conviver com a falha que você é, a voz tornou a sussurrar, e ele se perguntou se aqueles eram apenas seus pensamentos ou se havia mesmo alguém entrando em sua mente e conversando com ele através dela, mas como a resposta não parecia ao seu alcance apenas retirou a caixa com seus remédios para dormir do armário, em seguida indo até a pia e enchendo um copo com água, destacando dois comprimidos e os engolindo imediatamente.
Você está amaldiçoando aquele pobre garoto, uma outra voz, mais feminina e tranquila, sussurrou em seu ouvido direito, e no segundo em que ela terminou, o “beep” cessou, o deixando confuso entre o óbvio alívio e a sensação de que algo estava faltando. Ele balançou a cabeça quase involuntariamente, franzindo um pouco o cenho e lavando o copo antes de coloca-lo no lugar e se dirigir até a porta que levava à varanda, trancando-a.
Eu estou amaldiçoando Santini, ele pensou enquanto ia até as escadas, engolindo em seco e respirando profundamente de uma forma trêmula. Certo? Eu estou destruindo a vida dele só por estar por perto, certo? Ele parou em frente à escada, pondo uma das mãos no corrimão e arregalando os olhos, com a respiração agitada. Ah, meu Deus. Ah, meu Deus.
Passou uma das mãos pelo rosto, tentando se acalmar, e o “beep” irritante tornou a soar, embora não ouvisse mais voz alguma. Acalme-se, disse a si mesmo, e continuou respirando lentamente, deixando o ar entrar e sair de seus pulmões com forçada tranquilidade e imaginando que a cada expiração um pouco de seu nervosismo ia embora junto do ar.
Passaram-se cerca de vinte minutos antes que finalmente voltasse a caminhar e deitasse em sua cama, olhando para o teto de forma perdida e continuando com os exercícios de respiração até os remédios começarem a fazer efeito e o mandarem para a inconsciência.
~o~
O loiro girou o papel de advertência nas mãos, com uma expressão que mesclava indiferença e decepção. Não fora, no fim das contas, uma boa ideia ir à escola naquele dia. Ele sabia disso desde o momento em que acordara com o celular tocando, pois tinha plena noção que apenas o fizera porque acordava extremamente fácil e as pálpebras pesavam, tentando fazê-lo voltar a dormir, mas se levantou e começou a vestir alguma coisa qualquer, uma vez que sentia que precisava fazer algo, e tinha de ser naquele dia.
Ele sentia como se quisesse usar algo antigo, largo, confortável e vermelho, por qualquer razão que fosse, mas em seu armário tinha apenas preto, cinza e azul desde que completara onze anos e começara a escolher as próprias roupas, já que não sabia combinar nada, mas estava disposto a parecer alguém com gostos normais, então pegou o casaco de moletom cinza-médio com bolsos e tecido grosso e pôs por cima de uma blusa preta de mangas compridas.
Estava com tanto sono ao sair de casa que literalmente esqueceu-se de fazer seu almoço e teve de voltar, assim que pisou na calçada, para buscar o celular que reparou ter deixado para trás, e ele achava que havia a possiblidade de ter cambaleado algumas vezes pelo caminho, mas no fim das contas estava lá, são, salvo e no horário, embora não adiantado, como preferia, e entrou no prédio da escola junto de todos os outros adolescentes, o que era... bem, horrível, para falar a verdade.
Alguém havia se sentado em seu lugar, a cadeira exatamente no meio da sala, então arrastou-se com desanimo até as de trás e se acomodou por lá, passando todos os tempos até o horário de almoço com a cabeça confusa e tentando copiar, e cerca de quinze minutos antes de serem liberados bocejou embaraçosamente alto durante a explicação do professor de Genética, o que lhe rendeu uma encarada assassina do dito cujo e um monte de risadas de seus colegas de sala, uma vez que aparentemente soara como se ele houvesse se forçado a fazer aquilo, como uma piada. Como se ele fizesse piadas.
Não se lembrava bem do que, mas em algum momento do almoço, enquanto comia um sanduiche que sabe Deus como havia ido parar em sua frente, mas era bastante saboroso, portanto não importava, rira, praticamente gargalhara, de algo que Daniel havia dito, e ele notou a mesa ficar em silencioso por alguns segundos antes que Santini o acompanhasse e gradativamente começasse a ouvir Helena e Daniel fazerem o mesmo.
Então ele voltou para a aula e dormiu em sala. Daí a advertência. O interessante da história é que quando despertara, com um professor indignado parado em frente a sua mesa com cara de poucos amigos e um silêncio cortante sendo interrompido apenas pelo som de alguém tentando prender a risada, sua cabeça estava apoiada em dois cadernos empilhados que foram cobertos com seu casaco azul-marinho, e ele realmente não se lembrava de ter feito aquilo.
Ele suspirou, apertando os olhos por um segundo, sentindo-se quase tombar para o lado e decidindo que se queria sobreviver todo o caminho até em casa era melhor que mantivesse os olhos abertos. Guardou a advertência no bolso quando viu os... amigos, deixando o portão da escola e indo até onde ele estava, conversando entre si de um jeito contente. Normalmente eles ficariam ali, pela rua, falando e falando, por alguns bons minutos, mas já havia alguns flocos de neve começando a cair e estava bastante frio, então Helena e Daniel logo se despediram e foram embora, abraçados e andando rápido.
Santini se virou para ele, abrindo um sorriso simpático.
— Vem, eu vou contigo até em casa. Você tá meio doido, hoje. — ele ditou, e Shey assentiu quase que imediatamente, começando a caminhar e sendo acompanhado pelo moreno, que levantou as mãos enluvadas até a altura do peito e as esfregou, abaixando-as para puxar as mangas do suéter largo e de aparência realmente confortável, de um azul-claro que deixava os olhos de Santini ainda mais azuis, como se a touca azul-escuro já não fosse o suficiente para isso.
— E o Sarosh? — o loiro questionou, lançando um olhar para trás e ouvindo Santini soltar um som de desdém.
— Está muito frio pra ficar esperando ele sem morrer de hipotermia. Eu já avisei, e tal. Não acho que ele vá—
— O seu nariz tá vermelho. — resmungou, estreitando os olhos na direção do outro, e Santini parou de falar, fitando-o com confusão.
— O que?
— O que seu nariz... ah, nada. — ele desviou os olhos por um segundo, torcendo os lábios. — Eu tenho algo importante para falar pra você, eu acho.
— Bem, então fale. — o moreno retrucou, e Shey se virou para vê-lo o observar de forma um pouco preocupada.
— Eu esqueci, na verdade. — respondeu, e viu o outro garoto parecer conter uma risada enquanto assentia e erguia as mãos para ajeitar a touca. — Você tá amaldiçoado?
— O que?
— Hn? É só que eu estava pensando, hmm... — Shey viu o outro garoto aos poucos perder o controle do sorriso que ainda prendia, finalmente começando a rir baixinho, com os olhos se desviando de sua figura e encarando o chão a frente dele. — Não era uma piada, mas tudo bem, você pode rir. — Santini riu ainda mais e virou o rosto, olhando para o outro lado.
— Eu não estou rindo, nem nada. — ele retrucou, o que fez o loiro sorrir de leve por um breve segundo porque, honestamente, até sua voz soava risonha, e não havia como ou porque negar aquilo.
— Não tem problema, você tem uma risada muito legal. Quero dizer, é completamente estúpida, e muito estranha, e parece que você tá chorando ou morrendo engasgado, mas é engraçada, também. — e isso, por fim, fez o garoto gargalhar alto, desistindo de deixar o rosto fora de sua visão e não podendo se conter por alguns minutos, até que finalmente se acalmasse um pouco e tossisse algumas vezes, encarando-o com aqueles olhos expressivos em seguida, como se estivesse realmente se divertindo.
— Você também tem uma risada engraçada, sabe? Porque você puxa e solta o ar com muita força, pelo nariz, enquanto tá rindo, e o barulho meio que se mistura à risada.
— É?
— Aham.
— Você analisou isso muito bem pra quem ouviu ela uma vez.
— Hã... eu...
— O meu aniversário é daqui dois dias.
— Hã?! O que?! Por que você não disse isso antes?! É tipo, super em cima da hora pra comprar um presente, agora!
— Ah, você não precisa comprar nada, porque não vai ter nenhuma festa, nem nada. Eu não gosto muito de festas.
— Não é esse o ponto! Eu tenho, tipo, dois dias pra pensar em algo legal!
— Não é legal porque eu nunca sei bem o que é suposto de se fazer, sabe? É pra dançar? É pra dançar com uma garota? Ou é pra beijar uma garota? Ou é pra ficar conversando com os amigos? Ou é pra beber? — ele desviou os olhos para o chão, com uma expressão tensa. — Hm, mas eu não posso beber. Eu não posso dançar também, na verdade. Ah, quero dizer, eu posso, porque eu tenho pernas que me aguentam em pé, mas eu não sei dançar, é.
— Hã? — ele tornou para Santini, que o encarava com a mais confusa das expressões.
— Hn?
— Do que você tá falando?
— Festas.
O moreno piscou algumas vezes antes de explodir em uma gargalhada, pondo uma das mãos em frente os lábios.
— O pior é que você tava tão, tão concentrado.
— Hmmm...
— É assim que a sua cabeça funciona normalmente? Porque se é, você devia mostrar isso mais vezes, sinceramente.
— Ah, não, eu não acho que o jeito que minha cabeça funciona normalmente faria alguém rir.
— Uh. Ok, isso é tenso.
— Neve não te lembra creme de baunilha?
— Oi?
— Sabe, creme de baunilha. Ou aquele creme que fica em cima do bolo de creme. Ou clara em neve. Ou farinha. Neve lembra muita coisa. Aí quando ela vai embora muita coisa lembra neve. — ele viu Santini começar um sorriso de novo, sem entender exatamente do que ele estava rindo, mas continuando a falar, mesmo assim. — Se bem que, assim, eu prefiro lembrar de bolo de creme, porque farinha não é muito gostoso. Se bem que bolo leva farinha, né? Ah, e acho que chantilly também lembra neve.
— Creme de leite, também. E aí creme de leite com uns poucos pedaços de morango lembra um massacre.
— Ah! É! Você tem razão! — ele parou por um segundo, ouvindo Santini rir de leve. — Quando eu era criança eu tentava achar fadas da neve quando tinha neve na rua.
— Isso parece legal.
— Eu obrigava meu irmão a me ajudar, aí a gente fazia casinha e eu colocava pedacinhos de pão lá dentro. Porque elas deviam estar com fome, já que a comida, na natureza, fica bem escassa no inverno.
— É, acho que sim.
— A maioria das casinhas caía e eu nunca conseguia ter certeza se alguma fada tinha ou não conseguido levar o pão. Porque o Leon e a minha mãe não me deixavam ficar vigiando da janela, nem nada. — ele viu Santini sorrir de uma forma quase carinhosa, assentindo com a cabeça. — Eu espero que nenhuma nunca tenha sido soterrada e aí morrido.
— Espera, você ainda acredita em fadas?
— Hã... não.
— Certo... — ele concordou com alguma desconfiança, arqueando uma sobrancelha para ele. — Bem, eu acho que nenhuma fada morreu sufocada.
— Por quê?
— Porque se elas são fadas do inverno, elas devem ser capazes de tirar a neve de cima delas sem dificuldade, você não acha? — o loiro concordou com a cabeça após um breve silencio pensativo, franzindo o cenho.
— Ei, você sabia que seus olhos ficam mais azuis ainda quando você tá usando azul? — Santini sorriu um pouco mais largo, assentindo.
— Sabia.
— É por isso que você usa azul tantas vezes?
— Nha, é porque é minha cor favorita, mesmo. Nem sempre é muito bom ter gente encarando os seus olhos, quando você é muito expressivo e medroso, porque rola aqueles momentos em que tá fazendo cara de coelho assustado e tem gente tipo — ele se aproximou repentinamente, arregalando os olhos e encarando os de Shey, até terminar de exemplificar e se afastar com uma risada. — e eu fico com vontade de me esconder, ou de começar a surtar, sei lá.
— As pessoas não ficam olhando muito pros meus olhos. Nem pra mim, na verdade. Eu sou meio bom em ficar invisível, o que é legal. Não ia adiantar muito, também, porque eu não sou muito expressivo.
— Ah, vai dizendo isso. Você parecia bem expressivo quando tava encarando mortalmente o seu irmão.
— Ah, o Nick. Eu odeio ele.
— Hum...
— Ei, por que você nunca usa preto?
— Hum... — ele hesitou por um segundo, abrindo um sorriso leve e nostálgico em seguida. — Me disseram que eu fico bem de cores claras, e eu nunca fico parecendo pálido. Mas eu tenho uma camisa preta que tá escrito “Life is too short to even care at all” com letras brancas e eu uso ela pra dormir sempre que ela tá limpa. Eu comprei na internet e pedi M, mas ela é decididamente não-M, mesmo que esteja isso na etiqueta. É larga demais... tipo, muito larga, GG, ou XG, algo assim, e as mangas quase chegam nos meus cotovelos, mas não quiseram trocar porque supostamente é M.
— Você só tem uma camisa preta.
— Hmmm... é, até onde eu me lembro.
— Isso é tão estranho. Eu só uso preto, cinza e azul. — ele percebeu o outro parecer confuso, como se prestes a perguntar algo, mas antes que sua mente trocasse de tópico novamente, decidiu interrompê-lo. — A frase meio que me soa como algo que você diria, aliás. — o moreno sorriu, arqueando um pouco uma das sobrancelhas.
— Você acha? É da minha música favorita. — ele explicou, tirando o celular do bolso. — Você tem fones de ouvido?
— Tenho.
— Então pega aí.
O loiro obedeceu sem protestos, tirando os fones brancos e embolados do bolso e os deixando menos confusos antes de entregá-los a Santini, que plugou no telefone, pôs um dos auriculares no ouvido e o estendeu o outro. Ele viu o outro garoto apertar o play e uma musiquinha suave em violão ou guitarra começou a tocar, mantendo-se apenas nisso nos primeiros segundos até que começasse de fato. Ele viu os lábios de Santini se movendo em sussurros, em sincronia ao que o vocalista cantava.
— Life is too short to even care at all. I’m losing my mind, losing my mind, losing control. — e ele apenas queria estar deitado, pois caso o estivesse, tinha certeza que mergulharia no sono mais tranquilo desde que as coisas começaram a desandar em sua cabeça.
Santini lhe perguntou qual era sua música favorita depois que aquela terminou, e ele se atrapalhou enquanto plugava os fones em seu próprio celular, pensando em que diabos ele colocaria para tocar, uma vez que não havia como selecionar Seele in Not sem parecer maníaco, e ele sabia perfeitamente bem disso, mesmo que estivesse tão sonolento.
No fim das contas, ele apertou o play para A Prayer for Your Heart, e ainda soava estranho e tenso em contraste com as coisas que costumava se ouvir na rádio ou a favorita de Santini, mas era incrivelmente melhor, e o moreno sorriu e moveu a cabeça no ritmo da música, e não parecia estar odiando nada, o que de certa forma o deixava um pouco aliviado.
— Você já terminou com alguém e ficou remoendo sobre o relacionamento depois? — ele questionou assim que a música terminou e eles retiraram os fones, com um sorriso enfeitando seu rosto, como de costume.
— Hn, não...
— Ah, eu tava só brincando. — esclareceu, soltando uma breve risada. — Eu gostei dessa.
— Eu não procuraria pela banda, se você achou isso estranho. — o loiro começou, um pouco apressado. — Porque isso não foi nada, de verdade. — o moreno riu um pouco mais, assentindo.
— Relaxa. E não foi estranho. Só diferente.
— Ah... a banda é estranha mesmo, na verdade. Você não precisa ficar dizendo que não só porque eu disse que é a minha música favorita, porque eu sei que é...
— Hn, não. Foi só diferente. Estranho é quando cantam sobre dragões, sereias e duendes. Uma mulher cantando sobre superar um amor é muito normal, e só a melodia em si e o jeito que ela fez isso era um pouco diferente do habitual. Isso não é estranho. — Shey parou por um segundo, franzindo um pouco o cenho.
— Você tem alguma obsessão por música, ou algo assim? — Santini apenas riu de leve e deu de ombros em resposta.
~o~
Havia algo de muito estranho no fato de ter acordado deitado na varanda dos fundos da casa, tremendo de frio, a cabeça repousada na própria mochila, à noite e com um irmão preocupado pairando sobre seu corpo. Principalmente porque até onde se lembrava, havia ido ali apenas recolher as cinzas que deixara para trás na noite anterior, então tomaria um banho e se poria confortável debaixo de suas cobertas, com um de seus pijamas.
— O que aconteceu? Você passou mal? — ele ouviu Leon perguntar e se sentou devagar, sentindo a garganta doer e a visão se nublar por alguns segundos. Lançou um breve olhar para o lado, para onde as cinzas das folhas deviam estar, e respirou aliviado ao notar que uma camada de neve as escondia.
— Acho que eu só peguei no sono. Está tudo bem. — respondeu, e franziu o cenho para o quão constipado soava.
— Aqui? Se alguma cousa tiver acontecido, é melhor você contar pra gente te levar no médico logo! — ele se apressou em continuar, e Shey tentou não revirar os olhos, indicando a mochila no chão antes de agarrá-la e começar a se levantar, apoiando-se na parede o mais discretamente que pôde.
— Eu até pus isso debaixo da minha cabeça pra ficar mais confortável, aparentemente. — sussurrou, e ouviu o irmão suspirar aliviado uma vez e então o empurrar pelo ombro.
— Então não faz essa merda de novo! Agora tá aí com essa voz de gente gripada e dormiu com a casa toda escancarada. Queria ver se algum ladrão entrasse aqui e te matasse. Tu provavelmente não ia nem ouvir, porque eu te gritei muito pela casa até te achar aqui, seu imbecil.
— É, eu sei. — concordou, pondo a mochila nas costas. — Foi muito idiota. Eu caí no sono, mesmo. — completou, tossindo um pouco ao terminar, sentindo a garganta doer em protesto.
— Aposto que você tomou dois comprimidos ao invés de um, de novo. Que mania infeliz. — o mais novo se virou para ele com os olhos um pouco arregalados, e Leon imediatamente se pôs na defensiva, torcendo os lábios. — Não estou lendo a sua mente, você só já fez isso antes. — ele sentiu seus olhos aumentarem um pouco mais de tamanho e o irmão suspirou, passando a mão pelo rosto. — Olha, que seja. Só vai tomar um banho que eu vou ver se ainda tem xarope caseiro.
— Ok.
— Não põe extremamente quente pra não ter um choque térmico, sério.
— Tudo bem.
Ele entrou na casa, sentindo-a congelante, pois não havia ligado o aquecedor, mas um pouco mais amena que o lado de fora, e foi até o próprio quarto, largando a mochila e pegando uma muda de roupas quentes e grossas, indo para o banheiro e olhando no espelho antes de começar a se despir. Ele estava pálido, e seus lábios estavam azuis e trêmulos.
Ele desceu as escadas correndo e pediu desculpas a Leon repetidas vezes, assim que terminou de se banhar e se vestir, porque não devia ter sido nada agradável se deparar com seu irmão parecendo um cadáver na varanda ao chegar em casa. Ele não recebeu qualquer resposta que fosse além de um dar de ombros, um sorriso e um copo cheio de xarope caseiro até a metade.
~o~
O resfriado não recuou, como era de se esperar. Muito ao contrário, ele acordou na manhã seguinte com o nariz carregado e com a mãe o obrigando a pôr um termómetro debaixo do braço, pois aparentemente entrara ali e pusera a mão em sua testa sem que ele sentisse, o que estava muito errado, já que normalmente acordaria com o som da porta se abrindo.
Sua temperatura estava em 37ºC, e Aloá ligou para um médico conhecido e comprou remédios antes de ir para o trabalho. Ela anotou os horários que devia tomá-los no quadro branco, de cerca de 10 por 15cm, que tinha no seu quarto, junto com os antidepressivos, antipsicóticos e os outros dois que ajudavam nos efeitos colaterais, escreveu seus nomes ao lado e lhe jogou duas caixas de lenços e o obrigou a tomar mais meio copo de xarope após dizer-lhe pela quinta vez para não ousar levantar e ir para a escola.
Ele havia aprendido a lição no dia anterior, sinceramente.
Mesmo assim se levantou, tomou banho, foi até a sala pegar o laptop e voltou a se enrolou nas cobertas da cama, ficando sentado e apoiando o objeto nas pernas, pois quando se tem insônia, não é como se fosse simplesmente voltar a dormir depois de ser acordado fosse uma opção e ele não queria mais remédios, obrigado, pois parecia que mais um pouco e teria uma overdose.
Acessou o site do RPG online de Game of Thrones, cuidando de “suas terras” por cerca de quinze minutos, até que Leon abrisse a porta e o mandasse dormir, avisando que estava de saída e perguntando como estava. Então estava entediado do joguinho, e fechou a aba em que ele estava, encarando o desktop como se a culpa de não ter o que fazer fosse dele.
Desligou o aquecedor e desceu as escadas com suas cobertas e o laptop, pondo-os no sofá e indo até a coleção de DVDs, escolhendo O Corvo (pois que havia de mal em um pouco de Edgar Allan Poe?), pondo-o para rodar e se acomodando confortavelmente para ver o filme. Ele passou uma manhã preguiçosa desenhando pessoas, apenas de um ponto abaixo das clavículas até o meio do nariz, com os lábios costurados, e por fim decidiu que não seria nada bom se alguém da família visse aquilo e cortou as folhas em pedacinhos e jogou-as no lixo da cozinha.
Era lá pelo horário do almoço quando seu celular apitou e ele esfregou os olhos, indo até ele com a certeza de que era a mãe o mandando ir comer, e se deparou com o nome de Santini ao lado do ícone que indicava uma nova mensagem, paralisando-se com o aparelho nas mãos por alguns minutos até ter coragem de desbloquear a tela e ler o que estava escrito.
Era algo simples, apenas um “Aconteceu alguma coisa? =/”, mas ele passou cinco minutos inteiros pensando no que responder, se dizia a verdade ou fingia que apenas se atrasara, antes de enviar algo sobre estar resfriado, recebendo um “Melhoras, então o/” muito rapidamente, que fazia parecer que o garoto deixara o celular na tela da conversa pelo tempo em que Shey hesitava, mas que devia ser apenas prática em digitar no teclado do celular.
O loiro passou o resto do dia assistindo seus episódios favoritos de Game of Thrones e vendo imagens de obras de arte dos movimentos Surrealista e Expressionista, pois quando tentara estudar para matemática parecida que os números estavam dançando em sua frente e ele sentiu a cabeça rodar pelo esforço de pensar. Também tomou muito chá, já que a mãe lhe mandava mensagens de hora em hora mandando que o fizesse, e que engolisse mais um gole de xarope, pelo que era grato, pois quando chegou o horário que deixava a escola a dor de garganta já era quase nula, mas ainda fora um pouco irritante.
Santini lhe ligou alguns minutos depois de ter ido se obrigar a comer biscoitos de água e sal para o lanche, e ele encarou o visor com aquela mesma insistência surpresa e assustada antes de apertar o botão verde e atender, no que ele tinha quase certeza ter sido um pouco antes da ligação expirar. Aproximou o celular da orelha lentamente, embora ouvisse o outro chamá-lo e perguntar se estava sendo ouvido, do outro lado.
— Alô? — pronunciou, com a voz tensa, ouvindo-o soltar um barulho de contentamento por finalmente ter sido respondido.
— Shey? Sua voz tá um lixo, cara. — comentou, com uma risada despretensiosa. — Tá muito ruim?
— Hmm... não, eu acho que não. — contestou, mesmo que, a exceção da garganta, que melhorara consideravelmente, todo seu corpo ainda estivesse dolorido e a febre não houvesse realmente recuado.
— É muito azar ficar assim logo um dia antes do aniversário. — era mais irresponsabilidade e falta de senso que qualquer outra coisa, mas o loiro soltou um som de concordância. — O Daniel ficou insistindo pra eu te passar nomes de comidas que ajudam nessas coisas, no almoço, mas aí eu achei que você podia estar dormindo e convenci ele a não te mandar nada. Você deve receber uma mensagem aleatória com uma lista de coisas a qualquer momento, então esteja preparado. — ele avisou, soltando uma risada nasal ao fim, mas não parecia estar brincando, então o loiro franziu um pouco o cenho, estranhado.
— Eu, hn, estava só vendo Game of Thrones e meio que já tenho xarope caseiro, então... devo ficar bem?
— Xarope caseiro também tem gosto de sangue de zumbi, como os industrializados? — ele questionou, soando pensativo, e Shey comprimiu os lábios por um segundo antes de trocar o celular de ouvido.
— São melhores, mas eu não acho que os xaropes industrializados são tão ruins assim. Quero dizer, isso não seria, tecnicamente, sangue humano podre? — ele ouviu Santini rir um pouco do outro lado, e quase podia vê-lo desviar os olhos para o chão por um segundo, como praticamente sempre fazia ao soltar essas risadas breves.
— Foi só uma brincadeira, mas é, sangue humano podre deve ser pior que xarope. Existem algumas coisas não-podres que são piores que xarope.
— Ah.
— Mas não foi pra isso que eu liguei! — ele exclamou, quase como se repreendesse alguém. — Você vem pra escola amanhã?
— Eu... acho que não...?
— Então eu posso passar aí na sua casa pra te dar os parabéns? — Shey engoliu em seco, sem saber ao certo o que fazer, afastando o celular um pouco do ouvido para tomar uma respiração profunda sem que o outro notasse. — Shey? Se não der não tem problema, cara.
— Não é isso... não é como se fossemos fazer algo. Não vai ter nenhuma festa, nem nada do tipo... provavelmente só... vamos ver um filme, ou algo assim.
— Ah, não tem problema, se for só por isso. Eu só quero passar aí, falar contigo, te entregar o seu presente e aí eu vou embora.
— P-presente? Não precisa comprar presente nenhum! Como eu disse, não é nenhuma festa ou... ou...
— Olha. — o outro interrompeu, em um tom quase divertido. — Lógico que não precisa. Ninguém disse que precisa. Mas essa é a mágica dos aniversários, caramba. Eu vou te dar alguma coisa.
— Mas nós realmente nos conhecemos há pouco tempo e—
— Caara! Se você não quiser que eu vá na sua casa—
— Não é isso, é que...
— Eu não vou e te entrego outro dia. Mas agora eu já até comprei, então já era, sério.
— Eu não queria te fazer gastar dinheiro comigo, sinto muito, realmente...
— Não, você tá fazendo isso errado. — Santini retrucou e soltou uma breve risada. — Nesses casos a gente agradece, e tal. Só não faz isso agora! Isso seria estranho. Deixa pra amanhã, sei lá. Eu posso ou não ir aí, por sinal? Se você não quiser não tem problema nenhum, eu juro.
— Pode. Eu só, hm... eu estou resfriado, e não vai ter uma festa...
— Você já disse isso.
— Ah.
— Valeu, então. Até amanhã, eu acho. Agora vou ter que desligar. Ainda tenho que sair pra comprar o seu presente, e tal.
— Mas você disse que—
— Tchau!
Ele afastou o celular do ouvido, encarando-o com algo de indignação por alguns segundos antes de o pôr de volta no bolso e sair da cozinha, rumo ao sofá novamente. Acomodou-se nas cobertas, deu play em Game of Thrones e assoou o nariz em um dos lenços, o jogando na sacola plástica que pusera perto do sofá e soltando um resmungo involuntário.
Felizmente, não demorou muito mais para Leon chegar em casa e ele, ainda encolhido no sofá, observou o irmão retirar os tênis após um cumprimento baixo e então andar até ele e pôr a mão em sua testa, fazendo um careta.
— Ainda tá quente. — comentou, e então olhou para a TV, revirando os olhos. — Acho que você tá viciado nessa coisa.
— Não é minha culpa. — retrucou, e puxou outro lenço para tornar a assoar o nariz, amaldiçoando-o mentalmente enquanto o fazia. O papel sujo seguiu o mesmo caminho que o outro, indo direto para dentro da sacola, e Leon deixou escapar um som de asco, seguido de uma risada.
— Que nojo. — ele zombou. — Chega de Game of Thrones, vai. Vamos mudar pra Breaking Bad, pelo menos.
— Tudo bem. — o mais novo concordou, mas não se moveu no mais absoluto. — Hn, ei... — ele chamou, sentando-se e pausando a série, encarando o irmão com hesitação.
— Que foi?
— Hn, é que... o Santini meio que... vai vir aqui amanhã.
Ele viu o rosto de Leon mudar de surpresa para um sorriso cheio de significados em menos de cinco segundos e ouviu a própria voz enquanto dizia aquilo. Só então sua mente pareceu processar plenamente o que ele estava fazendo, porque a ideia era parar de sentir algo por aquele garoto, não deixá-lo visitar sua casa em seu aniversário. Então ele teve uma reação tardia e sentiu-se arregalar os olhos um pouco, a um passo de entrar em pânico.
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