–Leoooooooonidas...-Jean chamou, virando na cama de repente e caindo com tudo no chão, batendo a cabeça com força e xingando alto. Onde... Onde estava? Sua cabeça latejava. Leonidas se mexeu na cama, esfregando os olhos, olhando em volta.

Um barulho irritante e repetitivo era ouvido. Batidas? Será que era...?

–Ah, merda!-Leonidas exclamou de repente, levantando-se de uma vez, quase tropeçando, indo até a porta da casa e quase tendo um ataque, voltando ao quarto rapidamente.-Jean, se esconda.

–Hã...? Eu acho que...-Levou uma mão até a boca de repente, como se fosse vomitar. A cabeça girava, doía, e não estava se sentindo nem um pouco bem, mas antes de pensar em alguma coisa, Leonidas lhe puxou pelo braço e praticamente lhe jogou dentro do guarda-roupa.

–Faça silêncio senão eu quebro seu braço, ouviu?!-Falou num tom urgente, fechando as portas do guarda-roupa, que era grande e espaçoso o bastante para Jean se encolher ali sem dificuldade, a mão ainda na boca. Mas o que...

Então ouviu alguém falando em francês, o barulho da porta sendo aberta e outro homem falando em francês entrando. O primeiro deveria ser Leonidas. As vozes continuaram, soando altas, até que Leonidas voltou a entrar no quarto, largando-se na cama enquanto o outro homem falava algo mais ou menos como:

Vous êtes sûr que vous êtes seul? qui étaient ces vêtements là-bas?–O segundo homem perguntou. Jean tentou ver pelas frestas do guarda-roupa: era um homem mais velho. Seria o tio de Leonidas?

–J'en suis sûr. les vêtements sont de moi.–Leonidas respondeu. A voz dele soava tão... Bonita falando francês. Dava uma espécie de status a mais...

O homem pareceu soltar uma bufada irritada, então falou mais algumas coisas com Leonidas e voltou a sair do quarto, seguido pelo moreno. Tão logo que Jean ouviu o barulho da porta abrindo e se fechando novamente, saiu do guarda-roupa, caindo no chão, amargando ali. Maldita dor de cabeça, ressaca...

Leonidas voltou marchando ao quarto, caindo sentado na cama, cabeça entre as mãos. Suspirou fundo e então encarou Jean, o peito do ruivo subindo e descendo rapidamente.

–Mas que foi isso?-O menor perguntou então.

–Meu tio cortaria minha mesada de novo se encontrasse outro garoto no meu quarto.-Leonidas suspirou, apoiando a palma numa das mãos, cotovelo sobre o joelho. Jean se sentou, encarando o moreno.

–Como assim?

–O quê?

–Como assim “garotos no meu quarto”?-Jean franziu o cenho, ignorando a dor e o enjoo da ressaca.

–Garotos. No. Meu. Quarto. Provavelmente seminus.-Deu de ombros, revirando o olhar, passando a mão pelos cabelos então.

–Você é gay?! Mas como assim, você é gay de verdade?!

Leonidas revirou o olhar novamente, dando de ombros, levantando-se da cama para ajudar Jean a se levantar e então pegar uma muda de roupas no guarda-roupa. O ruivo ainda encarava o maior daquela forma extremamente surpresa, sem entender. Como assim?! Como assim ele podia ser gay, quer dizer, ele era quase a personificação da masculinidade e...

–Mas, calma, você... Você não gosta que as pessoas toquem em você, então... Então como você pode dormir com elas e...?

–Elas não tocam em mim. Amarro as mãos delas. Mas de qualquer forma...-Leonidas voltou a revirar o olhar pela terceira vez seguida, deixando o quarto.-Vou tomar um banho, e você devia trocar de roupa.

–Mas...

Ele já tinha ido, porém. Jean resmungou, cambaleando até as roupas que... Que ainda estavam na entrada da casa. Ainda estavam molhadas. Será que tinha problema ficar vestindo as do moreno enquanto isso? As pegou do chão, estendendo na varanda, acessada por uma porta na cozinha.

Fazia sol lá fora, devendo ser não muito mais do que umas nove horas da manhã. Voltou para a cozinha, abrindo a geladeira, a barriga roncando. O eletrodoméstico estava meio vazio, mas ao menos, mais cheio do que a sua própria geladeira. Tirou uma maça de dentro e começou a comer, sentando-se no sofá, quase deitado. A cabeça giraaaavaaaa...

–Vá se banhar, eu faço café pra você.-Leonidas de repente surgiu no corredor, toalha nos cabelos, molhados, vestindo uma bermuda e uma regata novamente. Novamente, as cicatrizes nos braços estavam expostas, mas Leonidas parecia estar bem confortável com aquilo naquele momento.

Jean se levantou e foi, no banheiro encontrando uma muda de roupas para si, roupas que, claro, eram do moreno.

Fechou a porta e começou a se despir novamente, tentando se lembrar do que tinham feito na noite passada, mas não lembrava tudo exatamente. Tinham ido para um barzinho e Jean bebera e... Passara a noite com o moreno, mas eles não chegaram a fazer “alguma coisa”, claro que não. Só dividiram a mesma cama. E quando foi de manhã, Jean ainda estava colado ás costas do outro, mas... Nada de mais.

Bem, ao menos conseguira tocá-lo e... O coração palpitou. Conseguira tocá-lo. Por quanto tempo esperara por aquela oportunidade, de... sentir a pele dele e...

Apoiou a cabeça contra os ladrilhos. Oh. Estaria... gostando dele? Bem, seria uma boa forma de explicar todo aquele fascínio pelo moreno, mas... Não devia gostar dele, quer dizer, Leonidas não era a pessoa mais legal do mundo, tampouco a mais afetuosa...

Jean já tinha ficado com alguns garotos na Europa, ainda que preferisse as garotas, mas nunca ficara com um homem mais velho ou... sequer sentira vontade. Geralmente era porque ia no embalo das festas e... Mordeu o lábio. Bem...

Tomou banho rapidamente e deixou o banheiro quase dez minutos depois, vestido nas roupas emprestadas do outro, menores do que as da noite anterior. Encontrou Leonidas de frente ao fogão na cozinha, fazendo o que parecia ser ovos e queijo assado.

Jean sentou-se a mesa já posta e esperou, abrindo um pedaço de pão para si, enquanto Leonidas apagava o fogo e colocava a frigideira sobre a mesa, sentando-se então. Ambos começaram a comer em silêncio, devagar. Ambos de ressaca.

–Que dia é hoje?

–Domingo.-Leonidas respondeu.

–Sei...-Disse antes de continuar a comer, dando graças pelo carboidrato que logo entraria em sua corrente saanguínea antes que começasse a ter hipoglicemia pelo álcool. Seu fígado estava quase se rebelando pelo mesmo motivo.-Então...

–O que é?

–Você é gay.

–De novo com isso?

–Sim, é que é algo muito...! Imagine se alguém descobrisse no colégio e...

–Não mudaria nada.-Deu de ombros, terminando de comer, acomodando-se melhor na cadeira.-Ninguém fala comigo naquele lugar, se soubessem sobre mim, não mudaria nada.

–Mas... Bem, é porque eles têm medo de você, mas...-Jean estava falando, percebendo o olhar de Leonidas sobre si, que tinha algo como “eu já sei o que você vai dizer” na cara. Mas então o ruivo sorriu e deu de ombros.-Bem, mas está bem assim. Se você não quer, ok. Você não é um psicopata, é?

–Não.

–Então está tudo bem.-Voltou a dar de ombros, terminando de comer logo depois.

–Você contraria todos os psicólogos que já me examinaram.

–Nenhum deles era adolescente. Ou jovem adulto, tanto faz.-Jean sorriu, levantando-se da mesa e recolhendo a louça, pondo-a na pia, lavando-a devagar, enquanto Leonidas lhe ajudava.

Não muito depois, estavam saindo dali. Pelas ligações em seu celular, Jean estava supondo que seu pai realmente sentira sua falta, ou pelo menos se assustara ao achar a cama do seu quarto vazia e não com o filho dormindo.

Caminharam então, aproveitando o dia quente para dar uma volta em Copacabana.

Nenhum tinha pedido para passar o dia um com o outro, mas estav a instrínseco que, aparentemente, era melhor dar uma volta do que ficar no tédio em casa.

Como Jean era muito branco, Leonidas também teve que lhe emprestar um chapéu e óculos escuros, e era uma graça a atenção que eles chamavam: um moreno, o outro muito branco, alto e baixo, magro e forte, cabelos controlados e uma juba.

No final das contas, quando era perto da hora do almoço, Leonidas foi deixar o ruivo em seu apartamento. Parado do lado de fora, olhou em volta, esperando que ele subisse.

–Você entrega minhas roupas depois, não tem problema.-O moreno disse, mãos nos bolsos, a cara mal-humorada, mas Jean sabia que não era mal-humor. Aquela era a cara de sempre do moreno, apenas.

–Tudo bem.-Jean deu de ombros, suspirando. Estava com fome, a barriga roncava, a cabeça ainda latejava e estava morrendo de vontade de se largar numa cama e passar o resto do dia dormindo, mas... ao mesmo tempo...-Você quer subir?

–Não, tenho que ir. Meu tio vai passar lá em casa de novo mais tarde.-Leonidas respondeu, mãos nos bolsos. Era engraçado porque, de relance, Jean sempre via a cicatriz na palma do moreno, e se lembrava do murro que ele lhe dera e da noite em que fora assaltado e...

–Bem, então, até segunda? Te entrego suas roupas no colégio. Ah, e obrigado por me deixar passar a noite na sua casa, Leonidas.

–Não há de quê.

O moreno se virou para ir então, andando alguns metros até Jean morder o lábio e subitamente correr, quase tropeçar, agarrar o braço do outro a tempo de virá-lo para si e colar os lábios nos dele, ficando de ponta de pé. A boca de Leonidas era macia, quente, como todo o corpo dele, mas logo sentiu uma mão apertando seu queixo, afastando seu rosto.

Os olhos azuis brilhantes, tão claros, do moreno estavam sobre si. Nada amigáveis, mas além da irritação, havia algo mais ali. Surpresa? Confusão? Apenas largou o ruivo e saiu andando, os passos mais rápidos do que antes.

Jean ficou olhando ele ir embora. Nem sabia porque tinha feito aquilo, mas sentira uma vontade e... bem, ele era gay, não devia se importar tanto assim e... Levou uma das mãos até os lábios, tocando-os devagar. Ainda conseguia sentir o calor da boca do outro.

– — — — — — — — — — — — — -

Jean esperou Leonidas chegar no refeitório na segunda-feira, mas ele não apareceu. Aliás, durante a semana que se seguiu, ninguém viu o moreno no colégio. Jean começou a estranhar, até pensou e ir até a casa dele... Será que ele teria ficado tão irritado assim? Será que era tudo por causa do beijo?

–Cara, eu não te disse? O Leonidas às vezes some de repente. Ele faz isso desde sempre. Tipo, passa um mês inteiro sem vir pra aula e depois volta completamente normal.-Lucas disse, dando de ombros.

Mas aquelas palavras não eram realmente um consolo para o ruivo.

Aliás, quando fez duas semanas que Leonidas não vinha para aula, começou realmente a se preocupar. Se o moreno tivesse sumido só por causa daquele pequeno beijo, ah, Jean lhe daria uma boa lição! Não esperava que ele fosse tão infantil assim! Até tentou falar com ele via celular – conseguiu seu telefone depois de muito sacrifício – mas Leonidas não atendia.

Quando deu três semanas, Jean respirou fundo e assim que terminou a aula, foi até a casa do moreno, de carro, dessa vez. O motorista foi consigo enquanto Jean tentava ao máximo se lembrar das ruas por onde passara semanas antes, até achar a casa pequena mas agradável, de muro alto.

Prendeu a respiração. Não podia voltar atrás, ia ter uma boa conversa com ele tolo e...! Desceu do carro e pediu para o motorista esperar, deixando a mochila dentro do automóvel enquanto ia até a porta, já que o portão estava aberto de forma meio... estranha. Quase arrombada.

Apertou a campainha, mas ninguém veio, ainda que Jean ouvisse vozes altas soando de dentro. Um minuto depois, apertou de novo, e dessa vez, seu coração deu um salto: vozes. Era alguém gritando alto, uma voz rasgada, tensa, extremamente irritada, e gritava em português.

Jean lambeu os lábios. Aquela voz não era de Leonidas.

Mas para sua surpresa, viu a porta ser aberta de repente, mas não totalmente. Leonidas, ou metade de seu corpo, apareceu. Um braço estava numa tipoia, e o outro segurava a porta como que para previnir qualquer tentativa de Jean entrar.

–Leonidas, o que...

–Vá embora, Jean.-Leonidas disse então, a voz completamente informal, completamente rude e ao mesmo tempo, impessoal. Rouca. A voz estava rouca como se ele tivesse morrido de gritar horas antes. Aliás, estava suado, os cabelos, revoltos mais do que o costume.

–V-Você está bem? Seu braço, e... Você faltou três semanas de aula e...

–EU MANDEI VOCÊ IR EMBORA! VÁ EMBORA!-Leonidas gritou, a voz rasgada, os olhos brilhando de forma estranha. Devia doer, o braço na tipoia devia doer. Ele tinha quebrado? Ele tinha...?

Jean recuou, sem entender por que toda aquela agressividade, mas então avançou, pondo a mão na porta como se quisesse abri-la.

–Não! Eu vim até aqui e vou falar com você, quer você...!

–Pelo amor de Deus, Jean, vá embora...-E no instante que a voz soava não como um comando, mas como um lamento, Jean ouviu a outra voz novamente e viu quem era seu dono.

–LEONIDAS, VOLTE AQUI, SENÃO DESSA VEZ EU QUEBRO SUA PERNA, SEU FILHO DA PUTA!-Soou, rasgada, a porta se abrindo de repente. Um homem estava atrás de Leonidas, mais baixo que ele, porém. Fisionomia parecida, mas os olhos eram castanhos, não azuis. A pele, porém, era morena, como a de Leonidas.-Mas que porra você... Hah! Um coleguinha, é?! Mas por que você não coloca ele pra dentro?!

–Ele já está de saída. Jean, vá embora.-Leonidas voltou a repetir, encarando o ruivo, que nem conseguia se mexer direito. Aquele era o pai de Leonidas, não era? O ex-presidiário? O que ele estava fazendo ali? Bem, tudo bem ele estar fora da cadeia, mas o que ele estava fazendo ali? E o que diabos dissera com “dessa vez quebro sua perna”? Jean sentiu uma cólera surgir em seu peito, o coração a mil.

–Não. Eu vim pra falar com você, já faz três semanas que você não vem pra aula e eu estava preocupado e...

–HAH, PREOCUPADO!-O homem riu alto, claramente fazendo chacota do que Jean dissera.-Tudo bem, moleque, olha, vá embora mesmo. Leonidas, volte pra dentro e limpe a bagunça que você fez, anda.

O moreno deu as costas ao ruivo, quase fechando a porta quando Jean, pensando rápido, praticamente se jogou sobre ele e entrou na casa, o rosto avermelhado. Estava irado!

–Não, não senhor, não. Leonidas, eu quero e vou falar com você. O senhor, senhor pai do Leonidas, já deve saber que seu filho já é maior de idade, mora sozinho e se não precisa da ajuda do senhor, então não entendo por que motivo o senhor estaria aqui!-Jean exclamou, gesticulando. Leonidas, entre o pai e o ruivo, não disse nem fez nada. Aliás, parecia incrivelmente tenso.

O pai de Leonidas mexeu na barba malfeita, sorrindo de forma estranha.

–Moleque, seguinte: última chance. Se você não for embora agora, eu quebro seu braço também, agora saia da minha casa!

–Essa casa nem é sua!-Jean exclamou, encarando Leonidas.-Foi ele que fez isso com você?! Seu próprio pai fez isso com você?! E você deixou?!-Jean continuou, apontando para o braço na tipoia do moreno, que estreitou e desviou o olhar, ainda sem falar nada.

–Que porra você tá falando, moleque?! Saia daqui! Vá embora! Ninguém te quer aqui, não!-O homem voltou a gritar.

Jean avançou em sua direção, punhos cerrados, enquanto Leonidas recuava até bater as costas na parede, o braço pendendo na tipoia azul, o outro, com a mão fechada em punho também. As veias saltavam pela força que fazia.

–Que vai fazer?! Vai me bater, moleque?! Quer que eu te dê uma surra?!

–EU QUE VOU TE DAR UMA SURRA! COMO VOCÊ PODE?! ELE É SEU FILHO!

–É O MEU FILHO E POR ISSO EU FAÇO O QUE QUERO COM ELE, AGORA SAIA DESSA CASA!

–A CASA NEM É SUA! SAIA VOCÊ! VOCÊ DEVIA ESTAR PRESO AINDA! É UMA VERGONHA, NÃO PASSA DE UM HOMEM DESPREZÍVEL!

–SEU MOLEQUE FILHO DA PUTA...!-O pai de Leonidas gritou, erguendo um punho de repente, e teria facilmente atingido Jean com tudo no rosto se Leonidas não tivesse segurado seu pulso bem no momento, e empurrado o velho para longe.

–Não toque nele.-O moreno disse, a voz incrivelmente tensa, entre Jean e o outro homem.-Não ouse tocar nele.

O mais alto então estreitou o olhar, agarrou o pulso do ruivo e o puxou para fora da casa, andando a passos largos, ignorando os gritos do pai de Leonidas, cheios de ameaças e xingamentos, continuando a andar.

Jean quis dizer que seu motorista estava logo ali, mas mesmo quando falou, Leonidas não lhe ouviu. Ele praticamente marchava para longe, arrastando o ruivo consigo. Ainda bem que seu celular estava no bolso, então poderia falar com o motorista depois e...

Passaram uns quinze minutos andando antes de Leonidas entrar numa rua mais estreita, largar a mão de Jean e subitamente chutar vários sacos de lixo. O cheiro dava náuseas ao ruivo, mas mais do que enjoado, ele estava preocupado com o moreno.

–EU TINHA MANDADO VOCÊ IR EMBORA!-Leonidas gritou, chutando outros sacos, largando um soco na parede de concreto, extremamente irritado, como se só naquele momento estivesse colocando toda a raiva pra fora.

–Eu sei, desculpe, é que eu...

–TOLO!-Leonidas exclamou, gritando de raiva, quebrando o que tinha para quebrar do lixo, até parar, as costas apoiadas na parede. Ofegante.

Jean só conseguia olhar para ele, sem fazer muita coisa. Antes, teria sentido medo de toda aquela raiva, mas agora, sentia pena e compaixão. A vontade que tinha era de abraçá-lo e dizer que estava tudo bem.

–Desculpe. Eu não devia, mas é que... Eu achei que algo tivesse acontecido. Posso me aproximar?-Jean perguntou, o coração acelerado, enquanto Leonidas soltava um murmúrio estrangulado e deslizava as costas pela parede até cair sentado no chão. Estava escuro, a única luz que havia era a do poste logo no começo do beco.

Jean se aproximou então, agachando-se a frente do moreno, pegando a mão que antes ele tinha esmurrado a parede.

–Você feriu. Olha só, está sangrando...-Jean suspirou. Era a mesma mão que Leonidas tinha ferido bem antes, várias semanas antes. A cicatriz em sua palma ainda estava ali.-Leonidas, meu pai viajou a negócios. Vai passar um mês fora. Quero que fique no meu apartamento até seu pai ir embora. Podemos chamar a polícia, podemos...

–Não se meta nisso.-O moreno disse. Jean lhe devolveu o olhar, mas então percebeu que aquele tom de voz não era de quem queria que ele estragasse alguma coisa, e sim, de preocupação. Era como se Leonidas temesse pelo ruivo.

–Não posso deixar você assim. Pelo menos hoje. Por favor, eu não... Desculpe, mas eu quase que parti para brigar com seu pai. Desculpe de novo, mas ele é um homem horrível, e...

O moreno então riu baixo, balançando a cabeça. Jean franziu o cenho. Não entendia por que ele estava rindo, mas... era a primeira vez que o ouvia rir daquele jeito, tão... de perto. Mordeu o lábio. Estavam no escuro e por isso temia que, quando voltasse a luz, Jean visse que o braço na tipoia não era a única coisa ferida no corpo do moreno.

–Ele não quebrou meu braço, aliás. Apenas luxou de leve, vai sarar logo. Me ajude a levantar.

–Tudo bem.-Jean assentiu, engolindo em seco e segurando a mão boa do maior antes de puxá-lo para cima, pondo-o de pé. Leonidas respirou fundo então, encarando algum ponto na rua.-Leonidas... Você é maior do que ele, você...

–Chame seu motorista. Preciso de um banho, você me ofereceu seu apartamento.-O moreno disse, e por mais que o ruivo quisesse voltar ao assunto do pai dele, depois de ter sido cortado, achou melhor esperar.

Ligou para o motorista e não muito depois, voltavam para o apartamento do ruivo.

– — — — — — — — — — — — — -

–As roupas ficaram bem em você.-Jean disse, sentado no sofá, abraçando as pernas. Leonidas deu de ombros, sentando-se na poltrona logo a frente. As roupas que o menor lhe emprestara até lhe serviam bem, mesmo que justas aqui e ali.

A televisão estava ligada.

Depois que chegaram ao apartamento, jantaram e lavaram a louça. Jean evitou tocar em algum assunto pesado, e agora, depois de ambos terem tomado banho, ambos estavam ali, na sala, sozinhos.

O apartamento de Jean era bem vestilado, e uma brisa agradável sempre corria pelo cômodo. O ruivo estava pensando em comentar sobre o clima quando Leonidas então suspirou, alcançou o controle remoto e desligou a televisão, encarando o menor.

–Pergunte o que quiser. Você já viu meu pai, então.-Deu de ombros, passando a mão pelos cabelos, ainda meio molhados do banho.

Jean mordeu o lábio.

–Sério? Posso perguntar o que eu quiser?

–Sim, mas se apresse, estou com sono.

–Essas... cicatrizes nos seus braços, são de onde?

Leonidas suspirou, massageando as têmporas então. Falar sobre aquilo não era exatamente fácil, mas já tinha dito que ia falar, então era melhor falar. Limpou a garganta então, estendendo o braço bom sob a luz, já que o outro continuava na tipoia.

–Minha mãe casou com meu pai e me teve. Teve alguns problemas, nunca fui atrás para saber, mas mataram minha mãe quando eu tinha dois anos. Depois disso, meu pai me criou até os dez anos. Nesse meio tempo, ele quebrou meu braço esquerdo três e meu braço direito, cinco vezes. Também quebrou duas costelas minhas e fraturou outros ossos.-Leonidas deu de ombros, como se não fizesse mais diferença.-Quando eu tinha dez anos, meu pai acabou preso e meu tio virou meu guardião e me criou até os dezesseis. Depois, me deu aquela casa e agora só me manda dinheiro pra eu me virar. Não acho ruim, na verdade. Ele se importa comigo, mas ainda tem muita raiva do meu pai porque foi por causa dele que minha mãe morreu.

–Leonidas...-Jean murmurou, sem acreditar. Oito vezes... Fazer isso com uma criança, era absurdo, era desumano, era...

–Meu pai fazia isso porque eu estava sempre me metendo em confusão. Nunca fui muito quieto. Não estou defendendo meu pai, odeio aquele homem, mas não me surpreende a forma como ele me espancava.

–Mas... Por que você nunca fez nada? Quer dizer, você podia ter pedido ajuda, denunciado e...

–Meu pai disse que quebraria minha garganta se eu contasse a alguém. Para uma criança que tinha um dos braços quebrados ao menos uma vez por ano, isso soava bastante real.

–Mas e hoje? Você deixou ele fazer isso com você, seu braço e...

–Jean, se um dia eu revidar qualquer coisa que meu pai faz comigo, será para matá-lo. Não quero ser preso porque matei alguém que não vale a pena matar. Aliás, ele sempre faz isso. De tantos em tantos meses, vai até lá em casa, pede dinheiro, passa uns tempos lá e vai embora. Eu sempre fico em casa porque senão ele vende tudo ou troca por droga.

–É por isso que você às vezes some do colégio?

–Sim.-O moreno assentiu. O olhar continuava no chão conforme falava, a pose meio curvada para frente.-Logo ele irá embora novamente.

–Por que você não chama a polícia? Ele está lhe ameaçando, está agredindo você, você pode... Fazer algo, Leonidas, mas isso que ele faz com você é um absurdo. Seu tio sabe sobre isso?

–Não sei. Nunca escondi, mas também nunca falei sobre isso.-O moreno suspirou pesadamente.-Jean, não é tão simples assim... Não é fácil... Não deixar ele...

Leonidas mordeu o lábio. Não era fácil controlar a torrente de memórias que tomavam seu cérebro quando seu pai erguia a mão para lhe bater. Quando criança, só se encolhia, e seu instinto lhe mandava fazer o mesmo ainda que adulto.

Jean não entendia, e provavelmente nunca entenderia. Novamente, voltou a pensar no tipo de liberdade que queria quando o ruivo lhe convidara para posar para si.

A liberdade que queria era se ver livre das malditas torturas do pai, das memórias, do medo de quando ele erguia a mão par lhe bater, pois só de lembrar, certas partes do seu corpo já letajevam como se tivesse apanhado.

Não era tão simples fechar os olhos a noite e não ter pesadelos com seu pai puxando seu braço e pegando um porrete, batendo em seu antebraço até quebrar. Não era fácil não sentir a dor, tampouco mentir para os outros quando perguntavam de onde tinham vindo tantas cicatrizes.

A liberdade que Leonidas queria jamais poderia ser alcançada, nem com a polícia, nem com ninguém. Nenhum deles resolveria seus traumas nem apagaria suas lembranças ou sumiria com suas cicatrizes.

O moreno suspirou fundo, extremamente cansado. Devia ter ficado em casa. Seu pai podia ter posto fogo em tudo apenas para causar discórdia, e então...

Mas sentiu algo quente em sua mão, e abriu os olhos. Jean tinha posto uma mão sobre a sua, e naquele momento, sentiu o peito ficar significamente mais leve.

Jean era mais novo do que si, menor, mais fraco, mas fora o primeiroa lhe defender daquela forma diante do pai. Como ele não podia ter medo daquele monstro? Como ele podia agir de forma tão determinada? Aliás, Leonidas nem sabia como conseguira defender o ruivo de forma tão incisiva diante do pai, apenas tivera medo.

Medo de que seu pai machucasse Jean da mesma forma que tinha lhe machucado.

–Estou bem.

–Não está, não.-O ruivo reoclheu a mão, voltando a se postar contra o sofá, afundando mais no estofado.-Eu... Eu vou te ajudar, Leonidas, como eu puder. Sempre que precisar, pode vir pra cá, sem problema algum. Eu gosto de você e me preocupo. Não suma desse jeito de novo, por favor, avise antes.

O moreno assentiu, voltando a desviar o olhar. A cabeça latejava, assim como o braço na tipoia.

–Então... tem mais algumas coisas que eu gostaria de perguntar. Juro que depois disso, eu deixo você ir dormir.-O ruivo sorriu, o rosto apoiado numa das mãos, ao que Leonidas voltou a assentir.-Bem, lembra quando eu conheci você? Naquela noite que fui assaltado, você sabia onde eu morava. Como?

Leonidas suspirou. Mas ele tinha ficado com aquilo na cabeça, não tinha?

–Antes da minha mãe morrer, morávamos muito perto daqui. Conheço bem essas bandas. No dia que você chegou, eu estava dando uma volta pelo bairro, pensando em algumas coisas, então vi você descer do prédio, vestindo nosso uniforme. Ruivo, estrangeiro, muito branco. Impossível não lembrar de você.

–Sei...-Jean sorriu, levemente feliz com aquilo, encarando o moreno por alguns momentos. As cicatrizes em sua pele, agora as entendia. Marcas de um passado terrível, deveria ser por isso que Leonidas não gostava de ser tocado. Qualquer toque deveria primeiro lhe trazer a lembrança de dor e só depois, de afeto. Talvez fosse por isso que ele também não gostasse de médicos, e deveria ser pelas mesmas cicatrizes e pela aversão aos toques de estranhos que no colégio o moreno sempre usasse mangas longas e a gola, alta.

–Posso ir dormir, agora?

–Eu... queria fazer mais uma pergunta.-O ruivo mordeu o lábio então, mudando de posição no sofá, as mãos juntas e entrelaçadas sobre o colo.-Acho que pareço meio insensível, preocupado com algo assim quando você está tão cheio de problemas e...

–Diga logo o que é.

–Eu te beijei, da última vez. Lembra? Há várias semanas? O que você... achou?-Perguntou então, a respiração acelerada assim como o coração, encarando o moreno com aquele ar exasperado de quem esperava pela resposta.

Leonidas ficou em silêncio. Parecia morder o lábio.

–Você não beija bem.-Acabou por responder, encarando o ruivo de volta com um ar solene, embora tenso.

–Eu não... Isso não é verdade.-Jean franziu o cenho.-Eu beijo bem, sim. Todas as pessoas que já saíram comigo já disseram que...

Mas antes dele terminar, Leonidas se levantou da poltrona onde estava e foi até o menor, curvando-se sobre ele, erguendo seu rosto. A palma do moreno segurou seu queixo com certa força, e então, o toque os lábios.

O beijo era quase rude. Experiente. Leonidas invadiu a boca do menor, as salivas se misturando, sentindo o toque da língua enquanto Jean, de então olhos fechados, ficava quase sem reação, até o moreno se afastar, limpando a saliva da boca com as costas das mãos.

–Isso é um beijo bom. Agora vou dormir.-Leonidas deu um pequeno sorriso, ajeitou a postura e se afastou, indo até o quarto de hóspedes já arrumado para si, enquanto Jean continuava no sofá, estático.

Ele... Tinha lhe correspondido, então? Claro, porque senão ele nem teria lhe beijado, e sincero do jeito que Leonidas era, se ele não tivesse gostado, teria dito na cara do ruivo e... Levantou-se quase de uma vez, indo até o quarto do outro, abrindo a porta de repente e achando o moreno sentado na borda da cama, se preparando para dormir.

–Leonidas, o que... Você... E-Eu...-O ruivo falou, parado ao lado da porta aberta, a mão ainda na maçaneta, enquanto o moreno lhe encarava com aquele ar de “fale logo senão vou dormir”.-Você... Eu quero que pose para mim. Eu quero um quadro seu, só para mim.

–Vou pensar no seu caso.

–Não, eu quero. Eu quero, de verdade, eu quero... Você. De verdade.-Mordeu o lábio.-Eu sei que você não é a pessoa mais afetuosa do mundo nem a mais gentil nem a mais carinhosa, mas... Eu quero você, muito. E eu... quero seus beijos também, e suas mãos. Quero tudo.

–Até os traumas?

–Até os traumas.

O moreno desviou o olhar, parecendo pensar.

–Eu até deixo você amarrar minhas mãos, se quiser.-Jean riu, meio nervoso, fazendo Leonidas erguer o olhar novamente.

–As suas mãos, eu não as amarraria.

Notas finais
Eles são ou não são o casal mais gracinha do mundo? Bem, eu acho que são. Reclamações? Sugestões? Críticas? Elogios? O que acham de mandar uma review? Aquece o coração da autora e ainda faz bem para o de vocês ~