You have my lion heart
4 Capítulo 4
Leonidas certamente não era a pessoa mais gentil do mundo, mas cada vez que passava tempo junto com o ruivo, este último entendia que, na verdade, o moreno estava tentando mudar. Deviam ser, quem sabe, o casal mais estranho dentre muitos. Não andavam de mãos dadas, não trocavam carícias nem passavam o tempo todo mandando torpedos um para o outro, tampouco falavam para quem quer que fosse sobre estarem “namorando” ou algo assim.
Nenhum falou em namoro, ficar ou semelhantes, apenas existia o fato que Jean gostava de ficar perto do moreno e do jeito dele – e simplesmente amava quando Leonidas tentava fazer algo mais “gentil”, como pegar em seu cabelo ou arranhar seu pescoço, só para depois fingir que não tinha feito nada – e Leonidas, gostava de Jean porque Jean suportava seu jeito rude e não se importava quando, nas conversas, tudo que o moreno dizia eram monossílabos.
Embora, nas semanas que se seguiram, estivessem conversando bem mais.
Claro, Leonidas ainda afastava as mãos de Jean de vez em quando, principalmente quando os beijos ficavam quentes demais. Nessas horas, o moreno seguraria ambos os pulsos do ruivo e manteria as mãos dele longe de si, então continuariam. Mas se bem que, numa das noites, o moreno pareceu deixar o fato de lado e Jean finalmente pode tocar suas costas, repletas de marcas, cicatrizes. A pele quente, ele afagou e arranhou, tanto que Leonidas parecia, aos poucos, ficar cada vez mais confortável com o ruivo.
Era, portanto, comum que ambos passassem o intervalo junto, tanto que Lucas até perguntou ao ruivo por que ele estava passando tanto tempo com o filho de um ex-presidiário do morro, mas Jean só ria e dava de ombros, murmurando um “Leonidas é muito legal, na verdade”.
O pai de Leonidas fora embora alguns dias depois daquela confusão na casa do moreno, quando Jean estivera lá. O braço do moreno também estava quase bom, tanto que dispensou a tipoia.
–Não se mexa. Sério, não se mexa, ok?-Jean sorriu, postado atrás de uma tela, encarando o moreno que estava sentado numa poltrona logo a sua frente, os primeiros botões da camisa, abertos, e a postura, displicente.
–Que seja.-O moreno bufou. Não estava lá muito ansioso para passar as próximas horas na mesma posição, mas Jean insistira tanto que, pelos céus, era melhor dar logo o que ele queria.
Finalmente o ruivo conseguira que Leonidas concordasse em posar para si, e parecia sinceramente feliz com aquilo. Quem dera ele soubesse que o único motivo para Leonidas ter concordado com o fora para ver o outro... feliz.
Eram quase nove da noite quando Jean se espreguiçou, murmurando um “pronto”. Claro, precisaria de mais algumas sessões até terminar tudo, mas cinco horas seguidas de trabalho lhe cansavam, então era melhor fazer em pausas.
–Leonidas?
–Hm?-O moreno abriu os olhos. Tinha cochilado em algum momento.
Jean riu, tirando as luvas e o avental, caminhando até o maior, que ergueu o olhar para o ruivo.
–O que está olhando?-O moreno perguntou.
–Você é muito bonito, só isso. Todas as garotas teriam inveja de mim se soubessem que está saindo comigo.-O ruivo voltou a rir, pondo uma das mãos sobre o joelho do maior, que voltou a erguer o olhar para ele.-Posso?
–...Pode. Mas cuidado, senão pode cair.
Jean sorriu novamente, subindo no colo do maior, sentado sobre suas coxas. Leonidas ergueu uma das mãos, tocando seu peito sobre o tecido. Engraçado como ele não gostava de ser tocado, mas tocar... ele adorava. Tantas vezes que sentira a palma quente do mais velho passando por seu corpo, apertando, arranhando. Era um contraste medonho.
–Leonidas...-O ruivo chamou então, curvando seu corpo sobre o dele, apoiando com as mãos sobre o encosto da poltrona, uma de cada lado da cabeça do moreno.-Estamos sozinhos.
–Sempre estamos sozinhos, tolo.
–Eu sei.-Jean riu.-Meu pai ligou pra mim ontem. Perguntou com quem eu estava me relacionando porque viu... a camisinha com nó no banheiro, sabe, no lixo. Acho que ele praticamente já sabe...
–Meu pai me daria uma surra se soubesse sobre... você. Nós.-O moreno deu um suspiro amargo.
O ruivo fez uma careta, erguendo o corpo novamente, as palmas sobre os braços da poltrona, até voltar a sorrir daquela forma terna que fazia o coração do moreno ficar tão mais leve.
–Ele não vai fazer nada com você. Eu não deixo.-Jean continuou a sorrir, tocando o rosto do moreno com os dedos finos, a mão macia, inclinando o corpo para beijar o maior então. Leonidas desceu as mãos até as coxas do outro, puxando-o um pouco mais para si. Jean sabia que, não pelo toque, mas porque Leonidas tinha medo que o ruivo caísse no chão.
Sempre achou extremamente fofo todo aquele cuidado que ele tinha com o menor, como se Jean fosse feito de porcelana ou vidro, mesmo quando era exagerado. De uma forma ou de outra, Leonidas sempre se oferecia para levar as duas mochilas quando andavam juntos, ou lhe dar seu casaco quando ficava frio (porque Jean quase sempre esquecia do seu).
Eram esses os tipos de coisa que Jean, conforme as semanas passavam, já não conseguia mais viver sem.
– — — — — — — — — — — — — -
Logo as férias de meio de ano chegaram, e a Jean foi perguntado se ele não queria passar o mês na Europa, mas negou, dizendo que preferia muito mais ficar no Rio, junto de Leonidas, que estava aprendendo a dançar valsa com o menor. Jean também estava aprendendo a lutar e a se defender com o moreno que, apesar de não parecer, quando ensinava era bastante paciente.
–Então... O que quer fazer hoje?-Jean se mexeu na cama, deitando-se sobre o peito nu do moreno, que deslizava a ponta dos dedos por suas costas, traçando linhas invisíveis na pele alva.
–Não sei. Estava pensando em sair para beber mais tarde, mas você fica só na coca-cola.
–Ah, tudo bem.-O ruivo disse, rindo baixo. Ainda estava com um leve trauma da ressaca desde que bebera cachaça pela primeira vez com o moreno.-De repente dividimos uma pizza.
–Pode ser.-O moreno bocejou. Era cedo ainda, pouco mais das dez da manhã, sábado, nas férias. Sozinhos na casa do moreno, de novo.
Jean levou uma das mãos até os cabelos do moreno então, rindo baixo quando ele automaticamente cerrou os olhos. Por mais que parecesse grande e amedrontador, Leonidas simplesmente derretia quando alguém mexia em seus cabelos. Na verdade, era a parte do corpo mais fácil de ser tocada.
–Vou dormir se continuar fazendo isso, Jean.-O moreno bocejou novamente, os olhos semicerrados, encarando o ruivo.
–Você parece um daqueles gatos grandes e gordos que parecerem odiar todo mundo, mas adoram um carinho.-Jean riu, e Leonidas estava prestes a falar quando seu celular tocou.
O moreno franziu o cenho e o pegou, sobre o criado-mudo, franzindo ainda mais ao ver quem era no visor. Engoliu em seco e atendeu.
–Alô. Ah, sim, sou eu. Não, eu... Faz tempo que não o vejo. O quê?-A feição do moreno subitamente ficou mais tensa, e ele se sentou direito na cama enquanto Jean lhe olhava de forma preocupada.-Droga... Droga, tá, tudo bem, vou ver o que faço.
Leonidas desligou o telefone então, se levantando e vestindo rapidamente uma cueca e uma calça, as peças de roupas ainda jogadas no chão.
–O que foi?-Jean perguntou, também se sentando, encarando o maior, preocupado.
–Meu pai foi preso de novo, porte de armas e drogas, pelo o que parece. Era meu tio no telefone, diz que meu pai está furioso e dizendo que alguém delatou ele pra polícia. Merda, isso vai dar tanto problema...-O moreno continuou enquanto se vestia com pressa.
–E aonde você vai?
–Vou até lá.
–Mas pra quê? Quer dizer, seu pai está preso, isso não é bom? Você dizia que a polícia não faria nada, mas olha, ele foi preso e agora vai te deixar em paz... Vai parar de te pedir dinheiro e de te machucar e...
–Eles exigem alguém da família para dados e essas coisas... Você pode ir pra sua casa, se quiser, não sei que horas volto.-Leonidas disse, terminando de se calçar, suspirando enquanto fitava o outro.-Não faça essa cara.
–Eu não... Não estou fazendo nenhuma cara. E acho que vou esperar você voltar. Não tenho nada pra fazer em casa, mesmo... Ah, eu terminei seu quadro, aliás. Demorou muito, mas ficou bem...
–Me conta depois? Tenho que ir, agora. A delegacia fica do outro lado da cidade, e os ônibus, você sabe como é.-Leonidas então saiu do quarto, deixando Jean sozinho.
Ele nunca se despedia mesmo. O ruivo ficou mais alguns minutos na cama antes de resolver tomar um banho longo, vestir uma das camisas do maior além de uma cueca, e ver televisão na sala conforme a manhã passava.
Esperava que o pai de Leonidas ficasse preso por um bom tempo dessa vez, aliás, se de repente ele nunca mais fosse solto, seria até uma boa notícia... Mas Leonidas sempre ficava tão tenso com o assunto que Jean nem tocava nele, não perto do moreno. Parecia que tinha medo do pai ainda, medo dele fazer alguma coisa.
Eram quase duas da tarde quando seu celular começou a tocar insistentemente dentro da bolsa e o ruivo atendeu, sorrindo ao ver que era Leonidas. Ele devia estar perguntando se queria que levasse alguma coisa para comer na volta – o ruivo ainda não tinha almoçado.
–JEAN, SAIA DAÍ, SAIA DAÍ AGORA!-Leonidas gritou do outro lado do telefone, extremamente tenso, enquanto Jean tentava entender porque na linha fazia um barulho enorrme.
–O quê? Leonidas? Eu não estou entendendo e...-Quando ia terminar, alguém bateu na porta. Quem devia ser? Voltou a encarar o telefone: a ligação tinha caído. Ele devia estar passando por um túnel ou algo assim, como os que haviam perto dali. Jean deu de ombros, e foi até a porta.-Quem é?
–Polícia.-A pessoa respondeu do outro lado.
–Ah, espere um instante.-O ruivo voltou ao quarto, vestindo uma bermuda antes de abrir a porta e de repente levar um susto conforme dois homens entravam de uma vez na casa, os dois armados. Um deles era o pai de Leonidas.
–VOCÊ, EU FINALMENTE ACHEI VOCÊ!-O homem exclamou, empurrando Jean contra a parede e prendendo-o ali. O mais velho estava sujo de sangue e completamente suado, além de ofegante, e segurava de forma meio descuidada a pistola na outra mão.-EU VOU MATAR VOCÊ, MOLEQUE DE MERDA!
–Quê?! Eu nem fiz nada! Mas o que...!-Jean tentou, mas levou um soco no estômago e caiu no chão, tossindo, tentando respirar. Enquanto isso, o outros homem fechava a porta e olhava toda a casa, procurando por itens de valor.
–FOI VOCÊ, NÃO FOI?! FOI VOCÊ QUEM ABRIU A BOCA!-O pai de Leonidas voltou a gritar.-FOI VOCÊ QUEM FALOU PROS TIRAS ONDE ME ACHAR!
–Eu não...!-Jean levou um chute no rosto antes de poder continuar, sentindo o lábio ser cortado, assim como a parte interna da bochecha, caindo no chão. Mas o que estava acontecendo ali?! É claro que ele não tinha falado nada para a polícia, ele nem sequer pensava mais naquilo, mas o quê...
–MESES DE TRABALHO PERDIDOS, SEU PUTO, POR SUA CAUSA! FICOU ESPERANDO A MELHOR HORA, NÃO FOI?! ACHOU QUE EU NÃO IA SABER QUE ERA VOCÊ?! EU VOU TE MATAR!-O homem apoiou o cano da arma contra a cabeça do ruivo então, e Jean gelou.
Pelos céus, não queria morrer, aliás nem sabia o que diabos estava acontecendo, só sabia que era inocente. Nunca tinha falado com a polícia sobre nada, não sabia de nada, não tinha feito nada, não queria morrer.
–NÃO FUI EU!-Jean gritou, tentando recuar, se afastar do homem, mas este voltou a lhe chutar, jogando o ruivo novamente contra a parede, no chão. Sangue manchava a camisa clara, emprestada de Leonidas, que vestia naquele momento.-Juro que não fui eu, eu nem...
–MENTIRA! EU DEVIA TER TE MATADO NAQUELE DIA, MOLEQUE, EU SABIA QUE AQUELA BOSTA DE MENINO NÃO ANDAVA COM GENTE QUE PRESTA!-O mais velho voltou a gritar. Suas pupilas estavam dilatadas, as palmas tremiam e suavam, e os olhos, vermelhos. Estava completamente drogado.
Não importava quantas vezes Jean repetisse que era inocente, aquele homem não iria lhe ouvir, bem sabia, iria lhe matar, iria lhe matar pela briga quue tiveram tantas semanas antes. Engoliu em seco. Seu celular estava na sala, e mesmo que chegasse até ele, acabaria morto.
–REZA, PORRA, REZA ANTES DE EU TE MATAR, FILHO DA PUTA!-O pai de Leonidas voltou a gritar, novamente pondo o ferro frio e negro da nove milímetros contra a cabeça do ruivo.
O que fazer? O que fazer? Não queria morrer, droga, não queria morrer! Olhou para os lados então, agindo por instinto, tendo uma ideia de resistência. Não queria morrer, lutaria até o fim.
Bateu na mão do pai de Leonidas, fazendo-o não soltar a arma, mas ao menos se desequilibrar ao ponto do ruivo se levantar e segurar seu pulso, tentando tirar a arma das mãos dele de todas as maneiras possíveis, inclusive levar a mão dele até a boca e morder com força os dedos que se fechavam em volta da arma, até ele largá-la, soltando um urro de dor.
Jean tentou pegar a arma que caiu no chão então, mas o pai de Leonidas agarrou suas roupas e o puxou, lhe dando outro murro no rosto, caindo por cima do ruivo com tudo no chão. Jean lutou por ar enquanto o peso estava todo em seu peito, levando mais socos, ferindo o rosto, sangue, o gosto de sangue na boca.
Tentou sair de baixo dele, se mover, chutá-lo, mas suas mãos deslizavam na pele suada do homem sobre si, que lhe encarava com aquelas pupilas dilatadas. Então as mãos do mais velho pararam de esmurrar o menor, e então, migraram para seu pescoço, apertando com força.
Jean contorceu o corpo inteiro, mas se antes estava difícil respirar, agora era impossível, e a sensação de desespero lhe tomava cada vez mais rápido, assim como a vista falhava. O torpor lhe tomou os membros e Jean sentiu-se esvair, tentando, ainda, com todas as forças que lhe restavam, escapar.
Não queria morrer. Não queria deixar Leonidas para trás.
Foi então que um barulho foi ouvido na rua, e segundos depois, a porta arrombada. O pai de Leonidas, acreditando que o ruivo já estava definitivamente morto, soltou o aperto e olhou em volta, se levantando no exato momento em que alguém perguntou a arma caída no chão e atirou, uma, duas, três, quatro vezes.
O corpo do pai de Leonidas caiu inerte no chão. Jean tossiu, revirando-se, sentindo dor mas dando graças por finalmente estar respirando, o gosto de ferro, sangue, na boca, com os estampidos dos tiros fazendo seus ouvidos zunirem. Alguém lhe tirou do chão, pessoas entraram na casa, muitas pessoas, mais tiros, e então o ruivo perdeu a consciência.
– — — — — — — — — — — — — -
Jean abriu os olhos devagar. Pelo cheiro, sabia que estava num hospital. A garganta estava seca, os olhos ardiam e o corpo todo doía, principalmente o rosto. Os olhos deveriam estar inchados, mas... Ah, é. Os murros. Tinha levado um bucado deles.
Olhou em volta, vendo alguém sentado ao seu lado, seu corçaão subitamente saindo de ritmo, mas... os cabelos da pessoa não eram castanhos. Eram loiros.
–Jean!-Lucas sorriu, ao ver o ruivo acordado, que desviou o olhar. A decepção era quase legível em seus olhos. Onde estava... Leonidas?-Caramba, você se salvou eim.
–O que... Onde...?
–Calma, calma. Olha, aqui.-O loiro passou para o ruivo um copo com água, que bebeu rapidamente, fazendo uma careta. O corpo inteiro doía pela surra que levara.-Você se lembra de alguma coisa?
–Não... Não muito.
–Bem... Não me contaram muita coisa, na verdade. Eu vim aqui porque vi seu nome no jornal. “Aluno se salva de tiroteio”, algo assim, não lembro o bairro. Aliás, fiquei sem acreditar que era você, mas quando tentei te ligar e você não atendeu, e no dia seguinte os professores disseram que você estava no hospital, eu quase morri do coração, cara.
–Hm...
–Bem, o jornal disse que você tava naquela casa lá e os assaltantes entraram e tentaram te matar, mas depois disse que era acerto de contas. Bem, eu só sei isso. Talvez os policiais te contem mais...
–E Leonidas?
–Hã? O que tem ele?-Lucas franziu o cenho.
Jean desviou o olhar, pensando. Lucas nem devia saber que aquela era a casa de Leonidas... Claro, ele nem sabia o segundo nome do moreno, ninguém sabia dos detalhes sobre Leonidas, e como Jean duvidava que ele tivesse aparecido na TV, provavelmente ninguém desconfiava que toda aquela confusão tivesse sido na casa dele.
–Meu... Celular?
–Suas coisas estão ali.-Lucas apontou para uma bolsa numa mesinha de frente a cama, perto da janela.-Você fraturou uma costela e está cheio de hematomas, e parece que por pouco, não fraturou a mandíbula também. Aliás, eles disseram que foi um milagre você não ter quebrado o nariz...
–Pega pra mim? A bolsa?
O loiro assentiu, entregando-a a Jean, que rapidamente tirou o celular de dentro. Estava prestes a discar o número de Leonidas quando outra pessoa entrou no quarto.
–Finalmente acordou...-Jean ergueu o olhar. Era seu pai. O ruivo deu um sorriso torto, acenando com uma das mãos enfaixadas.
–Hey.-Jean continuou a sorrir enquanto seu pai se aproximava, quase chorando. Nunca o tinha visto tão emotivo na vida.
Na verdade, Jean só conseguiu pegar no celular para falar com Leonidas no dia seguinte, quando tinha sido liberado do hospital e estava voltando para casa. Por que ele não tinha lhe ligado? Rezava para que estivesse bem, tomara que nada tivesse acontecido.
Seu pai tirou os dias seguintes de folga, então o apartamento ficou estranhamente cheio com Jean e o pai ali, tanto que era até estranho. Passara tanto tempo morando praticamente sozinho que, agora, estava desacostumado a ter alguém além de Leonidas ali.
Seu pai até perguntou quem era Leonidas, nome que Jean citou insistentemente quando estava meio inconsciente, mas o ruivo apenas sorriu, e o pai deixou como estava. Não queria pressionar alguém que passara por uma experiência tão traumática, mas verdade seja dita, Jean estava bem. Tinha sido horrível, detestava armas mais do que nunca e estava meio com medo de sair na rua e de ladrões, mas nada que o tempo não curasse.
Quando chegaram no prédio, Jean estava tirando o celular do bolso para ligar para o moreno, mas não precisou. Leonidas estava sentado no meio fio, vestindo um terno bem arrumado, o olhar, desolado.
Jean desceu do carro quase correndo, e por isso, quase tropeçando. Seu pai também desceu, mas quando viu o filho se aproximar do moreno daquele jeito, parou, apenas encarando a cena de certa distância, apoiado no carro.
Leonidas ergueu o olhar. Tinha os olhos vermelhos, vazios, desolados. Jean fez uma careta, mordendo o lábio com força enquanto pensava em algo para dizer, mas nada saía. Estava tão preocupado com ele, estava... Tão...
–...Você fica bem de terno.-Foi tudo o que disse, antes das lágrimas começarem a escorrer e Leonidas fazer uma cara de mais sofrimento ainda, erguendo as palmas grandes e limpando as lágrimas que desciam pelo rosto do menor, ainda com cortes aqui e ali, mas felizmente, não mais inchado.
–Eu estava no enterro do meu pai. Seria ruim se não usasse terno.
–Você nunca usou terno quando saímos.
–Você nunca pediu.-Leonidas murmurou, a voz rouca, puxando o menor para si, que caiu quase de joelhos no asfalto, abraçando o moreno, ainda sentado, que o abraçou com força. A costela doeu, os hematomas doeram, mas Jean não disse nada. Apenas chorou. Não estava nem aí se seu pai estava vendo toda aquela cena, não estava querendo saber se estavam no meio da rua, apenas estava terrivelmente feliz por Leonidas estar bem.
–Por que não me ligou? E-Eu... Eu achei que... Ninguém me dizia nada, então...
–Você estava dormindo, eu não sabia se tinha acordado, eu tive que... cuidar do corpo, sabe, meu pai.-O moreno engoliu em seco, uma das mãos subindo até os cabelos do ruivo, que soluçava. Leonidas parecia fazer força para não chorar.
–Vai me contar tudo depois?
–Vou.
–Promete?
–Prometo.
–Vai ficar comigo também? Não venha dizendo que foi sua culpa ou... que teve a ver com você, ou coisa assim, não vá embora. Não vá embora, Leonidas.
–Não sou tão benevolente assim.-O moreno disse, apenas.
Os joelhos de Jean doíam contra o asfalto duro, e provavelmente tinha os ralado, já que vestia uma bermuda quando se ajoelhara, mas a dor, aquela dor, não era o importante agora.
– — — — — — — — — — — — — -
O pai de Jean encarava Leonidas de forma tão suspeita quanto possível conforme subiam de elevador até o apartamento, mas nada perguntou além do nome do moreno e de onde ele era e como conhecia seu filho, ao que Leonidas respondeu “somos namorados” e o pai de Jean apenas soltou um “ah” e não falou mais nada até entrarem no apartamento, e quando entraram, se recolheu em quarto e lá ficou, deixando os outros dois sozinhos.
Eis que o pai de Leonidas, Afonso, estava com um negócio “promissor” de venda de drogas no morro, onde se instalara. Por esse motivo, extorquia o filho constantemente, e estava tudo indo bem até de repente a polícia ir até lá prendê-lo e confiscar tudo.
Na delegacia, Afonso conseguiu enganar um policial, pegar sua arma e matá-lo, e depois soltar outro preso, colega seu de “trabalho”. Depois, foi até a casa de Leonidas para pedir mais dinheiro, mas ao achar Jean lá, aparentemente decidira se vingar pelo ruivo tê-lo denunciado, quando o verdadeiro culpado fora o tio de Leonidas que descobrira sobre as extorsões e dera todas as informações à polícia.
Claro, a explicação era muito maior do que essa, mas Jean estava cansado, sonolento, e muitas das coisas não fazia sentido. Quase sentia que desde o começo o pai de Leonidas quisera lhe matar, mas se era essa a explicação da polícia...
Leonidas, porém, estava terrivelmente arrasado. Fora ele quem atirara no próprio pai ao ver Jean quase morto no chão. Agira por instinto, para proteger quem mais amava. Leonidas passou semanas com o mesmo olhar vazio.
Teria conseguido a liberdade que queria? Não. Seus traumas não tinham lhe deixado, aliás, quase todas as noites acordava suando frio, com terríveis pesadelos onde matava o próprio pai várias vezes, e depois, matava Jean.
Não queria ser um monstro como o pai fora.
Mas Jean percebia aquilo. Tomava o outro nos braços e dizia que estava tudo bem até que ele voltasse a dormir novamente, ou então, quando não dormiam juntos, o ruivo deixava o celular ao lado do travesseiro caso tocasse no meio da noite, e quando isso acontecia, Leonidas nunca dizia nada, mas Jean sabia que era ele, e o ruivo falaria um milhão de coisas sobre um milhão de assuntos, até o moreno esquecer o pesadelo e murmurar alguma coisa antes de dormir.
Numa das noites, ele murmurou um “eu te amo”.
Os traumas ainda deixavam o moreno bastante tenso, mas então ele se pegava pensando se a liberdade que procurava, Jean já não lhe dava. Ele lhe fazia esquecer os traumas, ele lhe tirava aquele peso das costas e tornava tudo melhor.
Para Jean, Leonidas não era monstro nenhum.
Fale com o autor