You don't look well, dear.
1 Second chances.
Notas iniciais
A clara ameaça de Mr. Hyde havia assombrado a todos, mas parecia demorar muito para chegar. Regina avisou a todos assim que pode, aconselhou que se preparassem, mas nada acontecia. Era como se Mr. Hyde estivesse aguardando o melhor momento, e isso não podia significar boa coisa.
Naquela noite estavam no Granny’s, como na maioria delas. Se reuniam ali ao jantar todas as noites para poder coletar ideias sobre como combater Mr. Hyde antes que a ameaça finalmente viesse, e como defender-se de Gold, que possivelmente não estava muito feliz com os eventos anteriores.
Esperavam o prato do dia, ainda aguardando a chegada das irmãs Mills e Henry, que haviam avisado que iriam se atrasar. As ideias aos poucos se esgotavam. Notaram naquele momento o quão complicado era fazer pesquisas e preparações daquele tipo sem a ajuda de Belle. A doce mulher sempre tivera a paixão necessária para que as respostas viessem fácil, enquanto todos ali simplesmente não aguentavam mais olhar para livros empoeirados o dia inteiro.
Hook conversava com David sobre um plano de ataque, algo que pareceu não agradar o príncipe, que questionou com muito sarcasmo se Hook realmente queria que mais pessoas na cidade perdessem a mão em batalhas desnecessárias. A discussão somente se evitou pelo olhar de repreensão que Emma deu aos dois quando percebeu as faíscas.
— Estão todos exaustos, Emma. Encontraremos uma solução, mesmo que demore. — disse Snow à filha, que claramente não estava feliz com toda aquela situação.
— Eu sei… — sussurrou a loira, perdendo-se mais uma vez em pensamentos, como fazia constantemente desde que retornaram do Submundo.
— Uma moeda aos seus pensamentos. — disse com certa doçura a princesa de cabelos curtos. Isso pareceu chamar a atenção de Emma, que logo aproximou-se da mãe com uma expressão cansada e apoiou a cabeça em seu ombro.
— Eu não vi Graham. — explicou-se num tom baixo. Não queria que Hook a pegasse falando de outro homem, mesmo que seus motivos fossem apenas preocupação com o caçador. — Devia haver alguma lápide com o nome dele. Ou se ele estivesse lá, devia ter me procurado. — sentiu os braços da mãe contornarem seus ombros, fazendo-lhe um carinho leve. — Ele morreu tão de repente… Agora que tivemos a chance de reencontrar algumas pessoas que partiram, imaginei que teria a chance de saber como ele estava… — finalizou a explicação fechando os olhos. Snow logo compreendeu, pois também havia notado a falta de seu velho amigo.
— Deve haver alguma explicação… Graham foi um bom homem. Ele está bem agora. — disse sem muita certeza, mas com sua inabalável esperança, a fim de acalmá-la.
Aquele assunto parecia abalar as duas, de modo que não durou além do necessário. Logo se levantaram para ir até David e Killian, para evitar uma guerra desnecessária entre os dois, que naquele momento pareciam não concordar em nada.
***
Desde a decisão de conceber a vida à Hook novamente, dando ao pirata uma segunda chance, Zeus acabou por ter alguns problemas no Olimpo. Muitos dos deuses não concordavam com sua decisão, todos levando em conta o fato de analisar a situação pelo futuro. Muitas pessoas e seres mágicos poderiam não apenas pedir, mas exigir com guerras e batalhas, mais algumas exceções para que vidas sejam tiradas da morte.
O fato é que o grande deus sabia muito bem disso, e estava disposto a encarar tais consequências. Sabia reconhecer seus erros, assim como sabia reconhecer boas oportunidades quando via uma. E assistindo o mundo dos vivos, a fim de esvaziar a mente de seus conflitos pessoais, que deparou-se com uma nova oportunidade.
Nunca havia reparado muito no caçador, tanto em vida, quanto em morte. Sempre imaginou que pelo seu bom coração, apesar das dores, viveria no paraíso no pós-morte. Tinha plena certeza disso, e por esta razão cometeu o erro de não conferir quando a morte atingiu o filho dos lobos.
A conversa que escutou de Emma Swan com a mãe despertou a curiosidade em Zeus, que de prontidão vasculhou o paraíso em busca do caçador. Quem sabe não mandaria algum tipo de sinal à Emma Swan que a tranquilizaria quanto ao destino de Graham. Teria o feito, se o tivesse encontrado.
Não havia sinal de Graham na terra dos bons, o que o levou a procurar, bastante temeroso, a procurar na terra daqueles que não foram merecedores de um paraíso. Aliviado, suspirou por não o encontrá-lo.
Isso, contudo, somente indicava que o homem nunca havia saído do Submundo. Possivelmente o fato de nunca ter tido a oportunidade de contar a Emma Swan a verdade sobre Storybrooke e sua maldição o prendeu num assunto inacabado.
Até mesmo para um deus como ele, foi bastante complicado encontrar o caçador no Submundo. Ele parecia não querer ser encontrado, escondido nas florestas com os lobos, evitando a todo custo o contato com qualquer outro ser humano. Sabia, contudo, que era assim que ele sempre desejou ficar. Observou por alguns minutos, ponderando se a decisão seria sensata.
Julgou os eventos passados na velha cidade que o caçador viveu. A morte de Hades e Robin Hood, a vinda de um novo vilão, a enfim redenção da antiga Rainha Má. E, por fim, a volta de Killian, que pareceu não deixar Regina muito feliz.
Sabia dos motivos da mulher, que sofria agora pela perda de um grande amor, e ainda tinha que enfrentar uma batalha iminente em seu estado de fragilidade. Tudo aquilo deixava claro a resiliência de Regina, tornando-se assim seu motivo final para tirar o caçador do Submundo.
Muito confuso, o caçador entrou em estado de alerta, olhando para os lados tentando encontrar algo que pudesse usar para se defender. Sabia que no Submundo deveria estar sempre esperando o pior, e naquele momento não podia ser diferente.
— Não tema. Não vim lhe fazer mal. — disse Zeus sem alterar a voz, parando na frente do caçador.
— O que quer de mim? — questiona o homem, ainda muito confuso.
— Vim te dar uma segunda chance. Uma nova missão no mundo dos vivos. — a proposta não era nada comum, e ele sabia que aumentaria seus problemas no Olimpo. Mas era necessário.
— Como vou confiar em você? Pode ser mais um dos truques de Hades. — disse na defensiva.
— Meu irmão, Hades, está morto. — disse sem muitos detalhes sobre isso. — Notei que você não tentou manter contato algum com o mundo dos vivos. Há muito que aprender. Todos os moradores de Storybrooke conhecem a magia, e a maldição foi quebrada. — esclareceu-se com calma, a fim de passar todas as informações necessárias para seu retorno.
— A Rainha finalmente perdeu. — disse o caçador com um sorriso de canto.
— Descobrirá por si mesmo, se aceitar sua segunda chance. — fez um movimento leve com a mão, abrindo uma passagem direto para Storybrooke. — Se escolher atravessar o portal, terá uma missão a cumprir. Você decidirá se a cumprirá ou não, mas seria o certo a se fazer. — o caçador assentiu com a cabeça, tendo plena consciência de que aquele alguém seria Emma. — Um cidadão Storybrooke precisa da sua ajuda. A resiliência nem sempre é fácil quando se perde tanto. Esta pessoa enfrentará sérios conflitos, causados pelo próprio passado. Cabe a você decidir ajudar ou não. — o homem assentiu novamente, curioso pela ajuda que sua velha amiga Emma precisaria. — Estou dando esta chance a você porque acredito que merece a sua segunda chance. Mas, repito, cabe a você ajudar ou não.
Com o final das palavras de Zeus, Graham não mais hesitou em atravessar o portal, dando adeus ao mundo dos mortos. O céu estava escuro, mas ainda continha a beleza do mundo dos vivos. Era como um sopro de vida, literalmente, em seus pulmões.
Lembrava-se daquelas ruas como a melhor lembrança que poderia guardar. Apesar da maldição, havia tido bons momentos ali após a chegada de Emma, mesmo que brevemente. E considerando os anos na mão da Rainha Má, foram bons dias depois de anos terríveis. Se perguntava o que a Rainha Má teria feito desta vez, e qual seu plano maligno contra os bons cidadãos. E claro, qual era o tipo de ajuda que poderia oferecer.
Caminhou pelas escuras e vazias, apertando a jaqueta contra o corpo para se proteger do frio. Um dos poucos estabelecimentos abertos aquela hora era a velha lanchonete Granny’s, fazendo o caçador andar apressado até lá com um sorriso no rosto. Era óbvio que a comida de Granny era melhor que a da Bruxa Cega, e sentira muita falta daquele lugar.
— É esse seu plano? Enfiar o gancho em Hyde achando que isso vai adiantar? — disse David bastante raivoso, batendo os punhos na mesa.
— Tem plano melhor, príncipe? Porque até então somente o vi reclamar! — rebateu o pirata.
— Chega! Vocês dois! — Emma se intrometeu, claramente impaciente com as constantes discussões entre seu pai e Killian. Neste momento, a porta do Granny’s se abriu, mas ela nem mesmo direcionou o olhar. Deveria ser Regina com a irmã e Henry, atrasados. — Temos que colaborar se quisermos chegar a algum resultado. Somos heróis! Parem de discutir como crianças. E…
— Emma! — o caçador finalmente se pronunciou. A voz congelou a loira, assim como aos presentes que o conheciam. Para aqueles que não sabiam quem era, olhavam confuso para o “novo” cidadão da cidade. Ninguém parecia mover um músculo, todos chocados ou curiosos demais para tomar uma iniciativa. A primeira pessoa a tomar a frente foi Snow, que assim que tomou consciência da situação, foi até a direção do homem e o abraçou, como velhos amigos que eram.
— Falávamos de você há não muito tempo. Nós… Nós procuramos por você no Submundo! — disse extasiada, segurando-o pelos ombros, o encarando incrédula, como se não fosse verdade.
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Emma nem mesmo havia dado um passo a frente. Estava estática, sem reação. Mas Graham notou quando um homem com os olhos maquiados demais segurou a mão dela, num gesto de proteção e carinho. Sabia muito bem o que aquilo indicava e não pôde negar a si mesmo que aquilo o entristeceu. Por esta razão, olhou apenas para Snow.
— Um homem me trouxe de volta. Disse que eu merecia uma chance. Que poderia ajudar alguém. — finalmente o caçador se pronunciou, olhando para os lados e oferecendo um sorriso a cada um dos velhos amigos que ali estavam.
— Zeus. — foi a vez de Killian se pronunciar, esclarecendo a situação. Este homem olhou para Emma, parecia preocupado. — Regina não vai gostar nada disso. — disse baixo, mas o caçador escutou. O pirata se referia ao fato de Zeus continuar trazendo pessoas da morte enquanto Robin Hood simplesmente não poderia retornar.
— Não é como se eu e a Rainha fôssemos grandes amigos. — disse claramente em mágoa, e raiva contida. Snow o ofereceu um sorriso confortável, apoiando uma mão em seu ombro em gesto de carinho.
— As coisas mudaram por aqui. Logo vai perceber. Mas é melhor que veja com os próprios olhos. Venha! Precisa se aquecer. Está muito frio lá fora. — passou o braço sobre os ombros do amigo, e o conduziu até a mesa no centro.
Algumas pessoas vieram cumprimentá-lo, dando-lhe as boas vindas, enquanto Granny com um sorriso gigante nos lábios o serviu uma xícara de café bem quentinha. Começou a contar a todos sobre sua trajetória no Submundo, sobre sua escolha de não manter contato com os vivos, para que não sofresse ainda mais com sua incapacidade de ajudar. Afinal, foi por não ter ajudado Emma com a maldição, que havia acabado com assuntos a resolver no submundo.
Todos ali tinham muitas perguntas, mas ninguém parecia querer responder as de Graham. Insistiam que ver a “nova Storybrooke” era melhor que ouvir sobre ela. Mas ao questionar sobre os perigos da Rainha Má, todos se silenciaram. Isso provou que Regina era ainda um problema, e um perigo para todos ali.
— É complicado. — foi a primeira vez que Emma se pronunciou desde a chegada de Graham. — Ainda estamos tentando entender a situação e os riscos. Não sabemos ainda se a Rainha Má está envolvida, mas Regina… Como eu vou explicar isso? — questiona virando para Snow.
— Eu ainda estou tentando entender também. E eu estava lá. — disse com sinceridade, acabando tirando uma risada de todos ali, menos de Graham.
Claro que iriam explicar essa parte para o caçador, afinal todos ali tinham consciência dos problemas entre os dois. Esclarecer a situação atual de Regina era crucial para que Graham compreendesse a nova Storybrooke. Mas, convenhamos, Storybrooke sempre teve um timing complicado.
A porta logo se abriu, revelando Henry ao lado de uma ruiva que Graham desconhecia. Ela logo bateu o olho no homem novo na cidade, enquanto Henry, quando se tocou quem era, sorriu abertamente.
— Graham! — disse animado. O caçador demorou para perceber que aquele adolescente era a mesma criança que havia visto crescer, e sorriu ao revê-lo. O garoto havia o ajudado muito, principalmente por ter sido o único que não o viu como louco. Os dois logo se cumprimentaram com um abraço, fazendo Zelena questionar sobre quem ele era.
— Difícil de explicar. Onde está Regina? Seria melhor conversar com ela antes dela o ver. — disse Emma apenas para Zelena.
— Com quem eu tenho que conversar? — a voz de Regina tornou-se presente, e por mais uma vez o local ficou em pleno silêncio. A prefeita pendurava seu sobretudo próximo a entrada do local, ficando apenas com um vestido preto e colado, com uma fenda generosa na perna.
Os acontecimentos que se seguiram foram rápidos demais para tomar alguma precaução e diminuir os danos. Graham levantou-se da mesa com uma das facas do talher em mãos, apontando em direção de Regina, que a princípio foi tomada por uma clara confusão.
— Comigo! — disse o caçador raivoso. Todos a volta simplesmente não sabiam o que fazer ou como reagir, afinal a relação dos dois sempre foi deveras complicada. Zelena, em contra partida, por não conhecer o caçador, tomou a primeira decisão. Movimentou a mão e com uma magia transportou a faca para a própria mão, desarmando o caçador. Regina estava claramente num estado de transe, e isso pareceu divertir o caçador. — “Você não parece bem, querida”. — disse com sarcasmo, repetindo uma das últimas frases que Regina o disse, em seu último dia de vida.

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