You came back

20 Vigésima Parte


Notas iniciais
Gente, eu demorei por diversos motivos, mas o principal é que o final de semestre está me matando como nunca. Mas essa semana será a última, com a graça de God. Esta semana foi meu aniversário, me parabenizem! Brincadeira! Como demorei quase um mês (pretendo postar semanalmente à partir da próxima semana), eu escrevi um capítulo extenso e com o que vocês mais me pedem desde que descobriram a maternidade de Johanna. Espero que se deliciem com este capítulo e saibam que não tive tempo para corrigir. Eu agradeço imensamente à Hanna por ter me dado este plot e vocês por me incentivarem sempre. Boa leitura e sem morte, por gentileza. PS.: um mês sem Castle e eu ainda não consegui maratonar. Vamos marcar um dia? Qualquer coisa me comuniquem no twitter: @agraziada.

Every morning I bring you a cup of coffee just so I can see a smile on your face.

***

Acordei e o brilho de um sol ainda tímido invadia as frestas da persiana da janela. Eu estava lá, finalmente acordando, no quarto de Castle. Por incrível que pareça, despertei antes mesmo do relógio ecoar pelo loft. Alcancei o celular que estava sobre o criado mudo, e verifiquei a temperatura, estava certa de que não passava dos 10 graus. O gesto apenas confirmou a minha expectativa, quando senti minha mão congelar. Imaginei que Castle devia estar com Johanna, então, vesti sua camisa e ri ao notar o estrago que havíamos feito pelo quarto. Pé por pé, na tentativa de não esbarrar em algum móvel, evitando qualquer movimento que possibilitasse algum som, algum barulho estrondoso, eu me desloquei até o quarto dela. Todo cuidado, afinal, era por alguns motivos evidentes, além de vestir uma camisa de Castle, eu estava desfilando pela casa dele, e isso não seria muito fácil de explicar àquela pessoinha esperta que dormia no quarto de cima. Ela era muito inteligente, me lembrava de mamãe me descrevendo. Johanna, assim como eu, amava ciências, a natureza e tudo que habitava nela.

“Katie, você era a criança mais levada que eu conheci. Gostava de ler, mas quando não estava agarrada nos seus HQs ou livros, estava envolvida com os milhões de habitantes de nosso quintal”.

Não foi bem assim quando eu cismei que o a Senhora Beagle precisava de um amigo e comprei um gato para esta missão. A intenção era boa, mas gatos e cachorros nem sempre aderem às leis da boa convivência. Mas eu cismei que eles ficariam bem, e juntos. Santa Inocência. Eu acho que Johanna jamais o faria. Ela é como uma versão melhorada da mini Kate de alguns – muitos — anos atrás.

Quando cheguei à porta, encontrei Castle lendo para a garotinha que aparentava estar muito melhor, com as bochechas coradas e um sorriso no rosto. Não pude deixar de respirar aliviada.

— Está certo, uma frase por cinco colheres do iogurte, feito?

— Papai?

— O quê?

— Você não negocia nada bem – ela disse rindo.

— Tudo bem, não há como vencer você. – ela revirou os olhos e eu segurei o riso.

— Que tal três colheres pelo meu par de frases favoritas?

— Isso não é nada justo – ele disse fazendo cócegas nela e lhe arrancando lindas gargalhadas. E claro, ele cedeu.

“- Sou uma raposa, disse a raposa”.
Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste.” –
ele leu gesticulando, dando vida à raposa e após, ao príncipe.

— Papai! Está faltando alguma coisa aí.

— Duas colheres e eu digo o que é.

— Não seja bobo papai, eu sei o que falta, “-Eu não posso bi-brin-ca”

— Brincar, Jo.

— “Eu não posso brincar contigo. Não me cativaram ainda.” – ela corrigiu, dando continuidade.

— “Que quer dizer "cativar"?” — ele leu e a encarou.

— “É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços...” — os dois entonaram em uma só voz, completando a frase do livro, fazendo Castle realizar um ataque a ela, dessa vez, de beijos. Johanna já lia um pouco, pois mesmo antes da escola, Castle já alfabetizava a menina, como fez com Alexis, e o restante das palavras, ela havia decorado, de tanto que ouviu Castle lhe cantarolar antes de dormir.

— Papai – ela pausou e suspirou inocentemente.

— A Kate... ela é a minha mãe?

— O que? De onde você tirou isso?

— A escola.

— Abelhinha, como a escola te disse isso?

— Dizendo ué – ela moveu os ombros em sinal de quão obvio era aquilo.

— Me explica melhor.

— Ué papai, o coração dela me escolhe e o meu escolhe ela, assim nascem às crianças. Tem aquele jeito de quando o papai coloca a sementinha na barriga da mamãe também, mas nesse eu sei que não foi – ela disse com os azuis brilhando.

— E como você sabe?

— Você colocou a sementinha na barriga da Kate, papai? – alguém estava encrencado.

— Não, é... – ele se atrapalhou para responder – não agora, quer dizer... – eu ri – coma seu iogurte, abelhinha.

— Papai, como os papais colocam os bebês da sementinha nas barrigas das mamães? – alguém estava muito encrencado e eu estava adorando.

— Bem, é... – ele pausou e ela não parava de encara-lo ansiosa por uma resposta – quando você crescer o papai te conta.

— Você podia colocar uma sementinha na barriga da Kate, não é papai?

— Abelhinha – ele disse se afogando com a própria saliva e aquela cena me parecia cada vez mais engraçada.

— Filha, eu e a Kate somos só amigos.

Tá bom, Castle, amigos que dormem juntos – pensei.

— Mas você podia colocar uma sementinha lá, como amigo – ela revirou os olhos e eu podia sentir o rosto de Castle arder.

— Jo, amigos não colocam sementinhas um no outro.

— Mas você disse que a mamãe é sua amiga, papai.

— Abelhinha, é complicado. Mas o papai e a Kate não vão ter um bebê, afaste isso dessa sua cabecinha.

— Mas eu quero – ela disse fazendo um lindo bico.

— Mas o papai já tem tudo que precisa. Você e Alexis são as melhores filhas do mundo.

— Mas se eu tivesse um bebê pra brincar, ia ser muito legal, papai – ela levantou sobre a cama e começou a gesticular e girar em círculos mostrando para o pai como iria ser divertido – a gente ia poder brincar de espadas, astronautas e de viagem a lua e de pular na cama e de e de e de lasertag– perdia o ar aos poucos.

— Está certo, eu já entendi Johanna. Mas isso não vai acontecer. E além do mais, você tem eu e Alexis para este jogo – disse fingindo ofensa.

Ok Castle, nós não vamos ter um bebê. Eu e Johanna já entendemos isso. Assunto superado.

— Mas a Kate é minha mãe, papai?

— Ela te cativou? – ele apontou para o peito da menina que riu. E eu fiquei ainda mais boba com tanta inteligência. Parecia mais uma mãe babando sua cria.

— Eu não sei... – senti meu corpo gelar e as pernas fraquejarem. E ela apenas continuou pensativa.

— O que você não sabe?

— Não sei se o coração dela me escolheu, papai. – ela disse e completou em seguida — Você é muito difícil de conversar.

— Ah, claro e você é fácil mocinha?

— Eu sou – ela riu e abriu a boca pedindo mais uma colherada do iogurte.

— Se você quer saber, a Kate está lá embaixo, esperando você perguntar sobre isso para ela. Quem sabe você não tenta?

— A Kate está aqui?

— Ela achou melhor passar a noite aqui para se certificar de que você comeria assim que acordasse.

— E esse iogurte faz parte do trato? – ela o encarava com aqueles olhos azuis gigantes, aterrorizada com a possibilidade de não ter comido quando eu finalmente a visse.

— Ele está totalmente dentro do trato.

— E se eu não comer, ela não vai mais voltar? – ela olhava atentamente para Castle mordendo aquele lindo lábio gordinho e rosado e novamente me remetendo a alguém.

— Abelhinha, a Kate não vai mais. Você não deve se preocupar com essas coisas de adulto.

— Mas eu posso comer, papai – ela suspirou, parecendo não acreditar no que Castle havia dito. Naquela hora eu tive uma vontade imensa de invadir o quarto e prometer que ficaria. E sério, foi quase isso que fiz.

— Hei, psiu – chamei atenção dela pra porta — “Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro” – disse logo que entrei no quarto. Nós já havíamos lido O Pequeno Príncipe juntas, em uma tarde daquelas, na biblioteca.

— Kate – ela gritou com aquela voz doce e abriu os bracinhos esperando me receber.

Como evitar? Corri de encontro a ela e esmaguei aquele pedacinho de Castle que estava ali na minha frente – Você está bem?

— Eu tô espe, espei, esplendida.

— E com quem você aprendeu essas palavras? – olhei para Castle que me encarava com um sorriso no rosto, ele sorria de maneira que seus olhos ficavam pequeninhos.

— Com a vovó – ela continuou animadamente – olha Kate, eu comi tudinho – apontou para o pote de iogurte – você já pode ficar.

— Hei mocinha, presta atenção aqui: – ela me olhou fixamente – A tia Kate vai ir trabalhar, mas quando o momento chegar, se você estiver bem, você e o seu pai ali – apontei para Castle – vão me buscar no trabalho, porque eu não vou arredar o pé daqui enquanto você não estiver totalmente forte e saudável. Ouviu bem?

— Ouvi – ela levantou na cama e envolveu um de seus braços no pescoço do pai e outro no meu, nos fazendo ficarmos todos perfeitamente próximos. Aquela garota tinha o dom de nos unir. Era incrível – eu vou ficar bem, tia Kate – agora ela estava mais calma e sua voz saiu suave e infantil, como sempre deveria ser.

— Acho muito bom – apertei a ponta de seu nariz assim que ela sentou na cama.

— Agora deita abelhinha, o papai vai preparar o café e vai levar a Kate por alguns minutos.

— Tá bom papai – ela disse abraçando o coelhinho e fazendo um bico lindo.

— Tchau garotinha – depositei um beijo eu sua bochecha.

— Tchau tia Kate! – ela jogou um beijo no ar.

***

— Tia Kate! – ela correu pelo precinto balançando o vestido rodado, amarelo e os cachinhos feitos pelo pai. Sem parar um segundo sequer, me encontrou em um abraço, era como se estivesse correndo uma maratona para isto. Castle estava logo atrás, como sempre, alertando-a sobre os riscos.

— Castle, ela não está correndo sobre o monte Evereste – esta foi a vez de ele revirar os olhos – Hei mocinha, e o meu beijo? – pousando aqueles lábios gordinhos e rosados em minha bochecha, ela me beijou.

— Senhor Castle! – Gates desceu de seus aposentos para estragar a nossa festa. Johanna agora enfiava a cabeça entre as pernas do pai, com os olhos arregalados – eu deveria estar ofendida por ter perdido o crescimento de mais uma das ruivas? – ele riu.

— Ao que parece, isto, de ruivice, não deu muito certo dessa vez – foi até Gates cumprimenta-la, enquanto eu colocava Johanna em meu colo – Capitã! – disse.

— Você está fazendo um belo trabalho por aqui – ela falou referindo-se a Johanna que a essa altura estava com a cabeça deitada em meu ombro.

— Kate – ela cochichava.

— O que? – falei tentando manter o tom de voz dela.

— Ela é uma raposa? – disse entre sussurros e eu que entendi a referencia, só pude rir.

— E se você tentar cativar ela? – sussurrei, acariciando suas costas com a palma da minha mão.

— Pode ser – ela disse tirando a cabeça do vão de meu pescoço e voltando os olhos azuis para Gates. Castle ainda conversava com a capitã, e Johanna piscava por várias vezes, exibindo aqueles cílios gigantes que só a faziam ter um ar ainda mais angelical – Primeiro você vai sentar um pouco longe de mim— Johanna disse em um rompante e ficamos todos nos encarando, esperando o que viria.

Mas, cada dia, te sentarás mais perto. – Gates respondeu deixando todos boquiabertos, inclusive Johanna que sorriu iluminando o ambiente.

— Capitã? – disse em choque.

— Ah, vamos lá detetives, eu também tive crianças em casa. Este é o livro mais didático para elas. O bendito príncipe questionador permite às crianças conhecer essas palavras.

Agora era Castle quem havia voltado ao jogo, dialogando com Gates sobre literatura infanto-juvenil, crianças e suas vertentes. E assim, Johanna foi se soltando e logo estava munida de papel e caneta, sentada a minha mesa, correndo de encontro a Ryan e Esposito, que pareciam ainda mais crianças do que ela.

— Seja bem vindo de volta, senhor Castle e não pense que a minha cobrança será menor depois desta conversa – ela disse, só desfazendo a cara amarrada, ao encarar Johanna.

— Parece que nada mudou, por aqui.

— Boa sorte, Castle. Há um longo caminho de presentes e palavras colocadas nos momentos certos, para que haja uma conquista.

— Se eu posso encantar bebês, é bem possível que eu faça isso com ela – disse se gabando.

— Sobre essa parte de encantar bebês, não foi bem isso que Martha e Alexis me falaram sobre os primeiros anos de Johanna – ele deu de ombros.

— Não é como se ela fosse uma criança comum.

— E não é?

— Você chama de comum ela querer uma festa da Mulher Maravilha aos seis anos de idade? Ou ela dormir apenas ao ouvir In My Veins?

— Nada mais justo, a mini Kate de alguns anos atrás, queria uma festa da Elektra. E quanto à música, Castle, ela tem a quem puxar – eu sorri e recebi o mesmo gesto de volta.

— Eu estive na escola para saber sobre as aulas da pecinha ali, e como prometido, vim compartilhar um pouco de alegria.

— Isso é muito gentil, Castle – respondi mordendo meu lábio inferior.

Como já imaginado, Johanna fez a alegria do precinto. Além de desenhar quase todos os policiais da delegacia, em uma folha que confesso, era minúscula para tal atividade, ela rodopiou milhões de vezes na minha cadeira divertindo-se como nunca. A minha pequena detetive já havia ganhado todos os corações possíveis.

— Vamos? – disse pegando o meu casaco.

— Parece que nós descobrimos o motivo dos pensamentos avoados de hoje.

— Tem alguém apaixonado, bro.

— Eu já vi esse filme antes.

— Quem sabe vocês não continuam a fazer a papelada, meninos? – respondi me deslocando para saída do precinto.

— Cuidado com o lobo mal, chapeuzinho vermelho.

— A casa da vovó é logo ali, caçador – respondi para Espo.

— Não vai desviar o caminho, lobo mal – esta foi a vez de Ryan.

— Só se ela quiser – Castle disse e eu o repreendi, pois Johanna estava logo ali.

— Muito maduro, meninos – disse dando a língua, logo que entrei no elevador.

Retiramos alguns alimentos no Grammys e fomos para a casa de Castle. Passamos a noite com Johanna, monitorando seu estado de saúde, que só parecia fazer progresso. Assistimos filmes, nos empanturramos de pipoca e por fim, ela nos pediu para jogarmos Scrabble, mas era um jeito novo de fazer isso, como ela era pequena, como a própria disse, poderia ter nosso auxilio durante a partida, mas nós jogaríamos por conta própria. A ideia era, cada palavra soletrada teria que representar algo que você gosta ou não em um jogador, claro, ela ditava as regras, e por tanto, ela escolheria sobre quem deveríamos falar e se o adjetivo seria positivo ou negativo. Para início, sentamo-nos todos no chão da sala, em volta de uma pequena mesa de centro, onde estava o tabuleiro do jogo.

— Muito bem, mocinha – disse esticando a mão para pegar um copo de vinho que estava sobre a mesa e em seguida, ingerindo-o completei – você começa!

— Os mais velhos deveriam ser os primeiros – Castle respondeu ofendido, mas indo até a cozinha pegar o copo de suco de Johanna.

— Papai, você é tão criança – ela disse levando a mão até a testa e rindo.

— Eu concordo com Johanna, Castle, e inclusive, acho que essa é a minha primeira palavra. Criança – Johanna riu, me autorizou a jogar na sua vez e após, ergueu a mão para alcançar a minha em um toque.

— Eu deveria ficar ofendido? Isso é algum tipo de complô contra mim? – ele disse entregando o suco da filha.

— Não papai, é só a união das mulheres – ela sorriu bebendo um pouco do liquido.

— Ual, eu nem sabia que você já havia chego lá.

— Qual é Castle, nós mulheres devemos nos unir – disse piscando para Johanna.

— Continue assim e vai perder a sobremesa.

— Egoísta. Essa é a minha palavra, papai.

— Muito bem, Jo! – disse encarando Castle – o seu pai é um belo de um egoísta mesmo.

— É impossível vencer essa, eu estou claramente em desvantagem.

— Joga Castle, e para de murmurar. Deixa pra fazer isso quando nós te vencermos.

— É papai, joga logo! A sua palavra é para Kate.

— Feito! A minha palavra é: sorriso. É o que eu mais gosto em você, do seu sorriso – nesta hora, ouvimos um comentário vindo da porta, era Martha.

— Ora, veja bem se não é o meu casal favorito em ação.

— Vovó – Johanna correu pela casa para abraçar Martha.

— Bela tentativa, eu não posso negar – sussurrei me referindo à escolha de palavras, enquanto Johanna estava abraçada a Martha, contando sobre o nosso dia. Sobre a delegacia e tantas outras coisas.

— Não se intimidem crianças, eu já estou indo dormir.

— Mamãe! – Castle a repreendeu.

— Tudo bem, Martha, eu já estava indo – levantei e alcancei meu casaco.

— Nada disso mocinha – Johanna vai até mim com as duas mãos na cintura – nós ainda não acabamos o jogo.

— Ah, não mesmo, detetive.

— Parece que o jogo virou – eu ri, voltando a me sentar perto deles, agora com Johanna em meu colo – está certo, vamos terminar isso.

— É a sua vez, Kate, você diz para o papai – ela disse enquanto era envolvida por meus braços.

— Tudo bem, a minha palavra é força. Eu admiro a sua força, Cas.

— Certo, agora você para a Kate papai.

— Espera! Isso não é nada justo.

— Eu não estou aqui para ser justa, ué – ela ergueu as mãos em sinal do quão obvio era aquilo.

— Isso não está certo, abelhinha – disse fazendo cócegas nela.

— Eu posso conviver com isso.

— Eu acho que já ouvi essas palavras.

— Posso ganhar os créditos? – respondi certa de já ter dito aquilo.

— Você está criando um monstro.

— Um lindo monstrinho – disse dando um beijo na bochecha de Johanna.

— Papai, eu não sou um monstro – ela deu a língua para Castle.

— Ainda não – ele disse rindo.

Mais alguns minutos de jogo e estávamos submersos em sorrisos e troca de olhares. Aos poucos Johanna foi desistindo do jogo e logo, estava adormecida em meu colo.

— Eu acho que alguém dormiu – Castle apontou para Johanna que estava deitada em meu peito com as mãozinhas grudadas em meus cabelos.

— É o que parece – disse olhando-a dormir tranquilamente – e nada de febre – aproximei minha mão de sua testa.

— Isso é bom.

— Você acha? – disse já afirmando e zombando dele – Agora eu acho que vou indo.

— Kate... – ele tinha olhos de suplica.

— Castle... – levantei com Johanna em meus braços.

Depois da noite que tive com Castle, tudo que eu mais queria era encontrar com Josh, esclarecer as coisas entre nós, mas ele não facilitava, parecia fugir cada vez mais. Era como se ele soubesse o que viria a seguir e ficasse evitando ouvir que a estação final para o nosso relacionamento estava logo em frente. Ele não atendia meus telefonemas e nem no telefone de casa ou no do hospital, sempre encontrava um jeito de me despistar. Secretárias ou colegas de trabalho, sempre havia alguém para me informar sobre ele, mas nunca era ele quem estava lá.

A cada hora situação me deixava mais preocupada. Enquanto meu relacionamento com Castle andava com as próprias pernas, pernas de uma criança de um ano e meio, eu não conseguia estabelecer a reta final do que Josh e eu tínhamos. Por causa disso, estava tentando evitar momentos de intimidade com Castle, na tentativa de achar a resposta para este calculo não-matemático em que o x, era Josh e eu tinha que desvendá-lo, assim como o local onde ele se escondia. É claro que nada disso daria certo, porque Josh sumiu e porque Castle é extremamente cabeça dura.

Depositei a menina em sua cama e lhe dei um beijo na testa, enquanto Castle permanecia parado na porta, acompanhando o nosso momento. Me despedi de Johanna e Castle desceu juntamente comigo. Ele tentou insistir para que eu ficasse, mas não seria certo, nem comigo, nem com ele e muito menos com Josh. Me despedi depositando um beijo em seus lábios e pedindo que ele me atualizasse sobre notícias da menina. Eu sei que ele faria e para mim era o suficiente, naquele momento.

***

Dias cansativos vieram. Estávamos novamente cercados de papelada. Ao que parece, seria assim pelos próximos dias. E segundo a capitã, enquanto nós não os terminássemos, seria esse, o nosso trabalho: papelada para sempre. Era real, era cruel e eu não podia mais. No meio da tarde, os movimentos repetitivos já haviam deixado seu rastro. Eu estava com uma dor de cabeça insuportável e sem muitas ideias de como sanar aquilo.

— É alguma simpatia, meninos? – os dois me olharam perguntando-se sobre o que me referia – Isso de deixar o telefone tocar incessantemente – disse sendo irônica e fazendo os dois correrem de forma atrapalhada pelo precinto.

— Você fala isso, mas não somos nós que estamos com os pés longe do chão – Espo retrucou e em seguida sua mão, encontrou a mão de Ryan, em um soco fraco. Era um complô e eu apenas lancei o meu olhar para eles, que já sabiam que era chegada a hora de parar.

— Beckett – atendi o insistente celular.

— Diga que precisa de mim! – ele disse e eu abri um sorriso instantâneo.

— O que?

— Johanna está indo para escola e eu vou ficar preso em casa vendo minha mãe treinar seus alunos desvairados. Tão desvairados quanto ela.

— Desculpe, não há cadáver. Só a papelada esperando você vir e fazer sua parte.

— A dúvida entre a papelada e a aula insana de teatro. Parece que eu estou perdido.

— Um parceiro não é só parceiro nas horas boas, Cas.

— Eu estou afastado por tempo indeterminado deste cargo.

— Eu vou me lembrar disto quando houver um cadáver – eu sorri e podia visualizar o seu sorriso se formar também no outro lado da linha.

— Eu estava pensando – fez uma rápida pausa — o que você acha de uma visita?

— Eu não sei se é uma boa ideia. Ainda temos coisas para resolver, você sabe.

— Não é como se você tivesse aceitado o pedido.

— Mas não é como se tivesse negado também – suspiramos juntos – eu passo aí no final da tarde – disse sorrindo e entregando os pontos.

— Perfeito.

— Não fique se achando muito.

— Tem mais alguém aqui com saudade de você.

— E quem seria? O Buble?

— Atende no facetime.

Dei um tempo, esperando o aplicativo chamar. Em poucos segundos um rostinho familiar invadiu a tela. Faziam dois dias que aqueles olhos penetrantes não se encontravam com os meus, então foi surpreendente.

— Oi Kate – ela disse sorrindo e segurando o celular sozinha. Sua independência era assustadoramente linda.

— Ual, quanto tempo eu perdi?

— Por quê? – ela perguntou.

— Porque você cresceu, esse dente caiu e seu cabelo, tem algo diferente nele – ela riu da brincadeira, mas respondeu.

— O papai me levou pra cortar o cabelo e a fada do dente levou meu dente, eu ganhei 20 dólares.

— Ual, que fada do dente generosa.

— Ela é muuuuuito boazinha, Kate – ela sorria com a porteirinha da frente aberta e abrindo os braços para exemplificar o tamanho da bondade da fada, e eu, ao mesmo tempo que estava encantada, estava triste por ter perdido este momento.

— Você não vai mostrar para ela, abelhinha – ouvi Castle gritar da cozinha e ela suspirar.

— Tia Kate! – chamou.

— O que, meu amor?

— Eu vou me apresentar no ballet, a profe Annie disse que é pra convidar os papais e as mamães e eu pensei que – ela correu com o celular na mão e pegou a agenda da escola, mostrando o comunicado sobre a apresentação – você quer ir com o meu pai? – ela não me deu tempo de responder – Por favor, por favor, por favor, por favorzinho, Kate, diz que sim – ela insistia fazendo caretas em frente à tela e me arrancando gargalhadas.

— É completamente certo que eu estarei lá, batendo palmas e gritando para você – ela comemorou pulando no sofá e eu escorada em minha mesa, apoiada em meu próprio braço, encarando a tela do smartphone só sabia fazer, sorrir como uma idiota.

— Tudo bem, mulheres, agora está na hora de certa bailarina, almoçar e ir para a escola.

— Olha Kate, eu ganhei uma nova parte do uniforme – ela exibiu a saia-short, com um emblema enorme da escola.

— Será que agora vocês podem me ouvir?

— Isso não é justo, papai, você quer a Kate só pra você – eu e Castle rimos.

— Não é nada disso, só que você precisa ir para a escola e além do mais, o almoço está pronto.

— Será que tem lugar para mais uma?

— Como se você comesse por uma.

— Não é o que meu corpo diz.

— É definitivamente um bom metabolismo.

— Não seja ridículo, Castle.

— Eu bem gosto da Kate come-come.

— Que belo apelido, escritor.

— Kate come-come, é feio papai. Você não entende nada de garotas.

— Ah, falou a sabe-tudo – disse encarando a filha.

— Eu sei. Eu tenho assim – ela mostrou os dedinhos com a idade.

— Tudo isso? – eu questionei rindo.

— É muito, Kate – ela afirmou.

— É sim, pode acreditar.

— Dê tchau para a Kate, abelhinha.

— Eu quero ficar falando com você, Kate – ela fez um bico e aquela carinha de choro, típica dos Castle.

— Você precisa almoçar mocinha, e além do mais, quando você piscar esses olhinhos lindos, já vai ser sexta-feira e nós vamos estar juntas de novo.

— Tá bom – disse conformada — Eu te amo, Kate – quando aquelas palavras haviam se tornado habituais? Eu não sei, só eram.

— Eu te amo, bebê. Infinito.

— Infinito – ela disse e encerramos a chamada.

***

Era sexta-feira, véspera da festa de aniversário de Johanna, mas antes disso, ela teria uma apresentação de ballet na escola. O dia, por causa da atividade, pareceu se arrastar, como previsto, ainda estávamos cercados em meio a papeladas. Enquanto preenchia os papeis, controlava o relógio que não estava querendo trabalhar. O previsto era que às quatro horas da tarde eu saísse do precinto e fosse para casa, tomar banho e me arrumar para a apresentação. Como previsto, Johanna estava ainda mais apegada a mim e me fez prometer que estaria lá. Eu sabia bem como era. Eu sentia falta de minha mãe a cada conquista. E no fundo era isso que eu representava para Johanna, uma mãe.

— Kate?

— O que foi, Castle, já está com saudade?

— Quem dera fosse somente isso. Eu preciso de um favor. Nós estamos em apuros.

— No que posso ajudar?

— Você pode passar no loft e buscar a roupa da apresentação da Jo?

— Como você pode?

— O que? São muitas coisas para lembrar, detetive. E no mais, você têm assumido meus pensamentos.

— Vamos lá Castle, não tente se desculpar.

— Eu não estou, é apenas a verdade detetive.

— Da última vez que chequei, eu ainda não tinha o poder de adentrar pensamentos, Castle.

— Mas parece que você ganhou acesso livre aos meus.

— Vamos lá, se eu tivesse esse poder saberia quem é a mãe da garotinha bailarina.

— É Kate... as chaves estão – o interrompi.

— Eu sei, Castle, abaixo do tapete, na entrada do loft.

— As roupas estão no meu armário.

— Está certo, Castle, agora você pode me deixar ir?

— Talvez eu não consiga fazê-lo.

— Bobo.

— Linda.

— Tcha-au – disse com um sorriso bobo no rosto.

Contei as horas para encontrar Castle e a pequena criaturinha que estava dando sentido à minha vida. Em determinado momento, estava me arrumando demais, além dos meus tradicionais saltos, eu mudei milhões de vezes de roupa, na tentativa de achar algo que fosse suficiente para o pai, para a filha e o ambiente escolar, cheio de crianças e professores. Depois de algumas mudanças, um vestido, um salto preto e uma meia calça de mesma cor que era coberta por um, sobretudo azul. Uma maquiagem leve e uma pequena carteira. Peguei as chaves do carro e chequei por uma última vez o meu visual. Estava tudo certo. O trânsito, por sorte, colaborou e em segundos eu estava passando por uma fileira de livros, com diversas dedicatórias, era a série Nikki Heat. No quarto, algumas peças de roupa que havia esquecido, pela última vez que estive por ali. Seus ternos e casacos e um espacinho dedicado à Johanna. O cuidado de Castle com ela era uma das coisas mais necessárias para mim. Notei a roupa do ballet dobrada na prateleira superior, que tinha uns centímetros mais do que eu, certamente era para que Johanna não alcançasse. Puxei o conjunto com sapatilha, saia e colam e atrapalhadamente, algumas caixas caíram.

— Droga, droga, você é um belo desastre, Kate – quando bati os olhos nas caixas e em seus conteúdos que se esparramaram pelo chão, a surpresa: Johanna Beckett Castle, filiação: Katherine Houghton Beckett e Richard Castle. “Pai solicita a reversão do processo de adoção da menor Johanna Beckett Castle, de forma que, o processo ocorra em completo sigilo” “Mãe da menor a doou quando o pai da criança estava impossibilitado” “Pai demonstra capacidade física, mental e financeira para cuidar da menor”. “Processo sigiloso”, aquelas palavras me atingiram como um soco no estomago, estava tudo muito claro, tudo em frente aos meus olhos, desde sempre e eu não quis enxergar, era cômodo acreditar nestas mentiras que Castle me contava, Castle – suspirei pesadamente enxugando minhas lágrimas – minha filha, minha Johanna, a minha menina. Naquele momento, tudo fazia sentido, aquele sorriso, aquele jeito de morder os lábios, as estrelas, animais, os cabelos, ela era parte de mim também. A nossa filha. Como ele pode? Minhas pernas estavam fracas, minhas lágrimas estavam acompanhadas de um sorriso e bilhões de perguntas, mas agora, tudo que eu queria era dar um abraço na minha filha, dizer que eu a amo e que nunca desisti dela. Eu preciso vê-la. Mais do que nunca, eu preciso ver aquele sorriso, sentir aquelas mãozinhas me tocando, a sua voz doce me chamando para dividir os fones de seu iPod e para as chamadas de face time na madrugada, precisava dizê-la que eu estaria lá por todo o tempo e que nunca mais ninguém nos separaria. Que eu lutaria por ela. A minha filha estava mais próxima do que nunca e naquele momento, estar com ela, era mais importante do que qualquer coisa. Um turbilhão me invadia, eu não conseguia raciocinar e aos poucos, as crises, que eu achava ter controlado, se faziam presentes.

Notas finais
Comentem, comentem, comentem, favoritem e indiquem. Beijos e até o próximo.