You came back
12 Décima Segunda Parte
Notas iniciais
POV Castle:
Uma luz incrivelmente forte me atingiu como um raio. Era como se aquilo fosse me cegar em algum momento. Precisaria de um longo processo de adaptação para que minhas pupilas entendessem que aquela claridade era normal. Mas afinal, o que acontecia comigo? Ainda tentando me acostumar com aqueles reflexos ambientes eu revirei os olhos na tentativa de alcançar o motivo daquela dor que me invadiu. Meu corpo parecia pesar uma tonelada e nada, nada que eu fizesse me faria mover sequer um músculo. A força agia de forma inerente e me puxando para baixo, me afixando naquele lugar. Com um pouco de sacrifício as íris de meus olhos se moveram e alcançaram uma poltrona. O local estava vago, mas uma dor sem fim me atingiu, quando tentei gritar ou erguer um braço a fim de encontrar minha cabeça e segurar aquela dor sem fim.
Nada aconteceu, nem meus braços se moveram, nem minha voz saiu. Em contrapartida, algumas lágrimas escorreram pelo meu rosto. Eu estava sozinho e sem ao menos entender onde estava e o que estava acontecendo. Mas isso não durou muito tempo. Logo após a minha secção de tortura, uma moça que parecia ser uma enfermeira — me auxiliou no meu entendimento sobre onde eu estava – me encontrou com os olhos abertos, e alarmou todos, fazendo com que um grande número de pessoas se reunissem perto de mim. Logo, o médico que tratou minha família por muitos anos se aproximou de mim e começou a me questionar, ele parecia saber que eu não estava conseguindo responder ou sequer mover um palmo, um dedo, mas ainda assim, esta era a função dele, e ele a faria. De repente lembrei-me de Kate e há essa altura já havia entendido o motivo pelo qual eu estava ali, era um hospital e apesar de confuso, eu sabia que em algum momento algo me havia acontecido. Imagens me invadiram, imagens da noite que me fez parar aqui e isso me deixou agitado, eu começava a compreender tudo, de maneira rápida, era como um filme passando em frente aos meus olhos, mas tudo aquilo me deixava confuso e estranhamente cansado, meus batimentos eram descompassados e minha respiração era impossível de ser controlada. Os pequenos tubos pelos quais eu estava submetido não estavam ajudando muito em meu autocontrole. Finalmente, as coisas escureceram e eu me lembro de abrir os olhos algumas vezes, encontrar algumas pessoas me encarando e correndo para um lado e para outro, era como se os sons se intensificassem e cada mínimo ruído se tornasse um estrondoso som e, logo, voltei à habitual escuridão.
POV Kate:
Quando recebi a ligação, tinha certeza de que a minha vida daria outro looping, fazendo com que eu repensasse tudo novamente. Mas eu nunca esperava pelo que estava por vir. Encontrei Martha e Alexis que vieram correndo de maneira que pareciam que iriam colocar os pulmões pela boca.
– Oh Kate, como você está querida?
– Tudo bem. Alguma notícia? – Estava completamente preocupada com o que viria a seguir, tão preocupada que esqueci os bons modos.
– Não, estamos aguardando algum médico estar disponível, mas querida, você precisa estar bem, sinto que teremos mais alguns desafios pela frente – Martha mais uma vez passando por cima de tudo para tentar me reconfortar. Se ela soubesse... se soubesse dos meus atos depressivos. Mas agora era pensar no grande problema – certamente era um problema – que viria a seguir.
Quando o médico de Castle
– Vamos doutor, sem cerimônias, por favor – disse minha sogra da maneira mais teatral possível, afinal, era Martha.
– Bem, eu preciso que vocês mantenham a calma. Eu prometo responder todas as dúvidas que vocês tiverem, mas tudo ao seu tempo.
Por um instante ouvi o suspiro de Alexis, droga ela disse baixinho, o que fez com que meu coração se apertasse ainda mais. Eu respirava cada vez mais fundo buscando ar por aquele ambiente, eu não aguentaria mais um tombo, a vida não poderia ser ainda mais injusta comigo. Conosco. Tive momentos horríveis durante esse tempo todo, mas definitivamente sentia que o próximo estava por vir. Eu não suportaria mais uma dor. Não. Controlava-me para não ter mais uma crise em frente a todos, para não soar fraca. Ao mesmo tempo em que eu me achava tão idiota, podia ouvir claramente a voz de Castle ressoar tranquilamente “Isso não é idiota Kate, é apenas humano”, como tantas vezes o fez. E finalmente o doutor me tirou do transe de poucos segundos nos dando a notícia que nos traria a superfície novamente. Aquele mar do qual eu falava? Ele parece estar encontrando a calmaria, o seu ponto de equilíbrio, pois nos trouxe para a beira.
– O senhor Castle acordou.
Por um instante era como se meu corpo percorresse todo o corredor até a porta da mini UTI montada para abrigar Castle. Era como se eu flutuasse pelos corredores daquele hospital. Sai de mim por segundos, minutos, horas, eu havia perdido a noção de tempo. Apenas estava perdida dentro de mim mesma.
– Onde ele está? Eu quero vê-lo – falei enquanto o desespero se acentuava a mim como se dali fizesse parte. Atônita eu corri para a porta do quarto dele, só parando quando uma mão segurou-me firme, era uma enfermeira. Alexis e Martha correram ao meu encontro, assustadas com a minha reação. No fundo, elas sabiam pelo o que eu passava, apenas preferiam respeitar meu espaço. Alexis estendeu os braços e me abraçou com sua inesgotável força, que nem eu sabia de onde vinha e me tranquilizou, repetindo várias vezes, em meio ao choro, “vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem, Kate”. Foi então que eu relaxei meu corpo e me agarrei em cada centímetro dela, que até pouco tempo atrás era mais frágil do que eu.
O médico se aproximou, eu aceitei que teríamos primeiro que conversar e por fim, lá estávamos tendo aquela difícil conversa. Eu sabia que as coisas seriam complicadas, eu queria que Castle acordasse. Céus! Não havia uma só noite no último mês que eu não tivesse desejado isso, em meus mais perfeitos sonhos, ele acordaria e me faria acreditar que tudo iria entrar nos eixos, que nós recuperaríamos Johanna e voltaríamos aos nossos mais malucos casos. Eu imaginava como seria quando chegássemos da delegacia, depois de um dia extremamente cansativo e encontrássemos Johanna, como iria ser nós três brincando, reunidos como uma família, mas em momento algum eu poderia pensar que ele fosse verdadeiramente acordar. Castle estava em coma há cerca de um ano. Mesma idade que Johanna completou no final deste mês, setembro – lembrar-me dela era inevitável. Fazia isso por quase todo o dia.
Por fim, depois das palavras do médico, nós entendemos que como já imaginávamos nada seria fácil. Castle estava imóvel ou com pouquíssimos movimentos, isso custaria a voltar, além disso, ele precisava se situar que estávamos entrando no mês de novembro do ano de 2014, algumas – poucas – coisas haviam mudado por aqui, além do termino de Alexis com Pie, temos a gravidez que eu pensava em contar, mas não seria agora – seria algo difícil de fazer – não estava pronta para lidar com tudo que a gravidez acarretou agora. Mas, voltando ao quadro clínico de Castle. Segundo o médico, ele poderia aparentar confusão em relação às informações, como em um todo, além disso, tinha a fala, cordas vocais paradas por um longo tempo, ele mal conseguia balbuciar. Sendo assim, cada passo seria uma vitória. Seriam sessões de fisioterapia, acompanhamento com um fonoaudiólogo, psicólogo e quem sabe até um psiquiatra, tudo isso o igualaria a mim, ao menos no número de consultas. Eu havia decidido, estaria com ele. Sempre.
Quando finalmente eu terminei de ouvir cada sílaba de cada frase dita ali, eu o questionei.
– Eu posso vê-lo?
A autorização veio logo em seguida. Entramos eu, Martha e Alexis no quarto. A probabilidade de Castle não estar acordado era de quase 100%, mas precisava ver ele, agora com a sensação de que ele está de volta. Apesar de que certamente não ficaria tranquila enquanto não o visse acordado. Ao menos já era um começo. Por fim, entramos. Para a nossa surpresa, Castle estava com os olhos abertos. E eu desesperada – não tem outra definição para tudo aquilo – corri ao seu encontro, o abracei tão forte, sem nem pensar que o assustaria. Mas ainda bem que não o fiz.
– Você voltou – You came back, você voltou, foram as únicas palavras que eu consegui proferir depois de tantos meses.
Com muito sacrifício, Castle conseguiu curvar os lábios em um sorriso, aquele sorriso lindo que há alguns anos me conquistou — Hei, está tudo bem. Você não precisa... — Ele acabou derramando algumas lágrimas. Passar por aquele lugar lôbrego certamente o fez temer e eu não sabia bem como reagir perante aquilo, assim, acabei por me compungir por ter o alertado de tal forma. De canto limpei algumas gotas que se acumularam no canto de meus olhos.
Martha e Alexis se aproximaram e acabamos o cercando de amor. Não demorou muito e finalmente ele estava sedado novamente e já dormia como um anjo. Ele parecia estar ainda mais lindo. Era uma sensação incrível. Ele estava incrível. Não saberia descrever a paz que tudo aquilo me passou. Olhar aqueles azuis novamente. Aquele quase sorriso sofrido. Ele estava vivo. Ele está vivo. E isso é muito mais do que eu podia sonhar. Meu coração não contentava-se com o pequeno espaço que lhe era cedido no lado esquerdo do peito, ele queria muito mais, ele queria explodir e eu sair saltitando por aqueles corredores infindáveis, gritando aos quatro ventos que o homem da minha vida, que ele finalmente voltou. Eu o amava. Com todas as minhas forças, amava Castle e o tempo, a dor e o sofrimento só fizeram isso aumentar.
***
3 MESES DEPOIS
– Hei. – Ele me chamou assim que coloquei o prato em que servi o jantar para ele, na pia. Esticando sua mão ele me guiou até seu colo.
– Você acha que consegue? – sorri radiante com aquele momento.
Mesmo não tendo muito tempo para lidar com todo o turbilhão de emoções que me remexia, eu precisava dele, e durante os últimos meses tudo estava muito complicado, as consultas estavam nos tomando por inteiros. Castle ainda estava na cadeira de rodas, tomava algumas vitaminas para que seu corpo colaborasse e para que a fraqueza não o atingisse. Ele já estava caminhando, mas somente nas fisioterapias. O fisioterapeuta me solicitou encarecidamente que eu o mantivesse na cadeira, o deixando dar os seus passos trêmulos e infalsos apenas quando extremamente necessário. Castle movia-se como se fosse uma criança que calçava seus primeiros passos. Sendo assim, eu me dividia em mil. Outra coisa da qual eu não falei, foi a Johanna. Nesse tempo eu consegui uma liberação especial para ter alguns momentos com a minha filha. Eu parecia estar progredindo. Sentia que logo conseguiria aceitar tudo que nos aconteceu e lutar por ela novamente, como eu sei que lutei durante todo esse tempo, com minhas consultas e novos aprendizados. Foi tudo por ela. Por nós. Pela nossa família. Eu sinto tanto por ter tomado decisões tão bruscas, mas, vendo as coisas como estão, eu sinto que tudo vai entrar nos eixos e logo.
Estava verificando como faria para uma revisão de guarda. Não seria agora, mas, como a família que estava com o processo de adoção em mãos, desistiu – a mulher havia acabado de descobrir que estava finalmente grávida -, eu teria um tempo a mais, para me preparar, preparar Castle e aceita-la de coração, mente e corpo sãos. Precisava me tratar para entender que Johanna fazia parte de mim e sem ela eu não seria nada e foi o que fiz.
– Se eu consigo? Eu preciso. Já se passaram 3 meses, é quase uma eternidade. – ele disse naquele tom que só ele sabe. Era infantil, não, não, era fofo. – Hm... – ele deslizou seus lábios pelo meu rosto me arrancando um suspiro estarrecedor – não é justo você estar solucionando casos sem mim.
– Entendi. Isso é um jeito incrível de me fazer não ir mais naquela casa, não ver aquele cadáver novamente, não descobrir que ele foi morto por... opa, confidencial – ergui as mãos e sorri de forma irônica, tentando animá-lo, não era fácil estar naquela posição.
– Hei, não... isso não é justo – fez uma cara manhosa, na tentativa de me impedir de sair no dia seguinte.
– Kate – ele me chamou atenção. De um jeito incrível. Como nunca mais havia visto. A emoção estava presente, faziam três meses que eu parecia estar sonhando e finalmente ele me falaria sobre algo pelo qual não tínhamos conversado.
– Hm. – sussurrei ouvindo-o atentamente
– O que você fez por mim. Isso – fez um vai e vem entre eu e ele, indicando as consultas e todo o tratamento – ninguém nunca fez por mim – ele sorriu de maneira que seus olhos ficaram pequeninhos – está sendo incrível. Mas agora eu preciso retribuir – ele sorriu me levando junto com ele. Era oficial ele está vivo – me permiti rir com aquilo.
– Sério? Acha que consegue superar isso? – entrei na sua brincadeira. Ficando finalmente posicionada em seu colo, posicionando meu braço direito em torno de seu pescoço.
– Espere e verá.
Naquela noite o mundo simplesmente desapareceu. Nossos corpos se uniram como se fossem um só. Muitas palavras ditas, sussurros sem sentido, risos perdurados, sentimentos e sensações transitando em meio a luz da lua que entrava pela janela do quarto. Gritos, suplicas, sorrisos envoltos por gemidos. Eu te amo, definitivamente essas foram as palavras que foram ditas repetitivamente e de forma incessante, pelas horas que se passaram. Não era só o ato, nós precisávamos falar aquilo, ele precisava saber que eu o amava da maneira mais inconsequente. Adequamo-nos a um novo jeito de fazer amor, aliamo-nos em um novo ritmo, entendendo as limitações um do outro e aprendendo o que fazer com elas. Foram tantas carícias trocadas, mãos que percorriam o meu rosto, meus colo, meu sexo e cada limite do meu corpo, tudo como se fosse a primeira vez. Nos encaramos depois de meses. Nossos corpos se encontraram deixando clara que a saudade havia sido algoz, que estava nos castigando, era como se nada mais importasse, como se fossemos um só. Estávamos sedentos um do outro de forma que por várias vezes durante aquela noite eu pude senti-lo fazer de mim sua morada. Foi tudo incrível. Eu realmente achei que nada daquilo jamais voltaria. Adormecemos nos braços um do outro depois de uma noite exaustiva de amor. Tudo ficaria bem. Eu estava começando a recobrar a fé.
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