You are my love
1 Capítulo único
Notas iniciais
Desde pequena, vejo meu pai trabalhando em todos os seus experimentos engenhosos e desde pequena observo todas as suas criações como um experiente cientista. Quando eu tinha dezesseis anos, meu pai chegou em sua maior criação e seu nome era Noah. Bem, Noah I. A maior inteligência artificial que já fora criada.
Noah era estranhamente bonito. Seu corpo era o oposto de um robô normalmente conhecido. Na verdade, nada em si revelava que era exatamente uma inteligência artificial. Seus olhos eram azuis e seu cabelo loiro, além de ser extremamente musculoso. Acredito que esse seria o sonho de muitos jovens por aí, o que era perfeitamente aceitável.
Noah foi designado para cuidar de mim. Por ser filha de um cientista, de algum modo, sempre fui sozinha e até gostava de ser assim. Eu estudava em casa e não tinha amigos. Era um pouco surreal que meu pai tenha criado um robô somente para mim, e talvez tenha sido a pior e a melhor coisa que meu pai já tenha feito.
Noah não parecia um ser artificial. Era inteligente (óbvio) e era engraçado, gentil e um perfeito amigo. Todos os dias nós conversávamos por horas, brincávamos de cartas (oh, Deus, ele sempre ganhava), assistíamos televisão e víamos as estrelas no telhado de casa. Noah preencheu os meus dias com a sensação maravilhosa de ser vista por alguém e de ser reconhecida como uma pessoa cheia de talentos e uma capacidade imensurável. Lógico que papai era um ótimo pai e uma pessoa incrível, mas poucas vezes eu me sentia vista e entendida por ele.
Os dias passaram e Noah estava sempre ao meu lado. Eu fui crescendo junto dele, mesmo ele permanecendo o mesmo, e fui aprendendo sobre mim mesma. Fui conhecendo minhas capacidades porque ele desafiava todas elas (ainda não sei se isso foi programado ou não), e, por algum motivo, fui gostando cada vez mais de mim por conta dele. Antes, eu raramente me enxergava como uma pessoa parecida com as outras, e não de uma maneira boa. Por causa dele, consegui ver que, sim, eu era capaz, importante, autossuficiente e… feliz.
Noah me entregou a felicidade.
E, antes que eu pudesse intervir, meus sentimentos por Noah mudaram da água para o vinho. Eu me apaixonei por uma inteligência artficial.
Saber disso foi aterrorizante. Parecia que meus dias felizes haviam chegado ao fim. Como eu podaria estar apaixonada por um robô? Aonde esse sentimento me levaria? E toda a felicidade que eu tinha contruído ao lado dele? Mas o óbvio chegou até mim e eu percebi que Noah era o único ser nesta minha vida que me exengerva acomo alguém. Ele era o único que entendia todas as minhas incertezas e medos, e o único que me trazia alegria. Como eu nunca poderia me apaixonar por ele?
Depois da minha interna confissão, o tempo com Noah ficou ainda mais intenso. Eu me apaixonava cada dia mais e estava sempre feliz em tê-lo ao meu lado. Nunca poderia imaginar que meu primeiro amor seria tão controverso. E nunca poderia imaginar que seria tão gratificante a ponto de me fazer pensar que a vida realmente valia a pena se eu fosse viver daquele jeito. Ninguém me faria mais feliz que Noah e eu não poderia amar ninguém com a mesma intensidade. Essa foi a minha ruína.
Amar Noah foi maravilhoso. Nunca saberei se ele tivera noção dos meus sentimentos, mas mesmo assim, nosso tempo fora indescrítivel. Eu lhe contava todos os meus segredos enquanto deitávamos em minha cama, os dois de lado olhando um para o outro. Eu sempre dizia que não poderia ser mais feliz do que naqueles momentos, e com uma voz aveludada, ele me dizia:
― Eu também não, querida Lily. Eu também nâo.
Estar apaixonada era estranho. Também era gratificante. Era algo feliz. Eu realmente era feliz por ter Noah, e eu gosto de pensar que ele também era feliz por me ter. Gosto de pensar que toda a sua gentileza era originada nele, não em um programa criado por meu pai. Talvez em algum lugar, ele também nutria o que eu sentia. Mesmo nunca falando em voz alta que o amava, quero pensar que ele sabia o que eu queria dizer em voz baixa.
No inverno dos meus dezenove anos, uma coisa mudou. Meu pai começou a observar minhas interações com Noah e ficou preocupado em vários níveis. Acredito que o primeiro nível foi estar desconfiado de alguma coisa. Pelo que eu entendi anos depois, meu pai criara Noah para me ajudar em minhas relações sociais, mas talvez ele tenha visto que eu estava tão dependente dele que me tornei ainda mais fechada para sociabilidade. O segundo nível foi o descontentamento em saber que seu plano de me ajudar tinha falhado. E o último e terceiro nível foi o ódio centrado em si mesmo e em Noah, por estar me corrompendo a uma vida solitária e triste.
Afinal, Noah não viveria para sempre. Muito menos eu.
Meu pai, então, começou a ir atrás de Noah sempre que podia. Tirava-o de perto de mim o mais rápido possível e me mandava sair de casa. Foi um verdadeiro caças às bruxas. Ele desligava Noah por muitas horas e proibia a minha entrada no laboratório. Naquela época, eu não entendia os sentimentos do meu pai e via apenas a minha felicidade sendo tirada injustitamente de mim. Lembro das várias discussões com meu pai e da tristeza profunda que eu sentia toda vez que Noah era desligado. Um dia de muita discussão, eu deixei escapar algo que nunca deveria ter dito:
― Pai, eu o amo!
A fúria de meu pai se revelou e ele correu para o laboratório, e eu fui atrás dele. Quando chegamos, Noah estava acordado e logo meu pai foi para o computador, digitando furiosamente.
― Pai, o que está fazendo?
― Eu vou terminar de uma vez com essa situação! A vida de Noah acaba aqui.
― Pai! Você não pode fazer isso! Não pode…
Mas ele não me deu ouvidos e continuou digitando rapidamente. Eu sentia que estava num campo minado.
Eu realmente perderia Noah.
Quando olhei para ele, Noah tinha um sorriso no rosto. Vendo seu sorriso, lágrimas escaparam de meus olhos e eu fui chorando em seus braços. O que eu poderia fazer? O que eu poderia dizer? Noah…
― Noah…
Quando olhei para cima, seu sorriso continuava, mas seus olhos estavam ficando mais vítrios e ele piscava demoradamente. O desespero começou a me ruir por dentro e eu nunca estive tão impotente como naquele instante. Noah era tudo para mim e ele estava sendo destruído. O que eu seria sem o meu tudo? O que eu seria sem a minha felicidade?
Interrompendo meus pensamentos, Noah levantou meu queixo devagar e disse:
― Você é o meu amor. Eu sempre estarei com você.
Depois daquele dia, por algum motivo, eu sofri, mas não me fechei para tudo novamente. Noah sempre estaria comigo. Eu aguentaria essa vida. Eu teria que aguentar essa vida. E viveria essa vida do melhor jeito que podia.
Então, fui para a faculdade onde conheci o meu futuro marido, trabalhei, me casei e tive filhos. Quando eu percebi, a felicidade que eu sentia apenas com Noah tinha voltado em uma intensidade ainda maior. Ele estava certo, afinal de contas. O meu primeiro amor sempre estaria comigo.
― Mamãe!
Parei de escrever no diário e olhei para meu filhinho de cinco anos e sorri. Sorrisos eram muito fáceis hoje em dia.
― Sim, Noah?
― Vamos brincar com o papai? Por favor!
Eu fiz carinho na cabecinha castanha dele e o peguei no colo.
― Vamos, meu amor. Vamos brincar.
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