You and Me
2 Capítulo II
Notas iniciais
Pov’s Vitória
Uma luz inunda meus olhos, uma dor atas da cabeça me faz despertar por completo, murmuro um xingamento qualquer até finamente meus olhos se acostumarem com a luz do local. Meu coração dispara. Aonde eu estaria? Ainda deitada, tento reformular as ultimas horas que vivi. Lembro de casa, dos meus pais, do velório... Lembro de ter pego o carro e fugido. Sim, um acidente! Agora com mais clareza conseguia finamente lembrar do momento em que meu carro desceu ladeira abaixo. Será que eu estaria no hospital? Não, não era isso. O teto no qual meus olhos se fixavam não me mostrava isso. Um hospital, por mais precário que esteja não estaria com uma enorme mancha de umidade e mofo e com rachaduras gigantes por todos os lados.
Devagar, consigo me levantar e sento-me no que parecia ser uma cama. Olho em volta e percebo que não é apenas o teto que está precisando de cuidados. Toda a casa era decadente. Se é que aquilo era uma casa. Parecia mais um galpão com algum móveis espalhados aqui e ali, fazendo divisórias: uma estante empoeirada com alguns jarros velhos contendo flores murchas divida o lugar do que parecia ser a sala da cozinha. Atrás dele tinha um fogão também velho e um pequeno armário. Fora isso, havia apenas a cama onde eu estava e uma velha poltrona recostada ao lado. Que lugar era aquele? O que eu estaria fazendo aqui? E pior, quem me trouxera?
Me levanto e minha cabeça estala com a dor aguda que insistia atrás de minha cabeça. Dou alguns passos curtos, tentando me recompor. Percebo minha roupa que estava completamente amarrotada e suja, mas aquilo não era de importância. Precisava sair daqui e encontrar o meu carro, se é que ainda havia algum... Decidida dou passos firmes ignorando as dores que começavam a surgir por todo corpo e finalmente alcanço a porta.
– Aonde pensa que vai? — A voz surgira por trás de mim de repente, me causando arrepio por todo o corpo e uma leve sensação de enjoo. Não me viro. — Ficou surda? — Consigo sentir um sorriso brotar no rosto da pessoa, seja lá quem ela fosse.
– O que estou fazendo aqui? — A única coisa que consigo dizer, sentindo uma lágrima inundar meus olhos.
– Eu te salvei. Vi você de ponta cabeça naquele carro, quase morta. Não poderia te deixar lá. — A voz era grossa, firme. Havia um ar brincalhão na mesma, não podia crer que ele estava se divertindo. — Não vai dizer nada? — Segurava a maçaneta da porta com força, meus olhos ardiam por conta das lágrimas, não queria estar ali.
– Por favor, deixe-me ir. Sou de família bem requisitada, posso lhe dar quanto dinheiro quiser. — Minha cabeça encosta na porta e desmorono em choro.
– Não quero dinheiro, não preciso. — A voz agora era mais séria. Reúno toda a coragem que tinha, ergo minha cabeça e decido olhar para ele. Seja lá quem for, preciso encarar meu sequestrador de qualquer maneira. Eu então me viro e a surpresa se estampa em meu rosto.
Quando ouvi a voz dele, imaginava meu sequestrador como um homem velho, gordo, de cabelo calvo, dentes a menos na boca e rugas cobrindo seu rosto, mas não. O homem que me deparo aparenta ter vinte e cinco anos, cabelos negros e curtos, mas bem cortado; pele bronzeada, bem cuidado. Corpo bem definido, um sorriso branco com dentes perfeitos e olhos verdes reluzentes.
– O que houve? — Um sorriso satisfeito brota, sem duvidas percebera minha surpresa.
– O que quer... comigo?
– Nada. — A resposta vem seca e direta, mas não me convence. Ele se levanta e olha diretamente nos meus olhos, sinto-o estudando cada centímetro do meu corpo, meu rosto arde.
– Então por que me trouxe aqui?
– Pensei que houvesse dito. Estava machucada. Eu te ajudei.
– É? Pois não me convenceu. — Me surpreendi com o tom firme que havia falado aquelas palavras. — Se quer me ajudar mesmo, deixe-me ir.
– Você ainda está machucada. — Ele falou baixo, quase não entendi o que tinha dito.
– Não importa, eu quero sair. Onde está meu carro?
– Seu carro está acabado, acho difícil ele voltar a funcionar agora. — Percebo que ele começara a brincar comigo. Quem ele pensava que era?
– Não tem importância, irei a pé. Agora deixe-me sair! — Gritei.
– Não estou te impedindo, garota. A porta está aberta, se quiser, vá embora. — Só agora havia lembrado de que a porta não estava trancada, eu poderia ter saído e ele não fez esforço algum para me impedir, mesmo sabendo dessa possibilidade. Um sentimento de frustração toma conta, como fui burra. Me viro devagar e lentamente toco a maçaneta e a giro, a porta se abre. Um pouco envergonhada o olho pela ultima vez, seus olhos ainda me estudavam.
– Então... Obrigada.
– Sem problema, Vitória. — Sorri.
Eu congelo. Como sabia meu nome? E agora, várias perguntar surgiam: antes, quando havia acordado, tinha a plena certeza de que ele não estava na poltrona e logo depois ele surge. Como se tivesse evaporado até lá. Meu nome, como ele sabia? Não havia levado documentos comigo quando sai, não tinha nenhum tipo de documento que pudesse me identificar. Coincidência? Certeza que não. A névoa de mistério que pairava sobre ele crescia cada vez mais. Quem ele era?
– Como sabe meu nome? — Minha voz ficara tremula. Eu deveria sair de lá o mais rápido que eu pudesse, mas algo me prendeu aquele galpão, com este homem.
– Intuição. Digamos que você tenha cara de Vitória. — Ele exibe novamente os dentes num sorriso debochado e infantil.
– Não brinque comigo! — Minha cabeça lateja novamente com a força do grito. Sentia-me enjoada.
– Você não ia embora? O que ainda faz aqui? — Ele se lança na cama, e põe os braços por trás da cabeça.
– Como posso ir embora? Sofro um acidente, acordo na casa de um estranho que sabe meu nome e provavelmente mais coisas do que diz e quer que eu vá embora?
– Não sou eu, você que quer ir.
O olho fixamente. Afinal, o que eu estou fazendo? Que diferença faz ele saber meu nome ou não? Eu estava viva e isso era a única coisa que importava agora. Ele me dera a chance de escapar e eu não poderia perdê-la. Mas algo estava errado... Algo nele me incomodava, algo que eu não sabia dizer o que era.
Fim Pov’s Vitória
Estava anoitecendo, a casa dos Tavares estava quase vazia. As pessoas foram embora, as choros cessaram, a morte realmente estava presente. O enterro era previsto para de manhã cedo, a maioria prometera a Analiz e Antônio que estariam lá assim que o sol voltasse, mas ambos sabiam que era mentira. Ninguém da cidade tinha consideração pela família, todos os viam como soberbos em decadência.
– Vitória ainda não desceu, estou preocupada. — Analiz abraçava o marido. Os dois foram os únicos que permaneceram ao lado de Marina.
– Não se preocupe, ela só está abalada. Afinal, sua mãe era a única que ela via e conversava. Fez de Marina uma deusa, não a culpo.
Um silêncio invade o local. Os outros parentes estavam postos em alguns lugares da sala, aqui e ali, olhando para o caixão. Carlos não pensava em outra coisa que não fosse a divisão de bens. Não queria ficar com a fábrica, mas queria o dinheiro que a mesma rendia. Filho mais novo, sempre teve tudo o que queria. Morava no Rio de Janeiro, até se formar em medicina e voltar para São Paulo. Desde então passou a viver na casa de seu irmão Antônio, junto com Analiz e sua mãe. Forçado por Marina, Carlos abriu um consultório na cidade e começara a atender os cidadãos da cidade. Na mesma época, Vitória veio ao mundo e uma amargura surgiu no rapaz ao perceber que sua mãe o trocará pela ‘’salvação da família’’. Quando a menina completou três anos de idade, Carlos voltou para o Rio, com o pretexto de que lá as coisas seriam melhores. Conheceu então sua esposa Karine, que é tão ambiciosa quanto ele. Com a notícia da morte de sua mãe, Carlos é forçado a voltar a sua antiga casa, e reencontrar seus parentes, incluindo Vitória.
O silêncio é quebrado repentinamente, quando duas empregadas invadem a sala. Uma trazia um celular em mãos e ambas estavam com um olhar desesperado.
– Senhora, temos um problema. — Uma delas fala com alarde.
– Espere! Tome o celular senhora. É... Vitória.
– Mas por que ela não me chamou no quarto? — Analiz pergunta confusa.
– Ela não está no quarto. — A notícia choca a todos. Caras surpresas e de espanto vem a tona. — Eu subi agora pouco para preparar os quartos e vi uma das janelas abertas. Notei algo estranho... Quando me aproximei, vários lençóis estavam amarrados um no outro, formando uma espécie de corda. Corri para o quarto dela, pois foi a primeira pessoa que veio na cabeça. O quarto estava vazio. — Ao ouvir o relato da empregada, Analiz não demora em pegar o celular, seus olhos já estavam inundados de lágrimas.
– Alô? Alô, filha? — Sua voz era trêmula. Antônio acariciava seu ombro e sussurrava algo para deixá-la calma. Mas aquele esforço servia mais para ele do que para a esposa.
– Mãe... — Vitória cala e Analiz percebe que a filha começava a chorar. — Me desculpa. Eu sai de casa, precisava esvaziar a mente. Mas ai eu perdi o controle do carro... Foi horrível.
– Ah, meu Deus! — O pranto da senhora era cada vez maior. — Onde você está, filha? Você está bem. Por favor, diga que sim.
– Sim, mãe. Fiquei inconsciente por algum tempo, mas quando acordei consegui caminhar até um hospital próximo. Vem me buscar. Por favor. — Mais soluços eram ouvidos por Analiz.
– Claro que eu irei, Vitória! Me diga onde você está, irei agora mesmo.
***
Eram onze horas da manhã, Vitória descansava em seu quarto, pensando em tudo que vivera nas ultimas horas. Depois de sair do hospital ela não havia aberto a boca, omitiu o encontro com o rapaz e sua ajuda, desde o acidente até a carona ao hospital. O enterro de sua avó a atordoava. Não tirava da cabeça a visão do caixão sendo levado para um buraco frio e sem vida. Vitória pedira a mãe para que Marina fosse enterrada logo, antes que voltassem para casa e assim ela fez. Um enterro com poucas pessoas, com olhares que variavam de frios a tristes. Não tinha chorado, suas lágrimas secaram. Finalmente.
Sua cabeça vaga entre as lembranças, e elas o levam ao homem que a tinha salvo. A curiosidade de saber tudo sobre ele aumentava a cada minuto e Vitória se surpreende ao descobrir que tinha o desejo de revê-lo. Seus pensamentos são dissipados com um batido na porta, era Antônio. Seu pai sempre foi muito carinhoso, deu tudo o que pode a filha antes de a levarem para a escola interna. Vitória amava o pai, mas seus últimos encontros com ele só resultara em briga ou um silêncio desconfortável.
– Você está bem? — Ele pergunta ao por os pés e adentrar ao quarto.
– Estou sim, pai. — Vitória se senta e o convida a sentar-se do seu lado. Ele aceita e se acomoda.
– Precisamos conversar. — Antônio inicia meio sem jeito. — Desde que voltou, não conversamos direito, não nos tratamos como pai e filha.
– Os acontecimentos foram rápidos e estressantes demais, pai. — Sua voz era suave, não queria entrar em uma complexa.
– Sim... — Ele concorda baixo.
Vitória admirava o céu pela janela, não era capaz de olhar para o pai, no fundo estava magoada com ele. Queria perdão e queria se desculpar, mas ambos eram orgulhosos demais para isso.
– Preciso te contar algo. — A voz de Antônio a puxa de seus pensamentos e a trás de volta. — Sobre sua avó.
– O que houve, pai? — Vitória agora prendia toda sua atenção no pai. — Diga. — Tentava aparentar estar mais calma possível, mesmo sentindo um pressentimento ruim. Sabia que não iria gostar do que estava por vir.
– É sobre os anos que passou longe. — Ele hesita por um tempo, sua expressão é dura.
– O que aconteceu?
– Sua avó... — Sua voz para ao ouvir alguém entrar no quarto.
– Vamos almoçar? — Um sorriso calmo escondia as dores de Analiz.
– Claro querida, já vamos descer. — Antônio soava, sua expressão ainda estava congelada num ar de preocupação.
– Vocês estão bem? — Analiz pergunta percebendo o desconforto dentro do quarto. Antônio se levanta e segura a mão da esposa.
– Claro que estamos. Vamos descer. Vitória, venha conosco. — Antes de sumir por trás da porta, ele olha para a filha, ela por sua vez, entende o recado. A conversa iria continuar, mas longe de sua mãe.
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