You and I

13 Capítulo 13


Verônica foi procurar Herval, na Plugar. Ela o encontrou, de costas, arrumando algumas coisas numa estante antiga.

– Herval?

– Verônica – falou ele, após virar-se para olhá-la – nossa – sorriu ele – quanto tempo... como é que você tá?

– Tô bem, obrigada – respondeu ela – e você?

– Melhor agora te vendo – falou ele, rindo.

A jornalista abaixou a cabeça, sem graça.

– Herval, será que podemos conversar?

– Claro – respondeu ele, se aproximando dela – bom, mas será que podemos ir para um outro lugar?

– Bom, Herval, eu não sei se é uma boa ideia... acho melhor falarmos aqui mesmo. Não vai ser nada longo. Eu garanto.

– Ok – falou ele, tentando parecer gentil – então senta. Senta, por favor. Fique à vontade.

– Bom – começou ela, sentando-se – eu soube do que aconteceu com você na madrugada do evento...

– Pois é, eu fui alvo de uma tremenda covardia – respondeu ele – eu fui espancado, Verônica. Fui espancado a mando de alguém. Do Jonas, provavelmente.

– Herval, eu até entendo que você tem motivos de sobra pra desconfiar do Jonas, mas você não tem como provar que foi ele mesmo que fez isso...

– Verônica...

– Eu sei que o Jonas já fez muita coisa errada, sim – continuou ela – que ele já errou muito, e feio, mas dessa vez, assim como em outras, ninguém tem provas concretas contra ele.

– E precisa de provas, Verônica? – falou ele, levantando-se, impaciente – é claro que o Jonas mandou aqueles seguranças da Marra irem atrás de mim no final do evento. Eu tenho certeza disso. Claro que foi ele. A gente brigou feio e eu garanti a ele que aquilo não ficaria assim. Lembra?

– Herval — falou a jornalista, levantando-se também — o Jonas me assegurou que não tem nada a ver com essa história.

– E você acreditou? Acreditou na palavra daquele canalha? Quantas vezes ele já mentiu pra você? Não foi uma, nem duas, não, foram várias vezes. E você ainda acredita nele? Francamente, Verônica, o que faz você achar que aquele canalha mudou? Esqueceu de tudo que ele já aprontou? Não foi à toa que ele ficou quatro anos atrás das grades. Lembra?

– Herval, por favor...

– O Jonas é um canalha, Verônica. Você querendo aceitar ou não. Ele é um bandido. Só você não percebe isso. Ou se faz de desentendida. Tá na cara que ele fez um serviço bem feito, pra ninguém descobrir. Mas isso não vai ficar assim. Ele vai ter o que merece. Ou eu não me chamo Herval Domingues. E outra coisa: tem coisas sobre o Jonas que você não sabe. Coisas que você nem imagina sobre o querido dono da Marra.

– Como assim? Do que você tá falando agora? Como assim tem coisas sobre o Jonas que eu não sei? Que tipo de coisas são essas?

– Coisas graves – respondeu ele – muito graves. Mas eu não posso te contar aqui. A gente teria que ir para um outro lugar conversar. Seria uma conversa longa.

– Herval, que coisas são essas que você está insinuando? Do que você tá falando? Isso é sério mesmo?

– Tão sério quanto o fim do mundo. Que tal sairmos um pouco? Eu posso te contar tudo o que você precisa saber. Mas não aqui, nem agora.

– Por que não?

– Porque, Verônica, aqui tem sempre gente entrando e saindo o tempo todo... tem sempre gente passando. Alguém pode ouvir a conversa e você sabe...

– Entendi. Então tá – concordou ela, intrigada – então vamos. Eu aceito. Só vou dizer uma coisa, Herval: se for mais uma acusação infundada sobre o Jonas nem perca seu tempo...

– Não é infundada. Você vai ver... deixa só eu trocar de roupa... eu já volto.

– Ok – respondeu ela, nervosa. O que poderia ser? Que outra suspeita grave poderia saber sobre o marido, o homem que tanto amava? Verônica passou a mão na nuca. Estava tensa. Tinha medo de descobrir mais uma mentira sobre Jonas. Será que devia mesmo escutar o que Herval tinha a dizer? Ou será que devia ir embora dali? Andando de um lado pro outro, decidiu ligar para Edna e aliviar um pouco a angústia que estava sentindo.

No quarto, Herval, por sua vez, andava de um lado para o outro, nervoso. Com as mãos na cintura, ele pensava no que fazer. A raiva estava tentando controlá-lo, mas ele precisava usar a cabeça. Só de saber que Verônica e Jonas estavam juntos outra vez... irritado, ele chutou um objeto que estava no chão. Tentando se acalmar, passou a mão rapidamente nos cabelos, e respirou fundo. Precisava ter sangue frio agora. Era momento de frieza. Tenso, ele abriu o armário e pegou um revólver. Em seguida, colocou a arma na cintura e trocou a camisa que estava vestindo.

Quando voltou pra sala, Herval encontrou Verônica falando com alguém no telefone...

– Edna, preciso desligar agora.... beijo. Depois a gente se fala, ok? – falou a jornalista, antes de desligar o aparelho. Em seguida, ela fitou o dono da Plugar – E então? Vamos? Eu não posso demorar muito... por causa dos meus filhos... você sabe.

– Eu sei... claro – respondeu ele, ainda tenso – vamos.



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Na Gambiarra, Davi e Megan conversavam...

– Davi – falou a patricinha, com os braços cruzados – você não tinha o direito de acusar o meu dad dessa forma, sabia? De onde você tirou essa ideia maluca de que ele mandou matar o Herval? Me diz, please.

– Megan, eu sei que agi por impulso, sei que falei com a cabeça quente, no calor do momento, mas algo me diz que o Jonas está, sim, por trás dessa história. Independentemente de ele ser seu pai ou não, eu vou lutar pela verdade. E se isso tudo for confirmado, eu quero que você seja a primeira a saber que eu vou sair da Marra.

– Davi, você está louco? Como assim sair da Marra? Você só pode estar... só pode estar brincando. Onde já se viu isso? E meu dad não é um assassino, e você não tem provas de nada... oh, pensa, Davi, por que o meu dad faria uma coisa dessas?

– Megan, quer saber? Acho que nada que eu vá falar aqui vai te convencer do contrário e nada do que você disser também pra mim vai me convencer. Então, é melhor a gente parar por aqui. Eu não quero brigar com você.

– Sabe o que eu acho, Davi? Acho que você está like misturando tudo. Tanto o lado pessoal como o lado profissional. Sorry, eu vou lamentar muito se você decidir mesmo sair da Marra, mas tenho que entender também que você é um boy bem crescidinho e sabe muito bem se cuidar. Excuse-me, I gotta go.

– Megan...

Decidida, a patricinha saiu, sem olhar para trás. O nerd cruzou os braços, pensativo.



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Manu entrou na sala de Jonas e o encontrou lendo algum relatório...

– Com licença, Jonas – falou ela, respeitosa – não queria atrapalhar... mas será que você tem um minuto?

– Oi, Manu – respondeu ele, fitando-a – não está atrapalhando. Entra.

– Ok – respondeu ela, antes de fechar a porta atrás de si e sentar-se diante do patrão.

– E então? Aconteceu alguma coisa?

– Bom, Jonas, na verdade, não... ou melhor, eu não sei... bom, eu sei que você não gosta de rodeios, então eu vou ir direto ao assunto. Vou tentar ir direto ao assunto.

– Ok – respondeu o magnata, encarando-a.

– Bom, é que eu andei pensando nessas últimas semanas e... bom, Jonas, eu decidi que... acho melhor eu sair da Marra.

Jonas Marra ficou um segundo sem saber o que dizer. Afinal, o que Manuela queria dizer?

– Como assim? – perguntou o empresário, sem entender – eu não tô entendendo.

– Bom, Jonas, eu acho que... aliás, eu acho não, eu tenho certeza... eu tenho certeza que não mereço estar no lugar onde estou, que não mereço ser sua sucessora. É isso.

– E por que você acha isso?

– Bom, eu fiz coisas horríveis aqui dentro da Marra, das quais me envergonho muito... sabe, aquela história de te dopar, além de outras coisas... isso tudo mexeu muito comigo e eu não quero mais viver com esses fantasmas.

– Do que você está falando? Tem coisas que eu deveria saber, que eu ainda não sei?

– Sim, Jonas. Quer dizer... bom, eu armei pro Davi. Fui eu que armei pra tirar ele do projeto do Junior no mês passado...

– O projeto que não foi adiante? Sei. E por que você fez isso, Manu?

– Bom, eu tentei tirar o Davi da jogada. Como sucessora, achava que podia me destacar melhor sozinha. E descobriram tudo. Bóris descobriu tudo e agora está me chantageando.

Jonas passou a mão no rosto, perplexo com tudo que estava ouvindo.

– Desculpe – continuou a moça – eu não queria te decepcionar nem te chatear com essas minhas falhas.

– E por que você está me contando tudo isso agora? Por acaso, se arrependeu? Está sentindo remorso ou algo do tipo?

– Porque gosto de você, Jonas. Gosto da Marra. Gosto do seu trabalho, te acho um cara super genial, nunca escondi isso... e me acho muito indigna de estar numa posição que não mereço estar. Achei na obrigação de te contar a verdade. E, claro, estou muito arrependida também.

– Está certo – falou ele, levantando-se – entendi. então você tá fora. É isso?

– Infelizmente sim. Eu prefiro assim.

– Bom, Manu, realmente, depois disso tudo que acabei de ouvir, fica difícil mantê-la na Marra como minha sucessora, coisa que eu lamento muito, pois sempre te achei cheia de potencial para tocar essa empresa, ao lado do Davi ou até mesma sozinha. De qualquer forma, confesso que fico impressionado com a sua confissão. Não esperava. Você teve muita coragem de vir aqui até mim, pedir demissão e me contar tudo o que aconteceu. Eu espero que você fique bem, independentemente de ser na Marra ou fora dela. É sério.

– Obrigada. Bom... eu tô voltando hoje mesmo pra Recife, minha terra. Já comprei minha passagem. Só queria que você soubesse que foi uma honra trabalhar com você, Jonas. Nunca vou esquecer disso.

– Obrigado.

– Bom – falou ela, levantando-se – acho que é isso... com licença então... já vou indo.

– Boa sorte, Manu.

– Obrigada, Jonas. Sucesso.





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No carona, ao lado de Herval, Verônica começou a estranhar o percurso...

– Herval... pra onde estamos indo? Eu não estou reconhecendo mais o caminho...

– Calma, Verônica. Tá tudo sob o controle. Estamos indo pra um lugar mas discreto, onde possamos conversar com mais privacidade. Relaxa.

– Herval, estamos nos afastando demais... não achar melhor voltarmos?

– Se você ficar calma, eu volto. Será que você pode ficar calma?

– Como ficar calma se eu não sei nem onde estamos. Pare esse carro agora, por favor – pediu ela, nervosa.

– Eu não posso parar o carro, Verônica.

– Como não? Pare esse caro agora, que eu vou descer.

– Tá bom, tá bom. Eu vou parar...

– Muito obrigada.

Herval, então, diminuiu a velocidade e encostou o automóvel no canto da estrada.

– Pronto. Satisfeita?

– Eu quero voltar. Me leve de volta pra onde estávamos, por favor.

– Não, Verônica, lamento – respondeu ele, encarando-a – você não vai a lugar nenhum – e deixou à mostra o revólver na cintura. Verônica ficou imóvel, chocada.

– H-Herval... o que é isso? O que significa isso?

– Bom, deixa eu te dizer uma coisa: – continuou ele – agora quem dar as cartas aqui sou eu. A partir de agora, vai ser tudo do meu jeito, ok? Eu dito as regras e você obedece. Estamos entendidos?

– Herval... pelo amor de Deus, o que você tá pretendendo fazer? Está me assustando...

– Eu tentei, Verônica – falou ele, ignorando a pergunta dela – tentei ser gentil, tentei ser paciente com você, tentei te tratar como nunca um dia pensei em tratar uma mulher, mas você abusou de mais. Abusou das minhas boas intenções, abusou do meu amor, abusou da minha paciência, abusou da minha sinceridade. Deixa eu te perguntar uma coisa: quer dizer mesmo que você e aquele desgraçado do Jonas Marra estão juntos de novo? Eu nunca pensei que você fosse me apunhalar assim pelas costas. Não você. A Pamela tudo bem, mas você...?

– Herval, do que você está falando? Você está confundindo tudo... deixa eu te explicar, pelo amor de Deus...

– NÃO – gritou ele, alterado – eu não tô confundindo droga nenhuma. Quem me confundiu aqui foi você. Você que me deixou ter esperança, me deixou ficar babando, me deixou ficar rastejando feito um idiota pelo seu amor. E pra quê? Para agora você voltar para aquele canalha, aquele bandido do Jonas, que, inclusive, tentou me matar? Tá pensando que eu sou o quê?

– Herval... pensa no que você tá fazendo, cara... quer estragar a sua vida? A minha? A do Jonas? A gente pode conversar, se entender... me escuta, por favor – pediu ela, quase aos prantos. A primeira coisa que veio na mente de Verônica foram os filhos. E se acontecesse algo com ela, como ficariam os filhos? E Jonas?

– Foi você que escolheu isso – continuou Herval – a gente podia estar numa boa agora. Poxa, Verônica, como eu queria te fazer feliz. Queria começar de novo com você, sabe? Queria te amar, amar os teus filhos, mesmo sabendo que eles são filhos do Jonas também, mas você... você estragou tudo... – falou ele, se aproximando dela – mas mesmo assim, com raiva, eu não consigo controlar essa paixão que sinto por você... eu tô louco por você – e começou a agarrá-la – será que você não percebe isso?

– Herval – gritou ela, tentando se desvencilhar dele – para! Não faz isso!

Ele continuou agarrando-a, até que, irritado com a recusa dela, ele deu-lhe um tapa. Verônica, gemeu, levando a mão ao rosto. Herval estava irreconhecível. Ela teve medo. Muito medo. Nesse momento pensou em Jonas. Em como queria estar nos braços protetores dele naquela hora.

– Desculpa... eu não queria fazer isso...

– Fique longe de mim – gritou ela.

– Eu só quero conversar – falou ele, levantando os braços, como se estivesse se rendendo – só quero conversar um pouco com você, ok? Só conversar.

– Me leve de volta pra casa – insistiu ela, tentando se controlar – a gente já tá conversando. Não precisa ser assim...

– Ok... vamos voltar então. Mas você tem que prometer que não vai aprontar nada. Senão eu não me responsabilizo por mim, Verônica. Eu não estou brincando.

Amedrontada, a jornalista concordou com a cabeça.

– Então tá – falou ele, voltando-se para o volante – vamos voltar.

E arrancou com o automóvel.

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