You Only Live Once
35 Overdose Romantica
Notas iniciais
PDV do Aaron
Poucas vezes me senti tão ridículo em toda a minha vida, e estar assim ridículo por livre e espontânea vontade era um fato praticamente inédito na minha vida. Era absolutamente patético o quão baixo eu estava indo por causa de um cara, ainda mais sendo um cara chorão e tão pouco persistente naquilo que quer. Um cara que nem sabe o que quer, aliás. Eu queria que esse lance de relacionamento fosse tão simples como uma equação matemática, mas infelizmente não é assim.
Eu odeio quando Adam age como uma criança amedrontada, mas adoro a paixão em seus olhos quando fala dos livros, ou o timbre da voz quando lê em voz alta. Gosto do jeito como fala com as pessoas, sempre tão calmo e gentil. Não convivi com muitas pessoas gentis ao longo de minha vida.
Só que eu fico absolutamente puto quando cedo ao charme dele e acabo que nem besta quando ele recua na última hora. Aposto que nem percebe os sinais que me dá, mas eles são bem claros.
Bom, resumindo a minha ópera, se não eu vou ficar o dia todo aqui reclamando, já que ser duro não adianta eu resolvi tentar uma abordagem diferente.
E é por isso que eu estou aqui, morrendo de sono, parecendo um zumbi, esperando esse desgraçado sair da aula na porta do prédio de literatura, usando uma bermuda xadrez e uma camisa ridícula. Não que eu goste de usar camisas ridículas, mas é parte da caracterização.
Já eram quase 18:30 quando avistei a cabeleira loura sair pela porta da frente. Seus olhos me encararam confusos assim que me viram, o que não demorou muito levando em consideração que eu estava bem em frente à escadaria da entrada.
– O que raios você está usando? – Perguntou, antes de qualquer outra coisa. Um riso divertido escapou de seus lábios. – E não é hora da sua soneca pré-estudos?
– Olá, eu vou muito bem, obrigado por perguntar! – Revirei os olhos. – Não vou ao observatório hoje, faz tempo que não temos nada de divertido pra observar.
Ele arqueou a sobrancelha.
– Você acharia divertido observar o céu mesmo que não acontecesse nada de novo por 50 anos.
– É verdade, mas eu estou tentando fazer uma programação diferente aqui, dá pra cooperar por favor? – Ralhei, cruzando os braços de maneira teatral. – Hoje eu vou ver o céu como uma pessoa normal, fiz até uma cesta de piquenique. E você vai vir comigo.
– Imagino que isso explique o traje ridículo – riu. – Ok, vamos.
Ele abriu um sorriso enorme e acolhedor, mas já tinha aberto outros como esse antes. Eu tinha que ter paciência ao ler seus sinais, nem sempre eram o que pareciam, mas eu o conheço melhor agora. Acho que posso fazer as coisas do jeito certo.
Entramos no Mini Buggie que eu tinha estacionado ali bem perto, e seguimos rumo ao prédio de astronomia. Não íamos ao observatório dessa vez, mas aquela continuava sendo a melhor região para observar o céu, e eu conhecia um lugar especial pra isso.
No caminho, Adam me botou a par de toda a saga da garota sumida, e depois me bombardeou de perguntas. Estava confuso e curioso, não entendia como eu podia mudar de humor tão rapidamente, já que até onde sabia, eu estava puto com ele. E estava mesmo, mas depois que a cabeça esfriou, eu percebi que a coisa era mais complicada do que parecia.
Ele tinha medo, eu só precisava fazê-lo perceber que certas coisas merecem que enfrentemos o medo.
Descemos do buggie em frente à república onde moro, Adam analisou cada pedacinho da construção de madeira envernizada com encanto e curiosidade. Já tinha ido muitas vezes até o prédio principal, mas era a primeira vez que via a república.
– Nossa! Essa casa me lembra aquelas cabanas de madeira escondidas nas montanhas. É linda. Digna de um belo livro de romance. – Ele seguiu pelo caminho de pedras e se aproximou da entrada, passando os dedos pela madeira com um interesse que eu não imaginei que teria.
– É, eu adoro morar aqui, mas tem mais coisas que eu quero te mostrar. – Tirei a mochila dele do buggie, juntamente com a cesta de piquenique, e sinalizei para que entrasse na frente. Ele estranhou a súbita gentileza, mas deu de ombros e atravessou o batente da porta.
Não tinha ninguém na sala, como era esperado. Minha casa era bem mais povoada durante o dia do que a noite. Adam fuçou em parte da decoração absolutamente intrigado, mas logo continuamos o caminho até uma escada semelhante àquelas que se penduram em casas na árvore, o garoto quase surtou de emoção quando a viu.
– Não sabia que era fã de casas na árvore. – Comentei. O sorriso dele se alargou.
– Nós tínhamos uma, meu pai construiu pra mim e pros meus irmãos. Os mais velhos não me deixavam entrar, aí a Lyla ia lá e escorraçava todos eles. – Ele escalou os degraus da escada antes mesmo que eu o pedisse.
– Ah, família, uhul! – Murmurei ironicamente, e sem entusiasmo nenhum. Ele me ignorou.
O sótão da casa era pequeno, escuro e claustrofóbico, mas eu nunca me incomodei com lugares assim. Adam, por sua vez, se agarrou a mim no mesmo instante em que terminei de subir, reclamando de falta de ar.
– Deixa de ser ridículo, é impressão sua. – Ralhei. — Respira fundo aí que eu vou abrir a porta.
Conhecia o caminho até a porta, e a abri sem maiores problemas.
A porta do sótão era o único caminho que levava até o terraço da casa, e eu adorava aquele lugar. Por sorte, nenhum outro membro da casa costumava freqüentar ali, na verdade a grande maioria deles mal saía do próprio quarto, a não ser para assuntos curriculares.
A noite já tinha caído, e a única iluminação que tínhamos ali era proveniente da lua e do interior da casa. Adam correu pra fora do sótão assim que a porta foi aberta e eu ri internamente, balançando a cabeça negativamente.
– Hey, vocês não tem postes de iluminação aqui? – Perguntou, enquanto eu acomodava a cesta de piquenique no chão e pegava a toalha que tinha guardado lá dentro.
– Não, esse tipo de luz atrapalha a visão do céu, só temos postes perto do prédio principal. – Ergui o olhar pra ele, arqueando a sobrancelha. – Não sabia que tinha medo do escuro.
– Não tenho, mas lá dentro estava muito abafado, sei lá,
Estendi a toalha no chão e me ajeitei encostado à parede. Adam foi até a outra extremidade do terraço, se apoiando na mureta de proteção. Ele olhava pra tudo completamente boquiaberto.
– Como foi que os nerds acabaram com a parte mais bonita do campus? – Brincou, deixando o parapeito e rumando de volta até a toalha. Eu tentava sem muito sucesso arrumar a comida de um jeito apresentável, mas levando em conta o fato de que tudo estava embrulhado em papel alumínio ou em tupperwares, não dava pra ficar muito glamuroso.– Essas montanhas são incríveis.
– Primeiramente: Você também é nerd. – Fiz uma bolinha de guardanapo e joguei nele. – E em segundo lugar, já reparou que quanto mais longe da cidade, melhor a visibilidade do céu? Não haveria sentido em fazer um centro astronômico perto de tudo. Seria o mesmo que pegar seu dinheiro e jogar no ralo.
– É, e se tem uma coisa que os diretores do campus apreciam, certamente é o dinheiro. – Sentou-se em frente a mim, me encarando. Sabia que tinha algo o incomodando, ele estava retraído, meio desconfiado. – Aaron, tudo isso aqui é muito legal, mas não faz muito o seu estilo.
– Na verdade, não mesmo. – Admiti. – Você lembra o que eu te disse quando descobriu minha opção sexual?
Ele acenou afirmativamente.
– Eu engasguei com o refrigerante, você riu, e disse que eu podia ficar tranqüilo porque eu não era o seu tipo.
Minha vez de confirmar.
– E não era mesmo. Eu nunca fui muito ligado em envolvimentos românticos, e quando aconteciam eram com caras mais parecidos comigo, viciados em astronomia, e sobretudo muito seguros do que querem. Eu nunca sei o que falar com pessoas que não gostam de astronomia, não tem muitos assuntos que me prendam. Nunca quis problema, sempre fugi de garotos como você. Se eu fosse seguir meu estilo, teria desistido logo no primeiro chilique que você deu.
Ele abaixou a cabeça, pensativo. As maçãs do rosto estavam enrubescidas.
– Então porque é tudo diferente comigo?
Eu sorri, erguendo seu queixo com o polegar.
– Eu também não sei. Não consegui deixar você ir. – Ele sorriu também, de maneira tímida. – Mas se você continuar de frescura eu vou te dar uns bons tapas, entendeu?
– Ok, já entendi! Não vou mais dar chilique. – Revirou os olhos.
– E eu vou respeitar seu tempo, seus dilemas e dúvidas aí, mas enquanto isso eu posso ser um pouco persuasivo. – Tirei da cesta uma lanterna, e um dos livros que ele me emprestou. – Lê pra mim.
Adam pegou o livro entre as mãos, e abriu na página marcada. Eu já tinha lido mais da metade, mas isso não importava já que ele já conhecia a história.
Deitei-me sob suas pernas, meio hesitante. Não sabia como reagiria a isso, mas eu estava me cansando de ter que reprimir tudo o que eu queria fazer. Eu não me reconhecia mais quando estava perto dele, odiava ser tão sensível, me sentia vulnerável. Era mais difícil me esconder no meu sarcasmo eterno perto dele.
Ele pareceu surpreso com a minha atitude, mas não me repreendeu nem tentou se afastar. Enrolou seus dedos nos meus cachos, um gesto que me surpreendeu um bocado. Seus olhos ainda evitavam encontrar os meus, mas quando acontecia, eu percebia que estava no caminho certo. Essa era a maneira de fazê-lo aceitar quem é, e aceitar a mim.
Começou a ler a página, devagar e baixo, quase sussurrando. Ele tinha o dom de interpretar as palavras, era impressionante a maneira como era fácil sentir a história através de sua entonação, até mesmo do olhar e das feições do rosto. Eu poderia ficar horas assim, talvez a noite inteira.
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PDV do Ryan
Quando saí do banho, meus dedos coçavam pra ligar pra Alicia. Tentei ao máximo postergar esse momento, me obrigar a fazer outras coisas e me distrair, só que parece que tudo o que meu cérebro consegue fazer é pensar nela, em maneiras de trazê-la de volta, e em como estaria se virando com aquela gente.
Enquanto eu me jogava na minha cama sem me dar trabalho de secar, muito menos pentear o cabelo, Noah entrou no quarto. Não sabia se estava irritado, rindo, ou ambos. Estava rindo, definitivamente, mas ao mesmo tempo murmurava coisas sobre “Dramas desnecessários, atitudes imaturas e o quanto tudo isso era ridículo”.
Não olhou pra mim por tempo suficiente pra que eu estabelecesse uma comunicação, apenas pegou a própria toalha e seguiu xingando baixo até o banheiro.
Assim que Noah fechou a porta, tratei de pegar meu celular em cima da mesa de cabeceira. Eu precisava ligar pra ela, não ia sossegar enquanto não o fizesse, então não tinha motivos pra adiar mais.
Encontrei seu nome entre meus contatos e liguei, me dando conta de que não tinha nenhuma boa desculpa pra dar. Ainda não tinha falado com Marie, não tinha absolutamente nada pra dizer.
– Alô? – Ela atendeu ao telefone bem quando estava prestes a desligar. Eu demorei a responder, o que pareceu despertar o lado impaciente dela. – Ryan, perdeu a língua? Se a intenção era fazer uma brincadeira, devia ter ligado de outro número, eu sei que é você!
– Alguém está de mau humor. – Eu disse. Ela suspirou do outro lado da linha.
– Desculpe, as coisas não estão muito boas por aqui. Faz muito tempo que não lembro o que é ter dignidade. – Sua voz tinha um ar desanimado, e ao mesmo tempo certa acidez na pronúncia. — Já pediu pra Marie mandar minhas coisas? Eu preciso delas o quanto antes.
– Já falei que vou aí levar suas coisas se quiser, mas sabe, nós aqui precisamos de você. Essa casa está um caos sabia? – Eu sorri meio de lado, mesmo sabendo que ela não conseguia me ver. Era meio involuntário. – Seria muito egoísmo da sua parte nos deixar aqui definhando, pense nisso.
– Essa casa é um caos com ou sem mim.
– Sim, mas você já teria resolvido o cu doce do Noah e da Marie. – E também teria resolvido o clima fúnebre que se instalou por aqui desde que você foi embora, talvez até voltasse a cantar comigo.
– Ah, isso já teria mesmo, esses dois são muito enrolados. Mas também, eles precisam aprender a resolver os próprios problemas, nenhum relacionamento sobrevive com o dedo de outras pessoas no meio. Eu já te contei daquela vez que meu tio Juan escutou gritos na casa do vizinho e resolveu ir lá checar? Foi bastante constrangedor sabia? Nem te conto a cena que ele encontrou... Ah, eu estou tagarelando de novo, não estou? – Ela riu do outro lado da linha, e eu a acompanhei.
A verdade é que eu gosto quando tagarela. Ela fala rápido, quase sem respirar, e gesticula, parece que não se lembra de nada ao redor, apenas da história que está contando.
– Ryan, ainda está aí? – Perguntou, depois do silêncio que se sucedeu. – Ok, eu prometo que vou parar de falar.
Eu sentia um peso enorme no meu peito enquanto a ouvia falar. Não fazem nem 24 horas desde que a deixei lá, como posso me sentir assim?
– Estou aqui. – Minha voz tremeu ao responder. – Eu sinto sua falta.
– Te estraño también. – Sua voz soou triste, e eu percebi que apesar de tagarela e risonha, ela ainda estava abalada por tudo o que vem acontecendo. E ali, no meio daquela gente indiferente e mesquinha, ela nunca melhoraria.
– Alícia, volta pra casa. – Era praticamente uma súplica. – Eu prometo que não vou deixar nada te acontecer.
– Você não pode me prometer isso, sabe que não tem condições de cumprir.
Na verdade não tenho mesmo, mas posso dar um jeito nisso.
– Pelo menos nada vai te acontecer se eu puder evitar... Olha...
– Ryan! – Ela me interrompeu bruscamente. – Não é assim, você devia ser a primeira pessoa a saber que não é fácil assim. – Sua respiração estava pesada, a voz trêmula. Ela ensaiou uma frase várias vezes do outro lado da linha e aquilo já estava me deixando nervoso. O que tinha pra me dizer de tão difícil que as palavras simplesmente não saíam? – Só... Trás minhas coisas o mais rápido que puder, e não complica mais, por favor.
Que droga! Como ela podia me pedir pra não complicar algo que já estava complicado? A culpa não é minha, sou a primeira pessoa a odiar tudo o que vem acontecendo com ela, e também não pedi por aquele beijo, embora tenha gostado.
– Tá complicado pra mim também. – Minha voz era praticamente um suspiro, um desabafo. – Eu sinto sua falta pra caralho, e como você acha que minha cabeça fica? Eu adoro você, sua energia, seu beijo. Te quero aqui.
– Esquece aquele beijo! – Gritou do outro lado da linha. Aquela lembrança a deixava tão descompensada quanto deixava a mim. – Não devia ter acontecido.
– E você conseguiu esquecer? – Rebati instantaneamente. – Alícia... Eu não quero mais lutar pra ficar longe de você.
Por mais que a culpa me corroa depois, por mais que eu ache que ela sempre vai merecer mais do que eu posso oferecer. Eu sinto algo muito forte pela Stella, mas o que eu sinto perto da Alícia é intenso e maravilhoso. Não posso abrir mão disso.
– Ryan...
– Não foge de mim. Me deixa ir aí, e implorar pra você voltar. Se não puder voltar, eu deixo suas coisas e a gente some um dia inteiro com meu carro.
– Não podemos sumir, gênio! Você ainda tem aula amanhã.
– Eu não ligo! – A interrompi antes que pudesse continuar. – Vou levar suas coisas amanhã.
Então desliguei antes que pudesse me responder. Parecíamos duas crianças brincando de quem vai dar a última palavra, mas eu não me importava. Estava perdendo completamente a cabeça, já não agia mais com a razão. Estava seguindo um impulso louco que sempre me levava até ela.
E mais cedo ou mais tarde me arrependeria disso.
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PDV do Adam
Eu tinha plena ciência dos olhos de Aaron cravados em mim enquanto eu lia as páginas do livro. Isso me dava um aperto estranho e muito bom na boca do estômago, e as vezes a sensação ficava tão forte que eu achava que ia explodir. Eu lia pausadamente, e vez ou outra minha voz tremulava, mesmo que eu me esforçasse pra que não acontecesse.
Minha mão continuava ali, emaranhada em seus cachos. Apenas eram retiradas pra virar a página do livro, mas logo voltavam pro seu lugar de origem.
Ele estava sonolento, as vezes fechava os olhos por uns segundos, e os reabria logo depois, mas não sem muito esforço. Provavelmente não dormira durante a tarde, parecia exausto. Eu ri sozinho, balançando a cabeça. Era todo durão, muitas vezes grosseiro e extremamente antipático, mas tinha aberto mão de suas horas de sono pra fazer uma surpresa pra mim, e agora lutava contra esse mesmo sono apenas pra ficar comigo.
Eu sempre soube que Aaron não era tão duro quanto aparentava.
Não demorou para que seus olhos se fechassem e não abrissem mais. Eu parei a leitura, posicionei o marcador de páginas e coloquei o livro de lado, encarando o garoto. Sabia que não estava dormindo, abriu um dos olhos curiosamente quando parei a leitura.
Toquei-lhe os traços do rosto, meio hesitante. Delineei as maçãs de seu rosto, a testa, até mesmo os lábios. Era tão diferente quando deixava o rosto relaxar, devia deixar a velha carranca de lado mais vezes.
– Tinha que ser você. – Murmurei, retoricamente. – De todos os alunos que Faros poderia ter chamado pra me acompanhar, ele tinha que chamar você. E agora a minha vida virou de cabeça pra baixo e eu não sei mais o que fazer.
– Pelo menos agora você diz isso olhando no meu olho ao invés de sair correndo em pânico. – Sorriu meio de lado, me encarando com os olhos escuros. – Me deixa deitar na sua perna, até toca em mim, estamos progredindo!
– Deixa de ser cínico, eu to falando sério.
– Eu também. – Suspirou longamente. – Quer saber o que eu acho?
Acenei afirmativamente. A maneira como me olhava fazia com que eu tremesse por dentro. Eu ainda tinha vontade de fugir de todas essas emoções, mas começava a perceber que não adiantaria. É algo que está dentro de mim, e vai me acompanhar pra onde eu for.
– Acho que deveria parar de pensar, ou pelo menos pensar menos. Você pensa demais. – Parecia estar me testando. Vendo até que ponto eu permitiria suas investidas e indiretas, até que ponto eu permitiria toda a intimidade que trocávamos ali, naquele olhar.
Como amante da literatura que sempre fui, conheço as teorias sobre a força de um olhar, e o quanto ele pode ser expressivo, mas presenciar tudo isso é ainda mais impressionante que a teoria. Aqueles olhos castanho–escuros estavam a ponto de me fazer desistir dos meus princípios, de tudo o que aprendi ao longo da minha vida.
– Eu queria parar de pensar. – Sussurrei, num desabafo. – Desligar minha mente seria uma boa.
O sorriso no canto de seus lábios se alargou.
– Da próxima vez trago uma garrafa de tequila pra você. – Seu rosto, apesar de sorridente, tinha um ar melancólico. Estava confuso, e odiava toda essa situação em que eu o tinha metido, apesar disso tentava ser paciente comigo. Pegou minha mão entre seus dedos, e passou a brincar com ela. A cada toque, ele esperava que eu me retraísse, mas eu não tinha a intenção de fazê-lo. Meu corpo já não tinha mais o instinto de afastá-lo, pelo contrário. Quanto mais consciência eu tinha de mim mesmo, mais eu o queria por perto. Pelo menos a parte de mim que não dava ouvidos a razão. Pena que a parte racional ainda estava bastante presente. – O que nós sentimos não é errado, Adam. Não pode ser.
Era difícil pra ele também, eu percebia a mudança. Ele também estava mais aberto a mim, mas de uma maneira diferente. Aaron nunca se mostrara vulnerável, mas agora eu podia ver a linha tênue entre sua postura desinteressada e destemida e o garoto vulnerável e até meio inseguro que estava deitado no meu colo agora.
Era como uma via de mão dupla. Eu tentava aceitar meus sentimentos aprender a lidar com eles, e ele tentava colocar suas barreiras abaixo e mostrar a pessoa escondida atrás do sarcasmo.
– Eu sei que não é, mas tem mais coisas em jogo além de mim.
– Sua família, eu sei, prometi que não ia te pressionar. – Ele suspirou longamente, um suspiro seguido de um bocejo. – Mas não é fácil.
– Eu sinto muito por poder te dar tão pouco agora. Só palavras, sem nenhuma garantia. – Apertei-lhe o nariz de maneira brincalhona. – Mas se ajuda, eu quero que você saiba que eu não sairia da minha zona de conforto por qualquer paixonite. Eu tenho medo, muito medo de perder minha família, e se estou arriscando isso é porque também tenho medo de perder você.
Ele beijou minha mão.
– Ajuda um pouquinho, mas eu vou cobrar que você mexa esse traseiro gordo logo, não pense que vai me levar na conversa, viu?
Eu ri.
– Ah, até que enfim uma ofensa, já estava achando que tinham te abduzido por aí.
Acabamos mudando de assunto, o clima ficou mais leve. Ele implicou com meu cabelo (o vento o estava deixando bagunçado), depois ficou analisando as estrelas a olho nu, me apontou umas dez constelações, e eu não consegui adivinhar o nome de nenhuma. Comemos, rimos, eu ainda li mais alguns capítulos do livro pra ele, mas os bocejos estavam se tornando cada vez mais freqüentes.
Convenci-o que era hora de ir, e arrumamos as coisas meio a contragosto.
Na hora da despedida, o tradicional aceno pareceu inapropriado depois de toda a conversa e intimidade daquela noite. Acabei lhe beijando a bochecha de maneira demorada, o que o surpreendeu um bocado.
Eu estava ferrado, e sabia disso. Não tinha mais como voltar atrás, não tinha mais como negar o que eu sentia. Agora minha única opção era ir em frente.
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