You Only Live Once

9 O triste homem dos olhos azuis


Notas iniciais
Heeey! Aqui estou eu! Capítulo fresquinho pra vocês, espero que gostem.

PDV da Ana

As coisas estavam movimentadas por aqui. Ah, eu adorava acompanhar a vida deles, se pudesse ficava o dia todo sentada na sala com um balde de pipoca vendo esses imbecis se enrolarem sozinhos.

Depois que Marie deixou a casa às pressas, terminei de comer meus hambúrgueres na sala, acompanhada de Alicia. Ela me contou como tem sido seus dias aqui, me falou sobre como odiou as aulas de direito hoje de manhã, e do quão apaixonada ficou pela sala de instrumentos. Seus olhos brilhavam enquanto falava de cada detalhe que conhecera do programa de artes, e não parava de me agradecer por deixar que ficasse ali.

– Não estou te fazendo um favor. – Disse a ela, dando-lhe uma piscadela. – Você pertence a esse lugar. E claro, quando for uma estrela, vai ter que me dar um salário básico de recompensa.

Me lembro de ter visto uma jovem dançarina uma vez, cerca de 10 anos. Bati os olhos nela e pensei: Devo ficar de olho nessa aí, ela vai longe. Hoje, com quase 18 anos (ai como eu sou velha), ela é bailarina da Broadway, tem muito destaque, e já chegou a protagonizar alguns números importantes. Com 18 anos. Quando tiver minha idade, vai ter um currículo ainda mais invejável que o meu. (E olha que modéstia a parte isso não é pra qualquer um).

Enfim, o fato é que eu olho pra Alicia e tenho a mesma sensação. Ela não tem uma voz extraordinária, mas canta bem, muito bem, e sua voz tem personalidade. Mas seu diferencial está na maneira como a expressão dela muda quando canta, na maneira como se entrega a música e quase esquece do que acontece a sua volta. É pura paixão. Paixão faz toda a diferença. E por saber disso, eu sabia também que ela não duraria muito nesse curso de direito.

Aconselhei-a sobre muitas coisas, inclusive a largar o direito, ela negou categoricamente. Estava tentando convencê-la a se apresentar no coreto no próximo fim de semana quando Marie voltou pra casa. Entrou meio atordoada pela porta da frente, os olhos arregalados e as duas mãos tapando-lhe a boca. Murmurava algo que não conseguíamos entender. Seguiu pelo corredor, provavelmente para o quarto.

Olhei para Alicia, que apenas deu de ombros.

– Não olha pra mim, sei tanto quanto você.

Meio segundo depois, foi a vez de Noah entrar. Seus olhos tinham olheiras profundas, o nariz estava bem vermelho, e as veias do pescoço estavam saltadas. Adentrou a sala correndo, mas parou ali, deixando seus olhos vagarem pelo ambiente.

– Ela foi pro quarto. – Disse a ele, sabia que seus olhos procuravam-a. Conhecia bem meus pupilos, até mesmo Alicia que estava ali há tão pouco tempo.

– Eu... não acho que ela queira que eu vá atrás dela. – Respondeu-me, falando baixo.

– Noah, você ta bem? – Arqueei uma sobrancelha, não parecia nada bem. – Posso dar-lhe uma declaração pra abonarem sua falta de hoje, se não quiser ir...

– Não... Eu to legal. – Ele checou o relógio antigo acima da televisão, marcava 17:30 – Só vou tomar um banho e vou pra aula.

Admiro esse garoto, sabe. Ele tem garra.

Distraído e de cabeça baixa, acabou trombando com Adam na entrada para o corredor. Como eu disse, a casa está movimentada hoje.

– Hey, estava ansiosa pra falar com você! – Levantei-me do sofá e fui até ele, dando-lhe um abraço de urso. Ainda não o tinha visto desde que cheguei, queria saber se tinham instalado ele direito, se foi bem recebido, o que ta achando, etc. Eu sou irresponsável mas me preocupo com eles, escravos bem cuidados rendem mais. – Não te vi o dia todo! Como você ta?

– Eu to ótimo, tive que levar minha irmã em casa e fui direto pra aula na volta. – Ele é tão tímido que isso acaba refletindo nos seus trejeitos. Manteve a cabeça meio baixa enquanto falava comigo, os olhos oscilavam entre mim e o chão. – Ana... Eu queria te pedir um favor.

Levei uma de minhas mãos ao queixo dele, erguendo-lhe o rosto.

– Pode falar, eu não mordo... Só se você quiser. – Pisquei pra ele, tentando descontrair. Mas aparentemente só piorei as coisas já que o garoto ficou mais vermelho que um pimentão. Ah, vai acabar se acostumando comigo mais cedo ou mais tarde.

– Er... Eu preciso escrever uma crônica sobre algo que me inspire, e eu resolvi escrever sobre as estrelas. Será que tem como você me conseguir uma autorização para entrar no observatório de astronomia?

Ah, isso vai ser divertido!

– Claro! Precisa pra quando?

– O mais rápido possível, tenho um prazo grande até mas já queria começar logo. Se pudesse ser essa semana ainda, eu ficaria grato.

– Vamos lá agora! Vamos, pegue suas coisas. – Ele deu de ombros, acenando afirmativamente. – Ah, e nunca mais use termos como “grato” pra falar comigo. Qual é garoto, tenho cara de careta?

Ele riu, correndo em direção ao quarto pra pegar suas coisas. Meio minuto depois estava de volta, com uma bolsa daquelas que se usa ao lado do corpo, e agora com um sapatênis ao invés do chinelo.

Fomos até o meu carro, um velho Fusca todo adaptado, perfeito pra mim. Aquele carro é o meu xodó, a única coisa que me acompanha aonde quer que eu vá, mesmo quando dou a louca e resolvo jogar tudo pro alto. Meu Fusca é amarelo, e tem uma capota cinza que eu deixo a maior parte do tempo abaixada. No lugar do rádio tenho um toca fitas, sou louca pela minha coleção de fitas. Os bancos são de couro, da mesma cor da capota, e o banco de trás deita bastante (O máximo possível pra um fusca). Cama nunca é demais.

Me acomodei no banco do motorista, e Adam no do carona. Parecia encantado com o carro, seus olhos exploravam cada detalhe, e suas mãos tocavam cada centímetro do painel, gastando um tempo maior com o toca fitas. Belisquei-lhe os dedos.

– Tire a mão daí! – Ralhei, abrindo meu porta luvas (Os detalhes retrô são apenas a capota e o toca fitas, o resto graças a Deus se assemelha a um carro normal, inclusive com direção hidráulica). Peguei minha fita dos Beatles e botei para tocar. – Eu dirijo, eu mando no rádio. Aliás, mesmo no banco do carona eu mando no rádio porque o carro é meu, mas claro que isso jamais vai acontecer porque só eu dirijo esse carro.

– Ok. – Seus braços pousaram prontamente ao lado do corpo. – Desculpe.

Ri pra ele, bagunçando-lhe os fios loiros.

– Relaxa garoto.

Dei partida no carro, cantarolando de felicidade. Adam apenas me olhava com cara de quem estava sendo seqüestrado por uma louca retardada, mas ele não podia entender como eu me sentia no momento. Só tem uma coisa que melhora mais meu humor do que escravizar meus pupilos: Irritar Faros Hagias, o amargo, solitário e mau humorado diretor do curso de Astronomia.

Eu o conheci há cerca de cinco anos, antes mesmo de começar a trabalhar aqui. Na época eu estava em tour com meu espetáculo de dança contemporânea, e na noite em que o conheci, me apresentei em Nova Iorque. Foi um espetáculo como outro qualquer, fui aplaudida, as críticas dos jornais no dia seguinte foram boas, mas diferente do que geralmente acontecia, eu recebi uma visita no camarim. Ele apareceu por lá com um vaso de lírios brancos, disse que queria me parabenizar pessoalmente. Falou maravilhas do meu trabalho, e me olhava como se fosse um pedaço de carne.

Fora o olhar estranho, parecia um digníssimo cavalheiro. Beijou minha mão, as orbes azuis cristalinas não abandonaram meus olhos nem por um segundo, e puta que pariu ele era lindo! Tinha longos cabelos negros, negríssimos, e a pele era bem branca. Os fios estavam soltos, cuidadosamente penteados e impecáveis. Caíam até dois palmos abaixo do ombro. Por um segundo me perguntei se ele era gay.

Apresentou-se como Faros Hagias e me cumprimentou em grego, meus olhos se arregalaram e por um segundo senti uma nostalgia se apoderar de mim, saudade de casa. Não sei se já mencionei que nasci na Grécia, e me mudei pra cá com quinze anos de idade em busca de oportunidades para dançar, mas enfim, sim, eu sou Grega, como ele.

Nunca tinha recebido a visita de um Grego

– Estava curioso sobre você... – Disse, sem rodeios, ainda com os olhos cravados em mim, me estudando. – A fantástica bailarina Grega de quem todos falam... As nossas raízes culturais misturadas com a dança contemporânea.

Chegou mais perto, o rosto bem rente à minha orelha. Me arrepiei ao sentir sua respiração em minha nuca. Era bem atrevido, estava diante de uma estranha e não tinha medo de se aproximar, e eu, bem, eu deixava porque estava curiosa sobre ele. O cara era interessante. – Dance pra mim. – Sussurrou, em tom imperativo.

Normalmente, eu lhe daria uma boa joelhada nas bolas para ensiná-lo que Anastasia Kailis não recebe ordens de ninguém, mas ele exercia uma espécie de magnetismo sobre mim difícil de controlar... Me intrigava de uma maneira irresistível, eu tinha que saber mais. E convenhamos, ele é um gato.

Dancei para ele, rodeando-o, tocando-o, seduzindo-o de todas as maneiras imagináveis.

– Sempre é tão ousada com estranhos? — Perguntou, permanecendo imóvel enquanto eu continuava minha dança. Um sorriso travesso surgiu em meus lábios.

– Sempre sussurra para estranhos dançarem para você? — Devolvi a pergunta, Faros pareceu achar isso divertido.

– Eu posso ser um assassino.

Parecia hipnotizado por meus movimentos, eu via fogo em seus olhos. Meu sorriso se estendeu, enquanto eu reconhecia minha deixa.

Deixei que se aproximasse, envolvendo-o em meus movimentos, passando meus braços por seus ombros, apenas para retirá-los depois e deslizar meus dedos por seu rosto, provocando-o. E então, quando estava completamente envolvido, abaixei-me graciosamente e dei-lhe uma bela rasteira.

Me agachei sobre seu corpo já caído no chão, com meus braços apoiados dos dois lados de sua cabeça, e meus joelhos dos dois lados de seu corpo.

– Primeiramente: Não fale comigo no imperativo. — Sussurrei ao seu ouvido, mordendo de leve o lóbulo da sua orelha. — E em segundo lugar: Não pense que está falando com qualquer vadia imbecil. Vigie sua língua.

Ele arqueou uma sobrancelha. — Não me desafie, garanto que não sou um alvo assim tão fácil.

– Mas pensa que eu sou… — Não era uma pergunta, era um fato. Estava cansada de ver pessoas me subestimarem, é comum. Sou mulher, baixa, magra, carinha de anjo… Mas ao invés de me lamentar, resolvi usar isso a meu favor. — Porque não testamos sua teoria?

Levantei-me, não sem antes empurrar-lhe a cabeça, provocando-lhe. Me coloquei de pé bem a sua frente e observei-o. Gesticulei com as mãos, chamando-o para a briga.

– Me dê um soco. — Pedi. Ele arqueou a sobrancelha e riu, descrente. Levantou-se lentamente enquanto ria.

Colocou uma das mãos na cintura, finalmente de pé. Olhava para a outra mão, aparentemente avaliando as unhas. Tamanho era o pouco caso que fazia das minhas habilidades.

– Não vou te socar. — Respondeu, categórico.

– Está vendo? — Minha vez de debochar. Aproximei-me dele, estufando o peito. Ainda era ridiculamente mais baixa que ele, mas isso não afetava minha confiança. — Chega aqui cheio de pompa, machão, mas não serve nem pra me acertar um soco.

Como eu esperava, uma pequena provocação foi o suficiente para despertar a fera. Faros gargalhou, divertindo-se, então ergueu o punho em minha direção, e desferiu o golpe. Acontece que eu sou baixinha, mas não sou pouca merda não. Peguei seu punho antes que atingisse meu ombro e o torci, forçando um pouco a barra. Força não era mesmo meu forte, mas eu tenho agilidade, e isso sempre me foi útil.

– A… Ai. — Gemeu.

– É, aula de defesa pessoal. — Gabei-me, sem soltá-lo. — Já que você gosta tanto do imperativo, talvez esteja precisando de umas aulas de boa educação.

–Solte-me.

– Ah, você não está agindo como um bom garoto… — Forcei um pouco mais o punho. Ele gruhniu. — Como que se diz? Por…

– Por favor! — Soltei-o. Ele permaneceu parado, estático por uns minutos. Seus olhos tinham um brilho desafiador, e ao mesmo tempo admirado. Me senti a maioral naquele momento, mas não tinha esquecido a maneira com que me menosprezara minutos antes, ainda não tinha acabado de fazê-lo pagar por isso. — Você é muito intrigante…

Murmurou, pegando minha mão delicadamente e levando-a aos lábios. Suas mãos eram frias, a boca era fria. Um arrepio percorreu minha espinha, contive-o.

– E você é um babaca. — Respondi. — Mas tem seu charme. Me trate feito idiota de novo, e eu arrumo uma faca pra arrancar seu amiguinho de 5 centímetros.

Aquela noite foi uma das melhores aventuras da minha vida, embora eu nunca vá admitir isso pra ninguém. Conversamos, nos provocamos (Deus eu sentia falta de falar na minha linguagem natal), e bem, dormimos juntos. Ambos tínhamos a língua bem afiada, e esbanjávamos sarcasmo, isso só tornava tudo ainda melhor. No final da noite, ele não me parecia tão babaca quanto no começo. Me tratou como uma dama durante o resto da noite, embora ou soubesse que parte disso era porque conhecera a força do meu braço. No fim, o saldo dele foi positivo.

Quando me despedi dele no dia seguinte jamais imaginei que o veria de novo, no entanto, um ano depois ingressei no corpo docente da Universidade de Calloun, e lá estava ele na minha primeira reunião de docentes. É, a vida tem dessas coisas.

Mas graças a isso eu descobri que minha primeira impressão é bem confiável: Ele é realmente um babaca.

– Ana. — Adam me tirou de meus devaneios, balancei a cabeça negativamente. — Você não tinha que entrar na última à esquerda? Tinha uma placa.

– Ah, é verdade. Desculpa, me distraí. — Fiz o retorno ali mesmo, os olhos do garoto se arregalaram e ele se prendeu ao banco.

– Você sabe que se tivesse vindo um carro da direção oposta, nós tínhamos morrido, não é?

– Relaxa garoto. — Peguei a entrada que perdi, levando-nos de volta ao caminho certo.

Andamos por ali por mais uns 5 minutos, era uma estradinha de terra parecida com aquela que levava à nossa república, mas essa era mais arborizada. Os prédios de Astronomia eram bem isolados.

Estacionei diante de um enorme prédio de paredes branquíssimas, com uma redoma de vidro no centro. Sempre quis entrar no observatório deles, mas nunca em toda a minha existência pediria favor nenhum ao Faros. Nem que minha vida dependesse disso.

Descemos do carro e nos encaminhamos lentamente até a enorme porta de madeira. Enorme mesmo, a porta era uma daquelas de dois andares sabe? Estava aberta.

– Hey, se conseguir entrar, tire uma foto pra mim. — Sussurrei para Adam, enquanto pisávamos no brilhantíssimo piso de mármore do prédio. O silêncio predominava, os poucos alunos que passaram por nós mal nos olharam.

Ele acenou afirmativamente, e seguimos por um corredor estreito coberto por um carpete de madeira, tudo excessivamente limpo. Conhecia o caminho até a sala dele, já tinha ido até ali importuná-lo inúmeras vezes.

Andamos até a primeira porta do corredor, e a escancarei, sem cerimônia alguma.

– Hagias. — Entrei na sala com Adam ao meu encalce. Ele parou na porta da sala e pediu licença, revirei os olhos. — Ele precisa de uma autorização para usar o observatório.

Faros ergueu os olhos cheios de indiferença em minha direção, levou dois dedos às têmporas e suspirou longamente. Estava absolutamente lindo, como sempre, com os longos cabelos pretos presos em um coque meio solto. Maldição, eu adorava vê-lo de cabelo preso, e era uma cena rara. A maior parte do tempo exibia seus sedosos e perfeitos fios caídos em ondas pelo seu ombro totalmente soltos. Aquele cabelo deixaria qualquer mulher se mordendo de inveja.

– Ah, precisa? — Os olhos cristalinos passeavam entre Adam e eu, um sorriso mínimo surgiu no canto de seus lábios. — Então sugiro que seja mais educada comigo, eu sou a única pessoa que pode te dar essa autorização.

Cruzei os braços, arqueando a sobrancelha. Ele estava sonhando se esperava que eu pedisse por favor.

– Vamos, Kailis. — Provocou-me, o sorriso se alargava a cada palavra. — Economize meu tempo e o seu, eu preciso trabalhar. Quais são as palavras mágicas?

– Vá se foder!

– tse tse tse — Pigarreou, fazendo meu sangue subir imediatamente. — Resposta errada.

– Er, Ana! — Adam se pronunciou, quase tremia de tão nervoso. A timidez dele chegava a ser fofa. — Eu preciso da autorização.

– Precisa usar o observatório para quê? — Perguntou ele, agora dirigindo-se a Adam. Observei o garoto se encolher um pouco.

– Eu… pretendo escrever uma crônica sobre as estrelas. Sei lá, pensei que seria legal olhá-las de perto, eu gosto de contar as histórias do ponto de vista de quem está por dentro.

– Entendo… — Encostou-se em sua poltrona aparentemente confortável. — Olha garoto, eu quero realmente te ajudar, mas a sua coordenadora não sabe ser profissional…

– Você gosta de jogar, não é mesmo? — Aproximei-me da mesa, apoiando minhas duas mãos sobre ela, debruçando-me. — Assina essa porcaria de autorização, e resolve seus assuntos comigo depois.

– Não tenho assunto nenhum pra resolver, só gosto de me divertir. — Faros se deliciava com a situação, ah mas eu não via a hora de ver esse sorriso cínico sumir, vamos ver quem ri por último. — Eu vou assinar, mas você tem um débito comigo, e vai pagar da maneira que eu quiser.

Os dedos longos e esguios deslizaram pelo telefone preto na cabeceira da mesa, levou o aparelho aos ouvidos. — Oi, sou eu. — Sussurrou para alguém aleatório do outro lado da linha, provavelmente um de seus alunos. — Peça ao Harrison para vir à minha sala aqui no prédio do observatório, por favor.

Desligou. Curto, frio e grosso.

– Sabe que vai me pagar por isso, eu sempre ganho no final.

Nem se deu ao trabalho de responder, apenas se dignou a assinar um pedaço de papel declarando que estava ciente da presença de Adam no observatório e entregou a ele, com ar de vitorioso.

– Provavelmente não vai precisar disso, vou mandar um de meus alunos com você. Mas se te causarem qualquer problema, pode mostrar-lhes isso.

Adam acenou afirmativamente e agradeceu, quase ao mesmo tempo em que um jovem de cachinhos bem castanhos bateu à porta, mesmo estando aberta. Faros acenou para que ele entrasse.

– Pode acompanhar esse jovem ao observatório? Ele precisa fazer uma pesquisa de campo. A menos que esteja ocupado…

– Não, eu posso ir. — O garoto aceitou de pronto, franzi as sobrancelhas, me perguntando que espécie de regime totalitarista Faros implantou ali. Mas o garoto não parecia ser coagido a nada, na verdade o olhar que destinava a Faros era puramente admiração.

Me lembrei de Stella gritando a plenos pulmões comigo, sem o mínimo de respeito. Me irritei mais.

– Bom, ótimo. Vou voltar pra casa então. Me liga, venho te buscar quando terminar. — Pisquei pra Adam. Não podia simplesmente largá-lo lá, ele é novo, não ia saber voltar.

– Obrigado pela visita, Kailis, devia vir mais vezes. — Levantou-se e me levou até a porta. Odiava toda essa cortesia dele, no meu caso, ele fazia puramente para me irritar. — E não se esqueça do seu débito. — Piscou pra mim.

– Oh eu me lembrarei. — Sibilei, peitando-o uma última vez antes de sair pela porta. — Mas lembre-se que aquilo que pedimos também pode se voltar contra nós… Cuidado com esse débito.

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PDV do Ryan

Quando entrei na sala de aula, parecia que um trator tinha passado em cima de mim. Me sentia péssimo, minha cabeça doía, meus ombros doíam, meu peito doía, mas quando olhei pra Noah me senti um pouco reconfortado.

Se um trator passou em cima de mim, cinco passaram em cima de Noah.

Joguei-me na carteira ao seu lado, ele sentava sempre na primeira carteira, para facilitar a comunicação entre ele e o professor. As vezes era necessário que toda a matéria fosse repetida pra ele, já que toda vez que o interprete aparecia, ele o mandava pastar. Como tínhamos muito mais pratica que teoria, tudo se ajeitava numa boa.

– Onde você tava cara? — Perguntou ele. — Tive um dia de cão, se aquele porra daquele interprete aparecer aqui hoje, o mando embora com uma voadora.

Ok, com certeza tinha tido um dia de cão, não era sempre que Noah saia de seu humor zen, na verdade era bem difícil acontecer.

– É impressionante como nós sempre nos fudemos juntos. — Estendi a mão pra ele, num gesto de “toca aqui”. — Stella foi suspensa, fui levá-la pra minha casa, não queria que fosse pra casa dela… Enfim, acabei amarrado só de cueca no sofá da sala de troféus do meu pai. Depois fui almoçar com minha família como se nada tivesse acontecido. Supera essa.

–Fácil. — Ele se ajeitou na cadeira. — Fui à sala de instrumentos com Alícia pra ver se treinávamos alguma coisa, e ao invés disso eu pedi pra que ela se retirasse e surtei que nem um bebê chorão. Então como sempre Marie apareceu para me ajudar, e ela foi tão doce e perfeita que eu tirei coragem não sei de onde e a beijei.

– Hey, isso é ótimo! Não a parte do surto, mas o beijo.

– Ela saiu correndo.

– Ouch.

– Droga, ela estava tentando me ajudar e eu fiz um papelão. — Socou a mesa, frustrado. — Deve pensar que eu sou uma espécie de cafajeste que se aproveitou da boa vontade dela.

– Ela pode ter ficado surpresa, mas cara, você devia tentar falar com ela.

– Acho que vou evitá-la pelo resto da minha vida.

Revirei os olhos.

– Ok, como preferir. — Ajeitei minha postura na cadeira, voltando meu corpo para a frente. Já tinha insistido demais nesse assunto, tava na hora de deixar ele agir por conta própria.

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PDV da Alícia

– Então, o que raios aconteceu ? — Entrei no meu quarto, e encontrei Marie sentada em sua cama, abraçando os joelhos e um de seus bichos de pelúcia cor de rosa. Fui até lá devagar e me sentei na ponta da cama, apertando sua mão levemente, incentivando-a a falar.

– Ele estava muito mal… Então eu o ajudei da maneira que pude. O abracei, e o acalmei, depois de um tempo parecia bem melhor. — Fez uma pausa. Seus olhos estavam vagos, presos em algum lugar na parede atrás de mim. Não parecia triste, parecia pensativa. — De repente, nem sei dizer quando ou como, ele simplesmente me beijou.

– Não creio! — Aproximei-me mais. — E aí, o que aconteceu depois?

– Eu saí correndo.

– Marie! Menina se um homem daquele me agarrasse eu aproveitaria bastante, isso eu te garanto! — Eu estava totalmente incrédula. Tanto esperou por esse momento pra sair correndo. Era inacreditável.

Ela me fuzilou com o olhar, simplesmente dei de ombros.

–Aproveitaria mesmo, você ta aí fugindo dele!

– Porque eu olhava pra ele e enxergava um boneco de cristal partido em um milhão de pedaços! Ele estava frágil, não sabia o que estava fazendo. Sei lá, me senti uma devassa que se aproveita de inocentes.

Não pude deixar de rir, a comparação que ela estava fazendo era uma coisa bem cômica.

– Noah pode ter seus momentos, mas não é frágil, muito menos inocente. Ele sabia o que estava fazendo. E você sabe exatamente o que deveria ter feito.

Ela ficou um tempo em silencio, enrolava os cachos em um dos dedos distraídamente.

– Você acha que é possível uma pessoa amar outra sem nunca ter beijado, ou ter beijado apenas uma vez, que seja, sem ao menos um encontro? — Ela me olhou, mas era como se enxergasse através de mim, parecia distante. — Eu quase morri vendo ele daquele jeito… Doía em mim tanto quanto doía nele. Na hora não me importei, mas agora parece assustador.

– Claro que é possível, pra amar não precisa beijar, ou ter encontros. Basta conhecer. E você o conhece.

– Eu devia falar com ele não é? Colocar tudo em pratos limpos, e seja o que Deus quiser.

– É exatamente o que você deve fazer. — Sorri, satisfeita. Pensei que esse dia nunca chegaria.

– É, é o que eu vou fazer. — Levantou-se da cama num ímpeto, e passou a olhar seu reflexo na frente do espelho. Argh, isso quer dizer pelo menos duas horas de momento Spa.

Notas finais
E aí, gostaram? Sintam-se a vontade pra opinar, adoro saber a opinião de vocês, suas teorias, seus desejos, aflições, contentamentos, descontentamentos. Falem comigo ç.ç Até o próximo! Beijos.