You Only Live Once
13 A velha briga de quem fere mais
Notas iniciais
PDV do Ryan
– Ryan, tem certeza que quer falar com esse cara? Ele não é mole não... – A voz de Ana parecia cansada e sonolenta do outro lado da linha. Ri, imaginando-a quase dormindo em cima da mesa de reuniões. Ela ia se encontrar com os docentes responsáveis pelo curso de teatro e alguns alunos que faziam parte do comitê estudantil que ajudava a organizar as peças tão prestigiadas apresentadas pela universidade. Olhei no relógio e me surpreendi, já era quase uma hora da tarde. – Eu tenho os dados dele, já que é ele quem paga a estadia da Alícia. O cara não gosta de ser incomodado por qualquer merda.
– Acho que ter a filha presa não é qualquer merda. – Rebati. Nem conhecia o cara e ele já me dava nos nervos.
– Eu posso ir até aí soltá-la depois da reunião. É só molhar a mão dos caras ou, sei lá, outros tipos de argumento. – Sabia bem a que argumentos ela se referia, e sim, com certeza funcionaria principalmente porque Alícia não tinha feito nada de realmente grave. Acontece que não era justo, não era aceitável que o infeliz nem ao menos se importasse com o lugar onde a filha vai passar a noite!
– Ele tem que demonstrar o mínimo de preocupação com ela, Ana! Ela sente falta dele.
– É por isso que eu acho que você não devia ligar. – Insistiu. – Se ele for completamente indiferente, como eu tenho quase certeza que vai ser, você vai magoá-la.
Prendi a respiração por uns segundos, soltando o ar devagar. Ela tinha razão.
– Eu vou tentar... Vou ligar pra ele, ver o que me responde. Qualquer coisa eu contorno a situação de algum jeito, e se tudo falhar, eu volto a te ligar. Não vou deixá-la dormir aqui.
– Ok. Anota aí o número. – Tirei uma caneta do bolso detrás da minha calça, sempre tenho canetas nos bolsos, nunca se sabe quando vou ter uma subida inspiração e precisar escrever em algum lugar. Anotei o número do sujeito. – Tenho que ir, os outros chegaram, vamos começar a reunião.
– Beleza. Depois eu te ligo.
Desliguei o telefone, e passei a fitar o número anotado na palma da minha mão. Seria uma ligação difícil, eu tinha certeza disso, mas eu era duro na queda, e se as coisas não saíssem como eu esperava pelo menos eu ia poder dizer umas verdades.
Ainda podia ouvir Alícia espernear irritada ao extremo dentro da cela, eu estava de volta à velha parte da frente da delegacia, sentado em uma das cadeiras da sala de espera.
– RYAN! Não se atreva a ligar pra ele! – Seus gritos ecoavam por todo o lugar. O policial paspalho revirou os olhos.
– Por mim eu a soltava só pra que parasse de encher o saco. – Queixou-se.
Ignorei os gritos de Alícia e os lamentos do cara cujo nome eu nem sabia e peguei o celular, discando o número anotado em minha mão antes que perdesse a coragem.
O telefone chamou por algum tempo, já estava quase desistindo quando um homem de voz grossa e tom arrogante atendeu ao chamado. A voz fazia jus a tudo o que já escutara sobre ele.
– John Collins. – Sussurrou do outro lado da linha, já demonstrando impaciência antes mesmo do início do Diálogo.
– Boa tarde senhor. – Comecei, calma e cordialmente, esperando não perder a paciência até o fim da ligação. – Sou Ryan Dawson, estudo na Universidade de Calloun e moro na mesma república que sua filha Alícia...
– Ah, então também estuda Direito? Dawson huh? Bom, pelo menos a garota está fazendo bons contatos. – Oh Merda eu tinha esquecido desse detalhe. O infeliz não sabe da vida paralela que ela leva na universidade, não sabe que freqüenta o programa de artes junto conosco, meros mortais esfarrapados. – Eu sou um homem ocupado garoto, o que quer? Quer sair com ela? Vá com Deus, tem a minha benção, até mais.
– NÃO. – Gritei, impedindo-o de desligar. O desinteresse dele era palpável, assim como o asco contido na maneira como se referiu a ela, “a garota”, como se fosse um cachorro caído da mudança que ele fez o favor de recolher. – Se o senhor pudesse vir até a delegacia da cidade... É que ela se excedeu com um dos policiais, e eles a prenderam por desacato.
Ele suspirou longamente, sussurrando algo que não pude entender.
– Não vou aí, eu falei pra essa garota que queria ela longe de confusão.
– Ela é sua filha! – Interrompi-o. – E não procurou a confusão, eles não a estavam levando a sério, ela está com um problema.
– De problemas já bastam os meus. Põe o bendito policial na linha. – Respondeu de maneira rude.
– Filho duma puta. – Falei, tampando a boca do celular com a mão enquanto ia até o policial. Olhei bem pra cara de paspalho dele, e achei que era melhor chamar o outro.
– Cadê o seu amigo Lewbert? Gente, não tem mais ninguém nessa delegacia? Sei lá, um delegado?
– Delegados tem mais o que fazer do que ficar de prontidão numa delegacia tão insuportavelmente calma como essa. – Lewbert apareceu novamente pela portinha, provavelmente me ouvira chamar seu nome. – O que é garoto?
– O pai da Alícia quer falar com você. – Estendi-lhe meu celular, ele pegou de pronto e sumiu porta adentro novamente, falando com o sujeito. Arqueei uma sobrancelha e resolvi que ia conversar com o outro energúmeno. Tudo era extremamente estranho naquela Delegacia.
– Nunca tem um delegado aqui? – Perguntei, ainda meio incrédulo quanto a isso. Porra, pra quê uma delegacia sem delegado?
– Até tem, mas ele não fica aqui o tempo todo, trabalha mais a campo do que aqui. Sabe, não tem muita coisa que acontece por aqui.
– Então por que deixam dois policiais que poderiam ser de melhor serventia na rua? Não podiam deixar escrivães pra registrar boletins?
– Eu perdi meu porte de arma, me assustava com as pessoas e atirava nelas.
Sério, eu duvido muito que esse cara seja efetivamente um policial. Pode ter sido um dia, mas não mais. Ele tem sérios problemas mentais.
– E Lewbert está quase aposentado, eles dizem que ele não tem mais a mesma eficiência de antes. – Deu de ombros, indiferente. Percebi que o cara era tão idiota que se eu fizesse as perguntas certas poderia arrancar qualquer informação dele, e tinha várias coisas que eu queria saber, aquela delegacia era tudo menos normal. Tinha algo muito errado ali.
Não tive tempo pra mais perguntas, Lewbert voltou ainda carrancudo e me entregou o celular, remexendo os bolsos a procura de algo.
– Vou soltar sua amiga. – Dirigiu-se a mim com ar superior. – Mas da próxima vez que me enfiarem uma rosa na boca eu não vou ser tão legal. E se vocês forem espertos, não vão insistir nessas suspeitas sem qualquer fundamento.
Deu-me as costas, rumando em direção as celas. Tinha caroço nesse angu, e eu com certeza ia voltar naquela delegacia, ah se ia...
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PDV do Noah
Quase duas horas da tarde, Ryan estava atrasado. Estávamos todos na sala de instrumentos, eu, Kyle, Nathan, Luke. Íamos ensaiar, mas antes precisávamos ter uma conversa séria.
Pra variar, Stella não tinha aparecido, nem dado qualquer satisfação. Ela não podia freqüentar as aulas mas podia aparecer no campus, nada justificava seu sumiço, e os caras já estavam ficando cansados.
Resolvi mandar SMS pro Ryan e perguntar onde raios ele tinha se enfiado, não era de seu feitio faltar aos ensaios, ele levava a banda a sério. Peguei meu celular no bolso traseiro da calça e disquei seu número rapidamente, digitando a mensagem em seguida.
N: Hey trouxa, cadê você?
A resposta veio cerca de dois minutos depois.
A: O trouxa ta dirigindo, pediu pra eu perguntar o que você quer. — Alícia
N: Veja se não é a pulguinha irritante de um metro e meio! Pergunta pro trouxa se ele lembra que tem ensaio hoje. E Hey, onde vocês se enfiaram sozinhos, na surdina, hein? Aprontaram o que? Haha
A:Vai a merda, e o trouxa disse que não esqueceu, e que se atrasou por minha culpa. O que claro, é uma baita mentira.
N: Hmm Atrasou por sua culpa né?
A: U.u eu fui presa por desacato. O policial me irritou e eu enfiei uma rosa na boca dele e xinguei a mãe dele. Depois te explico.
Eu não queria rir, juro que não, mas a visão de uma criatura tão pequena quanto ela partindo pra cima de um policial era totalmente hilária.
N: Eu quero saber de tudo depois, mas o trouxa vem pro ensaio? Nós temos um assunto chato pra tratar.
A: Vai, nós já estamos voltando.
N: Será que ele pode passar na casa dele e pegar a Stella? É importante.
A: Ele disse que se eu e Stella quebrarmos o carro, vocês vão pagar. Até parece, sou uma dama u.u
N: Eles querem fazer uma votação... Querem tirar a Stella da banda.
A resposta pra essa mensagem demorou um pouco mais pra chegar, sabia que Ryan não ia gostar da ideia. Nenhum de nós estava muito confortável com isso, mas a falta de compromisso dela estava prejudicando o conjunto, não dava pra continuar.
R: Bom, então a votação é mera formalidade né. Mesmo que eu vote a favor dela não vai fazer diferença.
Eita, ele tomou o celular da mão da menina, a porra ficou séria, podia até imaginar a carranca dele. Era muito amor e dedicação gastos com uma garota que não merecia, mesmo depois de tudo ele estava lá, pronto pra interceder por ela.
N: É... Acho que não.
R: E depois, vou ter que levá-la de volta pra casa no meu carro também. Meu pobre carro. Você por um acaso viu o que ela fez com a Charlotte? (N/A: A guitarra preferida do Ryan, pra quem não lembra)
Revirei os olhos.
N: Só traga a garota pra cá ok? E depois eu tenho um outro favor pra te pedir.
R: Ok. Até daqui a pouco.
N: Até.
É, vinha tempestade por aí, era melhor estarmos preparados. Não se cutuca Stella Windsor sem todo um suporte anti-furacões preparado.
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PDV da Stella
Depois do incidente do café da manhã, Charles me deixou quieta no meu canto. Fui até o quarto do Ryan e peguei um de seus violões, passei o resto da manhã dedilhando-o, contendo o turbilhão de lembranças e sentimentos que aquele cômodo me trazia.
Deve ter alguma coisa errada comigo. Eu nunca quis me envolver, o amor trás uma fragilidade que eu não estava disposta a ter. Então o afastei... Fugi de Ryan como o diabo foge da cruz, no entanto agora que me livrei dele, me sinto tão, ou mais insuportavelmente frágil do que antes.
Amaldiçoei-o de todas as maneiras que pude. Droga, porque ele tinha que ter esse jeito todo independente, livre, e ao mesmo tempo tão atento às pessoas ao redor, protetor, cuidadoso. As características que me irritavam eram as mesmas que me atraíam. Talvez por isso me irritassem tanto.
Argh eu precisava ligar pro Matthew, todo esse tempo de reclusão estava me tornando uma pessoa reflexiva, e bah, não to afim de ficar sentimental. Talvez pudéssemos explodir alguma coisa, isso até que me faria relaxar.
... Talvez eu devesse fugir com Matt por aí, ele era o cara perfeito pra mim. Louco de pedra, sem medo de conseqüências, sem muitos pudores, muito bom de cama, e eu nunca me apaixonaria por ele! Quer coisa melhor?
– Stella! – Oh Droga, devia estar há tanto tempo vagando em meus pensamentos que já estava desenvolvendo alucinações. Podia jurar que ouvi Ryan chamar meu nome, mas eles deviam estar ensaiando uma hora dessas, não deviam? – Stella, desce aê, nós vamos pro ensaio!
Oh não, não Deus por favor que eu esteja louca e seja só uma alucinação. Porra mano, eu quero paz na minha vida, o infeliz nunca aparece, e quando aparece é pra encher o saco. Me comer ninguém quer né?
– Não vou merda nenhuma. Manda eles me chuparem.
– Ah você vai. – Eu detestava quando usava esse tom de voz. Era aquele tom de voz, aquele que dizia: Se você não vier por bem, vai vir por mal. E eu detesto ultimatos. – Eu sei que você nunca me escuta, mas sei que ama aquela banda. Então por favor, pro seu bem, só dessa vez entra no carro numa boa vai?
Eu deveria tê-lo ignorado e feito-o pagar pelo ultimato que me dera, mas essas ultimas frases martelavam na minha cabeça de maneira incômoda. Pro meu bem? O que raios estava acontecendo ali?
– O que estão me escondendo? – Perguntei, já tinha saído do quarto e seguido rumo às escadas que levavam ao térreo. – Por que tenho que ir pro ensaio “Pro meu bem”?
Podia ver sua expressão enquanto descia os degraus, e pela cara dele eu simplesmente soube que tinha alguma coisa ali, alguma coisa que eu não ia gostar nem um pouco.
– Nada, só que uma banda é feita de ensaios regulares, e que não são possíveis sem a vocalista.
– Sei... – Arqueei a sobrancelha, optei por não discutir. Estou indo nessa porra desse ensaio, vou descobrir o que raios é isso. E se forem brincar com fogo era melhor estarem preparados, porque vão se queimar. – Vamos então.
Ryan se despediu de Charles, que escutava algumas demos de artistas anônimos no aparelho de som no canto da sala, com um aceno de cabeça.
Saíamos pela porta da frente da casa, e ele parecia tenso, apreensivo, do jeito que ficava quando sabia que algo ia me irritar. Me perguntava se ele me achava imbecil a ponto de pensar que podia me enganar depois de tanto tempo juntos. Eu conhecia cada detalhe daquele rosto, conhecia cada mínima expressão que fazia, e seus devidos significados, e por elas, eu já sabia que devia me preparar pra guerra. Aqui entre nós, eu já imaginava do que se tratava o problema. Ainda mais depois que botaram ele pra cantar no coreto.
Esses putos malditos querem me substituir... Ah mas não vão mesmo.
Abri a porta do Volvo como quem abre a porta do próprio quarto, sem cerimônias. Estava pronta pra me jogar no banco do carona, mas me freei no ultimo segundo.
Ah mas eu não tava acreditando que aquela hermana periguete tinha se metido dentro do carro do meu homem! E NO BANCO DO CARONA! No meu banco!
– Ryan, o que esse projeto de gente ta fazendo aqui? – Praticamente rosnei, tentando me manter imóvel. Eu sabia que se perdesse a paciência, ia pegar qualquer pedra desse maldito jardim e acabar com a pintura daquele carro. A pintura era o mínimo, se ele tivesse muita sorte. – Essa vadia nem esperou a cama esfriar não é? Mas olha só a carinha de sonsa dela, eu duvido que seja mulher pra te agradar de verdade.
– Como é?? – Alícia saiu do carro, tentando me peitar com seu meio metro de altura. A cena era no mínimo patética, eu acabaria com ela em 3 segundos. – Repete na minha cara.
Avancei sobre ela, prensando-a contra o carro, encarando-a face a face.
– Vagabunda... Mas o que esperar né? Acho que ninguém pode te culpar pelo tipo de coisa que aprendeu com a mãe Prostituta dançarina de boate...
– Stella! – Ele me interrompeu, gritando, no exato segundo em que a mão de Alícia acertou em cheio o meio da minha cara.
Fui pra cima dela na hora, mas os braços de Ryan me seguraram com força. Minha visão estava turva, tamanha era a raiva que eu sentia. Queria pegar a cara daquela Maria coitada e esfregar no asfalto até cansar... A infeliz não perdeu uma chance de pegar o meu homem!
– Lava a sua boca suja pra falar da minha mãe! – Gritou, e avançou sobre mim também. Ryan segurava meus dois braços, então tudo o que podia fazer era chutar, enquanto sentia as mãos dela me desferirem mais alguns golpes na face. Esse imbecil, se ele me soltasse eu ia deixar essa vaca deformada de tanto apanhar.
Chutei-lhe as canelas, os joelhos, qualquer coisa que pudesse acertar. Urrava, completamente cega de raiva. Antes que pudesse me dar conta, outro par de braços puxara Alícia pra longe e logo vi que era Charles.
– ME SOLTA! – Eu gritava, me debatendo contra Ryan. Ele sempre fora mais forte que eu, apesar de mais covarde.
– Pai, leva a Alícia pra dentro. – Pediu, e assim foi feito. A vaquinha também tentou se soltar, ela mugia qualquer coisa incompreensível e foi guiada pra dentro, aos trancos e barrancos.
– Sejá lá onde estiver agora, sua mãezinha deve estar orgulhosa por ver a filha seguindo seus passos de BISCATE! – Gritei, antes de ouvir a porta da frente bater estrondosamente.
Os braços de Ryan me soltaram de repente, e acabei me desequilibrando devido à força que fazia para me soltar. Caí no chão, e não me preocupei em me levantar, somente olhava pra ele com profundo ódio e desgosto. Como? Como podia ter me trocado por aquela sonsa sem sal nem açúcar?
– Você passou de todos os limites... – Falou ele, me encarando com os olhos brilhantes de indignação, e até mesmo decepção. Ah vá, como se ele tivesse moral pra estar decepcionado. – Stella foi você que armou essa cilada de mal gosto pra ela? Foi você que pegou a maldita foto?
– Ta falando de quê? – Rebati, praticamente cuspindo as palavras. – Não sei nem que raio de foto é essa.
– Como sabia que a mãe dela morreu? Ela nunca se abriu com nenhum de nós, não pode ter contado justo pra você. Como você sabe? Como sabe que a mãe dela trabalhava em uma boate? – Podia ver a acusação em seus olhos. – E se sabe de tudo isso, sabe que a pobre mulher não era prostituta Stella, será possível que você não respeita nem a memória de alguém?
– Não importa! Ela cresceu o olho em você desde o primeiro minuto naquela república, eu apenas fiz meu trabalho e me mantive informada.
– Nós somos amigos. – Respondeu, de pronto. – Meu amor era seu, sempre foi seu. Mesmo separados eu não sentia que podia amar qualquer pessoa que não fosse você! Mas... Você se deu conta da monstruosidade das coisas que disse pra ela? E agora eu nem mesmo posso acreditar em você quando me diz que não sabe da foto... Você não é uma garota, você é um monstro.
Eu nunca o tinha visto me olhar dessa forma, nem mesmo nas nossas piores brigas. Seus olhos tinham tanto desprezo que eu tive certeza que bati meu Record, agora era oficial: O desprezo era maior do que qualquer sentimento bom que ele pudesse ter sobre mim.
– Não precisa mais ir ao ensaio... – Continuou o monólogo, queria ver até onde ia com seu discursozinho moralista. – Os caras queriam uma votação, queriam tirar você da banda e propuseram uma votação, mas acho que isso não é mais necessário. A decisão é unânime.
– Não podem fazer isso, é a MINHA banda. – Rebati.
– Claro que podemos, já fizemos. – Sua voz era fria, sem qualquer sentimento ou preocupação.
– Ah é... – Eu podia sentir as lágrimas querendo brotar de minha face, contive-as, mantendo comigo o pouco de dignidade que ainda me restava. – Pergunte ao Matt tudo o que nós fazíamos enquanto você, muito trouxa, acreditava que ele estava acima de qualquer suspeita, afinal era como um irmão pra mim, não é mesmo?
Ele não respondeu, não disse uma palavra sequer. Apenas manteve-se parado no mesmo lugar, ponderando se deveria ou não acreditar.
– Ah não, posso fazer melhor. Eu vou te mandar os vídeos...
Me encarava, mal piscando. Observei seus olhos marejarem ao mesmo tempo em que um sorriso irônico dominava sua face.
– Isso não devia me surpreender. – Disse, com a voz meio engasgada. Eu sorria, triunfante. Tinha perdido minha banda, o homem que eu amava, parte da minha dignidade, mas se era pra sofrer eu o faria sofrer junto. Stella Windsor nunca acabava por baixo. – Eu fiz tudo o que eu pude por você, mas simplesmente não existe justificativa pra o que você é... Não foi por falta de amor, Joe te deu amor, eu te dei amor. Você usa seus pais como desculpa, mas se conversasse 3 segundos com essa garota que você acabou de humilhar, veria que a história dela também não foi nada fácil, e ela optou por um caminho diferente. Você é simplesmente ruim, Stella. Sua índole é ruim, e eu não sei como demorei tanto pra ver isso.
Ele deu as costas pra mim, seguindo pelo velho caminho de pedras que levava à entrada.
– Alguém vai trazer suas coisas aqui, e depois faça o favor de sumir daqui e não voltar nunca mais.
Não tinha o que dizer, ou responder. Eu saíra tão ferida quanto ele, talvez mais, mas estava feliz simplesmente por ter feito da agressividade dele uma faca de dois gumes. Ele me atacou, me humilhou, me pisou, mas também se feriu, e isso me bastava por enquanto.
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