You Lost Me
2 Capítulo 1 - Tentativa
Notas iniciais
Diga para mim que isso já é demais. Tentei acender um voto quebrado.
Traída. Eu havia sido traída pelo meu primeiro namorado, aquele em que eu dei o meu primeiro beijo, minha primeira vez, primeiro em tudo. Detalhe: Com minha melhor amiga.
Mas eu perdoei. Simplesmente perdoei. Ou achava que havia perdoado.
Perdoar... Você sabe o que é isso? Alguém sabe como o fazer?
Eu pensei que soubesse...
Começamos em uma noite tranqüila, o tempo estava esfriando. Eu havia saído com Renée, minha mãe, e quando estávamos algumas ruas antes da minha eu o avistei.
Ele passara apressado em seu carro, tirei o sinto de segurança e me inclinei para olhá-lo, mas o escuro não me permitiu ver nada além do vidro.
- Michael? – eu perguntei para minha mãe.
- Sim... – ela confirmou.
Estávamos com as testas franzidas, forçando a vista para olhar dentro do carro.
- Onde ele poderia ter ido? – virei para olhar a expressão de Renée.
- Ele sabia que não estávamos em casa... – ela deu de ombros, pensativa.
- Siga-o!
Renée ousou virar o carro na contra mão e o seguiu.
Durante toda a perseguição me senti uma detetive contratada para descobrir se o cara está traindo a mulher. Fiquei perguntando a mim mesma onde é que ele poderia ter ido. Claro que a primeira hipótese foi a casa dela.
Desconfiança. Essa era agora a minha melhor amiga.
Eu procurava forças para matar as memórias, mas as páginas sempre voltavam.
Ele havia parado em sua casa e quando chegamos já havia entrado e estacionado. Rápido... Outro motivo para alimentar a minha desconfiança.
- Boa sorte. – Renée cantarolou, rindo de minha expressão carregada.
Sai do carro sem me despedir.
- Michael! – eu o chamei.
Demorou para que alguém na casa se manifestasse. Sua mãe abriu a porta.
- Ah, oi. – sua expressão por me ver não era tão agradável. Nós não tínhamos uma boa relação de sogra e nora. Aos olhos dela eu não parecia uma boa garota.
- Ele está no quarto? – perguntei, apenas por educação.
- Sim, acabou de chegar.
Tentei afundar a desconfiança e a raiva enquanto subia as escadas para o quarto de Michael, parecia impossível.
As luzes do corredor estavam apagadas e a luz do computador de seu quarto que estava com a porta aberta era o que me conduzia no escuro.
Caminhei lentamente, com medo. Medo de quem eu poderia encontrar no quarto além de Michael.
Entrei sem pedir licença.
Minha primeira visão: meu namorado sentado na frente do computador, rindo.
- Olha só isso, cara! – ele ria apontando a tela do computador.
E então ele me viu.
- Ei! – seu riso cessou no mesmo instante em que seus olhos caíram em mim.
- Onde você foi? – eu disparei.
Ele tossiu.
- Buscar o Edward. Por quê? – ele tinha a voz e a expressão preocupada.
Então eu o vi. Vi o meu milagre pessoal.
Estava sentado atrás de Michael, usava jeans, tênis, e uma blusa de frio listrada azul claro e escuro. A posição das costas inclinada, o cotovelo direito apoiado no joelho e a mão no queixo, alguns dedos tocando os lábios.
Seu cabelo tocou minha atenção, cor cobre e era bagunçado por capricho. Os olhos castanhos, quase dourados, sua pele clara, o corpo rígido, parecia me convidar.
- Edward? – o som do seu nome em minha voz fez com que eu voltasse a atenção a Michael.
- Meu amigo do trabalho, de quem eu tanto falo. – respondeu Michael, dando um leve sorriso. – O que houve?
- Nada! É só que... vi seu carro passar por nós, e queria saber onde você teria ido. – me lembrei de ficar irritada novamente.
Michael gargalhou.
- Não vejo a graça. – bufei.
- Eu só fui buscar o Edward para ficar aqui em casa, ver algumas coisas... Só isso. – ele balançou os ombros.
- Só isso? Certeza? – perguntei desconfiada, sentando em uma poltrona no canto do quarto.
- Claro, o que eu poderia ter feito?
Então ouvi o som da risada de Edward. Era quase musical aos meus ouvidos. E isso fez eu me calar durante algumas horas que ficamos ali.
O tal Edward era misterioso, falava pouco, quase não ouvi o som de sua voz.
Não o observei por muito tempo, tinha receio pelo Michael.
Se eles planejavam fazer algo mais, felizmente eu havia atrapalhado todos os planos.
Então Michael caiu na bobagem de abrir o Google Earth. Ele mostrou alguns lugares que nós conhecíamos e que freqüentávamos, até mesmo casas de amigos e parentes, onde havia marcado o caminho de sua casa até esses mesmos. Esse ponto estava tudo bem, até eu perceber que ele não havia marcado o caminho da minha casa.
- A minha você não marcou! Por quê? – perguntei brava.
Ele e Edward riram.
- Porque a sua casa é bem fácil e sei como chegar lá.
- Me deixa ver isso. – me aproximei do computador, tirando as mãos dele do mouse, e procurando os caminhos que ele havia marcado.
Sem que eu pudesse me surpreender, ele havia marcado o caminho da minha “melhor amiga”, aquela que havia me traído.
- A casa de Jessica está marcada... Interessante. – eu o encarei.
Edward soltou um riso baixo, iniciando longas gargalhadas de Michael e de mim.
Sinceramente, eu achava graça. Distúrbio de chifruda, talvez.
Voltei para a poltrona, o observando.
- A tempos isso está marcado. – ele disse, minimizando o programa.
- O que eu posso dizer? – sussurrei.
- Esquece isso. – ele parou de rir. – Ela vai me perseguir agora, literalmente! – ele falou para Edward.
- Vai... – Edward murmurou.
Resolvi tentar tirar palavras claras dele.
- Ele contou a você? – perguntei, a sobrancelha esquerda erguida.
- Sim. – novamente soou baixo.
- Você soube antes de mim? – não desisti.
Ele balançou a cabeça positivamente.
Droga, ele não ia mesmo falar.
Eu não me recordo claramente como foi o resto da noite, só me lembro de estar no carro de Michael, tarde da noite. Ele estava levando Edward e eu para casa. Edward morava um bairro ao lado do meu e eu nunca o vira por lá.
As ruas estavam vazias, deixamos Edward em frente a sua casa.
- Até amanhã. – Michael se despediu enquanto Edward saia do carro.
- Até. – Edward fechou a porta do carro e caminhou até a sua casa.
Michael se dirigiu até a minha casa depois que Edward havia entrado e trancado a porta.
Ele parou em frente a minha casa, ficamos alguns segundos parados, em silêncio. Ele não se manifestou, nem tirou o sinto de segurança.
- Não vai entrar? – continuei olhando para frente. Eu já sabia sua resposta.
- Estou muito cansado e já está tarde.
- Ta. – foi só o que eu consegui dizer.
Ele se inclinou, me deu um beijo rápido e eu sai do carro.
Ele ficou esperando eu entrar em casa, e quando fechei a porta ouvi o carro partir.
Será que minha esperança morreu sozinha?
Eu não tinha nada para alimentar o coração, até que liguei o computador e entrei em minhas redes sociais. Edward estava lá, havia me adicionado.
Interessante...
Fiquei olhando a tela do computador alguns minutos, o aceitei.
- Oi.
Edward havia me chamado para uma conversa. Normal...
- Oi.
Respondi sem delongas.
- Tudo bem?
- Sim e você?
- Também. Michael já foi embora?
- Foi.
- Nossa...
Imaginei que por trás desse “Nossa...” havia muitas palavras, como: Ele já foi embora e nem ficou com você? Que cretino!
- Pois é... Juro que já me acostumei.
- Não deveria... A relação de vocês está bem confusa.
- Sim, eu tento melhorar, mas parece que não há mais concerto.
- Ajudaria se você parasse de jogar algumas coisas na cara dele.
Para quem mal abria a boca para sorrir, estava bem falante por trás do computador.
- É bem difícil para mim. Vou demorar para “esquecer”.
- Você disse que perdoou, lembra? Tem que esquecer.
- Serei sincera, talvez eu nunca esqueça.
- Então isso nunca terá concerto.
- Eu já pensei em desistir várias vezes. Hoje mesmo... Ele vem, mal me toca e vai embora.
- Cuidado para não terminar de estragar tudo.
Edward parecia opinar sem receios. Eu nunca gostei disso em ninguém, mas ele parecia se preocupar de verdade.
- O que acha que devo fazer? Ele mentiu para mim! Você já sentiu isso? Parece que todo o amor nunca foi real. E agora como aprender a amar novamente?
A resposta demorou a ser enviada.
- Esqueça tudo o que passou. Todos esses segredos rastejam por dentro, você os mantém seguros, permite que se escondam em seu coração. Sei que é difícil, mas se você disse que o perdoou, precisa esquecer e começar uma nova vida, fazer desse relacionamento algo bom, aproveitar os momentos, fazer com que Michael preste mais atenção. Jogando as coisas na cara dele não ajuda em nada. Eu sei que há uma voz mexendo, mas você precisa matar as memórias.
- Eu sei... Juro que vou tentar.
- Sim.
- O que está fazendo?
- Nada demais, só excluindo algumas coisas...
- Posso saber o que é?
- É da minha ex namorada.
É claro que ele teve uma namorada.
- Vocês terminaram a pouco tempo?
Minha curiosidade ficara aguçada, eu perguntaria tudo.
- Vou esse final de semana para a cidade dela, vamos conversar e resolver, mas tenho quase certeza que vamos terminar.
- Nossa... Como tem certeza?
- As coisas não são mais como antes, e ela pediu tempo várias vezes, a família dela também não tem ajudado, se esfriou.
- Eu entendo.
- É.
- Fique bem, por favor.
Assim que enviei isso, senti uma pontada de arrependimento.
Edward demorou a responder.
- Está um pouco difícil, eu a amo.
- O amor e suas complicações, sei como é.
- Claro que sabe.
- Só quero ficar bem...
- Eu também quero que você fique bem.
Eu sorri para o computador.
- Obrigada.
Conversamos um pouco mais sobre coisas importantes como os nossos gostos musicais e o que gostávamos de fazer.
Para quem precisava dormir cedo, não parecia nem um pouco preocupado com o horário.
Olhei para o relógio no canto direito da tela e me assustei. Era madrugada e logo eu teria que acordar.
- Preciso ir! Está muito tarde!
- Não...
- Eu realmente preciso ir, tenho escola.
- Entendo. E eu tenho que trabalhar.
- Por isso precisamos ir.
- Ok. Boa noite.
- Boa noite. Dorme com Deus.
- Você também. Foi bom falar com você...
E eu me desconectei.
Desliguei o computador, as luzes da sala, da cozinha e fui me deitar.
Aconcheguei-me nos cobertores, parecia que me faltava algo.
Aquela conversa havia bagunçado os meus pensamentos. Não saia da memória esse amor mentiroso, amor inventado.
E eu enxuguei as lágrimas que escaparam, tentando dormir sorrindo.
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