You Got A Hold Of Me
42 Capítulo 042 - Humanidade e maturidade.
Notas iniciais
Melhor? — perguntou Ann assim que Rachel terminou de beber uma caneca de chocolate quente.
Ann Berry era uma das prima de Rachel, mas essa vivia no rancho com os avôs, a tipica garota do interior que era criada rigorosamente pela avó. A jovem chegou a cursar a universidade de Ohio, hoje sendo veterinária e ajudando com os animais criados no rancho. Tendo vinte e três anos, mas ainda com uma cabeça bastante ingênua, porém madura por tudo o que passou na universidade, também pela morte precoce dos pais. Os olhos escuros, semelhantes aos de Rachel, os lábios vermelhos e cheios, os cabelos naquela tonalidade chocolate. Ann era confiável e a única que conseguia chegar até o quarto sem fazer com que a prima mais nova se fechasse em um casulo.
Rachel havia chegado bastante quieta, algo que soou todos os alarmes dos avôs, mas como os grandes patriarcas que eram e com sua experiência de vida em mãos, os mais velhos resolveram deixar a neta a vontade, confortável. Lhe tratando como se não vissem nada. Os Berry eram invasivos, mas não quando um deles estava realmente mal.
Mais relaxada. — a morena disse devolvendo sua caneca a prima enquanto se acomodava melhor na cama. Ann sorriu.
Que bom, Rachel. Parecia muito estressada quando chegou ontem, mal deu ouvidos ao que diziam vovô e vovó. — Ann deixou a caneca sobre a cabeceira e fez uma pausa até voltar ao seu lugar, sentada na ponta da cama — E nem entrava nos desvaneios de Jack, Hannah e Carter, ficou completamente longe.
Dor de cabeça. — Rachel sorriu um pouco e abaixou o olhar discretamente.
Ainda sente? Porque não quis descer para o café, acredito que ainda sinta. — disse Ann.
Não, Ann. — a morena cruzou os braços sobre o estômago antes de voltar a cruzar o olhar com o da prima — Só não me sinto bem do estômago para um café reforçado e nem tão agitado quanto o dos Berry.
Rachel, não quero ser invasiva e nem ultrapassar o limite de intimidade que temos, que aliás é nenhum. — Ann abaixou o olhar sorrindo constrangida — Mas, te passa algo? — perguntou voltando a fixar seu olhar no da garota.
Rachel encarou a garota. Ela parecia sincera, até tímida em importasse com o que lhe passava, mas a morena não queria dividir aquilo, doía e ter que ainda levantar a cabeça, ou até mesmo levantar da cama, exigia muito dela, era como mover uma casa usando somente a força do seu próprio corpo. E mesmo que impossível, ela conseguia.
Ela movia todo o entulho emocional que se formou dentro dela, o movendo para o lado contrário, direto para um abismo. A morena só não tinha certeza se tudo aquilo ainda cairia sobre ela de alguma forma ou se ela caia junto, pois no fim ela estava envolvida novamente em tudo aquilo. Tudo estaria lhe esmagando com força.
Ann... eu sou gay. — Rachel disse séria, a outra morena a encarava sem esboçar uma reação negativa, apenas abriu um tímido sorriso.
Que bom, Rachel. Eu acho. — Ann deu de ombros para a informação.
É, bom, em partes. — a morena sorriu para a prima e lambeu os lábios — É isso que eu vim contar para o vovô e a vovó. Por isso me encontro distante e um pouco mal, temo como vão reagir. Pelo menos isso é parte do meu estado. — Rachel sorriu tristemente.
Você quer ficar só? — Ann perguntou enquanto Rachel a encarava.
Sou grata pela sua preocupação, mas eu prefiro ficar só. — disse a morena.
Então, tudo bem. — a prima acenou com a cabeça e levantou-se, mas antes beijou a testa de Rachel e deixou o quarto.
Rachel respirou fundo. Parecia que o peso de tudo voltava a sentar-se sobre ela. Quinn havia lhe traído, lhe exposto, lhe humilhado e aquilo doía. Novamente a morena estava chorando descontroladamente.
Se ela tivesse ouvido tanta gente, se ela tivesse dado crédito a desconfiança de Mercedes, a uma hora dessas ela estaria pronta e não teria sido tão ferida daquele modo. Ela teria resolvido tudo como a boa capitã que era. Porém, Santana havia feito uma boa jogada, mandou alguém novo e de quem a animadora não sabia nada, Quinn ainda era boa com as palavras e fazia tudo parecer tão real, quando lhe disse o primeiro não, quando lhe pediu tempo, foi exatamente ali que a morena sabia que a garota valia a pena e que devia se arriscar por ela. Ela era diferente. Única.
Todos os toques, palavras e beijos após aquilo pareciam tão reais, Rachel podia jurar ver o sentimento fervendo nos olhos cor de avelã. Era aquilo que lhe indicava para seguir em frente, para não recuar e seguir amando a loira. Era tudo real, era isso que piscava feito uma fraca luz no interior da animadora, aquilo insistia em seu peito apesar de tudo estar tão claro. Quinn seguia tendo sua confiança e seu amor, isso era revoltante.
Em um pulo a morena saiu da cama e estava decidida a buscar um maldito sinal para o celular.
Rachel? Rachel! — Sam perguntou confuso ao ver um vulto passar ao seu lado, logo o loiro chamou a garota. Surpresa, Rachel virou-se interrompendo seus passos se perguntando porque o garoto seguia ali.
Sam? — Rachel perguntou confusa.
Ei, você finalmente apareceu. — o loiro se aproximou da morena — Você está melhor?
É. — a garota concordou com a cabeça, o olhar duro escondendo sua fragilidade. Rachel teria que aprender a conter suas emoções, ela ergueu a cabeça — O que ainda faz aqui? Te disse que podia ir se quisesse. Que devia.
Desculpe, mas estava preocupado. O estado que te encontrei e como você saiu dando ordens duras nos empregados, até o que dizia sobre Quinn... uau! — o loiro enfiou as mãos nos bolsos e suspirou.
Não, me desculpe você. Não sei se já se informou, mas Santana finalmente conseguiu. — Rachel disse sentindo o estômago revirar.
O que? — Sam questionou confuso.
Me jogou para fora do armário e me humilhou para toda a escola. — a morena abaixou o rosto, a mandíbula ficando tensa. Doía.
Como? — o loiro engasgou — Impossível, Santana parecia tão...
Ela também conseguiu me enganar Sam, justamente quando eu achava que começava a chegar em algum lugar... ela me faz essa. — Rachel ergueu a cabeça, os olhos sem vestigíos de lágrimas.
Mas até a Quinn? — Sam perguntou e Rachel não pode conter uma lágrima.
Sam, por favor, vá embora. Eu não sei o que vou fazer ainda e não quero que ninguém esteja me perguntando sobre nada disso. — disse Rachel.
Tudo bem, Rachel. Eu vou, mas vou porque Quinn está precisando ouvir alguém. — Sam disse furioso e saiu em direção a casa, Rachel sentiu o estômago revirar e foi atrás do loiro.
Sam, não faça nada com ela. — Rachel mordeu a própria lingua. Por que ainda se importava? Por que doía imaginar Sam fazendo mal a loira? Ela jamais permitiria, a morena só sabia disso nesse exato momento.
Por que se importa afinal? Ela foi uma vadia, conquistou sua confiança e te fez mal a mando da Santana. — o garoto gritou virando para a morena, as lágrimas voltavam a encher o rosto da morena. Foi então que Sam sentiu-se mal.
Rachel abaixou a cabeça sentindo as lágrimas se multiplicarem.
Apesar de tudo, eu a amo, Sam. Não importa que o que tenha me feito foi ruim, sigo amando-a. — explicou a morena após levantar a cabeça e o choro seguia presente — Continuo amando Quinn.
Não consigo entender esse amor irracional. — Sam murmurou.
Nem eu. Não entendo como pode ser assim, mesmo tão machucado ele continua necessitando Quinn de todas as maneiras. — a morena tentou enxugar os olhos de todas as formas possíveis.
Os jovens se abraçaram e Rachel pode chorar ainda mais nos braços do loiro.
Tudo bem garoto, tire as mãos da minha menina. — a voz firme e áspera de Roman Berry fez Sam e Rachel encararem o homem surpresos — Eu cuido dela agora.
Rachel sorriu entre lágrimas enquanto Sam se afastava da morena com um tímido sorriso.
Quinn Fabray? — o vovô Berry perguntou enquanto cavalgava lado a lado com Rachel. O homem em um cavalo preto, a camisa branca e a calça preta com uma jaqueta de couro na mesma cor e os cabelos negros escovados perfeitamente para trás. Um homem grande, parecido com Leroy.
Exato, vovô. — Rachel confirmou. A morena estava sobre uma égua de cor caramelo com a crina loira, havia sido um presente do avô.
Vocês jovens são interessantes. — Roman encarou a neta que já o observava — E essa garota, ela merece uma boa lição, pois pelo visto ainda te confirmou isso.
Na verdade... — a morena abaixou a cabeça sentindo o peso do que o avô insinuava pesando sobre ela — Não conversamos, eu simplesmente fui embora.
É isso que um Berry faz? — Roman parou o cavalo e logo Rachel tratou de fazer o mesmo.
Não. — Rachel disse timidamente.
Eu sei o que pensa. Por que simplesmente não pego meus homens e vou atrás dessa garota e dar uma lição nela por quebrar minha menina? — Roman perguntou fazendo a neta arregalar os olhos, o homem riu divertido. Se Leroy era bom naquilo, o pai dele era ainda melhor — Porque quando se envelhece você aprende que situações podem ter soluções mais fáceis.
Rachel franziu a testa em confusão, Roman se preparou para deixar o cavalo e o fez, a neta o imitou. Estavam em uma clareira aberta, que terminava em um penhasco. O vovô Berry caminhou para perto do penhasco e Rachel o seguiu. Ela conhecia aquela zona, estranhamente tinha sinal de celular.
Tantos anos casado com a vovó Berry e eu aprendi algo valioso, minha menina. — Roman virou para a neta que observava a paisagem — Nenhum grito substitue uma conversa. Mas quando somos jovens só buscamos respostas rápidas e convincentes, isso vai testando nossa confiança dia a dia. E quando você casa então, Lauren me colocava maluco. — o homem comentou com humor, Rachel sorriu virando para o avô — Ela não confiava nem nos meus elogios. Mas então aconteceu isso que você vê hoje, nós envelhecemos. Tempo passou e aprendemos que a confiança deve estar acima do amor, pois o amor é frágil. É apenas muita emoção com uma extrema ausência de compreensão.
A morena abaixou a cabeça. Em sua mente vinham as imagens de quando Quinn mentiu sobre os slushies recebidos por Megan e algum tempo depois aconteceu seu beijo com Megan. Quando a loira devia confiar, ela desconfiou, mas ela aprendeu e quando devia desconfiar, ela confiou. Aquilo fez seu coração acelerar, Quinn seguia a fazendo se apaixonar mesmo quando não fazia nada.
Sei que aqui... — Roman se aproximou e tocou a testa da garota, Rachel fechou os olhos — Doem várias coisas, a revelação sobre opção sexual sem ter sido algo feito por você, a dor da traição, a dor de estar sem quem ama. E a dor do arrependimento, pois se arrepende de não ter dado uma chance. Pelo menos agora você se arrepende disso. Já aqui... — o vovô Berry apontou para o peito da garota, rumo ao coração — Dói apenas o fato que a mesma pessoa causou todo o estrago daqui. — o homem voltou a apontar para a cabeça de Rachel.
A amo vovô. A amo tanto. — a morena soluçou deixando o choro voltar — Mas eu não consigo confiar, não completamente. E dói tanto ama-lá e não poder dizer que tenho total confiança em suas palavras..
A garota se jogou nos braços do avô. Roman apenas apertou a garota em seus braços.
Vocês ainda tem um logo caminho, minha menina. — murmurou o homem e beijou a testa da garota — Essa é só o primeiro de muitos desentendimentos que como consequência aumentaram a confiança e será uma boa experiência. Pois são tão jovens para falarem de amor. Mas se diz que está tão apaixonada por essa garota, eu te digo para dar uma chance.
Eu preciso... preciso ligar pra Quinn. — Rachel disse saindo do abraço do avô, as lágrimas derrapando descontroladamente pelo seu rosto.
Aqui está. — o vovô Berry tirou o celular do bolso e entregou a neta para logo em seguida beijar sua testa — Te espero no rancho e com boas notícias.
A morena sorriu e acenou para o avô antes que ele partisse com o seu cavalo. A garota virou para a paisagem do penhasco, a brisa batendo no seu rosto secando os restantes de lágrimas no rosto, ela tomou ar antes de digitar os números no celular.
Rachel fechou os olhos ao ter os primeiros toques sem uma resposta, seu peito parecia ser rasgado ao meio e a necessidade de ter uma atenta Quinn no outro lado da linha crescia. Não importava nada, Quinn só tinha que atender aquele maldito celular e dizer que lhe amava, a morena cairia rendida aos pés dela. Era tudo o que precisava. Quinn era tudo que Rachel queria naquele momento para curar uma dor que a própria garota havia criado.
A mão trêmula da morena tocou o pescoço e com a ponta dos dedos puxou a gola alta da blusa, liberando o cordão que Quinn havia lhe dado. Rachel apertou o pequeno Q de prata na mão enquanto fechava os olhos.
Tão real. Tudo havia sido tão real. A mente de Rachel começava a joga-lá para a loira, para um perdão irracional, que não se importava com o quanto tudo aquilo doesse, ela precisava tanto da sua garota.
Eu só preciso ouvir sua voz para ter certeza, Quinn, por favor. — murmurou a morena para si mesma observando a paisagem do penhasco a sua frente — Por favor, atenda. — suplicou Rachel deixando as primeiras lágrimas escorrerem pelo seu rosto.
Com a ligação rejeitada a morena se deixou cair ajoelhada no chão, as lágrimas abandonando seus olhos desesperadamente. O celular escapou entre seus dedos, a mão que continha o cordão apertou o pingente com mais força. A palma da mão ardia, o Q lhe machucava e o pensamento seria irônico quando a pessoa que lhe deu ele estava machucando ainda mais e ao mesmo tempo.
Por que? — a morena socou o chão com a mão livre, o grito solitário se perdeu no ar com a brisa ficando mais forte. O choro ficava ainda mais forte.
A presença de Quinn ao longe, sentada sozinha no refeitório, submersa em sua câmera.
Eu acreditei em você! — Rachel voltou a gritar erguendo a cabeça para com a visão embaçada encarasse as montanhas ao longe.
A loira fotografando as animadoras durante a pausa de um jogo dos Titans.
Eu me apaixonei... — murmurou abaixando a cabeça e um novo soco foi direcionado ao gramado molhado. A queimação na mão que apertava o cordão se tornava quase insuportável.
Quinn estava sorridente tirando fotos da paisagem da clareira delas.
Para de doer! — Rachel voltou a gritar batendo no peito com a mão livre, o choro voltava a se intensificar, os olhos se apertando em dor.
A sensação dos lábios de Quinn sobre os seus, a pressão que o corpo da loira excercia sobre o seu. E todo aquele calor que lhe incendiava.
A morena se inclinou para a frente cansada, um grito mudo abandonando sua garganta e com um só puxão o pequeno Q estava fora do pescoço da garota. Rachel socou o chão segurando o pingente.
Você só tinha que me amar, Quinn. — Rachel murmurou antes de jogar-se de lado no chão, as lágrimas escorregando ferozmente pelo seu rosto.
Ela podia chorar. Gritar. E sofrer em paz. Rachel tinha toda essa liberdade e só deixaria aquele lugar após estar seca e pronta para voltar pra casa de cabeça erguida.
Estava sem chão e não encontraria solo firme até estar um pouco bem. Seu emocional estava abalado e ela jamais conseguiria enfrentar o William McKinley, Quinn, de uma forma convincente. Pois agora, ela tinha que provar a todos que nada mudava, ela seguia sendo a cheerleader maldosa. E para isso ficar claro, ela teria que ir com tudo para cima de Quinn, Santana e Blaine.
E ela faria isso.
Rachel? — Ann perguntou surpresa e virou-se em direção a prima.
A morena caminhava dolorosamente para a escadaria da entrada da casa. Rachel tinha os olhos vermelhos e inchados, as roupas cheias de sujeiras e grama, além de estarem levemente umidecidas. Na mão esqueda apenas se via o brilhante de um cordão.
Eu estou bem. — garantiu a garota em um murmuro — Mande Jhon leva-lá. — Rachel se referiu a égua — Está presa no estábulo, ela precisa descansar, acabei exagerando e ela está esgotada.
Certo. — Ann correu até a prima que já virava-se para entrar na casa — Rachel.
A garota respirou fundo antes de virar-se para a prima.
Fale, Ann. — permitiu Rachel com um olhar vago e um sorriso longe de ser convincente.
Uma senhora Sylvester te espera na sala de visitas. — Ann disse calmamente.
Rachel sorriu de lado. Finalmente alguém se atrevia a ir encontra-lá, porém não havia nenhuma surpresa em ser Sue. Ela sabia que sua mãe e todos os familiares lhe respeitariam, mas Sue? Ela conhecia respeito?
Que bom que tomou um banho para me receber. — Sue disse calmamente e virou para a morena que aparecia na entrada da porta. A mulher estava em frente a lareira acessa.
Estava um caco. — Rachel deu de ombros e aproximou-se da mulher — O que quer?
Estava de passagem. — Sue sorriu sinica e deu de ombros — Resolvi ver como anda a mais nova chacota de Lima.
A mais velha puxou um jornal das costas e arremessou contra a garota, Rachel rosnou ao agarrar o jornal e o arremessou de volta a treinadora.
Eu já li. — Rachel sorriu sarcástica — Caiu nas pesquisas?
Feio. — Sue murmurou jogando o jornal para a lareira, o que causou um ruído estranho do jogo sobre o papel — Mas eu não ligo, não queria mesmo ganhar isso.
Certo, senhora Sylvester. — Rachel cruzou os braços desafiante — Se veio me pedir indicação, Mercedes e Sebastian sabem controlar a equipe depois de mim.
Sue gargalhou provocando a confusão da morena, mas Rachel não deixaria aquilo evidente.
Indicação? Ainda tenho uma ótima capitã. — Sue sorriu ao ver os olhos da garota quase saltarem para fora — Garota, eu sou exigente, dura e perversa. Mas eu entendo perfeitamente o que é viver com algo te empurrando para outro lado, querer viver suportando sozinha algo horrível, tudo para não machucar as pessoas que você ama. Ou arriscar ver o julgamento nos olhos dela.
Vo-você... — Rachel abaixou a cabeça, os olhos marejados e logo voltou a encarar a treinadora, Sue não tinha mais seu sorriso, mas a expressão seguia tranquila — Quem?
Um vizinho. Ele era prestativo e atencioso, acho que um dia quis cobrar tanta atenção. — Sue limpou a garganta levantando a cabeça, o olhar suave — E garota, isso é algo que se carrega para sempre. Mas, aprendemos a lidar com isso. Você tem que viver, ou você deixa de viver ainda em vida.
Rachel sentia o coração bater mais forte.
Eu sei como se sente, em ambas situações. — Sue garantiu tendo a atenção da garota — E Rachel, ela teve a melhor parte de você. Mas tem que se levantar e provar que ainda tem um pouco de si própria nas mãos.
Quinn... — Rachel murmurou abaixando a cabeça, a dor lhe invadindo novamente e a necessidade pela loira voltando.
Você tem que sair dessa merda toda, garota. — Sue disse se dirigindo para fora da sala e tocou o ombro da morena — Só vim te dizer que tem até duas semanas para se manter longe, te consegui um atestado. Volte quando sentir-se melhor. Até semana que vem Rachel, possivelmente.
A mulher deixou a sala enquanto Rachel sentava-se cansada na poltrona. Sua treinadora mais uma vez lhe surpreendendo, mostrando o quanto humana era, e mais uma vez todo aquele furacão de dor começava a lhe varrer. Ela estava começando a cansar de tanta fragilidade, mas com aquela suposta proteção de Sue, Rachel tiraria alguns dias para seu descanço mental. Só voltaria quando seu emocional aguenta-se um encontro com Quinn e com toda Lima.
Ela precisava de tempo para estar forte.
Rachel puxou o cordão do bolso e suspirou, erguendo o pequeno Q no ar. Os olhos marrons encaravam o pingente com um olhar vago e misterioso, mas em sua cabeça ela só conseguia ver o quanto tudo ainda soava real, como parecia que algo estava lhe escapando. Uma confirmação. Um olhar. Ela precisava se submeter a este teste, estar frente a frente com Quinn, tentar decifrar algo invisível nos olhos daquela garota.
Como ainda confiar? Se perguntava a morena antes de fechar os olhos e voltar a guardar o cordão.
A noite no rancho chegou depressa, o jantar foi servido e nessa noite Rachel pode estar mais relaxada, havia gastado todas as suas forças pela tarde na clareira próxima ao penhasco. E dessa vez interagiu ainda mais com os primos que passavam o fim de semana no rancho e com os avôs, trocando olhares cúmplices com o vovô Berry que a todo momento lhe dava algum carinho, um cafuné na cabeça, o esfregão carinhoso no braço ou um doce beijo na testa. Rachel estava se sentindo amada. E ela necessitava amor nesse momento. Mesmo sem sua avó ser tão consciente, ou estava lhe respeitando ao máximo, ela também lhe tratava carinhosamente bem, seus primos atenciosos e divertidos, Ann com aquele doce e admirável olhar sobre ela. Amor. Rachel precisava disso por algum tempo.
Vamos, Rachel! — gritou Carter dentro do lago, um lago próximo ao rancho. Um rapaz alto, de dezoito anos, o corpo em forma e a pele bronzeada, os olhos marrons herdado dos Berry, os lábios finos e vermelhos. O garoto estava aproveitando uma semana de longa folga na faculdade em Yale.
Deixe ela, Carter! — repreendeu uma encharcada Ann subindo na ponte de madeira, o velho cais que agora servia de trampolim para os jovens se divertirem durante o banho. O garoto revirou os olhos afundando na água.
Ann, deixe de ser chata! — apareceu Hannah atrás da prima e a empurrou para dentro do lago novamente. A garota de dezessete anos tinha longas madeixas loiras com cachos volumosos e algumas mechas azuis, o corpo em forma com um piercing no nariz e outro no umbigo, a pele levemente bronzeada e os olhos azuis.
Calem a boca, quero ver Rach pular. — Jack disse dando um adorável sorriso a garota em questão. Jack era um garoto bastante forte e maduro para seus dezesseis anos, o cabelo negro curto, os olhos azuis e pele clara, meio-irmão de Hannah. O garoto e Rachel na infância, por terem a mesma idade, sempre foram excluídos de várias brincadeiras dos primos, com isso desenvolveram uma cumplicidade admirável.
Rachel estava sobre o grosso galho de uma árvore que estava a beira do lago, na infância os garotos, mais do que somente aqueles presentes, haviam amarrado uma corda com um pneu e criaram um balanço. Mas um primo mais ousado subiu pela corda, alcançando aquele forte galho e foi o primeiro a saltar do galho, depois disso todos subiam no galho para fazer grandiosos saltos e com o tempo tudo se desenvolveu para uma divertida competição de quem era o corajoso e mais estilo para aquilo. A morena sempre fazia os seus saltos dali, mas ela nunca confessou o quanto sentia medo daquilo.
Se acalmem! — repreendeu Rachel encarando Jack e sorriu de lado para o primo.
Pula! Pula! Pula! — Carter começou a gritar dentro do lago e fazendo movimentos na água, espirrando ela por todos os lados. Hannah batia palmas e gritava até ser empurrada por uma surpreendente e vingativa Ann.
Rachel fechou os olhos e seu coração acelerou com a rapidez que a morena começou a correr pela extensão do galho. Todos olhavam expectantes. Na cabeça da morena, somente os olhos avelã preenchiam tudo, expulsando o medo para um canto solitário.
Wow! — gritou Carter ao ver o giro que Rachel deu ainda no ar e entrou perfeitamente na água. Todos pularam na água e bateram palmas.
A água fria parecia expulsar Quinn da cabeça da garota, apenas a adrenalina lhe preenchia agora.
Já era quarta-feira e Rachel finalmente aceitava o convite dos primos. Passou todos aqueles dias restrita a passeios de cavalo solitários, que terminavam na clareira onde Rachel gritava e chorava compulsivamente, apertando o pingente do cordão entre as mãos.
Foi bom? — Rachel perguntou a Jack após subir no cais, passando as mãos no rosto expulsando a água gelada dali, mas o brilhante sorriso seguia presente.
Maravilhosa! — Jack respondeu entusiasmado e pegou a garota em um abraço apertado, Rachel riu ao ser apertada e levantada no colo. Todos os outros haviam se jogado na água.
Senhorita Berry! — gritou o caseiro do rancho, mas o homem ficou constrangido ao ter Hannah, Ann e Rachel o encarando — A senhorita Rachel, tem alguém a sua espera.
Rachel estreitou os olhos sobre o caseiro e acenou com a cabeça, o homem coçou a testa antes de dar meia volta e sair dali, todos riram enquanto a morena ficava quieta, incomodada com o homem lhe vendo de peças de banho. Mas ela respirou fundo e lembrou-se mentalmente que nem todos os homens eram ruins, alguns precisavam de apenas um voto de confiança.
Doutor Parker. — Rachel disse surpresa, apertando o roupão de banho no corpo enquanto entrava apressada na sala. Ninguém soube lhe dizer quem era.
O homem virou-se com um grande sorriso para a garota.
Olá, Rachel. — disse o doutor Parker acenando discretamente com a mão — Sua mãe insistiu para que eu viesse, seu pai também. E ele não é o tipo de homem que aceita que alguém se recusse a ajudar sua estrelinha.
Rachel sorriu encantada. Seu pai, como ela o amava.
A morena pediu um tempo para vestir-se e o doutor Parker a deixou ir, talvez ela precisasse daquele que agora era o mais próximo dela.
Sua mãe me disse o que houve. — o doutor Parker disse assim que alcançou o campo aberto em frente ao rancho, Rachel queria ter aquela conversa ali, com aquele fim de tarde presente. Ela abaixou a cabeça discretamente.
Agradeço que minha mãe me livre da parte constrangedora. — Rachel murmurou.
O que te feriu mais Rachel? — o doutor Parker foi direto enquanto ajeitava o óculos no rosto, a garota o encarou atentamente — Ter seu segredo exposto a todos de forma humilhante? Ou ter a sua namorada te traindo desta forma?
Rachel suspirou cansada e levou algum tempo para responder.
Ter o grande amor da minha vida expondo o que foi o meu maior dilema de forma tão humilhante. — a morena respondeu calmamente.
Você sabe que sua mãe conversou com ela, não sabe? — perguntou o homem, Rachel fez uma careta de confusão e negou com a cabeça — Quinn disse que...
Não! — interrompeu a morena — Por favor, não faça isso. Eu quero ouvir da Quinn, eu quero que ela, somente ela, tenha a chance de me provar com uma palavra ou terminar de me quebrar.
Tudo bem. — o homem levantou as mãos em rendição e concordou com a cabeça — Mas a questão é...? — perguntou o psicólogo percebendo que Rachel estava lidando melhor do que todos esperavam.
Quinn. — Rachel acenou com a cabeça — Eu já ia assumir minha opção sexual, não me importaria se fosse Santana o fazendo. Acho que teria aceito, afinal fiz o mesmo com ela. Mas Quinn? Dessa forma cruel? — o coração da morena bateu forte e ela suspirou — Dói. E eu preciso ouvir dela, ver segurança em suas palavras.
Você acha que ainda pode acreditar nela? — o doutor Parker perguntou.
Rachel encarou o doutor com um olhar de dor. Ainda confiava em Quinn? Era o que se perguntava.
Pode soar estranho, mas tem algo em mim que ainda enxerga tudo tão real. — Rachel murmurou dolorosamente.
Confia nela? — o homem foi direto dessa vez. A morena sacudiu a cabeça devagar e soltou o ar que havia prendido.
Se ela me contar a verdade. — Rachel disse em duvida e bateu levemente na própria testa — Eu não consigo entender. Ela fez isso, está provado, ela provou isso, mas ainda assim algo aqui... — a garota colocou a mão sobre o peito — Ainda insiste em me fazer considerar opções, explicações. É confuso e doloroso.
Eu acho que em meio de tudo que você passou, de tudo que sofreu... — o doutor Parker tocou o queixo de Rachel e levantou seu rosto — Uma parte de você seguiu intacta. Intocável. Uma parte boa e única, talvez até rara de você mesma e Quinn alcançou essa parte. Ela de alguma forma tomou essa parte de você pra ela.
Ela tem uma parte de mim. — murmurou a morena deixando uma lágrima escorrer pelo canto dos olhos, e sorriu tristemente — A melhor. — completou.
O doutor Parker sorriu orgulhoso soltando o rosto da morena, Rachel enxugou a própria lágrima e sorriu um pouco mais.
Infelizmente, ou felizmente, Rachel ainda não tinha certeza sobre isso, Quinn tinha uma grande parte dela em suas mãos. Era isso que fazia doer tanto. Apesar de traída, humilhada e abandonada, Rachel não conseguia voltar a ser completamente dela mesma, tinha uma parte sua que seguia em poder de Quinn.
A loira ofegante e assustada invadindo o ginásio. O encontro dos olhos marrons com os olhos avelãs.
Rachel havia encontrado um meio termo, algo que ligava a atual Rachel com seus vários traumas com a Rachel inocente e otimista. Mas agora havia uma nova Rachel, a que pertencia unicamente a Quinn. E apesar de bom, isso doía.
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