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2 Capitulo 1 — O Reaparecimento de Eleven
"Diga 'ah'"
O palito de madeira colocado na boca da garota (contra sua vontade, diga-se de passagem) tinha um gosto estranho e uma superfície áspera, como era de se esperar de um palito de madeira. Estava sentada em uma cama retrátil, destas que se encontram em consultórios médicos, o que era um bom sinal, já que era exatamente em um desses que Eleven estava. O homem pediu que ela fechasse a boca e abrisse os olhos com afinco (que é somente uma palavra bonita pra vontade) e uma luz branca e intensa invadiu sua córnea direita. Em seguida, a mesma luz visitou a esquerda, apenas para ter certeza de que não havia nada de errado.
"Qual o seu nome?"
O médico foi direto, mas sem ser rude. A garotinha não havia ainda se acostumado com interações humanas, então não disse uma palavra, apenas apontou para a tatuagem no braço.
"Eleven?" (Não podemos nos esquecer que a história se passa em Indiana, nos EUA, e um nome é um nome. Não traduzimos nomes).
Ela balançou a cabeça em confirmação. Depois, observou a roupa do doutor de cima à baixo, comparando com as próprias. Ele vestia uma grande jaqueta branca (que nós sabemos se tratar de um jaleco, mas ela não) e uma camisa azul por baixo. Ela, o mesmo vestido rosa dado por Mike alguns meses atrás, mas completamente surrado e sujo, com rasgos em todos os cantos. Coçou a cabeça e se lembrou que seus cabelos haviam crescido, tocando os ombros. Os pés estavam descalços e as unhas, quebradas. Acompanhou os olhos do médico, que liam em uma prancheta algo que devia ser muito interessante, uma vez que sua atenção não era perdida em nenhum momento.
"Eleven, você se lembra qual é seu sobrenome? O nome dos seus pais? De onde você é?"
Ela apenas encarou o autor da pergunta diretamente.
"Aqui diz que você foi encontrada na floresta aos arredores de Hawkins. Você se lembra como foi parar lá?"
Depois de uma pausa deveras longa para ele, mas curtíssima para ela, sua voz apareceu:
"Mundo invertido. Eu vim do mundo invertido."
"Certo."
Ele não pareceu acreditar no que Eleven tinha dito. Tudo bem, adultos não costumam saber das coisas.
Antes que o doutor pudesse tomar qualquer outra medida, a porta se abriu de repente e, do outro lado, Eleven viu um delegado Jim Hopper extremamente ofegante, como se tivesse corrido uma maratona para chegar ao pronto socorro. Ou talvez só precisasse fazer mais exercícios se quisesse correr tão rápido em tão pouco tempo.
Eleven esboçou um pequeno sorriso sem dentes, diferente do delegado, que os mostrava sem distinção.
"Delegado Hopper"
"Doutor Weber. Ela está bem? Pode ser liberada?"
"Pelo que parece, está saudável. Mas ainda tenho algumas per-"
"El, vamos. Você deve estar com fome."
Eleven desceu da cama e saiu do consultório, deixando para trás um médico bastante confuso. O delegado também não se importou em dar nenhuma satisfação para a secretaria do lado de fora da sala. Os dois caminharam até a viatura de policia estacionada próxima do hospital sem abrirem a boca. Não havia muito o que ser dito naquela situação, pois. O que havia a ser feito ali era uma contemplação silenciosa, uma apreciação de um momento único, singular. A garota demonstrava sua gratidão por todo esse tempo de fornecimento de eggos e o homem sua preocupação com o que ela passara sem a necessidade de trocarem uma única palavra.
Jim Hopper era um adulto que sabia das coisas.
Quando alcançaram o carro, Eleven finalmente perguntou:
"Para onde vamos?"
Jim sorriu enquanto dava ignição na viatura. O rádio ligou sozinho e, se Eleven soubesse sobre música, e sobre boa música, ela saberia que Kansas estava tocando.
"Pra casa. Nós vamos pra casa."
Carry on my wayward son,
For there'll be peace when you are done
Lay your weary head to rest
Now don't you cry no more...
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