- Bert’s POV —


Igrejas realmente parecem lugares adoráveis, onde reina a paz do Senhor e onde mora a sabedoria divina. O que ninguém pensa é em como é difícil administrá-la. Total burocracia, e eu devo dizer que esses padres realmente não sabem o que fazem quando depositam o dinheiro nas minhas mãos. Eu poderia fugir, ir para a Malásia e me entupir de drogas. E eles nunca saberiam! Mas eu sou um menino de Deus, eu me converti e rezo ave-marias todos os dias.


Ou pelo menos tento rezar.


De todo modo, prefiro estar na segurança das paredes de pedra erguidas em anos que não faço questão de recordar. Assim pelo menos não corro risco de… uh, encontrar alguém indesejado. Dei graças aos céus no momento que meus pés me puseram dentro do dormitório. Joguei-me na cama e me arrependi no segundo seguinte de tê-lo feito, devido a porra da dureza do colchão. Além de cansado – por conta de ter passado o dia fora – e paranóico – por culpa do meu passado ridículo que eu não posso apagar – e com sono, ainda tenho que agüentar uma maldita dor na coluna por ter me jogado de maneira imprudente na cama. Tenho que me lembrar de nunca mais tentar uma gracinha dessas de novo.


Levantei-me, arqueando as costas como uma grávida e passando a mão na região. Andei levemente de um lado para o outro, para distrair-me da dor, quando finalmente percebi que um bilhete estava bem à vista no chão perto da porta. Andei o mais rápido que pude e quando tomei o papel vi que estava tremendo por algum motivo que nem eu sabia qual era.


A verdade é que depois que o li eu tive razões para tremer.


“…trate de levar as coisas mais a sério, sim?…”


Por que isso soava tanto como uma ameça? Ah, certo. A resposta vinha logo após.


“…Lembre-se que eu sei mais de você do que a maioria, então é melhor você me manter calado.…”


Criança estúpida! O que ele pensa que é para tentar barganhar seu silêncio? Admito que não estou em posição de negociação, até porque Gerard não sabe nem da metade da missa – ôh trocadilho infame! –, mas já sabe o bastante para me arruinar em segundos. E o que raios ele quer dizer com “me manter calado”? Fui só eu que levei isso para a perversão ou…?


Ó, como se eu não o conhecesse. Como se eu não soubesse que cada uma de suas palavras era totalmente pensada, e voltada para o lado mais pervertido da coisa. Claro que às vezes, como dessa vez, ele conseguia ser bem sutil, sutil demais, na verdade.


Okay, eu tenho que procura-lo. Devo procurá-lo. Sério, eu preciso saber o que ele quer dizer com “manter ele calado”. Ou devo simplesmente responder ao seu bilhete, e perguntar o que ele pretende com aquilo.


Ou não, sabe, o que esta correndo atrás de mim é ele, então eu pretendo simplesmente me fingir de desentendido.


Hoje seria a minha noite de folga. Folga na qual eu inventei. Eu mereço um dia de descanso, né? Eu preciso sair daqui uma vez por semana, preciso me divertir um pouco. Claro que, aquele garoto, o Gerard, me proporciona muitos tipos de diversão, muito mais do que eu esperava ter em um seminário.


À noite, depois da ceia-de-natal-diaria, vulgo jantar, pretendia ir para aquele bar, aquele mesmo bar que o conheci. Sabe como é, nesses lugares tem toda aquela fartura de comida. Onde antes de comer, em volta daquela mesa de jantar gigante, daquelas que não é possível ver de uma ponta a outra, todo mundo dá as mãos, e reza. Se eu fosse um menino de Deus, juro que me emocionaria.


Quando a ceia terminou, eu acompanhei os seminaristas para os seus respectivos quartos. Juro que me sinto aqueles tios de excursão, aquele tipo de monitor que tem que ter conhecimento de todos os passos das crianças. Bem, os seminaristas que estavam ali não eram tão crianças assim.


Fui até o meu quarto, rezando mentalmente, talvez assim Deus atendesse meus pedidos, e fizesse com que o velho que dividia o quarto comigo não estivesse lá naquele momento. E bom, ele não estava. Era sexta, todos os mais velhos estavam por ai fazendo coisas divertidas ao seu ponto de vista, e por isso não me veriam saindo do seminário.


Corri, parando quando virei o quarteirão, tendo certeza de que ninguém tinha me visto. Ó deus, minhas roupas, tão amadas roupas leves e fáceis de tirar.


A musica estava alta lá dentro, como sempre. Eu gostava da sensação das batidas do meu coração acompanhando a musica. Diferente das outras vezes, estava escuro. Além de soar feito uma porca, eu não enxergo bem. Muito problemático eu, não?


Passei por um dos apertados corredores mais escuros que o resto do bar, observando a quantidade de pessoas que se beijavam e faziam sabe-se lá o que mais. Foi ai que eu senti alguém encostando seu quadril firmemente contra as minhas costas, sussurrando no meu ouvido. “Já terminei de contar agora é hora de procurar, Robert. E, bom, acho que eu já achei o que eu estava procurando, foi mais fácil do que eu esperava.”


Ele pressionou sua parte da frente com mais força, envolvendo com um de seus braços a minha cintura, mordendo levemente o lóbulo da minha orelha.


Okay, Robert, agora não é hora de hesitar, e sim hora de aproveitar.


Suspirei, me virando, encarando seu par de olhos verdes. Ele sorriu, me empurrando levemente contra uma parte da parede do corredor que estava livre. Nossos rostos estavam tão próximos que podíamos sentir a respiração um do outro. Mas antes que eu pudesse tomar uma atitude, ele disse:


- Me paga uma bebida. – e logo em seguida foi em direção ao bar.


Gerard, sua puta! Ele gostava de fazer isso, de ficar “no comando”. E o que eu podia fazer? Nada! Porque apesar de tudo, eu gostava disso. Não tive outra escolha a não ser segui-lo até o bar. Ele já se encontrava sentado em um daqueles bancos, apoiando a cabeça com a mão, creio que me esperando.


- Até que enfim, pensei que ia ficar parado lá! – disse ele, batendo os dedos no balcão.


- O que vão querer? – perguntou a moça bonita que trabalhava ali.


- Dois sex on the beach, por favor. – disse Gerard.


- Certo! – disse a moça, afastando-se logo em seguida.


- E se eu não quiser beber isso? – perguntei


- Se você não quiser é problema seu! – disse ele virando se para mim – Eu gosto particularmente do nome, porque você sabe, é o que vamos fazer um dia. – disse ele colocando umas das mãos em minha perna.


A mão dele continuou ali por um bom tempo. Não trocamos mais nenhuma palavra até que eu não agüentei mais aquele silêncio.


- Me diz logo por que você marcou esse encontro. Você sabe que eu não posso sair...


- Shiuu – disse ele, colocando o indicador sobre meus lábios. – Deixa que eu falo. Eu te chamei aqui pois não agüento mais você fugindo de mim. Eu sou uma boa pessoa. – disse ele com um ar infantil.


- Ah, eu imaginava que fosse isso. Isso nunca devia ter acontecido, quero dizer “nós”. Você é meu aluno, eu sou um padre. Temos que pôr um fim nisso. – eu disse, com uma expressão séria.


Foi quando percebi que Gerard não escutara nem uma palavra do que eu dissera, pois seus olhos estavam fixados em alguém que se encontrava numa mesa próxima a nós. Quem seria ele?


Claro que não pude me conter, eu sou curioso e admito. Afinal de contas, estamos falando de Gerad, e se Gerard tinha algo mais interessante para se ocupar então eu queria saber o que era. Virei-me discretamente, seguindo o olhar de Gerard até a mesa que ele analisava sem pudor algum, apenas para encontrar um rapaz sorrindo-lhe sobre sua própria bebida. Quando ele abaixou a garrafa de cerveja e levantou-se para caminhar na nossa direção, pude perceber que de fato o tal rapaz parecia muito exultante por algum motivo que novamente atiçou minha curiosidade.


Gerard estava meio boquiaberto quando se abraçaram. Um abraço que durou tempo demais, na minha opinião. Eles ainda não haviam dito nada, mas analisavam-se como se não acreditassem no que viam.


- Eu não… — Gerard começou, mas foi interrompido por um beijo repentino que o outro lhe aplicou, dando as costas para mim.


Revirei os olhos, sentindo que meu pé começava a bater insistentemente no chão para chamar atenção deles. Alô-ô? Robert McCracken ainda está aqui, infelizmente. Vocês poderiam por favor se soltarem? Arrumem um quarto!


- Aqui está. – a moça retornou, com as duas bebidas, e ainda assim eles não se largaram.


- Caham. – pigarrei, soltando um bufo por não ter tido resultado. – CAHAM.


Eu quase cospi meus pulmões para que eles me olhassem. Gerard com os lábios inxados e com um olhar estupidamente perdido. Idiota. Isso que ele é. Ele me chama para vê-lo atracar-se com outro cara? Eu nem sabia seu nome e já estava com vontade de torcer o pescoço dele. Dei um sorriso forçado e peguei minha bebida, fingindo que pouco estava ligando para ambos, o que clararamente não era verídico. Até porque eu fiz eles pararem com toda a cena, não é?


- Uh. Robbie. Esse é o…


- Jared, prazer. – ele afastou-se alguns centímetros de Gerard e estendeu a mão para mim. Bastardo. Depois de me deixar falando com as moscas quer ser todo educado, não é? Enfie isso no—


- Bert. Robert pra você. – eu disse, sem poder conter uma nota de… de quê? Raiva, eu acho.


Jared ficou me encarando por prolongados minutos e eu percebi que ele me fitava dos pés à cabeça. Devia estar se perguntando o que o seu namoradinho Way estava fazendo comigo naquele bar sujo, mal-acabado e barulhento. “Uh, no bar nós não fizemos muita coisa, mas na cama… Hmm…”


- Ahn, vamos sentar? – Gerard perguntou tentativamente, talvez para quebrar o silêncio incômodo que se instalara entre nós.


- Não. – eu respondi secamente, sem encontrar os olhos verdes de Jared que ainda pousavam em mim. – Eu vou dar uma volta para… Eu vou dar uma volta. – concluí, sem conseguir arranjar uma desculpa decente para completar minha sentença.


Gerard fuzilou-me, com seus braços permanecendo ao redor do rapaz alto. Metade do bar parecia tê-lo notado, levando-se em consideração que todos ali se conheciam pelo menos de vista e o Sr. Engomadinho era novo por ali, decerto. Um sorriso apareceu no rosto dele.


- Eu estava falando com Jared, Robbie.


Bela tentativa de me deixar desnorteado. Quase funcionou.


- Mas eu estava falando com você. – finalmente retribuí o olhar a Jared. – Pelo jeito vamos ter que adiar nossa conversa. Que pena.


\"Corno.”, eu pensei amargamente, ainda encarando-o. Suspirei antes de dar a oportunidade a Gerard de retorquir, e deixei-os sozinhos para relembrar seus momentos amorosos, visto que pela maneira como haviam se abraçado parecia que não se viam há muito tempo. Dirigi-me aos fundos, deixando o pouco da bebida que restava descansando no chão enquanto eu puxava um cigarro do maço que eu trazia no bolso.


- Humpf. Maldição. – Eu havia esquecido o isqueiro. Legal. Aproximei-me de um cara qualquer que estava próximo de mim, também encostado na parede e com um olhar perdido. – Hey, cara, tem fogo?


Dois minutos depois eu estava terminando o meu Sex On the Beach e dando a segunda tragada em meu cigarro, quando a porta dos fundos abriu-se repentinamente e Gerard irrompeu dela, aparentemente irritado com algo. Levantei-me depressa, forjando um sorriso satisfeito.


- Ora, ora, ora. Veja quem resolveu dar o ar de sua graça.


Como se fizesse muito tempo desde que eu o deixei lá dentro com seu querido Sr. Engomadinho ou o que fosse. Gerard fez sua melhor cara de deboche.


- Pare com isso, Robbie—


- Bert, Gerard. B-e-r-t.


- Cale a boca, Robbie. – “Fedelho maldito, eu não gosto desse seu apelidinho.” – Minha paciência com você está se esgotando, sabia?


- Ah, é? Pois eu tenho uma novidade para você: a minha já se esgotou faz algum tempo. Ou você achou que eu ia ficar muito feliz com esse seu encontro amoroso com esse tal de Jade—?


- Jared.


- Que-seja. Se você me chamou aqui para assisti-los, saiba que eu estou dando meia volta. E eu não me importo se você vai gritar… aquilo para o mundo inteiro porque eu te deixei aqui, eu realmente não me importo.


- Não. Fique.


Não havia ‘por favor’, era apenas ‘fique’. Uma ordem clara, quando na verdade eu era quem deveria estar mandando em alguém. Eu ainda irei descobrir de onde vinha toda aquela postura de eu-estou-no-comando de Gerard.


- Eu devo a você umas explicações, você pode entrar?


- Oh, agora ele sabe ser educado.


- Entra, Robbie! Que merda, eu estou tentando ser um bom menino e você continua me aborrecendo. Hmp.


Joguei meu cigarro no chão e segui-o quando ele abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse.


- E seja educado com Jared.


Ooh. Você está pedindo demais, Gerard.


De novo aquele maldito corredor. Gente, esse povo não pode fazer amor em outro lugar?


Passei por entre eles, esbarrando em algumas pessoas que, assim como eu, estavam tentando se livrar das pessoas que ali faziam algo que certamente poderiam fazer em suas casas, quartos, motéis, e todos esses lugares onde é possível se encontrar privacidade. Não que eu seja a melhor pessoa para falar sobre privacidade, mas enfim.


Gerard estava andando na minha frente, se desvencilhando das pessoas facilmente, ao contrario de mim, que estava tendo grande dificuldade e estava quase pedindo sua ajuda. Eu não entendia como ele conseguia fazer aquilo, porque certamente ele era maior que eu, não em altura, mas sim em... Largura talvez.


Sorri, lembrando de todas as coisas grandes que ocupavam seu corpo, me esquecendo da multidão, e simplesmente andando entre ela, como Gerard estava fazendo. Quase não notei que ele havia parado. Ele se virou, olhando pra mim, e eu apenas continuei andando. Ele estava em grande vantagem em questão a distancia que havíamos percorrido então eu demorei um pouco para alcançá-lo.


- Parou por que, Gaw? – eu disse, lembrando das tantas vezes que observei sua ficha de inscrição, e no final, acabei decorando seu nome. Ele tinha me dado um apelido, então era a minha vez de dar um apelido a ele.


- De onde você tirou isso? – ele sorriu, me olhando confuso.


- Gerard Arthur Way, seu nome. Responda a minha pergunta, por que paramos?


- Eu preciso te contar uma coisa.


Com isso, ele me puxou pela camisa, me levando para um dos cantos, como havia feito na primeira vez. Ele me encarou por um tempo, respirando devagar, pensando se deveria ou não me falar, provavelmente. Ele me puxou mais pra perto, aproximando sua boca do meu ouvido, para que eu pudesse ouvi-lo, ou talvez sentir sua respiração.


- Meu coração fazia Tum Tum por ele.


Senti vontade de rir, rir muito, e chuta-lo por tal estupidez que ele havia dito. Ou talvez porque aquilo tinha sido realmente brega. Gerard, você é tão gay.


- E seu coração não faz mais Tum Tum? – sorri inocentemente, tentando provoca-lo, talvez o tum tum não fosse mais o mesmo.


- Faz. Não sei. Talvez. Não que seja da sua conta, mas... Eu fui embora, o deixei. Talvez a distancia tenha acabado com o amor ou algo do tipo – Gerard olha para a multidão que agora estava abrindo mais espaço, a olhava sem realmente vê-la, seu olhar era vazio. Quando eu já estava prestes a balançá-lo e pedir pra ele continuar, ele voltou seu olhar para mim, parecendo acordar. – Mas não vamos deixar Jared esperando, eu disse que não iríamos demorar.


Amor. Gerard agora sente amor. Uma coisa tão nova para mim quanto o aquecimento global, que me faz soar e ter que tomar banho todos os dias e lavar o cabelo com shampoo de morango. Não esqueçamos da bata de cinco centímetros de espessura.


Fato era que aquele Jared me irritava. Não pelo fato de estar com Gerard, claro, mas sim porque eles me excluíam completamente. Ok, não sou a melhor pessoa para falar de ser inconveniente, mas eles estavam sendo inconvenientes comigo. Gerard sabia que eu estava com ele, ai ele beija aquela coisa desconhecida e me deixa de lado. E ainda vem me dizer coisas bizarras como o fato de seu coração ter feito Tum Tum por ele. Ó sim, uma completa criança.


Jared parecia estar se divertindo com toda aquela situação. Ele continuava lá, sentando em um daqueles bancos como se nada estivesse acontecendo. Quando nos avistou apenas ficou me encarando de cima abaixo. Argh, como eu queria enfiar a mão na cara dele! Jared puxou Gerard pela cintura e falou algo ao seu ouvido, mas como eu não era nem um pouco bobo, e leitura labial era um dos meus pontos fortes entendi perfeitamente:


- Precisamos conversar...a sós!


Saí sem ser percebido por ninguém. Gerard deveria ter coisas mais importantes a fazer do que dar atenção a um falso padre de merda. Estava a caminho da prisão, quer dizer, da Igreja.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.