You Dont Know a Thing About My Sins
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Foi feita numa época ótima, com mais duas pessoas maravilhosas a Jamille e a Nanda.
Foi divertida de escrever e é divertida de ler.
Ela não ta terminada mas tenho grande esperança de termina-la.
Espero que vocês gostem.
Um beijo!
Bert\'s POV
Cama gelada. Paredes altas. Bom comportamento. Isso aqui não é o meu lugar. Definitivamente não. Nem televisão tem para eu me distrair. Apenas bíblia, homens, Deus, e muito, mais muitos homens. Onde já se viu um lugar completamente sem mulheres? Depois eles dizem que não entendem o grande crescimento de pedofilia.
Posso lembrar como se fosse hoje o longo sermão sobre “Porque devemos ter a nossa opção sexual totalmente definida.”
Eu deveria me acostumar com longos sermões.
O fato é que não me acostumei com os malditos sermões. Não me acostumei com uma porção de coisas, na verdade. Não me acostumei a amarrar o cabelo dessa maneira idiota, nem de ter que usar essas vestes tão ortodoxas. Definitivamente, nunca me imaginei nessa situação. Às vezes, antes de dormir, me pergunto como vim parar aqui e como me tornei isso. Nem queira saber a resposta.
Eu estou tentando me habituar a essa nova vida, mas é mais difícil do que você imagina. Olhar por cima do ombro passou a ser quase um tique nervoso, quando é precaução e medo. Bem, um dia talvez você entenda. Por ora, o necessário é deixar claro que todas essas privações e sacrifícios estão me deixando à beira da loucura.
Então, o que eu faço? Dou umas escapulidas na calada da noite. Ninguém precisa ficar sabendo e, de qualquer forma, ninguém me reconhece quando estou sem aquela maldita roupa preta e calorenta e com os cabelos soltos na frente da cara. Não achei que eu ficasse tão diferente assim, porém uma boa olhada no espelho me garantiu que a mudança era visível. Parecia outra pessoa.
Queria voltar ao meu eu anterior. Mas eu não podia e sabia que não. Por mais que isso me frustrasse. Estava sob constante perigo. Havia me tornado quase que paranóico.
Não me incomodava com os costumes do lugar, muito pelo contrario. Achava bom não ter que fazer nada, não precisar me esforçar. Se quisesse deitar debaixo dos grandes carvalhos do jardim, e apenas ficar lá fingindo ler alguma coisa sagrada o dia inteiro, eles não veriam problema nenhum.
Mas eles não importam. No momento eu estou mais preocupado comigo e com a minha segurança. Por isso escolhi esse lugar e aqui vou ficar até quando agüentar. Eu já me acostumei com a rotina, se é que da pra se acostumar com uma coisa dessas. Acredite, eu já passei por coisas bem piores.
Morava no Quenns, ou melhor, tentava morar, pois não era um lugar digno de se viver. Era um lugar onde a violência controlava tudo. Quinn, Jeph e Megan eram meus únicos amigos. E aconteceu o que acontece com a maioria das pessoas desse lugar, acabamos envolvidos com as drogas. Era a única chance de poder se sustentar, pois não havia empregos e ninguém fazia nada para mudar isso.
O crime era a única solução.
No começo apenas vendíamos a droga para pessoas de outras regiões, mas depois as coisas começaram a se complicar. Nos tornamos dependentes, apenas pensando em curtir o momento e esquecer as conseqüências que isso podia nos acarretar. E um dia o pior aconteceu.
É como uma bola de neve. Você começa vendendo pros seus amigos de escolas, depois para os amigos dos amigos deles, depois para garotos de outra escola e quando você percebe, já entupiu metade dos filhinhos de papai com sua cocaína. Era bem fácil fazer a transação com eles, se quer saber. O dinheiro está sempre na mão, o que torna tudo simples.
Aí, com o tempo, você percebe que os amigos de seus amigos são muito além de amigos e acaba percebendo quais são as suas reais intenções. Intenções que, eu devo acrescentar, não são nada dignas de igrejas.
Aliás, muita coisa que eu fazia não era digna de igreja. Acho que se eu fosse me confessar, passaria o dia inteiro listando meus vandalismos e ainda não seria suficiente.
E você lembra-se das drogas? O pior não são elas, e sim a polícia. Os carasestão sempre no seu pé, parando seu carro durante a madrugada para vistoriar, enfiando os cães na sua bunda para encontrar qualquer vestígio de droga. Você é sempre cuidadoso, mas um dia você está morto de bêbado e esquece de toda a porcaria que leva no fundo falso do seu carro.
Estou aqui com a desculpa de que quero me limpar, desculpa que dou a mim mesmo, porque afinal, não posso dizer isso aos outros. Está funcionando. Tirando as noites que sinto minha cabeça quase explodir pela falta de toxina correndo pelo meu corpo.
Apesar de tudo, eu sinto falta de tudo aquilo, muita falta na verdade. Mas não é a droga que me importa realmente, mas sim a falta de conversa, companhia. Tenho problema com confiança, uma coisa que sempre foi muito boa na época em que eu estava em perigo constante.
Os policiais estavam sempre colocando uns tipos de espiões no local em que costumávamos trabalhar, sempre tentando descobrir alem do que podiam ver, mas um dia eles acabaram descobrindo que não éramos tão ingênuos quanto parecia.E a partir desse dia, nossa vida começou a virar um inferno. Eu realmente pensei que aquilo não pudesse piorar. Mas sempre, sempre piora.
- Padre? – uma voz chamou, interrompendo meus pensamentos.
Demorei para perceber que era comigo que estavam falando.
- Sim, minha senhora. – eu caminhei na direção dela, deixando o que eu estava fazendo de lado. Não era importante mesmo. – Deseja algo?
- Oh, padre! O senhor estaria disponível para uma confissão de uma pecadora?
Fitei os olhos crescentes da mulher que segurava o terço fervorosamente. Visitas como aquelas já tinham se tornado freqüentes. As confissões então, nem se fala. Eu lembro como foram estranhas as primeiras confissões que tive que ouvir, desde que me tornei ‘padre’. Realmente segurei-me para não rir algumas vezes, porém tudo o que eu tinha que fazer era dizer:“Reze cinco ave-marias.”. Era bastante simples.
- É claro que sim. Deus está sempre disponível aos seus filhos.
Provavelmente eu estou cometendo outro crime, falando dessa maneira. Estou começando até a acreditar nas minhas palavras; e o pior: acreditar que tenho vocacão pra ser padre.
“Certo, não tenho vocação pra isso.”
Dirigimo-nos para a cabine de confissões, eu sentando confortavelmente na cadeira revestida por veludo e ela ajoelhando-se do outro lado. Estávamos separados por uma tela pelo qual eu podia enxergá-la, mas ela não podia dizer o mesmo sobre mim. A senhora de cabelos grisalhos começou a falar e por mais que eu tenha feito esforço, acabei pegando no sono uma ou duas vezes enquanto a confissão continuava e continuava.
- E então, padre, o que eu devo fazer?
Devo admitir que não prestei a mínima atenção no que ela estava dizendo. Mas eu sabia que metade delas eram baboseiras e outra metade eram coisas que não iam acrescentar nada na minha vida.
Assim estava pecando de novo. Eu definitivamente não ia garantir meu lugarzinho ao lado de Deus. Como se esses pecados fossem fazer muita diferença, afinal, foram tantos que uma a mais ou um a menos não iam contar.
- Repense sobre tudo e depois reze cinco ave-marias. – As benditas ave-marias, disse a mim mesmo, com um leve sorriso se formando.
- Claro, padre, obrigada. – ela se levantou, fazendo uma pequena reverencia. Saiu, me deixando sozinho na cabine.
- Deus vai te perdoar, pode ter certeza. Duvido muito que uma velhinha como você tenha feito algo imperdoável como eu. – sussurrei, tomando cuidado pra que ninguém me ouvisse.
Não conseguia ficar muito tempo dentro daquela cabine, ela era muito pequena e isso a tornava asfixiante. Sim, eu tinha problemas com lugares fechados desde que era pequeno.
Passei pelo longo corredor onde em volta se encontravam os bancos de madeira. A figura do velho com uma longa bata no fim de corredor me chamou a atenção e eu logo pude perceber que ali se encontrava parado o reverendo.
Por algum motivo, ele gostava de mim. Talvez por acreditar que eu era um padre experiente que havia se mudado em busca de um equilíbrio perfeito entre meu eu interior e Deus. Grande baboseira.
- McCracken, eu precisava mesmo falar com você. – o velho cuspiu as palavras. Coitado, ele estava nas últimas. Ninguém percebia que o reverendo poderia partir dessa para melhor a qualquer momento?
Estranhei que ele precisasse falar comigo. Quando isso acontecia, geralmente era sobre assuntos ligados à igreja que eu estava comandando, mas não havia nada de errado com ela. Não que eu soubesse.
- Pois diga, reverendo.
Eu e ele pusemo-nos a caminhar.
- Olhe, eu sei que você se apegou a esse lugar e a essa comunidade muito rapidamente. Nós percebemos que você não vive sem tudo isso. – “Ôh! E como.” – Mas sua presença é realmente necessária no seminário. Você soube do Padre Simpson, acredito. Pois ele teve um infarte esses dias e está hospitalizado e tudo o mais. É realmente uma pena que ele tenha se afastado.
- Rezarei por ele.
- Sim, sim. O que acontece é que precisamos de alguém que fique no lugar dele, para cuidar de uma turma de meninos que está ingressando no mundo de Deus. Não seria um problema, seria?
- Nenhum. – “Até parece que eu posso recusar mesmo.”
O reverendo bateu palminhas.
- Ótimo, ótimo! Porque hoje mesmo você irá para lá. Embora veja sua turma só amanhã, meu caro. Eu sei que você vai adorar. – e se afastou pelo corredor longo, deixando-me sozinho com meus pensamentos.
Eu estava bem ferrado agora. Cuidar de garotos, eu? Não cuido nem de mim, quanto mais de meninos que querem ser padres e precisam de um homem exemplar que os ensine sobre as coisas boas do mundo.
Pois eu só sei sobre as coisas ruins.
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