- Bert’s POV -


Argh, como eu odeio esse moleque. Ele pensa que é quem? Pensa que pode me chantagear, que pode me deixar embaraçado por tê-lo comido, que pode fazer joguinhos comigo? Bem, ele não pode.


Certo, ele pode sim. Afinal, se houver a remota possibilidade de Gerard contar para alguém o que fizemos… Digamos que eu estarei numa enrascada.


Desculpe, estou sendo generoso. Estarei afundado em problemas. Não só porque finjo ser um padre, quando na verdade sou mais pecador que a igreja inteira, mas também pelas coisas estúpidas que eu fiz. Pelo passado negro que me persegue. Você sabe, eu posso ter mudado, posso estar usando uma bata e mandando rezarem incessantemente, entretanto isso não alivia o fardo pesado que eu carrego todos os dias ao lembrar o quão irresponsável eu fui.


Deixemos isso para lá e voltemos ao ponto principal: Gerard. Acho que eu tenho algo que atrai garotos-problema. Ou talvez eu mesmo seja um. O fato é que ele é meu grande problema agora. Já não bastasse ter que me preocupar com outras pessoas que podem interferir no meu disfarce, tenho também que cuidar do fogo de Gerard. Ou ele tem que cuidar do meu. Sei lá.


Levantei do banco da praça, andando imprecisamente de volta à igreja. Durante o trajeto percebi um grupo de garotos no lado oposto ao da praça, usavam algum tipo de entorpecente que não me recordo no momento. Um dos garotos me chamou atenção pelos seus traços familiares. Cabelos loiros, magro. Era exatamente como Quinn. Fiquei me perguntando por onde ele estaria e se um dia me perdoaria por tudo que fiz. Quando dei por mim já estava no gramado da igreja. Ainda bem que alguma parte do meu cérebro ordenou que minhas pernas me trouxessem até aqui, pois estava com a cabeça nas nuvens.


Entrei, tentando não fazer barulho, pois já se passava da meia noite. A igreja repousava em completo silêncio. Passei pela capela, fazendo um discreto sinal da cruz. Como me sentia culpado por isso, mas era isso ou estava tudo acabado. Retirei a chave de meu quarto, ou melhor, calabouço. Ou clausura como os religiosos dizem. Assim que fiz menção de abrir a porta, senti uma mão em meu ombro.


- Boa noite, Padre Robert.


- Boa noite, Reverendo. – disse, com cara de assustado. Também o que esse velho ta fazendo acordado essa hora? Hunf.


- Aconteceu algo? Não é costume os padres e freiras estarem fora de seus aposentos essa hora.


- Er....ah precisava de um pouco de ar, o dia hoje foi realmente cansativo. Tive muito trabalho com os meninos na iniciação para o seminário.


- Claro, claro! Entendo perfeitamente. Bom, voltarei para o meu quarto, só fui beber um pouco de água. Boa noite. – disse ele, me dando as costas e virando no fim do corredor.


Às vezes eu penso se realmente o Reverendo acredita nas coisas que falo. Por enquanto parece que está dando certo. Cai na cama com a roupa do corpo, estava tão cansado e confuso que não quis ter mais uma coisa para pensar. Apenas, dormir.


Era algo como cinco e meia da manhã. Me diz, onde já se viu alguém acordar as cinco e meia da manhã? Não, assim, okay que eu não estou aqui para passar as férias, mas eu esperava pelo menos ter um tempo de descanso. Ou até menos, queria simplesmente uma boa noite de sono.


Como eu poderia dormir com uma pessoa roncando ao meu lado feito uma porca gorda? Sério, eu cheguei até a tampar a boca dele com meias, colocar o travesseiro nos meus ouvidos, mas quem disse que adiantou?


E às cinco e meia da manhã o sino já estava tocando. Era um barulho tão ensurdecedor, era impossível alguém não acordar. E além do mais, eu teria que dar aulas naquela manhã.


Foi ai que eu me lembrei que alguns dos seminaristas haviam optado por mudar para o seminário. Pra que isso? Eu daria tudo pelo conforto da minha casa e da minha cama macia. Devo acrescentar que as camas aqui não são nem um pouco macias.


Eu deveria acompanhá-los até seus quartos e ajudar com todos os preparativos para recebê-los. Eu conhecia algum deles. Menininhos bem bonitinhos. E o melhor, eles eram tão ingênuos e puros. Eu deveria me espelhar neles. Assim quem sabe se um dia eu finalmente não acho o meu equilíbrio?


Isso não vem ao caso. O fato é que minha hiperidrose está atacando novamente. E eu estou soando feito a porca que dormiu ao meu lado essa noite. E tudo isso por causa dele de novo. Aquele fedelho insuportável.


Ele estava a frente de um dos quartos no corredor, sentado em cima de uma de suas malas gigantes, balançando os pés e sorrindo inocentemente para mim. Na verdade ele queria parecer inocente, mas muito pelo contrario, era tão... Tão cheio de malicia.


Ignorei-o. Passei por ele como se não tivesse o visto, e é quase impossível uma coisa daquele tamanho ser invisível. Ele era bem grande. Assim... Literalmente grande, em todos os sentidos da palavra.


Foi ai que eu senti o leve toque no meu braço. Ele me tocava, ele me segurava e me fazia parar e automaticamente me virar e encarar aquele mesmo sorriso.


- Padre Robert, como vai o senhor? – ele disse gentilmente, como se ele fosse um dos garotinhos inocentes e bonitinhos que tomavam o seminário naquela manhã — O reverendo me disse que você ia me mostrar um quarto para eu ficar. E eu acho muita grosseria da sua parte me ignorar assim. Sabia que eu estou totalmente perdido por esse enorme lugar? – Gerard continuava me segurando, começando a apertar meu braço propositalmente, fazendo-o latejar de dor. Talvez porque o sangue estava começando a parar ou algo do tipo. E eu, com todo o meu orgulho, não fiz nada.


- Desculpa, filho, eu estava meio distraído. Sabe como é, está cedo e eu me desligo um pouco de manhã.


- Ah, claro, eu sei muito bem disso, padre. – ele sorriu exageradamente, deixando visível para mim seus dentes amarelados. Estávamos tão perto que pude sentir o hálito de quem havia acabado de escovar os dentes.


Dei meu olhar mais frio para Gerard. Detestava quando ele insinuava – leia-se quase contava – abertamente qualquer coisa sobre a noite em que tudo aconteceu. Que merda, por que ele não esquece isso por um segundo?


Retribuí com um sorrisinho um tanto falso.


- Então, o senhor vai me levar para o quarto agora?


Arregalei os olhos. Juro que pensei outra coisa, quando finalmente acordei de um pequeno devaneio. Gerard, não faça isso comigo…


- Ér. Claro.


Falei para os outros garotos me esperassem no corredor, mas um deles pediu para guiar os companheiros por conta própria. Notei que ele tinha um espírito de liderança inflado demais para quem seria um subalterno dentro da Igreja. Permiti que ele o fizesse, apenas porque Gerard ficou insistindo para ir ao dormitório o mais rápido possível. Os demais lançaram olhares estranhos para Gerard, claramente enojados. É, pelo jeito ele não conseguira fazer amigos.


Mais uma vez, fui puxado pelo braço para um caminho acima. Subimos as escadas que levariam ao andar seguinte e resolvi tomar a frente enquanto andávamos pelos degraus em espiral.


- Odeio essa sua batina.


Gerard não viu minha expressão contorcida.


- Por quê? Eu mesmo não reclamo, por que você o faria?


Sério, eu sou tão mentiroso. Essa coisa abafada que eles chamam de roupa me faz fritar, ainda mais no clima em que estamos atualmente. Emagreço três quilos fácil fácil durante o verão. Acho que dá pra enxer uma piscina com o meu suor. Haha, como eu sou exageradinho.


- Não dá para ver a sua bunda.


Bufei, embora estivesse rindo. Atrevido. E se alguém ouve uma coisa dessas? Afastei meus pensamentos, ignorando-o. Como eu esperava, não demorou muito para que estivéssemos em frente à grande porta de madeira que nos separava do interior do dormitório.


- Aqui está, donzela.


Girei a maçaneta pesada, empurrando a porta barulhenta para que Gerard avistasse seu novo lugar. Decerto aquelas dobras precisavam de óleo, porque faziam um ruído irritante. Abri espaço, deixando-o entrar no cômodo, eu mesmo o seguindo depois de fechar a porta. Era bem diferente do meu lugar, devo dizer. Mais rústico e com menos conforto ainda, se isso era possível. As pedras da parede davam uma atmosfera medieval, simples e nada aconchegante. Qualquer um preferiria um armário de vassouras a isso.


- Ótimo. – ele murmurou, para minha surpresa. Parou no meio do quarto, encarando-me ao invés de olhar o teto, como fazia antes – Não acha?


- Sinceramente, não. Tenho quase certeza que estou vendo uma goteira aqui, o ar daqui parece rarefeito, sabe?, e estou começando a sentir calor novamente. – disse, abanando-me com a própria roupa.


Ele riu, apesar de que dessa vez aparentava ser um sorriso carregado de diversão. Eu não estava tão patético, estava? Bem, as pessoas têm que se lembrar que eu tenho hiperidrose!


- Eu sei a que você se refere.


Tirei meus olhos das paredes, deixando de observá-las por um instante apesar do meu medo interior que dizia que elas podiam ver cada movimento nosso. Quando dei por mim, Gerard já estava próximo demais para que eu pudesse desviar. Não que eu realmente quisesse desviar. Sério, ele beija muito bem. Faz coisas ótimas com a boca.


- Gerard, não— Ooh, tire as mãos daí.


Ele sabia, simplesmente sabia. Eu é que não sabia. Como ele pode me tocar com tamanha precisão? Ainda vou descobrir de onde vem tanta perversão e safadeza.


- Você quer, não é?


- Aw, não. Não quero. Mesmo. – minha voz falhou, denunciando o quão péssimo ator eu era. Deus, eu estava gemendo e ele completamente passivo.


- Mentiroso. – ele disse, mesmo que eu estivesse ciente.


Avançou para o meu pescoço, mordiscando minha garganta e levando suas mãos até minha nuca. Fui empurrado contra a porta, embora minhas costas não tenham tocado a madeira completamente porque, notei mais tarde, Gerard estava descendo o zíper que se encontrava às minhas costas. Ao passo que a bata escorregava pelos meus ombros, ele ia depositando mais beijos, sugando minha pele mais forte. Quando o tecido negro finalmente atingiu o chão, ele pareceu desanimado em ver que eu ainda vestia uma camisa branca e uma calça muito brega.


- Argh, mais roupas!


- Você achou mesmo que eu andava pelado embaixo disso?


- Seria bem melhor, – ele recomeçou, atancando-me. – pouparia tempo.


- Não é suposto que padres comam seus alunos.


- Ah, sim, é suposto que eles sejam comidos. – anunciou ele, girando-me tão agilmente que quando me dei conta, a ereção dele já estava colidindo contra o meu traseiro. Uma lamúria escapou dos meus lábios.


Maldita testosterona.


Toc. Toc.


- Robert, você esta aí?


Eu juro que naquele momento quis matar o Reverendo da pior forma possível. Eu não sabia o que fazer, Gerard já estava pronto para me foder, literalmente. As batidas na portam continuavam. Gerard falou milhões de palavrões, uns até que eu nunca tinha ouvido e iria tentar não esquecer.


- Tá, eu já sei! Eu termino isso sozinho. Hunf. – ele disse, batendo a porta do banheiro com tanta força que fez algumas teias de aranha se soltarem das paredes.


Vesti minha bata o mais rápido que pude. Finalmente, abri a porta.


- Olá Reverendo.


- Por que demorou tanto a abrir? – disse, observando o interior do quarto.


- Estava arrumando a cama e tirando a poeira dos móveis. – Mentira! A cama estava tão desarrumada quanto os meus cabelos, que eu tentava arrumar e não tinha sucesso. E os móveis, pior ainda.


O Reverendo estava muito desconfiado. Olhava para cada canto do quarto, como se estivesse procurando algo. Ele já estava preparado para se retirar do quarto quando ouviu um gemido vindo do banheiro. Gerard! Vou te matar!


- O que foi isso?


- Deve ter sido um gato. – foi a primeira coisa que pensei, tanto era meu nervosismo. – Esse quarto estava fechado há muito tempo, é comum.


- Hum... Estamos esperando o senhor para o café com os seminaristas. Não demore. Ah, e não se esqueça de arrumar sua bata corretamente – disse, fazendo menção para a parte de baixo, onde ela estava um pouco enrolada deixando meu all star à mostra. Saiu logo em seguida.


Puta que pariu! Essa foi por pouco. Dei três batidas na porta do banheiro.


- Eu preciso descer e você também! Então vê se não demora aí! – disse – E outra coisa, vê se aprende a se controlar e não gemer feito uma mulherzinha, estamos em uma igreja.


Não tive resposta, mas sabia que ele tinha entendido o recado. Não queria mais problemas, pelo menos por hoje. Fechei a porta e desci para encontrar os outros padres.