Na manhã seguinte, tentei esconder meu entusiasmo e ansiedade, mas era impossível.

Jareth tinha uma biblioteca com vários livros de magias e histórias do Reino dos Goblins e de muitos outros reinos. Passei a manhã toda lá, folheando os livros mas sem conseguir me concentrar em alguma história em especial.

Eu não conseguia entender esse nervosismo que eu sentia! Era um piquenique qualquer, mas na minha cabeça, era como se fosse um encontro!

Okay, só me lembro de um encontro com um garoto da escola, em que fomos ao cinema e ele tentou me beijar, mas acho que eu não fiquei tão nervosa como eu estou com esse piquenique.

“É apenas um piquenique entre amigos.”, eu dizia pra mim mesma.

Não! Era um piquenique entre eu e um rei dos goblins que me quer presa nesse reino com ele!

Na hora combinada, saí do castelo e fui para frente do portão, onde Jareth, acompanhado de Hoggle, preparavam um cavalo para montaria.

– Está pronta? – Jareth perguntou assim que me viu e seu sorriso era tão lindo que por um momento acho que esqueci de respirar.

– Aham. Mas onde está o meu cavalo?

Jareth riu.

– E você sabe montar? – ele perguntou.

– Não, mas como eu vou?

– No meu cavalo comigo, oras! – e com toda a pompa de um rei, ele subiu no cavalo sem nenhuma dificuldade. – Hoggle, amarre a cesta de um jeito que não aconteça nenhuma catástrofe no caminho.

Hoggle murmurava alguns xingamentos (ou lamentações), amarrou a cesta e antes de me ajudar a subir no cavalo, veio até mim, dizendo baixinho.

– Se precisar de nós, você sabe ...

– Eu chamarei por vocês. – sorri e ele concordou com a cabeça.

Me acomodei sentada atrás de Jareth, o portão abriu-se e o cavalo começou a querer andar, mas logo Jareth o interrompeu, voltando para Hoggle:

– Ah, Higles, cuide do reino enquanto eu estiver fora.

– Eu? – Hoggle pareceu não acreditar.

– E eu estou falando com as arvores, por acaso? Cuide de tudo e quem sabe eu não te transforme em um príncipe.

– Príncipe do Pântano Fedorento – Hoggle resmungou e deu as costas. – Já cansei dessa brincadeira.

Jareth riu sozinho e cruzamos o portão, passando pela cidade dos Globins e pelo lado de fora do Labirinto, um percurso misturado com arvores secas e caminhos de terra e logo a cavalgada leve passou a ser mais rápida, quase uma corrida, fazendo com que eu abraçasse Jareth por trás para que eu pudesse me segurar nele. Ele olhou pelo canto do olho e pude ver um sorriso aparecendo.

– Quantos dias de cavalgada? – perguntei quando já estava cansada e achando que não chegaríamos tão cedo.

– Mais uma hora e já chegamos. – ele virou rosto pra me tentar me ver melhor. – Quer voltar, Sarah?

– Não, eu só pensava que era mais perto.

Aos poucos a paisagem começava a mudar e um verdadeiro campo verde, com diferentes tipo de arvores surgiam, em meio a um caminho ladeado de margaridas.

– Que lugar lindo! Onde estamos?

– Na fronteira entre o meu reino e o reino dos Elfos. – Jareth respondeu enquanto parávamos perto do que parecia um limoeiro.

– E vocês se dão bem? – perguntei antes de ele me ajudar a descer.

– Indiferente. – Jareth não se importou. – Não brigamos, mas também não somos melhores amigos. Nos respeitamos e isso basta.

Jareth desamarrou a cesta que Hoggle havia prendido e de lá tirou uma toalha xadrez, que ele estendeu debaixo da arvore e sentou-se sob ela, fazendo sinal para eu fazer o mesmo.

– Piquenique sem toalha xadrez não é piquenique. – Jareth disse enquanto tirava comidas e bebidas da cesta.

– Você está me surpreendendo, Jareth! – falei cobiçando o bolinho estilo cupcake que ele me oferecia. — Quem fez? – perguntei quando peguei o bolinho da mão dele.

– Não sei! Apenas mandei fazer. – ele deu de ombros e deu uma mordida num sanduíche. – Não vai comer? – Jareth perguntou ainda de boca cheia.

Fiquei ainda olhando o bolinho e lembrando do que aconteceu enquanto eu tentava sair do Labirinto, quando Hoggle me deu uma fruta enfeitiçada e acabei sonhando com um baile de mascaras.

– Estou desconfiada. E se você enfeitiçou esse bolinho?

– Sarah, já tive tantas oportunidades de fazer isso desde que você está comigo no castelo. Por que seria justamente hoje que eu te enfeitiçaria?

– Não sei! Por que estou sozinha com você e longe do castelo, sem Ludo, Hoggle e os outros?

Jareth continuava a comer e não se importava com o que eu dizia.

– A idéia do piquenique foi sua, não comer é uma decisão sua. – ele pegou o bolinho da minha mão. – Se você não comer, eu como.

– Não! – eu quase pulei em cima dele pra pegar o bolinho, mas ele levantou o braço e eu não consegui alcançar. – Me dá! Eu quero comer!

– Ora, ora! Uma hora está desconfiada, em outra decide que quer comer. – Jareth se levantou. – Você é muito mimada, Sarah!

– Não, me dá esse bolinho! – levantei e antes que eu pudesse pegar, Jareth já estava correndo entre as arvores.

– Não, eu vou comer esse bolinho! – ele deu uma lambida na cobertura de chocolate. – Que, alias, parece muito gostoso!
– Jareth! Me dá o meu bolinho!

Ele riu e continuou a correr, e eu, ridiculamente, correndo atrás dele e do bolinho e, quando estava quase alcançando, enrosquei meu pé numa raiz de arvore e me espatifei no chão.

– Sarah! – Jareth gritou e veio correndo ao meu lado. – Você está bem?

– Estou, eu acho. — respondi meio desorientada, até sentir uma fisgada no meu braço e ver um corte horrendo do pulso até o cotovelo, o sangue escorrendo pelo braço.

– Venha. – Jareth me ajudou a levantar. – Vem, vou limpar esse machucado.

Voltamos para o limoeiro, sentei na toalha enquanto ele abria uma garrafa de água e jogava no meu braço, limpando o corte e tirando a terra e as folhas que estavam grudados no sangue.

– Desculpe estragar nosso piquenique. – ele disse depois de rasgar a manga da própria camisa para fazer um curativo no meu braço. – Não foi assim que planejei.

– Mas você não estragou. Eu que estraguei, fazendo a ridícula de correr atrás de um bolinho de chocolate.

– Era de baunilha, na verdade. Só a cobertura era de chocolate. – ele sorriu. – Não, foi culpa minha. Eu imaginei te provocar com o bolinho, pra você correr atrás de mim, igual quando eu vejo você brincando de esconde-esconde com os outros no Labirinto. E olha o que eu causei.

– Não foi culpa sua! – segurei seu rosto com a outra mão, enquanto ele dava o nó para terminar o curativo. – Está tudo bem, vamos comer e esquecer isso.

Ele apenas balançou a cabeça, revirou a cesta e me deu outro bolinho.

– Toma, esse sim é de chocolate. – e sorriu.

– Você deveria sorrir mais, Jareth.

– Estou tentando, Sarah. Por você, eu estou tentando.

Não pude deixar de sorrir também. Me sentia estranhamente feliz em saber que Jareth estava tentando mudar por mim.