— Sarah, onde você arranjou esse vestido lindo? — Irene perguntava enquanto me ajudava com o cabelo.

— Ah, do grupo de teatro. A Monique me deu.

— Ele é perfeito, parece que foi feito especialmente pra você.

Tentei esconder o sorriso. Sim, ele foi feito pra mim, pra uma ocasião em que eu estraguei tudo. Eu ainda guardava remorsos daquela noite, mas talvez hoje eu conseguisse me libertar de vez daquela lembrança.

— E o David, qual a fantasia dele? — ela perguntou interessada.

— Ah, na verdade, eu nem sei se ele vai. — suspirei e lembrei da promessa de Jareth de fazer o possível pra ir. Quando Hoggle me trouxe o vestido hoje de manhã, disse que o Reino estava dentro da normalidade, mas que a segurança não poderia falhar mais. — A mãe dele está doente de novo, ele disse que ia fazer o possível.

— Oh! Que triste, Sarah! Espero que ela melhore para que vocês possam aproveitar a festa juntos.

O telefone tocou e era Iman, a voz mal-humorada:

— Sarah, não vou poder sair agora pra te buscar. Você pode pedir pro seu pai te trazer em casa e daqui nós vamos com o meu carro pra festa?

— Claro, sem problemas. Aconteceu alguma coisa.

— Te conto quando você chegar. — e desligou o telefone.

Fiquei pensando se era por causa do Mark, se por acaso ele decidiu ir com a Jéssica, ficou sabendo disso e agora está chorando de raiva, querendo desistir da festa.

Irene achou melhor eu ir no banco de trás do carro para não amassar o vestido. Ela tinha tanto cuidado que me senti uma noiva no dia do casamento.

— Pra onde, princesa? — meu pai perguntou quando ligou o carro.

— Pra casa da Iman. Alguma coisa aconteceu e ela pediu pra me encontrar com ela lá. — suspirei e eu só conseguia imaginar que o motivo era o Mark. — Espero que não tenha sido nada grave.

Meu pai riu.

— Qual é a graça?

— Ela só deve estar com aquelas neuras de "não tenho roupa pra vestir" e quer a sua ajuda por lá. — ele me olhou pelo retrovisor. — Você está linda, filha.

— Obrigada, pai! — sorri de volta e ele voltou os olhos pra rua.

— E o David vai te encontrar lá na festa?

Já estava ficando chato ter que responder sobre o Jareth.

— Não sei. Ou melhor, eu nem sei se ele vai, a mãe dele está doente, não sei se ele vai conseguir ir. — olhei pra rua e não pude deixar de me chatear ao pensar que havia sim uma possibilidade dele não ir e eu ficar de triste a noite inteira, mas eu sei que ele ia fazer o possível pra ir.

— Poxa, que pena. — agora era o meu pai quem parecia chateado.

— Você ficou triste com a noticia, pai?

— É, bom ... É que eu achava que esse namoro de vocês não ia dar certo, mas andei observando o David, quando ele vai lá em casa e é impossível não perceber o olhar de admiração dele por você, a alegria na voz dele toda vez que fala o seu nome ... enfim, eu estou começando a acreditar que a história de casamento é séria.

Dessa vez era a minha vez de rir.

— Sempre foi, pai. Só acho que você não estava muito preparado pra isso.

Ele sorriu de novo e me olhou pelo retrovisor.

— Tem razão.

Meu pai agora começava a falar dos planos para ele e Irene hoje à noite, que talvez eles fossem jantar fora com os padrinhos do Tobby, e o levariam também.

— Bom, chegamos! — ele disse assim que paramos o carro em frente à casa da Iman. — Você vai pra casa ou vai dormir na casa dela?

— Provavelmente na casa dela. — se ela estiver assim por causa do Mark, uma festa do pijama pós festa a fantasia talvez a ajude. — Se amanhecer e eu não estiver em casa, já sabe ...

— Posso ligar pra Iman que você estará lá. — meu pai beijou a minha testa. — Já tenho decorado isso há vários anos. Divirta-se, Sarah!

— Vocês também!

Saí do carro e Marian, a mãe de Iman, já me esperava na porta de casa:

— Sarah, você está linda! — ela me abraçou com cuidado, como se estivesse com medo de me quebrar. — Meu Deus, quem sabe a Iman te vendo linda assim desiste da fantasia dela.

— Desistir da fantasia? — fiquei sem entender, pois quando saímos para comprar a fantasia dela, ela optou por ir de bailaria, com direito a tutu e sapatilha, e ficou lindíssima, já que as pernas torneadas dela só favoreciam a fantasia.

Segui direto pro corredor, o último quarto era o dela e a porta estava fechada, a trilha sonora de "Dirty Dancing" no último volume.

— Iman? — bater não adiantaria, então fui logo abrindo a porta e Iman estava na cama, penteando uma peruca de fios pretos e longos, e agora eu entendia o que a Marian queria dizer com mudar a fantasia.

— Sarah! — Iman se levantou e ia me abraçar, mas pareciam que todos tinham de estragar o meu vestido. — Você está divina! Onde você arranjou esse vestido?

— E onde você arranjou essa fantasia? — eu quase gritei quando a vi com um longo vestido preto, bem justo ao corpo e decotado, unhas pretas, maquiagem carregada nos olhos, o rosto branco e a boca vermelha. — É halloween ou festa a fantasia?

— Estou fantasiada de Morticia Addams. — ela colocou a peruca e deu uma volta. — Estou de luto.

— De luto?

— Ai, Sarah, só estou indo nessa festa por sua causa, pois sei que você quer muito ver o David, mas por mim eu ficaria em casa.

— Você? Dispensando uma festa? Vamos, Iman, o que aconteceu?

— Minha mãe. — sentou-se na cama e terminou de colocar os sapatos de salto. — Ela disse pra mim que acha que está grávida.

— Mas Iman, isso é muito legal! Você vai ganhar um irmão! Você deveria ficar feliz por ela.

— É, eu sei, mas quem você acha que vai ter que cuidar da criatura quando ela nascer? E Sarah, 18 anos de diferença! Por que eles não planejaram esse filho mais cedo? Eu achei que eles nem mais ...

Tapei os ouvidos como sinal de que eu não queria ouvir os detalhes íntimos da vida dos pais dela e ela riu.

Segurei na mão dela e reparei que seus olhos estava um pouco vermelhos, como quem acabou de chorar.

— Sério, Iman, pare de fazer esse drama. E você acha que eu aceitei tão facilmente quando meu pai contou que a Irene estava grávida? — ela apertou mais forte a minha mão. — São 14 anos de diferença, mas o pior pra mim foi aceitar que ele era meu irmão da minha madrasta, e não da minha mãe. — suspirei e várias lembranças surgiam na minha mente. — Pra mim, era como se meu pai tivesse traído a mamãe.

— Você tem razão, Sarah. Estou sendo muito egoísta.

— Está mesmo. — concordei e ela me olhou feio. — Não é uma coisa rápida de se aceitar, mas acredite, com o tempo você começa a se acostumar com a ideia.

— É, e a minha mãe nem tem certeza ainda, ela disse que ainda não fez nenhum teste, está se baseando apenas nos sintomas que tem sentido.

— Então chega de drama e vamos pra festa, pois quando passar tudo isso, você vai é rir de como foi idiota em fazer esse drama todo! — puxei-a com força da cama e dessa vez ela me abraçou sem medo. — Vai trocar de fantasia?

— Não. — ela se olhou no espelho. — Está tão ruim assim?

— Não, é que ... bom, você fica linda com qualquer coisa, então não precisa ficar com neura. — olhei pro relógio e já passava das 23hs. — Vamos, vamos logo porque temos uma noite inteira pra aproveitar!