— Irene, eu ...

— Sarah, o que era aquilo que você e o David estavam fazendo no meu quarto? — ela olhou pra porta e depois pra mim. — Imagina se o seu pai encontra vocês dois daquele jeito?

— Irene, desculpe, nós ...

Ela olhou de novo pra porta e depois perguntou mais baixo:

— Já aconteceu?

— O que? — perguntei confusa.

— Vocês já ...?

— Não, não! — senti meu rosto corar. — O que aconteceu no quarto foi tipo nosso primeiro contato.

— Aham. — ela sorria agora. — E foi bom?

— Ah, e como foi! — sorri de volta e começamos a rir juntas.

— Chega, Sarah! Eu deveria estar te dando uma bronca e não te incentivando a essas coisas! — Irene falava enquanto ria. — Mas Sarah, só peço juízo nessa cabecinha oca e não fique de amassos pelos corredores e cômodos aqui de casa.

— Claro, desculpe!

— Se vocês tiverem que fazer alguma coisa, que façam longe de casa. — olhei confusa pra ela. — Não, estou te incentivando, apenas ... ah! Deixa pra lá, Sarah!

Começamos a rir de novo e nos abraçamos em meio ao riso.

— Interrompo?

Era Jareth parado, vestido uma camisa social azul clara, perfeitamente desenhada no corpo dele.

— Uau. — Irene deixou escapar. — Que bom que você encontrou uma camisa que servisse, David!

— Sim, obrigado por emprestar, derrubei vinho sem querer. — Jareth ainda olhava intrigado para nós duas. — Bem ...

— Vamos cortar o bolo? — Irene disse de repente. — Só estava esperando vocês pra gente cantar os parabéns.

— Claro, vamos! — respondi e Irene foi à frente, esperei um pouco para acompanhar Jareth.

— O que estava acontecendo aqui antes da minha chegada? — ele sussurrou.

— Nada. — sorri. — Só te agradeço por ter colocado na cabeça da Irene boas lembranças minha e dela durante a minha estadia no castelo. — roubei um beijo de leve. — Talvez por isso eu tenha escapado da maior bronca da minha vida.

Ele continuava sem entender, mas ele teria que ficar sem maiores detalhes, já que uma das mesas havia um enorme bolo, meu pai, Irene e Toby atrás da mesa, apenas me esperando para os parabéns.

Jareth ficou com Iman e os pais dela enquanto eu me juntava à minha família, ao mesmo tempo procurando pelo Mark, mas apenas encontrei Anna conversando com a minha madrinha. Olhei para Iman, como se ela pudesse me responder, e apenas acenava com a cabeça, como que respondendo que sim, que ele foi embora da festa antes de cortar o bolo.

Depois dos parabéns e das velinhas assopradas, Irene cortou o bolo, deu o primeiro pedaço para o meu, trocando um beijo apaixonado, e depois a ajudei a distribuir o bolo.

Assim que pegou o seu pedaço, Iman foi me segurando pelo braço e me puxando para longe de todos.

— Vem, vamos comer nosso bolo lá na frente. — ela dizia enquanto deixávamos o quintal e eu olhei inquieta para Jareth, que ainda continuava com os pais dela. — Vai ficar tudo bem, meus pais adoraram o David e ele está seguro com eles.

Fiquei preocupada com o que ela quis dizer com "ele está seguro com eles", mas achei melhor não dizer nada.

Sentamos nos degraus na frente de casa, Merlin seguindo a gente e choramingando pelo nosso bolo.

— Então ... — Iman disse depois da primeira garfada no doce.

— Então o que?

— Então o que aconteceu pro Mark ter inventando uma dor de cabeça e abandonado a festa, fervendo de raiva?

— Fervendo de raiva?

— Sim. Ele ... bom ... — ela evitou me olhar, encarando o prato de papel descartável. — Ele passou por mim e te chamou de piranha, quase dei uma surra nele, mas sabia que isso iria acabar com a festa da Irene.

— Ah, ótimo! Além de vaca, sou piranha também!

— O que?

Contei à Iman o que tinha acontecido na cozinha e ela ficou chocada, sem acreditar que aquele que estava a pouco na festa era o nosso Mark.

— Sarah, eu não consigo acreditar nisso. — ela fazia sinal de negativo com a cabeça. — Isso é tão ... como se ele fosse outra pessoa, tomado pelo ciúme e te querendo tomar como posse dele. Como se ele tivesse sido enfeitiçado.

— Enfeitiçado? — repeti e lembrei de Jareth contando sobre o feitiço que colocou nos meus amigos e familiares enquanto eu estava no castelo.

— Sim, ele não é o Mark de sempre. — ela suspirou. — E eu fico cada vez mais decepcionada com ele, meu amor por ele morrendo aos poucos e chegando à conclusão que não vale a pena tentar algo com ele.

— Sinto muito, Iman. — dei um abraço desajeitado nela. — Eu só tenho certeza de que, depois do que aconteceu hoje, não tenho condições de continuar na peça ... — apreciei a fileira de carros em frente de casa. — Acho que vou sair do grupo de teatro.

— Não, por favor, não Sarah! Eu preciso de você comigo naquele grupo!

— Tá, tudo bem, eu fico no grupo, mas eu saio da peça.

— Ou você pode pedir para trocar por outro personagem.

— Pode ser. — suspirei. — Minha outra preocupação é que, com Mark sentindo tanta raiva, na segunda-feira a primeira coisa que ele vai fazer quando chegar na faculdade é contar pra todo mundo sobre mim e David e a coisa toda saia do controle.

— Não sei se ele seria capaz de tanto, Sarah.

— Você mesmo disse, Iman, ele parece outra pessoa. Não duvido de nada que o envolva.

— Eu vou estar sempre do seu lado, Sarah! Conte comigo. — agora era ela quem me abraçava desajeitada. — Mas eu até agora não acredito sobre o Rick!

Iman começou a fazer uma listinha dos garotos que ela tinha certeza que eram gays e dos que nunca suspeitaria, assinalando ainda aqueles que ela ficaria, mas meu pensamento estava longe demais para dar atenção à minha amiga: a idéia de Mark enfeitiçado martelava na minha cabeça.

Eu sabia que Jareth não faria isso, ao contrário, jogaria algum feitiço pra ele sumir da minha vida. Mas e se fosse verdade? E se alguém realmente o enfeitiçou para atrapalhar o meu relacionamento com o Jareth? E se sim, quem seria?