— Preciso de uma carona! – falei pra Iman assim que entrei no carro dela.

— Pra onde?

— Pra aquela cantina italiana que fica do outro lado da cidade.

— Nossa, não tinha um lugar mais perto, não? – ela resmungou.

— Se eu falar que eu vou almoçar com o professor David, você para de reclamar?

Iman ligou o carro e saímos do estacionamento do campus, pegando a avenida principal.

— Talvez. – ela sorriu. – Só vou sossegar se você me contar direito a história de vocês dois, pois quando falávamos sobre o Mark, ficou muito claro que você se referia ao professor David. Foi ele quem mudou por amor?

Suspirei e repassei mentalmente a história que eu contaria para Iman. Dizer que ele era o Rei dos Goblins não ajudaria em nada, então tive que fazer breves adaptações:

— Foi. Eu conheci o professor David há algum tempo, Tobby ainda era um bebê chorão quando o vi pela primeira vez. – ri sozinha dessa observação. – Eu não sabia o que eu sentia por ele, apenas sabia que ele me amava de um jeito muito obsessivo, de um jeito que eu não queria pra mim.

— De que jeito?

— Ele queria que eu abandonasse a minha família para viver com ele, trancada num cast ... numa casa, ao dispor dele.

— Que horror! Não consigo imaginar o professor David desse jeito!

— Por isso eu digo que ele mudou, Iman! Quando ele finalmente entendeu que eu queria alguém que fosse meu companheiro, meu amigo, meu namorado, ele compreendeu que me “forçar” a ama-lo não funcionaria.

— Então ele mudou por você?

— Sim. – suspirei e fechei os olhos. – Mas eu estraguei tudo.

— Estragou? Mas vocês estão juntos, não estão?

— Estamos, mas antes de nos reencontramos na faculdade, eu disse algumas coisas que o fizeram acreditar de que eu não o amava. – suspirei de novo, a lembrança me amargurando.

— Que coisas?

— Eu disse que ele não tinha poder nenhum sobre mim.

— Mas Sarah, isso eram ...

— Sim! As palavras da cena final da nossa peça de teatro de anos atrás! Ahhh! – quase bati a cabeça no painel do carro na tentativa de esquecer esse dia. – As palavras simplesmente saíram da minha boca, Iman! Aí ele pensou que eu não o amava e sumiu da minha vida. – literalmente.

— Mas ele nunca desistiu de você. – ela disse sorrindo.

— Acho que não. – sorri também.

— Claro que não! Senão nunca teria te reencontrado, mesmo que por acaso, o destino colocou você no lugar certo, na hora certa. – Iman deu um suspiro apaixonado. – Ai, ai, queria viver uma história assim um dia.

— Você vai, Iman! Tenho certeza que o Mark vai cair na real.

Ela suspirou de novo e pensei em pedir ajuda ao Jareth, uma poção do amor talvez?

— Bom, chegamos! – Iman disse quando paramos em frente à cantina. Contar tudo sobre mim e Jareth não me fez perceber como chegamos rápido. – Me mantenha informada sobre tudo e ... ó, Deus!

Ela não terminou a frase e eu entendia o motivo: Jareth já estava me esperando, ao lado da porta de entrada, segurando uma rosa vermelha e sorrindo ao ver o carro da Iman parado.

— Eu acho o David tão ...

— Romântico! – Iman terminou por mim. – Vai lá, te encontro daqui a pouco no galpão.

Sai do carro e me contive para não correr até Jareth, apesar da curta distancia, tudo me parecia sempre tão longe e demorado quando se trata dele.

— Chegou cedo. – falei assim que ele me deu a rosa que segurava.

— Vim voando. – sorriu.

— Não tenho dúvidas disso.

Jareth me puxou pela cintura e me surpreendeu com um beijo demorado e sedento. Nem percebi que eu já estava entrelaçando meus braços sobre o seu pescoço quando um casal queria entrar e nosso beijo atrapalhava a entrada dos dois.

— Desculpe. – falei sem graça, abrindo caminho para que eles pudessem entrar.

— Vamos entar? – ele perguntou.

— Claro!

Olhei para trás e Iman ainda não havia saído, acenei com a cabeça e ela deu um sinal de positivo pra mim.

Apesar de ser um restaurante italiano, a decoração não lembrava muito as tradicionais cantinas, pois as típicas toalhas xadrez sobre a mesa deram lugar a toalhas brancas bordadas e lustres refinados no teto, mas flâmulas de times de futebol italiano nas paredes e adegas de vinho deram o ar italiano ao lugar. Por ironia, achei que Jareth escolheu bem o lugar, como se fossem dois mundos diferentes, duas épocas distintas.

— Você toma vinho, Sarah? – Jareth me perguntou assim que nos sentamos na única mesa vazia do restaurante.

O garçom já havia trazido o cardápio e Jareth logo corria os olhos pela carta de vinhos.

— Não tenho o costume, mas tomarei só uma taça. – olhei para o meu cardápio por olhar, pois eu sabia que queria uma lasanha. – Você sabe que bebida não é o meu forte.

Ele riu e fez os nossos pedidos, pedindo apenas duas taças de vinho tinto.

— Então você já contou a Iman sobre a gente?

— Algumas partes. – beberiquei o vinho, que estava uma delícia. – Não podia contar que você é o Rei dos Goblins, que seqüestrou o meu irmão e que eu fui parar num reino distante. Ela acharia que eu precisaria de intervenção médica. – outro gole e resolvi pegar leve. – Mas e o Reino, o que acontece por lá?

A expressão dele havia mudado totalmente, e aquele Jareth descontraído e feliz desapareceu, dando lugar a um Jareth preocupado e sisudo.

— Descobri que não é só o meu Reino que sofreu uma tentativa de invasão. – ele olhava pela janela. – O Reino dos Elfos também sofreu uma invasão, mas dessa vez de um homem que se passou por ancião e comoveu os guardas da entrada que estava fraco, com fome e sede. Um dos guardas desconfiou e logo o ancião se revelou um feiticeiro, que por pouco não conseguiu chegar até a Rainha deles.

Fiquei imaginando como Jareth estava preocupado com isso.

No tempo que em fiquei com ele no Reino, não lembro de ouvir casos de invasão de reinos vizinhos, onde parecia que todos viviam pacificamente, mas também nunca me perguntei o que acontecia do lado de fora, já que eu estava sempre tão protegida lá dentro.

— Eu quero voltar, Jareth.

— Pra casa? Não vai terminar o almoço?

— Eu quero voltar pro Reino, Jareth! Quero ficar com você! Não vou agüentar ficar os anos da faculdade dividida entre dois mundos! – olhei para os lados, para me certificar se alguém estava nos ouvindo, mas o falatório era alto demais e o excesso de vinho também proporcionava risadas altas.

— Sarah, já está decidido! Você volta pro Reino quando terminar a faculdade!

— Quem decidiu isso? Eu não lembro de dizer a pleno pulmões que quero ficar e terminar os estudos! – sentia minha boca seca e bebi mais um pouco. – Você voltou a ser o Jareth de antes? Mandão e decidindo tudo por mim?

Jareth suspirou e fechou os olhos, a respiração dele agora ofegante e eu sabia que o havia irritado.

— Por favor, Sarah, espere pelo menos até eu descobrir o que estamos enfrentando no Reino. – ele puxou a minha mão e a segurou. – Não quero arriscar a sua vida te levando de volta, sem saber quem é esse invasor. – seus olhos brilhavam agora. – Eu não suportaria te perder ... de novo.

Segurei com mais força a mão dele e sorri.

— Desculpe, acho que eu estava sendo egoísta. – fiz um carinho no rosto dele e ele puxou a minha mão para beijá-la. – Não percebi que você está fazendo isso para me proteger.

— Prometo que sempre estarei com você.

— Eu sei que vai.