Eu ainda não acreditava no que havia acontecido.

Demorei para conseguir dormir, me revirava na cama só pensando na noite anterior, só pensando em Jareth.

Ele estava o tempo todo comigo e eu nem imaginava.

Ao mesmo tempo em que eu ficava feliz em saber que Jareth estava comigo, eu tinha raiva dele por saber do meu sofrimento e nunca ter dito a verdade.

Eu estava na sala com Toby, depois do almoço, contando os minutos pra poder sair e ver o Jareth quando eu escuto uma buzina.

Olhei pela janela e era Iman, no carro dela, teoricamente me esperando pra alguma coisa.

– Não vai pro ensaio hoje, querida? — meu pai perguntou quando chegou à sala e me viu olhando pela janela.

– Eu tenho ensaio hoje?

Perguntei pra mim mesma, mas meu pai respondeu por mim:

– Que eu saiba sim. Vocês não estavam começando uma peça nova?

Iman buzinou de novo e logo entendi que sim, eu tenho um ensaio e não vou conseguir ver o Jareth hoje.

– Sarah, vá logo ou vai se atrasar. — Irene apareceu ainda de avental, enxugando um prato.

Subi, peguei o roteiro em que estavamos começando a trabalhar, me despedi de todos e sai. Assim que entrei no carro, Iman começou as lamentações.

– Eu acho que vou sair do grupo de teatro.

Eu não queria ouvir Iman e as suas neuroses. Eu estava mais preocupada em querer ver o Jareth de novo. Tantas perguntas eu ainda tinha pra fazer e o ensaio do grupo iria arruinar tudo.

– Iman, use a desculpa da bebida: se você não lembra, você não fez.

Rimos ao mesmo tempo e finalmente ela caiu na real.

– Estou exagerando, não é?

– Sim. Até demais.

Iman respirou fundo e pegou o caminho pro parque, o que significava que o ensaio não seria no nosso galpão e que talvez eu conseguisse ver Jareth. Só não sei se conseguiria disfarçar perto de todos o quão apaixonada eu estava pelo meu professor e Rei dos Goblins.

Chegamos ao parque e quase todo o grupo já estava reunido, mas dessa vez havia uma pessoa nova na roda que deixou Iman roxa de raiva: Mark trouxe a Jessica pro ensaio.

Para piorar a situação, o único espaço vago era ao lado de Mark, já que o restante do grupo não se incomodou de sair do lugar para que pudessemos ficar longe deles.

Puxei Iman pelo braço, já que ela dava sinais de que queria ir embora e sentei-me ao lado de Mark, Iman ao meu lado bufando de raiva.

Ele tentou puxar assunto, perguntando se eu cheguei bem em casa, mas de novo a minha mente estava ocupada demais pensando em Jareth, se ele viria e o que ele pensaria se me visse sentada ao lado do Mark, depois do acontecido de sexta-feira.

– Sarah, sobre sexta ...

– Tá tudo bem, Mark. Já passou. Acontece.

Ele apenas concordou com a cabeça e sorriu para Jessica, como se quisesse dizer algo a ela, mas não conseguiu entender o que.

– Bom, vamos começar. — Mark começou dizendo em voz alta. — Eu estava relendo o roteiro e conversando com a diretora do grupo, e talvez "Rock of Ages" seja muito caro para custear, então pensamos em mudar para outro musical.

Alguns murmuravam, reclamavam, diziam que o roteiro estava ótimo, que podiamos fazer festas e coisas do tipo para custear a peça, mas a minha atenção já estava totalmente perdida quando Jareth chegou e sentou-se num banco alguns metros à nossa frente.

– Ai, meu Deus! Eu não vou conseguir olhar pro professor David! — Iman sussurrou e escondeu o rosto atrás de mim.

Jareth estava tão lindo, vestindo uma calça azul combinando com um pulôver de lã também azul e suspensórios. Para alguns seria brega, mas em Jareth caiu perfeito como uma luva.

A beleza dele era tão grande que eu e Iman suspiramos ao mesmo tempo, incomodando Mark.

Jareth deu um meio sorriso, pegou o livro de sempre e uma caneta e começou a rabiscar, os olhos fixos no papel, e talvez com ele não me observando, eu conseguiria prestar atenção no grupo.

A reunião demorou mais do que imaginava, muita discussão, muita gente apoiando a mudança da peça, outros querendo continuar, eu e Iman apenas observando e ocupadas demais comentando sobre Mark e Jareth.

Por fim, o roteiro mudou para "Moulin Rouge", mesmo com reclamações e comparações de que essa peça seria mais cara do que "Rock of Ages", mas a palavra final foi quase da Jessica, quando disse que "Moulin Rouge" era muito mais romântico.

– Err ... você vem comigo, Sarah? — Iman perguntou quando todos já haviam se levantado e se dispersado e percebeu que eu e Jareth não paravamos de nos olhar.

– Ah, não, Iman, pode ir. Vou ficar mais um pouco.

– Por favor, se você ficar com o professor David, não me esqueça de me contar os detalhes! — ela cochichou no meu ouvido.

Ahhh, Iman, se você soubesse pelo menos metade da história ...

Finalmente todos se foram e Jareth veio caminhando lentamente até mim, sentou-se ao meu lado e me deu um beijo na testa.

– Achei que essa reunião não ia terminar nunca. — ele disse.

– Eu também.

– Mark quer me matar, não quer?

– Não sei, não quis comentar o assunto com ele.

– Eu tentei tirar os olhos de você, mas era impossível. — Jareth deu um beijo no meu pescoço. — Ele deve ter ficado irritado. E a lourinha também.

– A Iman gosta dele. — dei uma mordida na orelha dele. — Ah, fazia tempos que eu queria fazer isso.

Jareth riu.

– Iman merece coisa melhor. — agora era ele quem mordia a minha orelha. — Hum, mordiscar orelhas parece divertido.

– Eu tenho perguntas, Jareth. — puxei o rosto dele para poder ver melhor seus olhos.

– Imagino que tenha. — ele segurou na minha mão. — Pode começar.

– Por que todos tem alguma lembrança minha, mesmo por ter passado tanto tempo longe?

– Eu enfeiticei todos os seus amigos e familiares para que eles tivessem lembranças suas. — ele brincava com os meus dedos. — Você nunca esteve aqui, mas na mente deles você esteve aqui o tempo todo.

– Isso explica a lembrança do Mark e da auto-escola.

– Exato.

– Mas eu sei dirigir?

– Claro que não, Sarah! — Jareth riu. — Mas posso te ensinar.

– Você sabe dirigir? — eu quase gritei de surpresa e a cara de Jareth era aquela mesma que ele fazia quando eu tentava me impor a ele.

– Sei. — ele colocou a mão sobre a minha coxa e começou a aperta-la. — Tenho certeza de que você vai gostar de passar algumas horas no carro comigo. — sua boca estava agora no meu ouvido. — Tenho certeza de que você também nunca deu uns amassos no carro.

Meu coração quase saiu pela boca, meu corpo arrepiando por inteiro.

Respirei fundo, tentando não perder o foco e aplicando minha tática de mudar de assunto.

– E os seus olhos, são de cores diferentes realmente por causa de uma briga?

– Sim.

– Felicity?

– Ela mesma. — Jareth ainda apertava a minha coxa quando um casal de velhinhos passou por nós e não gostou do que viu. — Tony era o meu melhor amigo, ele era loucamente apaixonado pela Felicity, mas um dia ela deu sinais de que gostava de mim, dei em cima dela, ela aceitou o meu convite pra sair, ganhei um soco no olho do meu amigo, perdi o amigo, ganhei a garota e um olho de cada cor.

Comecei a rir loucamente da história.

– O que foi? — Jareth estava incomodado com o meu riso.

– É que você contou a história toda de um jeito tão diferente que deixou tudo engraçado.

Ele acariciou de leve meus lábios.

– Acho que passei muito tempo rodeado por goblins que não sei mais me relacionar com pessoas.

Agora era eu quem passava os dedos pelos lábios dele.

– Eu não sei o que você fez comigo, Jareth, mas por favor, continue assim.

Sorrimos ao mesmo tempo, fechei os olhos e seus lábios roçaram de leve os meus, até finalmente nos embalarmos no ritmo frénetico dos nossos beijos.

Acho que eu poderia ficar o dia inteiro beijando esse homem que eu não cansaria nunca.