You Could Be My Queen
1 Capítulo 1
- Sarah, te dou uma última chance: fique aqui comigo até você completar 18 anos, e se nesse tempo eu não tiver atendido suas expectativas, deixo você voltar ao seu mundo.
E foram essas as palavras que me fizeram ficar “presa” naquele castelo até os meus 18 anos!
Maldita hora em que não lembrei da frase daquele maldito livro!
A vida no lar do rei dos goblins não era de todo mal: eu podia passar horas no Labirinto, que eu não via o tempo passar.
Alias, a concepção de tempo lá era diferente.
Jareth disse que para mim os anos passariam rápido ou não, o que dependeria do meu comportamento, já que ele tinha o poder de controlar o tempo em seu reino. Por causa disso, tratei de ser uma boa menina a maior parte da minha permanência, mas as vezes eu tinha meus momentos de rebeldia, o que fazia os dias se arrastarem.
- Seu irmão vai voltar para os seus pais. Não quero você reclamando de cuidar dele como sempre faz. – Jareth disse no que eu acho que foi a minha primeira semana lá. – Você é uma adolescente muita reclamanona, querida Sarah, e não quero ouvir suas lamentações e reclamações aqui.
Assim, meu desejo de me livrar dele foi atendido, porém confesso que sentia muita saudade dele e dos meus pais. Talvez aquele mundo de fantasia dos livros não fosse pra mim, talvez eu realmente não pertencesse aquele mundo, talvez eu devesse parar de ser tão fantasiosa e viver uma vida de verdade.
Outro passatempo que eu arranjei era ficar encostada no final da tarde, vendo o sol se pondo, na janela-balcão da sala do trono medonho do Jareth.
Eu observava o Labirinto, que parecia infinito olhando daqui de cima, e tudo o que havia além dele, até avistar o topo do morro, que foi o começo de tudo.
- Você sabe que tudo isso pode ser seu, não sabe, Sarah? – Jareth disse enquanto sentava-se ao meu lado.
Suspirei e pensei duas vezes antes da dar uma resposta mal-criada.
- Não é nisso que estou pensando.
- Então o que é?
- Em como está a minha família. Se a minha madrasta e o meu pai estão bem, como Toby está, se estão sentindo a minha falta...
E como sempre acontecia, Jareth fez aqueles malabares com a bola de cristal e me entregou, imagens surgindo, como se fosse uma pequena televisão: aos poucos eles apareceram num parque, sentados sob uma toalha xadrez.
- Eles estão fazendo um piquenique! – exclamei assim que identifiquei uma cesta de vime e alguns sanduíches sobre a toalha. – Eles parecem tão ... felizes.
- Devem estar mesmo. – ele dá de ombros, pegando o cristal da minha mão e sumindo com ele. – Com você longe deles, devem estar muito felizes.
Respirei fundo mais uma vez.
Morar naquele castelo com ele era um verdadeiro teste de paciência e no período que estive aqui, aprendi uma técnica: mudar de assunto.
- Jareth, como você se tornou o rei dos globins?
Ele fitou o horizonte, encostou no outro lado do balcão e pediu para que eu me sentasse ao lado.
- Assim como você, eu também entrei nesse Labirinto para resgatar alguém que eu amava. – Jareth continuava a olhar o sol se pondo – Seu nome era Felicity e foi seqüestrada pela Rainha dos Goblins, Donna. Quando finalmente eu cheguei à sala do trono, apenas Donna estava aqui, que me ofereceu o poder e o trono caso eu ficasse nesse mundo, que ela realizaria todas as minhas vontades e que se eu aceitasse, Felicity estaria sã e salva em casa, mas caso eu negasse, ela a transformaria em um globin para sempre.
- Ei, mas você fez quase a mesma coisa comigo!
- Talvez, minha cara. – ele me encarou. – O fato é que eu ainda te dei a escolha e fui bondoso com você, deixando seu irmão voltar.
- Mas me deixou presa aqui ...
- Só até o seus 18 anos ...
- Eu ainda vou lembrar daquelas palavras do livro!
- Posso continuar? – Jareth se mostrou impaciente.
- Claro, desculpe.
- O fato é que todo o poder e magia que Donna tinha me despertou a ganância, me fazendo esquecer que um dia eu amei Felicity. Aceitei a oferta, Felicity voltou para a casa e logo Donna me ensinou tudo sobre magia, poderes, e confesso que eu era um ótimo aluno, pois consegui absorver todo o ensinamento dela.
- Convencido. – murmurei.
- Eu ouvi. – e ele apontou para o relógio ao lado do trono, ameaçando retroceder o tempo, mas logo abaixei a mão dele e me desculpei.
- O que aconteceu com a Donna?
- Quando percebi que eu já tinha o poder e conhecimento que eu precisava, a expulsei do reino.
Senti um calafrio percorrer o meu corpo, com medo de que eu pudesse ser a próxima a ser expulsa e vagar por lugares desconhecidos, sem conseguir voltar pra casa.
- Está com frio? – Jareth perguntou e logo foi me puxando para o peito dele, me cobrindo a sua capa.
- Você a amava?
- Não.
A resposta veio tão certeira, rápida e honesta que outro calafrio, seguido de um embrulho no estomago, surgiu.
Começava a ventar e acho que agora era frio que eu sentia. Jareth me puxou para mais perto do seu corpo e seus braços me apertavam com tanta força que parecia que ele tinha medo de que eu fugisse dali. Fugir como? E fugir pra onde?
- Você foi uma boa pessoa. – resmunguei mais para mim mesma do que pra ele.
- Eu ainda sou uma boa pessoa.
- A sua concepção de bondade parece diferente da minha.
- Te fiz a mesma oferta que Donna me fez, te dou tudo o que você quiser, só peço em troca o seu amor e você ainda diz que eu não sou uma boa pessoa? Quem mais te faria uma oferta assim?
Meus olhos começavam a fechar e eu já não tinha mais forças para outra (de inúmeras que viriam) discussão sobre a sua oferta e minha prisão nesse mundo.
- Eu te peço tão pouco, Sarah ... – senti sua mão alisando o meu cabelo.
- Mas eu não sei se sou capaz. – murmurei sonolenta
- Capaz de amar alguém?
- Capaz de te amar. – me aconcheguei mais em seu peito. – Pra você, amor é possessão e escravidão; pra mim, é companheirismo e reciprocidade.
Jareth não me respondeu e o assunto morreu ali. Acho que era a primeira vez em que eu via o Rei dos Goblins não dar a palavra final numa discussão.
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