A semana parecia mais longa do que se eu estivesse ainda no castelo com Jareth controlando o tempo.

Todos os dias eu olhava aquela bola de cristal, desejando Jareth comigo:

– Ai, Jareth, me perdoe! – eu queria saber fazer aqueles malabares que ele fazia com a bola, mas fiquei com medo de quebrar. – Eu não queria ter dito aquelas palavras! Elas simplesmente surgiram na minha mente!

Eu não sabia se aquele cristal era o cristal de Jareth, mas eu sempre desejava que ele estivesse aqui comigo, mas nunca funcionava. Nunca a janela do meu quarto era invadida por uma coruja que logo se transformaria nele. Talvez eu não estivesse usando as palavras corretas.

– Repararam que hoje aquela coruja não está seguindo a gente? – Mark comentou quando chegamos na faculdade e pensei que talvez ela tivesse desistido da gente. Ou de mim, caso fosse Jareth.

A aula depois do intervalo daquele dia era a de Técnicas de Escrita, logo Iman estaria conosco, o que me animou bastante.

A sala estava cheia, já que havia praticamente duas turmas, quase 60 alunos novatos com hormônios a flor da pele falando sem parar.

Como de costume, nós três pegamos as carteiras de primeira fileira. Éramos nerds demais pra turma do fundão.

Quase 10 minutos se passaram e nada do professor chegar, até que uma voz forte e imponente calou toda a sala.

– Bom dia, tagarelas! Será que podemos ter um pouco de silencio aqui?

Meu coração quase saiu pela boca, meu queixo literalmente caído.

O tal professor tinha um olho de cada cor, como Jareth. O cabelo curto, numa cor levemente acobreada, o rosto delicado, o sorriso idêntico ao do Rei dos Goblins. Ele vestia um terno cinza, que com certeza foi feito sob medida de tão perfeito que estava no corpo dele, e uma gravata preta levemente afrouxada, como se acordasse atrasado e sem tempo para dar o nó direito nela.

– Ah, finalmente. – ele sorriu quando todos ficaram quietos. – Meu nome é David Jones e serei seu professor de técnicas de escrita durante todo esse ano. – A voz também era idêntica a de Jareth. – Vamos colocar essas cabeças ocas pra funcionar, estimular a criatividade de vocês.

Nesse momento eu parei de prestar atenção no que ele dizia, prestava atenção apenas nos meus pensamentos. Professor David Jones era uma cópia perfeita do Jareth, apenas uma versão sem glitter, sem maquiagem, sem cabelo comprido e sem calças justas.

– Sarah, esse professor é lindo! – Iman cochichou. – Acho que será a minha matéria favorita.

– A minha também! – concordei e demos risinhos bobos, Mark visivelmente incomodado conosco.

– Bom, jovens, quero conhecer vocês de uma maneira diferente. – David pegou a lista de chamada e sentou-se sob a mesa. – Vou chamá-los aleatoriamente e quero que vocês sejam criativos em suas apresentações. Não quero ouvir coisas do tipo “Tenho 18 anos e gosto de piquenique no parque”, quero coisas criativas, mas de maneira rápida pois somos em quase 60 pessoas e não temos todo o tempo do mundo. Entendidos?

Em coro todos concordaram e, apesar de estar muito próximo dele, ele ainda não havia olhado pra primeira fileira. De algum modo, eu queria que ele me visse, me percebesse.

– Brian Ronson, onde está você?

Um garoto com óculos fundo de garrafa sentado na penúltima fileira se levantou e ajeitou os óculos.

– Bom, eu sou Brian, gosto de suco de abóbora e fui rejeitado em Hogwarts, por isso estou aqui.

– Com certeza você não pertenceria a Sonserina. – David disse. – Agnes Jett?

Uma lourinha atrás de Mark se levantou, ajeitou a roupa e o cabelo e começou a gaguejar, mas não prestei atenção nela, eu pensava no que iria dizer, sem parecer boba ou infantil demais.

– Sarah Willians?

Eu praticamente pulei da cadeira e finalmente David me olhou, seus olhos tinham um brilho muito intenso e eu podia jurar que vi um pouco de gillter nas bochechas.

– Me chamo Sarah, fiquei um tempo presa no reino do Rei dos Goblins em troca da liberdade do meu meio irmão caçula e consegui voltar no dia do meu aniversário de 18 anos.

– E você se apaixonou por ele, disse as palavras que não deveriam ser ditas e hoje se arrepende de estar aqui? – ele perguntou, o sarcasmo nítido na pergunta.

– Na verdade não. – tentei não parecer surpresa com a pergunta dele. – Ele tinha glitter demais e os lábios frios também.

– Hum. – ele me encarou sorrindo. – Darei o recado a ele. – Iman Abdulmajid? É isso mesmo? Pronunciei certo?

Iman também pulou da cadeira. Alias, todas as meninas pareciam pular da cadeira quando o professor pronunciava o nome delas, todas se ajeitavam e sorriam abobadamente pra ele. A concorrência seria grande naquela sala.

– Capítulo 1 lido e resumido para a semana que vem. — David disse ao final das apresentações. – Temos muito trabalho pela frente. – ele me olhou e sorriu. – Com exceção da mocinha apaixonada pelo Rei dos Goblins e do rapaz malhado vilão de um jogo de vídeo-game, vocês tem que explorar muito essa cabecinha. Estão dispensados.

Antes de sair da sala, ainda olhei para trás e meu olhar cruzou direto com o de David, como se ele estivesse me observando o tempo todo.

Sorrimos um pro outro e ainda dei um aceno bobo com a mão, que ele correspondeu.

– Mimimi, mocinha apaixonada pelo Rei dos Goblins, mimimi! – Mark resmungava durante o caminho inteiro e eu e Iman já estávamos perdendo a paciência.

– Mark, se você não calar a boca, te deixo no meio do caminho! – Iman gritou e ele ficou quieto, mas de cara fechada.

Já em casa, não conseguia almoçar direito pensando naquele professor. Tudo nele me lembrava o Jareth e isso só aumentava a minha saudade.

Olhei pro cristal como eu fazia todos os dias, suspirei e supliquei, como de costume:

– Jareth, por favor, não me obrigue a tentar te esquecer. Me perdoe.

E como sempre, nada acontecia.

Definitivamente, não sei usar as palavras corretas.