Aquele não era o meu quarto do castelo. Era o meu quarto, de verdade. A minha casa. Mas eu ainda não sabia se lá era o meu lar.

Eu estava deitada na cama, olhando para tudo ao meu redor, que estava exatamente como eu havia deixado antes de ir pro Labirinto: os livros de fantasia na escrivaninha, maquiagens e recortes de jornais na penteadeira, meus bichinhos de pelúcia na prateleira. Tudo igual.

Será que eu estava sonhando este tempo todo?

Me levantei e logo percebi que o vestido que eu usava deu lugar ao jeans e à camisa que eu usava quando fui pro Labirinto. Isso só me deixava mais confusa.

Ouvi batidas na porta e antes que eu pudesse dizer que podia entrar, Irene, minha madrasta, já estava com a cabeça no quarto.

– Querida, bom dia! Oh! Vejo que já está pronta! Estava muito ansiosa, por isso acordou cedo?

– Ansiosa com o que?

– Seu primeiro dia na faculdade, Sarah! Vamos, desça pro café para não se atrasar no primeiro dia! – e fechou a porta antes que eu pudesse dizer algo.

Andei até a minha escrivaninha, um caderno novo, uns livros de técnicas de escrita e literatura e uma carteirinha, com a minha foto e o curso escolhido: jornalismo.

Botei tudo na mochila e olhei no calendário, que indicava que era um dia depois do meu aniversário de 18 anos, o que significava que nada foi um sonho, mas sim que eu fui burra demais pra dizer aquelas palavras, quando não queria dizê-las.

Maldita hora em que eu lembrei delas! E maldita hora em que elas saíram da minha boca sem a minha permissão!

Imediatamente, a última imagem de Jareth e sua expressão triste me vieram à mente, uma vontade de sair gritando pelo nome dele invadiu o meu corpo, mas o balbuciar de uma criança me despertou dos meus pensamentos.

Toby!

Desci correndo as escadas e quase chorei quando cheguei à cozinha: meu pai lendo o jornal, Toby já não se sentava mais em cadeira para bebês e Irene fritando ovos.

– Pai! – sai correndo pra abraçá-lo, tão forte que ele reclamou.

– Filha, você está bem? – ele perguntou depois dos inúmeros beijos que eu dei nele. – Parece que você não me vê há anos!

Meus olhos já estavam cheios de lágrimas e tentei me conter para não parecer uma louca que chora a toa.

– Desculpa, pai, é que ... não sei, estou emotiva hoje.

– Ah! Deve ser por causa do seu primeiro dia da faculdade! – ele me abraçou. – Minha menininha, indo pra faculdade!

– Chega, querido! Venha, Sarah, coma logo pois logo Iman vai chegar.

– Iman vai chegar?

– Sim, você se esqueceu? – fui correndo abraçar Toby, enquanto Irene continuava a falar. – Ela ganhou um carro de aniversário e você vai de carona com ela, esqueceu?

Iman era a minha melhor amiga desde que eu me lembre. Alias, acho que era a minha única amiga, quase irmã.

– Ah, claro. – fingi que sabia de tudo. – Tinha me esquecido.

Todos nos sentamos à mesa para comer e por alguma razão estranha, parecia que eu estava aceitando mais a Irene como parte da família, coisa que eu não entendia.

E eu não entendia como a vida prosseguiu por aqui enquanto eu estava fora.

Então quer dizer que eu estive aqui o tempo todo? Será então que eu sonhei? Mas como poderia ter sonhado se passaram alguns anos e Toby já estava crescido, com quase três anos, pois Irene começou a falar sobre a festa de aniversário dele.

Minha cabeça rodava e eu não entendia. Parecia que eu estava o tempo todo aqui, mas eu não me lembro de nada que vivi aqui depois do Labirinto. Minha última lembrança nessa casa era de Toby seqüestrado e Jareth invadindo o quarto, me oferecendo o cristal ao invés de ir buscar o meu irmão.

Uma buzina insistente atrapalhou o meu pensamento e logo deduzi que era Iman.

Me despedi e ao sair, Iman estava parada num conversível azul, a capota abaixada e vestia-se como atriz de cinema: uma encharpe no pescoço e óculos de sol, sua pele negra ficava mais linda ainda com o vestido pink que usava.

Nos tornamos amigas ainda no jardim de infância e desde então nos tornamos inseparáveis. Ela era tão linda que poderia ser modelo, mas preferiu se aventurar no grupo de teatro comigo.

– Sarah! – Iman me abraçou forte, como sempre fazia. – Veja que lindo que eu ganhei! Este será nossa condução até a faculdade.

– Lindo mesmo, Iman! Me lembre de arranjar um emprego para pagar a gasolina.

Ela riu e logo entramos no carro.

– Vamos que ainda temos que buscar o Mark.

Conhecemos Mark no grupo de teatro e logo descobrimos que ele estudava na mesma escola que a gente, assim nos tornamos grandes amigos, apesar de muitas vezes perceber que ele queria ser mais que meu amigo, mas eu nunca tive interesse em rapazes ... até conhecer Jareth.

Menos de cinco minutos e já estávamos na casa do Mark, Iman buzinando diversas vezes até finalmente ele sair com um caderno na mão, um cigarro quase no final na boca e o cabelo despenteado, como quem acabava de acordar.

– Bom dia, meninas! – ele pulou para dentro do carro, no banco de trás, e não tive a oportunidade de dar um abraço nele. – Recuperadas da festa de ontem?

Festa de ontem? Que festa? Aquela em que eu beijei o amor da minha vida e deixei passar a chance de ficar com ele?

– Saímos cedo de lá, mas parece que você ficou até tarde, não? – Iman respondeu e eu tentava captar alguma coisa sobre a tal festa.

– Sim, eu praticamente acabei de chegar. – ele respondeu e me deu um beijo surpresa no rosto. – Sarah, levo o seu presente depois da aula, okay?

– Ah, claro. Okay.

Seguimos até a faculdade e os dois iam comentando sobre a festa, e pelo o que entendi, estávamos comemorando meus 18 anos num barzinho badalado, onde era necessário colocar o nome quase um mês antes de tanta procura que o lugar tinha.

Olhei no retrovisor e fiquei observando Mark, que lembrava muito Kevin Bacon em “Footloose”, o que era garantia de milhares de meninas loucas por ele, mas ele nunca correspondia às expectativas delas.

Por um momento, pensei que talvez essa fosse a solução para os meus problemas: aceitar as investidas de Mark.

Olhei de volta no retrovisor e vi uma coruja branca voando baixo, quase acompanhando o carro. Virei rapidamente para trás, mas a coruja já voava mais alto, mas ainda nos acompanhando.

Mark acompanhou o meu olhar intrigado.

– Olha, uma coruja branca! – ele disse e Iman quis olhar também, mas ela não tirava os olhos do volante. – Parece até que está no seguindo.

Me afundei no banco e pensei em Jareth. Será que era ele, seguindo os meus passos? E se fosse, ele me vendo com o Mark, o que estaria pensando?

Chegamos à faculdade e a coruja continuava a nos seguir, Mark até tentou fazer um carinho nela quando ela pousou numa mureta, mas o bicho quase deu uma bicada nele.

Eu não fazia idéia de que cursos eles iriam fazer, mas logo descobri quando Iman se separou para a sala da turma de Literatura Inglesa e Mark me acompanhou na turma de Jornalismo.

– Olha! – disse Iman quando nos encontramos no intervalo, com o calendário das aulas na mão. – Teremos algumas aulas juntas, Sarah! Técnicas de escritas na quinta, seremos companheiras de sala novamente!

Confesso que isso me animou um pouco, já que a marcação de Mark era cerrada quando Iman não estava com a gente.

Voltamos pra casa, joguei minha mochila no sofá e fui pro quarto, na esperança de que algo pudesse ter mudado. Nada. Tudo igual. Exceto uma pena branca e uma bola de cristal sob o criado-mudo.