– Sério, Jareth, quem fez esse bolinho? – perguntei depois (acho que) do terceiro cupcake que eu comia.

– Você nunca comeu um desses quando foi visitá-lo? – Jareth fazia pouco caso, encostado no tronco da arvore.

– Sir Didymus?

– Ele mesmo.

– Meu Deus, ele devia largar o cargo de guardião e virar o chef de cozinha do castelo!

– Se você quiser, eu posso fazer isso por você. Apesar que ...

A frase morreu ali e eu fiquei sem entender.

– Apesar que o que, Jareth? – perguntei impaciente, me sentando ao lado dele.

– Você não se lembra?

– Lembrar o que?

– Seu aniversário, Sarah. É daqui uma semana.

Eu deveria ficar alegre, não deveria? Iria poder voltar pra casa, rever meu pai, meu irmão e até a minha madrasta, mas eu não conseguia. Meu único pensamento era que eu iria deixar Jareth sozinho aqui.

– Achei que você estaria dando pulos de alegria por aqui. – Jareth interrompeu os meus pensamentos.

– É, sim ... quero dizer ... – eu olhava para todos os lados, como se esperasse que alguém surgisse e respondesse por mim. – É que eu perco um pouco a noção do tempo aqui no Reino. Parece que foi ontem que você apareceu e seqüestrou o Toby.

– Não! Eu não seqüestrei! Você pediu e eu obedeci!

– E por que você me obedeceu?

– Porque eu sou o seu escravo, Sarah! Faço qualquer coisa por você! – a voz dele era quase uma súplica.

– Mas eu não quero um escravo! – me sentei de frente pra ele, segurando o rosto dele com as duas mãos. – Eu quero alguém que me ame pelo o que eu sou, que divirta-se comigo, que ria comigo, que chore comigo, que seja amigo acima de tudo!

Jareth não respondia nada, seus olhos apenas fixos nos meus, como se tentasse ler através deles.

– Talvez eu não seja capaz disso tudo que você pede.

– Você é, Jareth, eu sei que é! – larguei o rosto dele e suspirei. – Queria ter conhecido aquele Jareth antes de se tornar um rei, aquele pelo qual a Felicity se apaixonou.

Mais uma vez ele não disse nada, ainda os olhos fixos em mim e só então me dei conta de como era lindo um olho de cada cor dele.

– Você tem lindos olhos, Jareth.

– Qual deles? – ele perguntou sorrindo e não resisti, cai na risada e dei um abraço nele, que demorou um pouco para que eu pudesse sentir suas mãos nas minhas costas, como se ele estivesse com medo de me tocar.

– A gente pode fazer outro piquenique amanhã? – perguntei ainda abraçada a ele.

– Claro. Quantos você quiser. – pude sentir Jareth cheirando o meu cabelo.

Me soltei do corpo dele e voltei a sentar ao lado dele.

– Acho que vou querer fazer o piquenique todos os dias, se você não se importar.

– Eu não me importo.

Ficamos algum tempo em silêncio, o que estava me irritando profundamente.

– O que você está pensando? – virei meu rosto surpresa com a pergunta dele e lá estavam aqueles olhos me observando de novo.

– Que esse silêncio é constrangedor demais.

Jareth não respondeu e reparei que agora seus olhos estavam fixos nos meus lábios, o me causou uma série de arrepios, seguido de um coração acelerado quase saindo pela boca.

Instintivamente, fechei os olhos e tentei captar o que acontecia ao meu redor: eu sentia o rosto de Jareth cada vez mais próximo do meu, seu perfume cada vez mais forte, misturado com o seu hálito do vinho recém tomado.

Seus dedos estavam passando suavemente pelos meus lábios, delicadamente, como se brincassem de contornar o desenho e formato dos meus lábios.

Os dedos sumiram e senti os lábios gelados de Jareth encostarem de leve nos meus mas logo se afastaram.

– Melhor irmos, já está anoitecendo. – Jareth se levantou e começou a arrumar as coisas.

Não consegui dizer nada, eu não queria dizer nada, estava apenas me sentindo frustrada pelo momento que passou, do selinho que poderia ter se transformado em um beijo de verdade.

E por que ele não foi até o fim? Talvez porque eu não pedi? Por que eu não demonstrei interesse pra ele continuar? Ou eu é quem deveria ter tomado a iniciativa?

Voltamos pro Reino e não falamos nada sobre o acontecido. Na verdade, não trocamos uma palavra durante parte do trajeto, até o momento em que pensei alto:

– Eu não sei o que eu vou fazer na faculdade.

– O que disse? – Jareth se assustou com a minha voz e quase parou o cavalo no meio do caminho.

– Eu estava pensando ... eu não sei que curso eu vou fazer na faculdade. Alias, eu nem sei como eu vou entrar pra faculdade, se teoricamente eu ainda estou na escola.

Jareth riu e acho que voltamos ao que era antes, o constrangimento do quase-beijo se afastando.

– Por que você não faz algo relacionado à literatura? Você gosta tanto de ler.

– E gosto de escrever também. Talvez jornalismo seja uma boa idéia.

– Se você está pensando no que vai fazer na faculdade, isso significa que você não vai ficar aqui comigo, não é? – Jareth perguntou amargurado.

Eu não queria que ele entendesse dessa maneira, mas a verdade é que eu ainda não sabia que decisão iria tomar. Meu coração estava dividido entre ficar aqui com ele e voltar pra casa e pra minha família.

– Tenho sete dias pra pensar nisso, Jareth.

– Sete longos dias. – ele suspirou.