Ainda faltava quase uma hora para que os convidados chegassem no horário indicado pela Irene para o jantar quando ouvimos a campainha tocar. Eu a ajudava na cozinha e trocamos olhares.

— Mas é muito cedo para os convidados chegarem! — Irene se desesperou. — Sarah, por favor, vá atender e se for preciso, faça sala que eu termino aqui.

Sai da cozinha, com Toby e Merlin me seguindo e fui atender a porta.

— Jareth? — ele estava parado, sorrindo, segurando um buquê de rosas em uma mão e em outra duas sacolas, uma grande onde enxerguei uma garrafa e outra bem menor, vestindo um impecável terno azul marinho risca de giz. — Você chegou muito cedo!

— Eu sei. É que eu preciso falar com o seu pai.

— Falar com o meu pai? Sobre o que?

— Sobre nós dois. — ele se aproximou e me beijou. — Vou falar claramente para ele as minhas intenções com você.

— Mamain, Sarah tem namolado! — era Toby gritando pela sala, atrás da Irene.

— Viu? — Jareth sorriu. — Até o seu irmão sabe e o seu pai nem desconfia.

— Mas por que, Jareth? O que deu em você em querer falar com o meu pai? — perguntei intrigada.

— Pensei muito sobre isso ontem à noite e cheguei à conclusão que será melhor para nós: você poderá sair comigo sem ter que inventar desculpas e teremos mais tempo para nós dois.

— David! — era Irene quem surgiu atrás de mim. — Você chegou cedo! Sarah, não seja mal educada e deixe-o entrar.

— Ah, claro! — dei licença para Jareth passar e fechei a porta assim que ele passou, minha cabeça um pouco confusa com tudo.

— Irene, feliz aniversário. — ele entregou o buquê de rosas e a beijou na mão, fazendo-a corar. — E desculpe pelo inconveniente de chegar mais cedo, mas é que eu preciso falar com o pai da Sarah.

— Precisa? — ela parecia tão surpresa quanto eu.

— Acredito que você já deva imaginar qual o assunto. — Jareth me puxou pela cintura e beijou a minha testa.

— Oh, claro! — ela sorriu mais ainda. — Vou colocar as flores num vaso e já vou chamá-lo. Venha, Toby, venha comigo.

Irene saiu e nos deixou a sós na sala, Toby seguindo a mãe por toda a casa tão perdido quanto Merlin.

— E este é para você. — Jareth disse enquanto me entregava a sacola menor.

Olhei desconfiada pra ele, mas abri com cuidado e uma delicada caixinha escondia um delicioso cupcake de chocolate.

— Deixe-me adivinhar ...

— Sim, o próprio quem fez. Alias, ele manda lembranças.

Suspirei e me joguei no sofá, Jareth sentando ao meu lado.

— Tenho saudades dele. Saudades de todos. Saudades do castelo. Saudades de você cantando e eu escondida te ouvindo.

Ele segurou o meu rosto com as duas mãos e me beijou, tão demoradamente e tão apaixonado que me fez perder o ar.

— Tenha paciência, Sarah.

— É engraçado você me pedir isso. — passei os dedos pelos lábios dele. — Logo você, que sempre quis as coisas do seu jeito, no seu tempo, quando bem entendia.

Jareth abriu a boca para responder algo, mas logo ouvimos os passos de Irene e do meu pai chegando.

— Sr. Willians! — Jareth se levantou e cumprimentou meu pai.

— Sr. David Jones. — meu pai respondeu sério e eu tive a nítida impressão de que ele já sabia o assunto que o Jareth queria conversar com ele. — Irene me disse que queria falar comigo.

— Sim, desculpe chegar mais cedo do que o previsto, mas eu queria aproveitar a oportunidade e ter uma conversa com você.

— Vamos, Sarah! — Irene foi me puxando pelo braço. — Venha me ajudar na cozinha e vamos deixar os rapazes conversando em paz.

Acompanhei Irene até a cozinha, que fechou a porta e começou a pegar os pratos do armário.

— Mas ei, a conversa deles diz respeito a mim, eu tenho direito de estar na sala e participar! — reclamei a ela.

— Querida, deixe os dois! Eu já adiantei o assunto com o seu pai, então ele já está preparado.

— Já? — perguntei assustada.

— Quero dizer, em partes. — ela deu de ombros. — Seu pai ainda acha você muito nova e o David muito velho pra você, além do fato dele ser o seu professor, mas aos poucos o coração dele vai amolecer. — Irene me entregou uma pilha de pratos. — Vamos, me ajude a arrumar as mesas.

Relutante, decidi parar de tentar ouvir alguma coisa da sala e fui ajudá-la a levar as coisas para fora.

Nossa cozinha ia direto para o enorme quintal dos fundos e era lá que o jantar iria acontecer: Irene colocou três mesas enormes, onde duas seriam para os convidados e a outra onde seria o buffet. Lanternas chinesas, dois bancos e alguns pufes completavam a decoração do quintal, que estava simples, mas muito aconchegante.

As mesas já estavam quase prontas quando voltei para cozinha e encontrei Jareth e meu pai bebendo uma taça de vinho, conversando como velhos amigos.

— Sarah, venha cá, querida! — meu pai chamou assim que me viu entrar. — David conversou comigo.

— E? — olhei ansiosa para os dois.

— Eu concordei com o namoro de vocês, mas só aceitei com uma condição.

— E qual seria?

— Que eu pare de dar aulas para a sua turma. — Jareth respondeu e eu quase quis bater nos dois. — Seu pai tem medo de algum escândalo ou algo assim, então só darei aula pra sua turma esse semestre.

Isso significava um dia a menos vendo o Jareth, um dia a mais de saudade. Eu sabia que meu pai não deixaria tudo ser tão simples, eu não estava preparada pra aquilo, mas talvez fosse melhor assim e seria questão de tempo até que eu pudesse voltar ao castelo e te-lo pra mim todos os dias.

— Essa foi fácil, hein, pai? — tentei parecer descontraída e meu pai pareceu gostar. — Não me importo de perder um professor, contanto que eu ainda o tenha como namorado.

Jareth sorriu lindamente e me ofereceu uma taça de vinho, mas meu pai logo a tirou da minha mão.

— E sem vinho, David. — meu pai disse.

A campainha tocou, olhei no relógio e vi que era a hora dos primeiros convidados chegarem.

— Pai, termina de ajudar a Irene que eu vou receber os convidados.

— Claro, filhinha. — ele abandonou o copo de vinho na pia. — David, você pode acompanhar a Sarah?

Jareth terminou de beber a taça dele, fez que sim a com a cabeça e me pegou pela mão, me guiando até a sala.

— Você vai ter que me contar tudo o que aconteceu aqui! — sussurrei antes de abrir a porta e ele apenas riu. — Iman! Sr. Abdulmajid! Marian! Vocês são os primeiros a chegarem!

— Eu já imaginava. — Marian, a mãe de Iman, revirou os olhos. — Mas meu marido estava muito impaciente pra vir, desculpe se chegamos cedo demais.

Cumprimentei todos e quando eu ia apresentar Jareth para eles, ele tomou a frente.

— Muito prazer, Sr. e Sra. Abdulmajid, sou David Jones, o namorado da Sarah.

Vi a minha cara de surpresa refletida no rosto de Iman.

— Bom, vocês já conhecem a casa, fiquem a vontade. — falei depois que todos entraram. — O jantar vai ser no quintal dos fundos, meus pais estão lá, se quiserem ir pra lá ...

— Claro! — Marian respondeu. — Vamos, querido!

Iman ainda ficou conosco na sala, ansiosa demais para saber dos detalhes.

— Então ... — ela começou. — agora é oficial?

— É o que parece. — respondi quando senti a mão do Jareth na minha cintura. — Mas só lamento que perdemos um professor.

— Ah! — Iman agora parecia um pouco decepcionada. — Vai deixar as aulas, professor?

— Sim, no semestre que vem já deixo a turma de vocês. — Jareth respondeu. — Foi uma condição do pai da Sarah e nada mais justo do que deixar as aulas, para evitar qualquer problema na faculdade.

A campainha tocou de novo e eram os padrinhos do Toby que chegaram, logo em seguida dos meus padrinhos. Jareth e Iman me ajudavam a recepcionar todos e eu fiquei me perguntando se ele não se cansaria de se apresentar como o meu namorado, mas conforme os convidados chegavam, eu notava que ele dizia aquilo com vontade e orgulho, o que me deixou feliz.

Iman foi ver se a minha mãe precisava de ajuda e finalmente tive o meu momento a sós com o Jareth.

— Não tive tempo ainda de te dizer como você está linda nesse vestido, Sarah. — ele disse quando me abraçou e me segurava pela cintura.

— Você não teve tempo de me dizer muita coisa nessa noite, Jareth. — sorri e beijei-o, sentindo meu coração tão acelerado que achei que ele escaparia de mim a qualquer momento. — O que você disse pro meu pai?

— Nada. — ele não esboçou nenhuma expressão. — Apenas disse as minhas reais intenções com você, ele pareceu um pouco relutante, com medo eu diria, mas acabou aceitando.

— Medo?

— Medo de que eu possa te magoar. — Jareth colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — E acho que ele ainda tem esperanças de que um dia você e Mark tenham algum relacionamento.

— Argh! — fiz cara de nojo e ele riu. — E quais são as suas intenções comigo?

— Casar com você, te transformar na minha Rainha. — seus olhos brilhavam.

— Você disse que quer casar comigo? — minha voz saiu quase num grito.

— Claro! — ele beijou a minha testa. — Cuidar de você, ser seu amigo, seu namorado, seu amante, seu marido, seu Rei.

Eu estava quase chorando quando a campainha tocou de novo, balancei a cabeça e ainda relutei em sair dos braços dele, mas eu não tinha escolha.

— Oi, Sarah! — era Mark quem estava à minha frente, sua mãe ao seu lado.

— Oi, Mark! Oi, Anna! Entrem, por favor!

A situação não era nada boa quando Mark e Jareth se encararam, e piorou ainda quando Jareth se apresentou à Anna:

— Prazer, sou David Jones, o namorado da Sarah.

Vi o olhar de Mark direto pra mim. Merda!